Somos os filhos da Liberdade, nascemos livres e hoje já não sabemos o que significa ou o que devemos fazer com esse direito.

Hoje, somos pais dos netos dessa liberdade.

Mas, Educar com liberdade e responsabilidade é um desafio, no entanto o trabalho passou a ser a prioridade das famílias e não o tempo.

O tempo, esse bem precioso, que se gasta sem dar conta!

Não somos livres. Não temos tempo.

E infelizmente, tantas histórias que ficam por contar e por ouvir…

As famílias reuniam-se à mesa a horas certas, lá em casa não poderia haver atrasos e conversávamos sobre tudo, sobrava tempo para os TPC´s, que não eram tantos como hoje, e para brincar na rua, acho que nunca brinquei em casa, não me lembro!

Estar em família era usufruir do tempo e não do dinheiro, esse pagava as contas, mas não era muito importante, seria talvez e apenas para aqueles em que faltasse pão na mesa.

E até onde faltava pão na mesa, não se falava de dinheiro, partilhava-se o que houvesse para jantar e não existiam gostos, alergias ou pratos preferidos, apenas tínhamos de comer tudo até ao fim.

Também não bebíamos refrigerantes, isso seria em dias de festa e chocolates só no Natal!

A mesa era o centro do nosso mundo: a família!

Os pais preocupavam-se com os seus problemas mas não falavam de “assuntos de crescidos” na frente das crianças, nós crescíamos na rua com os amigos que andavam de bicicleta, de skate e que jogavam ao elástico até se partir… e pedíamos às avós para comprar mais na Retrosaria.

Os jogos de tabuleiro deram lugar aos vídeo jogos, tristes e solitários.

A TV continua ligada interruptamente à hora de jantar e não há partilha, quando a televisão estava ligada em família, porque tínhamos apenas uma, víamos “Os Jogos sem Fronteiras”, “os Anjos de Charlie” ou o “Festival da Canção” e era uma alegria!

Ainda consegui ver uns episódios de “A Balada de Hill Street” – Obrigada Mãe! – e uns bons anos mais tarde, já conseguia ver “O Roque Santeiro” ou  “A Tieta do Agreste”.

Crescíamos com todo o tempo do mundo e ainda sobrava para o outro dia, os dias eram grandes e não passavam à pressa.

Gostávamos de algumas séries como o “Verão Azul” ou o “Tom Sawyer”, mas os pais não nos deixavam ver filmes ou ir para a cama tarde, quando fossemos dormir talvez aí tivessem o seu tempo para falar dos “problemas dos crescidos”.

Vivemos infâncias felizes, livres, mas educados com tempo e responsabilidade.

O pão com manteiga ou marmelada, da caseira, enchiam as nossas lancheiras, assim como o leitinho ucal, para os mais felizardos!

As saias de fazenda de xadrez com o “belo do alfinete”, picavam as pernas, mas as meias esticadas até ao joelho e o sapato que já apertava os pés compunha a indumentária, para além dos laçarotes na cabeça, mas não tínhamos frio no Alentejo nas manhãs com poucos graus.

Íamos para a escola a pé, fazíamos quilómetros e encontrávamos os amigos pelo caminho, era uma galhofa até chegar ao portão, mas se chovesse o carro do pai não nos esperava à porta e tínhamos menos gripes e constipações!

Éramos livres dessa forma e aprendíamos sem dar conta, que esses seriam para sempre os nossos dias felizes.

“Dias Felizes”, a caderneta de cromos que nós miúdas fazíamos durante meses e que os pais nem sabiam quantos nos faltavam, os que sobravam em muita quantidade serviam para forrar os cadernos.

Hoje, os pais compram os cromos que faltam e acaba a piada e as trocas dos repetidos!

Fazíamos colecções de autocolantes, de latas, de borrachas de cheiro, que comprávamos em Espanha e quando íamos até Badajoz parecia uma grande viagem!

Os sacos de compras eram giros e diferentes. As águas de colónia para os pais, desde a “Água Brava” ao perfume “Estivalia”, que a avó usava durante anos e que era muito poupado, porque as pesetas não davam para tudo!

Nas férias de verão íamos até ao Algarve, não tínhamos ar condicionado e parávamos nas fontes para matar a sede. A mala do carro era pequena, mas cabia tudo.

Não tínhamos roupa sem fim nem dez fatos de banho, a roupa nem era importante, mas sim a brincadeira, porque as marcas da roupa só nos arranhavam o pescoço, não sabíamos o que dizia.

Os pais já se preocupavam com sol: éramos besuntados pelo creme da bola gigante da praia, o Nívea, o chapéu era o mesmo do ano passado meio gasto e usávamos aquelas sapatilhas do peixe arranha pesadas e muito foleiras, as minhas eram rosa choque e já tinham purpurinas…do pior!

Não me deixavam comer “gelados de gelo”, com sorte ainda escolhia um corneto ou um perna de pau.

O que mudou no meio disto tudo?

Os pais trabalham horas sem fim, passam o tal tempo precioso no trânsito e somos inundados de relatórios sobre: stress, depressão e AVC´S…não existiam estas palavras.

Hoje, morremos mais tarde, mas mais infelizes e cheios e medicação, porque não somos de borracha como os bonecos e passamos a ser escravos, apenas do tempo e do dinheiro.

Queremos um carro bom, a melhor casa possível, as férias de sonho, mas o nosso dia a dia é triste e aborrecido.

O telefone fixo nunca toca, só faz parte do pacote que assinamos com o operador, no entanto respondemos a e-mails e a Whatsapps durante a noite, para “poupar” as preocupações de amanhã.

Existe mais dinheiro, sim, mas menos liberdade.

Registamos os momentos mais felizes, ou aparentes, nas redes sociais, tiramos a foto no momento certo, mas deixamos de vivê-los!

Importante era revelá-los depois de entregar o rolo Kodac no fotógrafo da esquina e ver as caras com que ficávamos!

Os miúdos exigem “coisas”, recebem presentes a toda a hora, comem o que lhes apetece, não recebem uma educação de partilha, fomenta-se o egoísmo e a individualidade, apenas.

A pior coisa que vi até hoje, foram famílias a comprar com os filhos os seus presentes de Natal no Continente, naqueles dias de mega promoções.

Deixaram de “fazer surpresa”?

Será que as crianças sabem o que é o Natal para além do consumo?

Os filhos chegam exaustos de um dia intenso e inteiro de aulas, deixaram de conseguir brincar, fazem trabalhos de casa e apresentações power point, sabe-se lá para quê? e lá em casa como existe hora para dormir…sobram 3 horas por dia para estarmos juntos!

Queremos em pouco tempo fazer tudo: arrumar a casa, preparar o jantar, os banhos, ajudar com a mochila e pouco sobra para brincar!

Optei por dividir tarefas: o meu filho põe e levanta a mesa e só lhe faz bem, não fica mais cansado por isso.

Ultimamente, tenho optado por não “ligar” tanto às arrumações, mas a “nós”…a casa pode esperar!

Falamos sobre o mundo, as histórias antigas e a avó despertou-lhe o gosto pelos livros, tendo lido neste verão 3 livros com 11 anos.

Adora Política, Geografia e Línguas, no entanto joga playstation, mas apenas aos fins de semana, sou uma mãe como as outras com muita falta de tempo, mas tento dar-lhe um bocadinho de infância “da boa”.

Não brinca na rua, não faz recados ainda, como ir ao pão e não vai a pé para o Colégio.

O pai está lá todos os dias para o ir buscar e esse também se torna um momento a dois de partilha!

É um facto, que considera isso como adquirido, mas com o tempo passará a ir a pé quando estiver mais atento e menos distraído.

Hoje, os pais têm medo pela segurança, coisa que antes não acontecia.

Os miúdos também são mais desatentos, porque são mais protegidos e se espirram vão ao médico e se caem é uma tragédia grega!

Tenho cuidado com tudo o que dá na Televisão e vê o que considero ser para a sua idade, tem um telemóvel, mas dos mais baratos, não precisa de um Iphone como muitos colegas têm, valoriza o dele e como sabe que se o levar para Escola pode perder ou partir, não leva.

Educar com responsabilidade é dar às crianças aos poucos, também a sua, mas é um processo difícil e depende da maturidade que cada uma vai atingindo.

Gosto de lhe mostrar o mundo e já viajou bastante e andou várias vezes de avião, prefiro oferecer viagens do que lhe dar mais roupas, mais jogos e mais tralha!

São opções e não mais dinheiro, aprendeu a fazer “o seu mealheiro” e a tomar decisões.

Umas vezes certas e outras erradas e quando o gasta mal, fica triste.

Lidar com as frustrações e os “Nãos” faz parte desse crescimento e não é fácil contrariar sem termos tempo, mas também não será bom “mimar” para compensar, apenas, porque falhamos com ausências.

Não tenho receitas, erro tantas e tantas vezes, já o protegi demais, mas tento todos os dias contrariar esta vida do corre, corre…que cada vez me assusta mais e que não queria para mim!

Quando os dias “são maiores”, ainda jogamos “Monopólio” e todas as noites antes de adormecer contamos segredos e rezamos juntos, esse é o nosso tempo.

Tem demasiados brinquedos, adora pizzas e bifes com batatas fritas, Ice tea e Coca cola, temos dias para tudo, sem fundamentalismos!

No final das contas, tudo tem de fazer parte desta infância que se perde com a falta de tempo…

As crianças aprendem que o açúcar faz mal, mas um chupa, um chocolate ou um gelado também são infância.

Julgo que o mais importante é percebermos que o mundo mudou e tentarmos inverter o que conseguimos, sem todo o tempo do mundo.

Temos também de valorizar as coisas boas que mudaram para melhor e agradecer mais vezes do que pedir.

O respeito pelos mais velhos, a partilha entre os amigos, a importância da família e gerirmos bem a informação, a que lhes é passada e que devemos triar para crescerem com os valores que não podem ser perdidos e que são fundamentais.

Até que a vida possa mudar, haverá sempre tempo para um beijo e um abraço nas horas certas.

Haverá sempre o bom senso para optar pelo que para nós é o mais importante.

Deus queira que ainda vá a tempo de mudar muitas coisas.

Respirar fundo…

Tínhamos toda a liberdade, todo o tempo do mundo e não demos conta, fomos uma geração de sortudos… será que os nossos filhos ainda vão a tempo?