Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos aos 10 anos de Observador. Nascemos há 10 anos e rádio há cinco. Assinalamos esta década com uma série de entrevistas especiais em que procuramos os bastidores dos momentos mais marcantes de cada ano. Eu sou o João Porfírio, diretor de fotografia.

E eu sou a Patrícia Reis, escritora e curadora da exposição 10 anos do Observador. Para este episódio convidámos a apresentadora Silvia Alberto, que teve um papel importante em 2018, o ano em que Lisboa foi palco do Festival da Eurovisão. A cada conversa associamos uma fotografia e portanto, Silvia Alberto, o que tu vês nesta fotografia?

Vejo um dos primeiros momentos de descompressão na Eurovisão, quando terminamos finalmente o que para nós foi uma longa epopeia. Quer dizer, as epopeias à partida são todas longas, mas foi uma epopeia. E eu creio que houve aqui uma descarga emocional muito grande. Não imaginam como à distância do tempo, olhando para esta fotografia, ainda me emociono. É engraçado.

Mas a fotografia é que nos vende.

Foi algo espontâneo agora.

Queres só descrevê-la?

Na parte da frente tens em primeiro plano a Daniela Ruah com a Filomena Cautela. Estão a dar um beijo, estão abraçadas e eu e a Catarina estamos a partilhar alguns comentários íntimos, imagino. Estamos as quatro abraçadas, a pares, neste caso, eu de fundo com a Catarina. E nós já tínhamos estado as quatro a celebrar o encerramento, mas eu acho que é uma fotografia cuja assinatura é só nós sabemos o duro que foi. Só nós sabemos a história que aqui contámos juntas e o que passámos juntas durante este mês, e o quanto isso nas nossas vidas individuais e diferentes e distintas, como a Daniela a viver do outro lado do oceano, sem sermos amigas de casa, sem termos esta intimidade da vida privada, este momento é muito íntimo, era muito nosso.

A fotografia é do João Porfírio.

É do João. Deves ter captado justamente quando ninguém estava a olhar para nós, porque eu não me recordo deste momento. Depois lembro-me de ver essa fotografia publicada, mas no momento as nossas emoções passavam muito além.

É o melhor elogio que me podem dar, é que não me apercebi que estavas lá.

Lembras-te deste momento?

Lembro-me perfeitamente.

Nós estávamos na nossa bolha. Era uma bolha.

Isto foi no final, salvo erro, de uma final ou de uma semifinal. E eu estava na parte de trás do palco, e lembro-me que saem as quatro apresentadoras ao mesmo tempo, e o momento anterior a este é o que a Silvia descrevia há pouco, estão as quatro abraçadas, muito agarradas umas às outras, e depois dividem-se em parelhas, e depois as parelhas voltam-se a misturar outra vez.

E trairmos o outro rosto.

O outro rosto, exatamente. E foi esse o momento.

Já é um momento de cumplicidade.

E é a final, por causa do guarda-roupa.

Do guarda-roupa, exatamente.

Portanto, esta foi mesmo a final, foi mesmo o fim desta etapa.

Esta é uma das 80 fotografias que estará na exposição na Sociedade de Belas Artes em Lisboa, entre 7 de novembro e 7 de dezembro. Silvia Alberto é uma das apresentadoras que esteve envolvida nesta megaoperação. Não foi fácil. Já disseste que não foi fácil.

É, sim.

Por que não foi fácil?

Não foi fácil porque existia uma colaboração. Portugal dava os meios, produzia uma produção RTP, mas sempre agrilhoada, sempre partilhada pela EBU, pela Eurovisão. Portanto, do início ao fim, há uma negociação do que pode ou não pode ser. Inclusive, até há uma negociação dos elementos que são identidade do nosso país e que a própria estação quer ter presente.

Por exemplo.

Os "decors", os elementos que visualmente podes ou não podes ter e querer ter no palco. A EBU discute ao mais ínfimo detalhe este espetáculo durante todo um ano. A partir do momento em que o país ganha, começa a se preparar a edição do ano seguinte. E do ponto de vista da apresentação, porque é aquilo sobre o qual eu posso falar, do texto até ao tempo para cumprir aquele texto, tudo era medido. Os nossos improvisos eram estudados e os improvisos quando estávamos a bater texto umas com as outras e coisas que nós considerávamos que eram interessantes, acabaram até muitas delas não aparecer, porque não tiveram aprovação superior, mesmo que às vezes tivessem aprovação ao nível da equipe criativa de conteúdos de Portugal. E desse ponto de vista, depois também nós éramos quatro apresentadoras e três ocupavam o palco e dividiam majoritariamente esse texto, essa fatia do bolo do texto, e a Filomena fazia a green room. E eu creio que a Filomena tinha ali, sem dúvida, um espaço de manobra maior que lhe permitia criar, ainda que ela depois tenha ensaiado até à exaustão.

Essas criações espontâneas.

Portanto, improvisos não eram permitido.

Não existem. Não existe nenhum improviso.

O que parece numa emissão em direto um improviso, uma pergunta tirada da cartola, de improviso, não é.

Não, o único improviso que poderia existir numa emissão desta dimensão seria termos algum problema técnico e termos que encontrar uma alternativa, como por exemplo, ir à green room e pedir à Filomena para ocupar aquele espaço enquanto resolvia o problema técnico, por ser uma emissão em direto. Mas trabalha-se para que os problemas não apareçam ou pelo menos não pareçam estar lá. Eu lembro-me que nós tivemos um problema, efetivamente.

Uma invasão de palco.

Uma invasão de palco. Roubaram à Suri o microfone.

É verdade.

Um ativista ou pseudoativista. E de facto, do ponto de vista da segurança, houve um trabalho feito que não foi visível, e ainda bem, mas estava tudo assegurado para que não fosse visível.

E é mito ou é verdade que as emissões tinham um delay E que era muito difícil de ver essas invasões de palco?

Não sei responder, mas eu sei que a televisão americana trabalha muito com esse delay. Nunca ouvi falar disso.

Há uma grande mudança de planos. Eu estava lá e assisti a essa invasão do palco ao vivo, mas puxei pra trás quando cheguei à casa, e essa invasão do palco não se vê na emissão em direto. É extraordinário o tempo de reação de um produtor e de um realizador.

E é uma produção nada tuga. Muito germânica, muito militarizada.

Sim. Os meios são nossos, são os nossos produtores, sem dúvida. A assinatura deste projeto acaba por ser a própria Eurovisão, da EBU, e não dos países que a recebem.

Neste caso, a RTP.

Sim, neste caso, a RTP. Para mim, e se calhar é uma posição crítica, mas eu acho que é o efeito da globalização, tal e qual. Porque é uma emissão que serve aquele propósito e o país tem os postcards, tem direito a alguns momentos.

Quando te fizeram a proposta, aceitaste logo?

Patrícia nunca se diz que não. Ainda bem que me convidaram, fico muito feliz. Não sou mal-agradecida. Eu recordo-me perfeitamente que estava em Espanha, numa caminhada, quando o Daniel Deusdado me ligou a dizer "quer apresentar?" Eu fiquei mesmo muito feliz. Foi a única vez na vida que estive frente a frente com 250 milhões de pessoas, acho.

É uma barbaridade.

Nunca voltarei a ter essa plateia.

E tu eras fã da Eurovisão?

Da Eurovisão. Eu já acompanhava o projeto Festival da Canção, numa das suas muitas renovações. Uma delas aconteceu comigo. E depois mais tarde com a Filomena, que agora tem o testemunho desta última década pós-Eurovisão. Mas eu comecei, não sei se em 2007, eventualmente, a apresentar os Festivais da Canção.

E apresentaste este ano, não foi?

Apresentei com a Catarina os 60 anos da RTP. Eu acho que os astros estavam alinhados. O Salvador ganha numa emissão especial, a emissão dos 60 anos de aniversário da RTP, no Coliseu dos Recreios. Se calhar já estava a começar a ser escrito que o nosso percurso ia ser diferente nesse ano, porque essa emissão também foi grandiosa.

Disseste logo que sim, sempre acompanhaste?

Sim, comecei a acompanhar desde que comecei a apresentar o Festival da Canção. Apresentei muitos Festivais da Canção e A Melhor Canção de Sempre, edições comemorativas, a primeira edição em HD que nós fizemos no Campo Pequeno, que foi também um projeto maior. A partir daí, acho que apresentei 10 edições, tantas ou mais do que o Eládio Clímaco. E comecei a fazer os comentários também nas boxes que vocês viam depois no documentário da Eurovisão. São as boxes onde está cada um dos jornalistas, os correspondentes de cada país. E eu fui várias vezes. Fui a Dusseldorf, algumas emissões que fui fazer esses comentários. Inclusive fiz a partir de Lisboa, quando nós não marcámos presença no local. A Eurovisão não existe no nosso mindset, na nossa cabeça, até vir para o nosso país.

Vir pra cá.

Até vir pra cá. No meu caso, ela não existia pra mim até eu ter visto ao vivo e ter percebido que era um espetáculo como o Super Bowl, impressionante e com uma dimensão avassaladora e com uma organização inacreditável. Como é que era possível? Eu me lembro na Dinamarca, de cada delegação ter o seu autocarro elétrico, depois esse autocarro acabava por se transformar em várias viaturas para pequenas deslocações, para outras reportagens. Todo o serviço de catering para aquelas centenas de pessoas tinha cuidados de separação de lixo, de qualidade daquilo que era servido. Essa experiência em Copenhaga foi alucinante. Não direi que a nossa não esteve à altura, porque esteve. Mas eram experiências diferentes, era algo que tu nunca tinhas visto aqui acontecer. Até porque não temos ainda essa tradição tão trabalhada.

Mas a parte do Super Bowl que me dizia, que é um dos espetáculos mais vistos do mundo. A Eurovisão também é um dos espetáculos mais vistos do mundo. Claro que há uma grande diferença estar a apresentar para 250 milhões de pessoas ou estar a apresentar só pro nosso país. No momento em que nos dizem ao ouvido "estão no ar pra 250 milhões de pessoas", o que é que sente? Primeira vez.

Sinceramente, não se pensa nisso. Estás a dar voz à quantidade de ensaios que tiveste. Ou seja, foi pra isso que nós trabalhamos.

Os ouvintes percebendo isto, todas as emissões que passaram em direto foram sempre ensaiadas até à exaustão, ao segundo.

E havia duas emissões durante o próprio dia, antes do espetáculo à noite. Como tal, eu recordo que até o guarda-roupa, eu tinha um vestido dos Storytellers vermelho e em formato balão, que era pesadíssimo. E a Catarina, nesse dia, quando eu usava esse vestido, usava um vestido azul que tinha lantejoulas que lhe cortavam imensa pele, se ela o usasse demasiado e se esbracejasse.

Não eram propriamente vestidos confortáveis.

Naquele caso, não. E eram pesarosos, porque quando chegamos à noite Já tínhamos tido dois espetáculos com este guarda-roupa. Quando tu dizes: como é que ia falar para 250 milhões de pessoas? Executar aquilo que foi para isso que nós trabalhamos e agora vamos finalmente fazer acontecer.

Exato.

Havia uma grande adrenalina. Eu não lhe chamaria nervos, porque estava tão ensaiado que era pôr em prática e desfrutar, finalmente desfrutar.

Mas é possível desfrutar?

É possível desfrutar, claro que sim, até porque a plateia, depois do ensaio, o texto já estar tão batido. Há ali uma particularidade grande, para não estar sempre a repetir-me. Eu não sou a melhor das entrevistadas, por isso é que eu gosto tanto de entrevistar. Há ali uma particularidade grande: nós estamos a trabalhar numa língua que não é a minha língua nativa. No caso da Daniela Ruah, tinha bastante mais facilidade, porque pratica o inglês diariamente. A primeira vez que eu vi o meu inglês, tivemos que gravar para perceber como é que efetivamente soava. E convém trabalhar o inglês o mais neutro possível para ser entendido por toda a Europa, porque há também outros países que não falam inglês, que não têm inglês como língua nativa. E eu quero ser entendida tanto na Geórgia como em Montenegro. E então, desde logo, trabalhar a qualidade da neutralidade do inglês que é falado. E por isso, esse era um dos exercícios, com os nossos coaches e os nossos professores de inglês para que o maior número de pessoas não tivesse dificuldade.

Quanto tempo antes é que começaram a preparar?

Durante um mês tivemos ensaios de texto, de colocação de voz, de correção de pronúncias.

Eu lembro-me de contar e lembro-me de vocês as quatro, antes de entrarem em palco, punham sempre um lápis na boca.

Sim, para trabalhar.

Punham um lápis na boca e tentavam bater texto. Batiam mesmo o texto que iam dizer em cima do palco, durante largos minutos com um lápis atravessado nos lábios.

Mas no caso da Silvia, não deve ser uma coisa muito original, porque ela estudou dramaturgia.

Sim.

Já tinhas feito esse treino?

Não, porque eu estudei dramaturgia como dramaturgista.

Pedia a alguém para fazer.

A minha formação, exatamente.

Era pôr o lápis na boca.

Era pôr o lápis se houvesse necessidade, se o encenador me pedisse. Eu, na verdade, não tive experiência como atriz. Eu fiz estudos teatrais meramente. Meramente não, porque é um curso interessantíssimo. Extinto, mas interessantíssimo.

Mas ajuda a ter essa perceção da representação.

Tinha feito terapia da fala ainda nos tempos da SIC para a minha correção dos elos, que até hoje me acompanha, porque em dias de maior cansaço.

És obrigada a dizer lula?

Já não. Esse é um mito já. Lula. É um mito, mas porque fiz terapia da fala com 19 anos, a trabalhar para a SIC, na altura, e é claro que quando estou cansada ou quando estou desfocada e feliz, tenho tendência a entrar na minha zona de conforto e, portanto, perder os elos outra vez, mas é só nestas circunstâncias. Agora, ali na Eurovisão, fazíamos os ensaios dos textos numa sala, depois passávamos para as coreografias e os momentos em que íamos ter coreografia com os bailarinos. Até fazer stage. Houve uma série de ensaios ainda em sala, diariamente. E antes disso havia a preparação da língua estrangeira.

A Silvia soube quando que ia apresentar? O telefonema que estava em Espanha.

Eu acho que foram dois meses, foi no início do ano.

Foi muito pouco tempo.

Acontece em maio e eu soube janeiro, fevereiro. Creio. Talvez, não esteja enganada, espero.

Portanto, foi muito intenso.

Foi mesmo muito intenso, em termos daquilo que nos era solicitado, sem dúvida. Mas eu acho que houve muito companheirismo, também muito profissionalismo. Nós tínhamos os camarins frente a frente. Viamo-nos umas às outras se quiséssemos abrir as portas para podermos também conviver. E foi um desses momentos em que eu sinto que houve, no feminino, verdadeira solidariedade e força. Há pouco eu olhava para esta fotografia e ela tem para mim essa dualidade, que é a fragilidade, por um lado, e a força, por outro, que para mim pode simbolizar as duas coisas.

Foi mais fácil ou mais difícil por teres a Catarina Furtado, a Filomena Cautela e a Daniela Ruah?

Eu acho que partilhar o palco requer química e a química é algo para mim inato. Ou se tem ou não se tem. E não sabíamos se ela ia ser espontânea ou se teríamos que a trabalhar. Eu acho que no meu caso já tinha percebido que funcionava muito bem com a Catarina. Aliás, tínhamos apresentado a edição do Festival da Canção juntas e tinha corrido bastante bem. Acho que o que me sufocava mais era mesmo o espartilho do texto, era termos textos tão limitados e tão pequenos para dividir por tantas apresentadoras. Se me disseste que uma dupla era suficiente para apresentar a Eurovisão, sim.

Se calhar era.

Um apresentador, dois, fariam como a Petra, por exemplo, é uma apresentadora muito conhecida, porque já fez várias vezes apresentações da Eurovisão e a Petra sempre apresentou sozinha e sempre entregou muito bem. É mais fácil, não tens que gerir tantas emoções. Não tens que negociar em todas as situações, a todo momento.

Estamos à conversa com a Silvia Alberto. Vamos fazer um curto intervalo e já voltamos para o podcast "10 Anos de Observador".

Mas antes deixamos uma pergunta para responder depois do intervalo, que é: um espetáculo desta dimensão seria uma experiência a repetir? Já voltamos

Estamos de volta, bem-vindos. Este é o podcast que celebra o nosso aniversário e que explora alguns acontecimentos e protagonistas da década, fazendo uma antevisão do que será a exposição "10 Anos Observador", que estará patente na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, entre 7 de novembro e 7 de dezembro. A nossa convidada é a Sílvia Alberto. E cá estamos nós. João, a pergunta que deixaste?

Se este espetáculo, desta dimensão gigantesca, seria uma experiência a repetir para a Sílvia.

O mais interessante neste trabalho é poder ser desafiada no trabalho da apresentação e até passar por momentos de verdadeira superação. Respondendo à tua pergunta, era impossível dizer que não. Por muito que tenha sido para mim um mês muito difícil de gerir, até porque eu estava grávida e não sabia. E eu acho que, do ponto de vista hormonal, andavam aqui muitas emoções aos saltos. Eu não estava na total posse das minhas faculdades. Estava meio inebriada com tudo aquilo.

Portanto, é pós-Eurovisão que sabes que estás.

Sim. Imediatamente. Fui de férias e soube que estava grávida. Até hoje era a piada com a Catarina: como é que foi possível fazer um filho no pior mês das nossas vidas? Mas eu acho que estes momentos de superação, estes momentos difíceis, são aqueles que deixam marca, que deixam memória, e este é memorável. As experiências mais traumáticas também podem ser aquelas das quais vamos tirar o maior proveito. Não temos sempre que sofrer para aprender.

Não foi tudo um mar de rosas.

Não foi nada um mar de rosas. Para mim foi mesmo difícil. Mas foi trabalho. Foi trabalho durante um mês disciplinado do início ao fim. No final, quando o projeto terminou, eu acho que ninguém repetia amanhã.

Claro.

Ninguém repetia amanhã.

Se fosse só de um bocadinho.

Exatamente. Mas claro que se daqui a dois anos voltar, então não, claro que sim.

Há pouco tu disseste que fizeste dramaturgia.

Sim.

Estudaste dramaturgia. Também disseste que o curso tinha acabado, coisa que eu acho particularmente triste.

Sim, é um curso extinto. Porque a dramaturgia em si nunca acaba. Ou seja, quando um projeto teatral está a decorrer, implicitamente há uma busca por sentidos, por aquilo que vamos querer comunicar, por eventualmente uma narrativa, e portanto, sempre existe conteúdo. Onde existe conteúdo e busca de sentido, existe dramaturgia. A figura dramaturgista é que nem sempre está presente como tal, porque esta figura às vezes está dissimulada no ator, no encenador, que também são criadores de sentido constante.

Quando tu foste para este curso, já sabias que querias televisão?

Já estava a fazer televisão.

Mas sabias que querias continuar a fazer televisão?

Tomei mais ou menos essa decisão, porque eu estudo artes muito rapidamente até o 12º ano, cumprindo o meu currículo de secundário. Tinha duas portas abertas aos persuasivos e iria para Letras e provavelmente para Direito, mais tarde, era uma das portas, ou o lado artístico, o teatro amador sempre esteve presente. Eu fazia parte de dois grupos de teatro, da escola e outro fora da escola, do Edward Faul, na Voz do Operário, e eu achava que queria ser atriz. A verdade é essa. Eu quando faço pela primeira vez provas à Escola Superior de Teatro e Cinema, eu achava que queria ser atriz aos 18 anos. E não entrei. Faz todo sentido com o facto de ser uma pessoa muito racional e de ter muita dificuldade depois em soltar-me. O trabalho do ator é de uma grande disponibilidade emocional e de uma grande entrega, de uma grande liberdade com o seu corpo físico também, com as suas limitações. E isso foi o que eu pude observar enquanto dramaturgista, que eu nunca teria sido uma boa atriz. Eu estava bem mais confortável, mais segura, do lado de quem ajuda o encenador a encontrar os momentos que foram criados nesta improvisação e que dão uma cena. Estas palavras que foram um improviso vão ser transformadas em texto. Este texto, se calhar, fazia sentido trazê-lo à cena aos dias de hoje. E com que outros textos é que os vamos confrontar? Este era o trabalho do dramaturgista. Isto era para mim interessantíssimo. Foi um momento de beber conteúdo, porque eu estava a fazer reportagem na SIC e reportagem de entretenimento suave, e estava a ficar muito cansada. E na altura precisava de voltar a estudar, que não tinha iniciado então a formação de atores, porque não tinha entrado. Ainda estive em Línguas e Literaturas Modernas, na vertente de Português/Latim. E estive meio ano, mas eu estava a fazer rádio, estava a fazer televisão, tudo ao mesmo tempo e claro que correu mal. E como tal, mais tarde na SIC pedi para ter tempo para estudar. Para poder entregar qualquer coisa de novo, tinha que ter tempo para também encontrar aqui, para ler, para escrever. E foi isso. Eu tinha papoilas bíblicas, eu tinha teatros de guerra, eram disciplinas com nomes que apetece.

Fazer.

Nomes sonantes.

Mas deu-te mais-valias para o teu trabalho de apresentadora?

Sim, comunicar, que é aquilo que eu faço diariamente.

E é o que tu gostas.

E construir narrativas, contar histórias de pessoas. E o meu papel enquanto apresentadora, eu não deixo de ser uma atriz enquanto apresentadora. É claro que o papel faz parte de mim, e é mais fácil de identificar quais são as nuances que eu utilizo na apresentação. Mas porque não sou eu no meu todo. É uma parte de mim que identificamos como a figura da apresentadora.

Voltando atrás. Na Eurovisão Zero probabilidades e zero espaço para improvisos. A Silvia Alberto foi a Silvia Alberto a apresentar a Eurovisão?

Acho que não. Eu hoje em dia, à distância, não me reconheço no papel. Acho que fui uma executante, servi aquela causa. Espero ter servido bem. Por isso é que te digo é curioso, porque há um grande contraste com a ascensão da Filomena Cautela, que se dá com a Eurovisão e com aquela liberdade que ela teve de improviso naqueles momentos que criou, que eram fantásticos. Mas se tu comparares estas duas prestações, estas duas entradas na Eurovisão, elas são mesmo muito diferentes. A minha tratou-se de cumprir aquele papel de palco e ser irrepreensível quanto a mim, mas não se tratou de ser especial, único e o grande momento da minha vida. Não sei, teríamos que Filomena, diz-me tu: "Foi o grande momento da tua vida?" E agora ela responderia se foi ou não, porque eu tenho mais ou menos a emoção com que ela fala desse período. Deixa-me a entrever que ela, de facto, viveu com paixão e eu não vivi com paixão. Eu vivi como dramaturgista.

Com sentido de profissionalismo.

Com sentido de profissionalismo, sim, sem dúvida. É uma boa pergunta.

Uma das coisas que tu disseste há pouco foi que não gostavas muito de estar desse lado, que preferes entrevistar pessoas. O que tu gostarias de fazer que pudesse ser então esse teu momento green room enquanto apresentadora de televisão?

Não sei responder essa pergunta. Acho que a forma mais honesta de responder é justamente assumir que-

Tu já fizeste coisas muito diferentes

Sim, é assumir que a minha função enquanto apresentadora é justamente transportar da melhor maneira e transmitir da melhor maneira este conteúdo ou aquele conteúdo. E servir as várias dinâmicas, o maior número de possibilidades de apresentação. E adaptar-me às circunstâncias que me forem colocadas e propostas. Eu nunca tive grande vontade nem ambição de ser diretora de programas, de conduzir e decidir o fio condutor de um canal ou de um programa específico. Acho que como dramaturgista, se calhar, é um erro não seguir esse caminho. Faria se calhar bem, com interesse.

Nós acabámos de mudar a vida à Silvia Alberto neste segundo.

Ser criadora dos meus próprios formatos. Eu acho que a televisão acarreta uma responsabilidade que eu não quero ter. Porque têm que ser eficazes e também têm outro tipo de discussões que já não estão no plano criativo, como as audiências.

Ter ou não ter publicidade. A RTP neste momento está a viver um momento particularmente difícil.

Crítico.

Como é que tu vês o futuro?

Com a expectativa de que não se mude radicalmente nessa temática em específico. Acho que já não é a primeira vez que este tema surge e da primeira vez acabou por não se consumar. A minha expectativa é de que continuemos só no plano das ideias e de que esta estratégia ainda não se implemente, pelo menos porque para mim, acho que é importante ter um serviço público de televisão, como é importante ter serviços públicos nos mais diversos quadrantes, seja dos transportes à saúde, à educação. E eu coloco a comunicação no mesmo patamar de necessidade pública. Creio que corremos riscos quando, de facto, se tentam fazer transformações que podem melindrar a relevância de uma estação pública para o seu público. E uma televisão que não é vista é uma televisão que perde completamente a competitividade e o interesse de existir.

E a comunidade em si.

Perde a comunidade em si. Agora, se a RTP2 é um projeto que trabalha para um nicho e que esse nicho merece ter uma alternativa e merece ter essa alternativa, merece ter produtos para poder consumir, com certeza que sim. Essa oferta está lá e eu acho que deve ser mantida. Há certos serviços que eu acho que são obrigatórios. Porque por muito que eu não goste de ver reality shows, eles têm uma fatia de população e de espetadores que é muito relevante e que não pode ser esquecida, e tem que se perceber porque é que essa fatia continua a ir buscar esses formatos. Mas não é por causa disso, e que alternativas é que se podem oferecer, que não sejam exatamente os mesmos projetos e que vão buscar fatias de público igualmente significativas. Quando nós olhamos para o futuro da televisão, estamos aqui à conversa, eu não sou especialista, é a minha perspectiva muito pessoal, eu creio que nós estamos no olho do furacão a vários níveis. Não só do ponto de vista da ascensão, dos consumos, do conteúdo digital, como por outra parte, também as dinâmicas e a forma como a televisão hoje em dia é vista. Eu própria sou espetadora da RTP Play muito mais do que se calhar da RTP. É inevitável.

Porque o mundo mudou, a maneira como as pessoas veem a televisão mudou.

Sim, eu não deixo de ver o conteúdo, mas eu escolho.

A horas, em que suporte, no iPad, no telemóvel, no computador, na televisão.

Mas há coisas que eu acho que são invioláveis e que não se pode mexer. Eu não gostaria de perder a final do Campeonato Europeu Num horário específico em que toda a gente vai ver. Nós não vamos ver a final do Campeonato Europeu na RTP Play. Vamos ver talvez os melhores momentos, vamos rever, porque não pudemos estar lá. Mas há certos momentos em que é importante continuar a existir uma grelha e horários para certos eventos, que são especiais e que são agregadores e onde as comunidades se vão juntar.

Tu tens a experiência da televisão privada e da televisão pública. O serviço público é obviamente importante para ti, acabaste de o dizer, não precisamos de o repetir. Mas a televisão privada também tem o seu espaço. Eu imagino que tu reconheças que isso também é necessário existir. Como é que achas que hoje em dia tu consegues casar uma realidade e outra?

Imagina, tu tens uma sobremesa vegan e tens uma sobremesa tradicional, uma mousse de chocolate. E por muito que tu comas a sobremesa vegan, tu depois se comeres a mousse de chocolate, vais dizer: "É incomparável, não é a mesma mousse." Eu continuo a gostar mais da mousse tradicional. E depois podes fazer o trabalho de dizer: "Muito bem, mas eu vou insistir porque eu quero deixar a sobremesa tradicional e quero ser mais saudável. Eu vou começar a comer a sobremesa vegan todos os dias." E ao fim de um tempo tu vais voltar àquela mousse e ela já não te vai saber da mesma maneira e vais dizer: "Se calhar eu agora prefiro a mousse vegan, porque o meu corpo já se habituou."

Portanto, é tudo uma questão de hábito.

A mesma coisa do café com ou sem açúcar.

Exatamente. O processo do café eu acho que é muito mais aditivo, sem dúvida. Tanto é que move massas a privada. Mas na linha do tempo, eu consumo um produto que tem outro tipo de substância e que me deixa sedimentos, deixa resíduos, deixa algo para pensar, para dizer, para contar amanhã. Eu não sei como é, imagino que vocês são pessoas muito interessantes, mas é como ir ao cinema ver outra vez aquele blockbuster e amanhã nós já nem nos lembramos de ninguém, nem dos atores, ou saberes que o "Sunset Boulevard" é um filme que te marcou e que tu não vais esquecer e que vais relembrar e vais rever 20 mil vezes. Então é um pouco isso. Eu sei que às vezes isto pode parecer até um pouco pedante, porque já ouvi isso, inclusive, da parte do Rodrigo, que é: "Ah, sim, ocupar um nicho que depois ninguém vê." Do Rodrigo Guedes. E que isso não era uma postura muito inteligente. Está bem, mas também o grande desafio das privadas é esse, é ocuparem esse nicho e que toda a gente queira ver. Mas também podemos argumentar que eles não estão aqui para educar, nem para informar.

Já o serviço público...

Que estaria, supostamente.

Supostamente está.

Mas vamos dizer que o Mendes não faz o seu papel no Preço Certo, ou que a Tânia, ou que aqueles programas têm que desaparecer. Nunca na vida. Senão não estariam a refletir o nosso país e as nossas pessoas e as nossas gentes. Portanto, esses programas têm que existir, porque esse é o Portugal que existe também.

E não nos podemos esquecer disso.

Sim. Podemos, é claro, Portugal está em transformação e é mutável. As nossas cidades estão diferentes, são organismos vivos. Lisboa já não é o que era há 10 anos, quanto mais há 20. E portanto, é claro que se calhar, o retrato da nossa população e das suas necessidades vai ser diferente daqui a 10 anos.

Estamos a falar da grelha, mas a RTP fez um papel fundamental nas séries da RTP Play, nos concursos. Um audiovisual inacreditável enquanto serviço público.

E o investimento.

Eu convido qualquer pessoa a espreitar os projetos da RTP Play e, de facto, a diversidade de programação que oferece, a mim apetece-me ver. Apetece-me ficar para ver. E é possível ir procurar projetos que só passaram ali. E essa é uma das vantagens do digital, é poder ir buscar um projeto da RTP2 sem conotações. Se é da RTP1 ou da RTP2. É um projeto. E interessa-me ver.

Mas achas que há esse preconceito contra a RTP2?

Não achas?

Melhor perguntar a si.

Como é que é o slogan? Quem vê, quer ver.

Seja onde for.

Exatamente.

Há outro slogan que é culta e adulta. Eu este converso, não consigo perceber muito bem. Mas pronto, não vamos falar sobre isto. Estamos mesmo na reta final. Silvia Alberto foi a nossa convidada. Mais uma vez, muito obrigada por teres aceitado o nosso convite tão prontamente e teres tido esta conversa tão incrível, tão generosa.

Obrigada a vocês por terem convidado.

Nós gostamos de ti.

E parabéns! Parabéns pelos 10 anos de Observador.

Obrigado.

O próximo episódio falaremos sobre outro acontecimento que marcou o país ou o mundo no ano de 2019.

Eu sou o João Porfírio, fotojornalista e editor de fotografia do Observador.

Eu sou a Patrícia Reis, sou escritora, jornalista e curadora da exposição 10 Anos do Observador e este é um podcast.

Obrigado.