No desporto aprendemos que, para sermos excelentes, temos de pensar com excelência. Pensar com excelência quando falamos de políticas que devem ser implementadas para que o país seja competitivo nos mais diversos sectores é pensar em políticas onde se criam oportunidades para todos, onde todos contam. Para crescermos juntos como sociedade.
Há pouco tempo li um comentário sobre uma notícia que falava de pobreza: “os pobres querem continuar a ser pobres para viver dos subsídios”. Fiquei dias com aquele comentário na cabeça, porque é de uma incrível falta de conhecimento da realidade e tremenda falta de empatia. É de quem pensa que sabe o que é viver num contexto social onde as oportunidades praticamente não existem.
Uma criança num bairro social já cresce a muitos metros da linha de partida e os recursos que tem são escassos, para não falar muitas vezes da estrutura familiar. Portanto, o pobre não quer ser pobre. Sei o que digo porque considero que se não fui pobre, estive muito perto de ser considerada parte de uma família pobre.
Alguém quer chegar ao fim do mês e não ter que chegue para meter comida no prato dos filhos, pagar as contas básicas, água, luz e gás? Não saber literalmente como vai ser o dia de amanhã? A pessoa vive feliz porque tem dois trabalhos precários para fazer face às despesas? Vivi num bairro social até aos 17 anos, quando o meu pai e a minha mãe conseguiram um trabalho que lhes pagasse melhor e com muito sacrifico nos tiraram dali. Posso dizer que, no bairro, eram mais as pessoas que saíam para trabalhar de manhã à noite, do que os que, por algum motivo, tinham desistido de lutar. Depois tínhamos os jovens que acabavam o secundário e não seguiam para a universidade porque começavam a trabalhar para ajudar em casa ou conseguirem ter alguma independência.
Constroem-se os bairros sociais uns ao lado dos outros, à parte, distante. Para quem lá cresce, não é fácil ter uma visão de uma vida diferente. É difícil estar num contexto social onde não existem referências. É assustador não conseguir ver como podemos realizar os nossos sonhos.
Acredito que muitas vezes nem há essa imagem. Não existe uma imagem de um futuro diferente, simplesmente porque é imaginar algo que nunca vimos nem estivemos perto de ver. Não conhecemos ninguém que estude Medicina, não temos familiares que sejam bons a matemática e que nos expliquem o trabalho de casa, não visitamos museus, nem nos chega a informação de que alguns são gratuitos. E, se chegar, fica dentro da área que o passe social cobre? Porque se não ficar, com certeza dificilmente alguém poderá pagar o extra.
A questão é tão complexa que é audaz alguém pouco empático e que nunca lá viveu conseguir entender que o pobre não quer ser pobre. Ao pobre não é na maior parte das vezes ensinado de como a realidade pode ser diferente, ao pobre não é dada, na maioria das vezes, a oportunidade de ser diferente.
Lembro-me de usufruir do SASE (Serviço de Ação Social Escolar). Graças a isso tinha ajuda na compra dos livros e pude visitar a EXPO ’98. A muitas visitas de estudo não fui, porque não tinha como. O SASE não me fez rica, deu-me a oportunidade de ter livros, deu-me a oportunidade de contactar com outras culturas naquele dia da EXPO ’98 que nunca vou esquecer.
Já o desporto, mostrou-me o mundo. Mostrou-me outras realidades, deu-me independência financeira. Talvez por isso, considero fundamental a educação associada às oportunidades. Acredito que temos a obrigação, enquanto sociedade, de equiparmos as pessoas com ferramentas que lhes permitam sair de uma situação precária, que lhes permita visualizar um futuro melhor e lutar por ele. Porque, acreditem, o pobre não quer ser pobre.
E aqueles que, não sendo pobres, também não conseguem comprar casa, ser independentes, construir um futuro sólido? Estamos com uma crise de habitação em que o estudante não consegue sair de casa dos pais, nem enquanto ainda estuda nem quando arranja trabalho. Como é que chegámos ao ponto em que se normalizou ter de viver com mais pessoas, ou na casa dos pais até aos 30 ou mais, porque nem uma licenciatura garante um ordenado digno que garante independência financeira e uma vida com mais privacidade.
Não podemos normalizar esta questão. Terminar uma licenciatura era sinónimo de trabalho, atualmente isso não é garantido. Portanto, por muitos benefícios fiscais que possam ser criados para que os jovens possam comprar casa, também é preciso garantir que estes mesmos jovens tenham acesso ao mercado de trabalho, com empregos dignos. Permitindo que se mantenham em Portugal e que assim não percamos pessoas tão capacitadas.
Apesar do meu pesado desabafo, sou por natureza otimista e acredito que, se houver boas políticas, podemos crescer como país e tornar-nos cada vez mais competitivos. Precisamos de ser mais unidos, mais empáticos com as necessidades dos outros, e essa consciência precisa ser transversal aos emigrantes que recebemos. Não podemos ceder ao discurso de ódio, não acredito que isso é o que nos representa.
As pessoas precisam de ter pensamento mais critico e entender que os nossos problemas não são constituídos por alguns milhares de emigrantes. Pelo contrário, esses milhares de emigrantes podem contribuir de forma importante para o funcionamento da nossa sociedade, da nossa economia, com trabalhos que são importantes em qualquer país.
No desporto também aprendemos, que quando algo não está bem, devemos olhar para dentro e não procurar desculpas externas. Nós podemos fazer melhor, e para isso não precisamos expulsar ninguém. Podemos e devemos contribuir para a integração dos emigrantes na nossa sociedade. Podemos e devemos termos mais consciência nas nossas ações diárias enquanto cidadãos. A ação de cada um é a mudança para melhor de todos.
Mas está nas nossas mãos, de cada um de nós, exigir políticas que tornem Portugal um país com uma educação melhor, um país onde as pessoas podem comprar uma casa, um país onde o sítio onde nascemos não nos define. E está nas nossas mãos, é uma escolha nossa, sermos mais humanos, mais empáticos, mais preocupados com quem nos rodeia. Vejo mais Portugal assim, como uma sociedade, que pode até estar esquecida, mas não deixou de saber de cuidar dos seus e receber de braços abertos.
Telma Monteiro é considerada a melhor judoca portuguesa de todos os tempos. Foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, prata em quatro edições do Campeonato do Mundo e sagrou-se campeã da Europa da modalidade em seis ocasiões (é a judoca mais medalhada de sempre nesta prova). É atualmente coordenadora do judo do Sport Lisboa e Benfica. É membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiámos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.