Aqueles que, como eu, cresceram a acompanhar e a apoiar o FC Porto nos últimos 30 anos identificam na figura de Pinto da Costa uma personalidade única, singular. Pela transformação e crescimento que impulsionou no clube, pela afirmação nacional e internacional que se foi materializando em inúmeras vitórias e conquistas. Pela capacidade de contratação de jovens jogadores que, até integrarem a estrutura do FC Porto, eram verdadeiros desconhecidos e que, volvidos alguns meses, figuravam na primeira linha do futebol europeu.
E não era apenas no futebol e nas opções que fazia diretamente direcionadas às quatro linhas que Pinto da Costa se notabilizava. Na comunicação, de forma hábil e desconcertante, conseguia condicionar a mensagem e direcioná-la de forma a salvaguardar os interesses do clube, dimensão em que era imbatível. De uma ironia fina e de uma assertividade desconcertante, não raras vezes assistimos a declarações contundentes que colocavam comentadores, jornalistas e sobretudo os adversários diretos de “candeias às avessas”.
É por tudo isto, pela admiração que os sócios e os adeptos do FC Porto sempre lhe manifestaram ao longo de décadas, que hoje, quando confrontados com o conjunto de conclusões vertidas na auditoria forense, se sentem deveras dececionados, para dizer o mínimo.
A impressão com que se fica dos últimos 10 anos – período que foi objeto da auditoria – é que o clube estava manietado por uma mão cheia de interesses. Não há outra forma de caracterizar o que ali se passou. Desde valores exorbitantes em remunerações, a prémios e despesas inexplicáveis, a comissões pagas a intermediários muitíssimo acima dos valores referência definidos pela FIFA, a jogadores contratados ao arrepio dos relatórios do departamento de scouting, a negócios ruinosos com a recompra/revenda de passes de atletas e jogadores contratados sem as mínimas condições para atuarem nas equipas profissionais do FC Porto, um verdadeiro regabofe. A isto soma-se uma relação absolutamente promíscua e profundamente lesiva dos interesses do clube estabelecida com a claque Super Dragões e a sua entourage diretiva. O poder, no FC Porto, havia caído na rua, faz tempo.
Todos estes factos, agora conhecidos, revelam um desapego aos pergaminhos fundacionais do clube, uma sofreguidão em extrair vantagens para a esfera pessoal da meia dúzia envolvida e sobretudo um profundo desrespeito pelos sócios e adeptos que, todas as semanas, e em muitos casos em prejuízo do seu orçamento pessoal e familiar, fazem um esforço considerável para conseguir acompanhar o clube. E é esta miséria moral que, no fim de contas, é profundamente embaraçante. Nos últimos anos, decorreu uma espécie de confisco a céu aberto do património material, financeiro e desportivo que, para todos os efeitos, pertence, aos sócios e adeptos do FC Porto.
Aqui chegados, concluída a auditoria e conhecidas parte das suas conclusões, fez-se o que era exigível: informar os sócios, disponibilizar a informação para que possa ser consultada e remeter os factos às autoridades judiciárias para apuramento de eventual responsabilidade.
Virada a página, o que os sócios do FC Porto exigem de agora em diante é que o clube prossiga o trajeto de renovação e de reorganização interno, assente em elevados padrões de exigência tanto nos procedimentos internos como nas relações com todos os stakeholders. O FC Porto deve reafirmar-se como um grande clube na dimensão desportiva, com ambição e sede de vitórias, mas também como um referencial no plano ético e dos princípios. Pela dignificação dos valores fundacionais do Porto, pelo contributo que o clube pode dar no sentido da credibilização da área de negócio do futebol e sobretudo, pelo respeito que é devido aos seus sócios e adeptos.
É, por isso, tempo de reforçar o projeto de profissionalização da estrutura de gestão, manter o foco no reequilíbrio financeiro, na contenção de gastos e critério apertado na assunção de novas obrigações. Só estando reunidas estas condições será possível regressar aos sucessos desportivos e à conquista de títulos – ambição primeira de todos os portistas.