Recentemente foi anunciado o resultado do Inquérito ao Contexto Empresarial sobre o Mercado Laboral, efetuado a 523 empresas no 4º trimestre de 2024 pela Associação Industrial Portuguesa e a Câmara de Comércio e Indústria. Embora a maioria dos inquiridos discorde da semana de quatro dias, 30% das empresas manifesta o seu apoio, sobretudo se for implementada de forma voluntária. Se extrapolarmos para o universo de 1.400.000 empresas em Portugal, mais de 400.000 empresas (abrangendo 1.300.000 trabalhadores) percebem os potenciais benefícios e estarão abertas à ideia. É para apoiar estas empresas que eu, juntamente com a professora Rita Fontinha, lançamos o Starter Pack da Semana de Quatro Dias.
Nos últimos anos, a semana de quatro dias tem vindo a ganhar terreno como uma solução inovadora para os desafios do mundo do trabalho. Em Portugal, o projeto-piloto que coordenámos, com a participação de 41 empresas, demonstrou que esta prática pode trazer benefícios significativos, tanto para os trabalhadores como para as próprias empresas. A grande maioria das organizações que experimentaram a semana de quatro dias, com diferentes formatos e reduções horárias, optaram por mantê-la.
A implementação, no entanto, não é simples. Para que a redução do tempo de trabalho melhore o bem-estar dos trabalhadores e traga ganhos de produtividade, é necessário repensar processos e organizar o trabalho de forma eficiente. Durante os dois anos do projeto-piloto, compilámos materiais de apoio e realizámos diversas sessões com as organizações participantes, partilhando experiências, dificuldades e boas práticas. Agora, queremos que este conhecimento esteja acessível a todas as empresas portuguesas interessadas em explorar esta possibilidade.
Este Starter Pack – ou kit de iniciação – é uma iniciativa académica e independente de qualquer entidade. Não tem qualquer custo financeiro para as empresas nem exige um compromisso de implementação da semana de quatro dias. O único requisito é a participação na investigação académica que conduzimos, respondendo a um inquérito anual aos trabalhadores durante três anos e concedendo algumas entrevistas às lideranças da empresa.
Sabemos que várias empresas já reduziram a semana de trabalho autonomamente, sem apoio externo nem avaliação dos seus impactos. Mas por que devem as empresas abertas a esta mudança — recorrer a este Starter Pack? Destacamos três razões principais:
Facilita o processo de implementação. A transição para uma semana de quatro dias exige mudanças organizacionais significativas e pode ser um processo solitário. Com base na experiência de empresas que já passaram pelo processo, o Starter Pack permite responder às perguntas frequentes, evitar erros comuns e maximizar os ganhos de produtividade.
Fornece informação rigorosa e comparável. Os inquéritos que disponibilizamos aos trabalhadores foram desenvolvidos por investigadores do Boston College e validados para Portugal pela nossa equipa. Estes instrumentos oferecem à gestão da empresa informação mais detalhada e comparável sobre saúde mental, perceções da empresa e equilíbrio entre trabalho e vida familiar dos trabalhadores, relativamente a outros questionários internos que possam utilizar.
Contribui para a produção de conhecimento sobre a semana de quatro dias. A investigação nesta área ainda está numa fase inicial e é fundamental recolher dados sólidos sobre os seus efeitos nas empresas e nos trabalhadores. A participação das empresas ajudará a consolidar este conhecimento e a identificar boas práticas que possam ser disseminadas. Mesmo empresas que não estejam disponíveis para reduzir a semana de trabalho num futuro próximo podem participar, contribuindo enormemente para a investigação, ao servirem de grupo de controlo.
A semana de quatro dias ainda é uma prática pouco difundida, mas tem potencial para se tornar uma vantagem competitiva para as empresas portuguesas. Se queremos avançar de forma responsável e sustentada, é essencial basear as decisões em dados concretos e experiências reais. Idealmente, este trabalho de discussão, estudo e apoio à experimentação deveria ser feito por associações patronais que, com o conhecimento concreto da realidade empresarial portuguesa, estariam na melhor posição para desenharem uma implementação da semana de quatro dias de uma forma que potenciasse o aumento da produtividade nos vários setores. Infelizmente, passados três anos de discussão publica e vários exemplos nacionais e internacionais de sucesso empresarial, a posição das associações patronais continua a ser ignorar ou rejeitar qualquer discussão.
Assim, o nosso Starter Pack é o único caminho estruturado para as empresas que desejem explorar esta inovação sem custos financeiros ou qualquer compromisso. Acreditamos que o futuro do trabalho passa por novas formas de organização laboral que beneficiem tanto as empresas como os seus colaboradores. Se a sua empresa faz parte destas 400.000 empresas que vê a semana de quatro dias como o futuro do trabalho e está interessada em experimentar, este é o momento certo para dar o primeiro passo.
Saiba como emhttps://sites.google.com/view/semana4dias