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Bem-vindos aos 10 anos de Observador. Nascemos a 10 e a rádio a cinco. Assinalamos esta década com uma série de entrevistas especiais, em que procuramos os bastidores dos momentos mais marcantes de cada ano. Eu sou o João Porfírio, editor de fotografia.
Eu sou a Patrícia Reis, escritora e curadora da exposição 10 anos do Observador. Para este episódio convidámos o diretor executivo da Sociedade Nacional de Belas Artes, Rui Penedo. A cada conversa associamos uma fotografia. Rui, o que vê nesta fotografia?
Bom dia. Vejo um cortejo de população nas ruas saudando uma coluna militar que, tanto quanto já percebi, replica aquilo que aconteceu na madrugada de 25 de abril de 1974.
Exatamente. Esta fotografia foi tirada no 25 de abril de 2024, exatamente no dia em que se comemorou os 50 anos da Revolução dos Cravos. E esta fotografia é exatamente o momento em que a coluna militar de Salgar Maia, vinda de Santarém, faz todo o percurso ao minuto até chegar ao Largo do Carmo, esse momento tão simbólico para a Revolução.
Estávamos aqui nos bastidores a falar com o Rui Penedo sobre se terão parado ou não na Fonte Pereira de Melo no sinal vermelho, porque em 74 pararam na Fonte Pereira de Melo. Mas é uma reconstituição e é uma das fotografias que faz parte da exposição 10 anos do Observador.
E é uma maneira também, obviamente, de o Observador assinalar os 50 anos da democracia.
Esta exposição faz parte de um grupo de 80 fotografias que estavam até este fim de semana na Sociedade Nacional de Belas Artes. Estiveram durante um mês, o Rui foi o nosso anfitrião, acompanhou-nos durante os bastidores de montagem da exposição, aceitou a nossa proposta, foi uma pessoa incrível e este é o último episódio deste podcast. Portanto, achámos que era a pessoa ideal para conversar conosco. Rui, como é que foi a experiência de ter que nos aturar?
Não foi aturar. Obrigado pela simpatia. Foi um prazer. É uma exposição um pouco diferente daquelas que a Sociedade Nacional de Belas Artes normalmente acolhe. A maioria das exposições também não são de fotografia, embora a atual direção tenha uma sensibilidade talvez mais abrangente para as várias formas de arte, e portanto, não só a pintura, não só o desenho ou a escultura, mas a fotografia. Hoje em dia, na Sociedade Nacional de Belas Artes, temos várias exposições por ano de fotografia e portanto, esta ainda talvez mais particular, de fotojornalismo e abrangendo um período também mais alargado de 10 anos de Observador.
Esta fotografia faz parte da cronologia, na sala do primeiro piso da exposição 10 anos do Observador, e nós queremos uma fotografia por cada ano da década. Esta é a última, como o João disse, celebra os 50 anos do 25 de abril 2024, o mesmo ano em que o jornal faz 10 anos. E a minha pergunta é: além da fotografia não ser muito evidente como objeto de exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes, embora cada vez mais, como acabou de dizer, o que o surpreendeu neste projeto? Ou nada, pode me responder assim: "Patrícia, tenha lá paciência, já vi tudo, até um porco a andar de bicicleta e nada me surpreendeu." E ele mantém esta pausa, quer dizer que nada o surpreendeu, João.
Talvez o facto de um jornal entrar dentro das portas da Sociedade de Belas Artes, que não é uma coisa assim tão normal.
Na experiência, que não é longa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, minha, pessoal, é a primeira vez que acolhemos um projeto assim. Acolhemos projetos de pintores ou artistas plásticos que têm 20 anos de carreira, 30 anos de carreira, 40 anos de carreira.
E o que é mais difícil, aturar jornalistas ou aturar artistas? É só uma provocação.
Diria que foi os jornalistas, talvez por estarem fora do seu habitat natural. Os artistas se calhar são mais complicados, porque têm uma perceção curatorial do seu trabalho diferente e vincada. E eu acho que a vossa exposição chegou já perfeitamente encaixada, pensada, planeada e, portanto, foi uma questão de executar aquilo que estava inicialmente programado.
E temos noção se esta exposição, sendo num jornal, num local onde não é habitual que exista este tipo de exposições, que a Sociedade de Belas Artes em Lisboa tenha sido visitada por pessoas que habitualmente não a visitam e se esta exposição ajudou um bocadinho também a que outras pessoas conhecessem aquele local expositivo que é emblemático da cidade.
Sim, seguramente. Diariamente entram visitantes na sociedade que na portaria perguntam onde é a exposição do Observador.
E ao contrário, também acredito, pessoas que não sabiam que a exposição do Observador lá estaria, que são vossos habitué das vossas exposições e que, de certa maneira, ficaram surpreendidos com, se calhar, terem ali uma exposição de um jornal.
Sim, também acontece. Visitantes habituais que visitam a exposição do Observador como uma exposição de um artista plástico, exatamente nos mesmos moldes.
O Rui diria que foi uma experiência positiva, apesar de ter que nos aturar uns meses antes. Nós começamos por umas visitas técnicas.
O normal das exposições.
O normal das exposições, mas muitas visitas técnicas, muitos telefonemas: " Rui, preciso da sua ajuda. Rui, será que posso fazer isto? Rui, socorro, preciso de uma fita de duas faces." Também houve estas coisas engraçadas.
Eu retive mais: "Rui, preciso de um manequim."
Isso é culpa aqui do João Porfírio. O João Porfírio de repente mandou-me um saco preto com o colete à prova de bala e o capacete. O colete por si só pesa 12 quilos, eu nem sei como é que o João o consegue vestir. Porque é um peso morto, é uma coisa mesmo impactante no corpo. E disse-me: "Está aqui, eu gostava muito que isto ficasse no manequim." E eu: "E agora onde é que a gente vai buscar o manequim?" E o Rui respondeu-me com ar muito tranquilo: "Ah, nós temos um manequim."
Embora nunca me tivesse sido solicitado durante uma montagem. Já usei manequins, mas estavam planeados.
E era uma manequim, era uma menina.
Era, sim. Não consegui melhor.
Não, é uma menina. Nós demos-lhe um nome.
Teve algum improviso, mas pronto, conseguiu-se.
Sim, a exposição tem não só fotografias, como aqui dissemos, mas quem não viu também já não vai ver. Mas só para ficar em registo, a exposição tinha mais de 80 fotografias, tinha também todos os livros que os jornalistas do Observador escreveram, estando ou não relacionados com trabalhos diretamente publicados no Observador. Tínhamos um pequeno apontamento pra rádio. Isso também acredito, Rui, que tenha sido uma novidade naquele espaço, onde montamos uma espécie de rádio onde os visitantes da exposição podiam experimentar eles próprios ler noticiários de notícias escolhidas pela Patrícia, que tenham marcado os últimos 10 anos.
Isso não é verdade. Não fui eu que escolhi, fica aqui já um disclaimer, que não fui eu que escolhi, foi o Pedro Castro, nosso diretor aqui da rádio, que fez uma seleção de notícias e as pessoas de fato podiam ler e depois recebiam um MP3 em casa. Ou terão recebido, é melhor dizer assim. Terão recebido em casa. Havia muita gente que achava que aquele espaço não ia funcionar. E eu percebi ao longo dos dias que era o espaço onde as pessoas tiravam mais fotografias, porque sentavam-se na poltrona, ficavam ao pé do microfone. Aquilo, de alguma forma, cumpriu algumas fantasias, eu acho. Isso é interessante.
Também acho que funcionou muito bem. Nomeadamente os sábados, teve sempre ali um pico de visitantes e eu acredito que foi por essa possibilidade de poder ali-
Ler as notícias.
Personalizar um determinado boneco.
Também tínhamos as revistas do aniversário. Todos os anos o Observador publica revistas dando este privilégio ao papel. Também estavam expostas.
Isto no andar de cima. No andar de baixo, tínhamos uma homenagem aos bombeiros de Pedrógão Grande e de Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera. Temos uma grande fotografia de Pedrógão Grande, da Estrada da Morte, a Estrada Nacional 236. E depois, neste espaço de homenagem aos bombeiros, tínhamos um áudio, que são as gravações de Rádio SIRESP que foram feitas durante os incêndios de Pedrógão, onde se consegue ouvir com-
Consegue-se ouvir, sobretudo, a angústia
A angústia dos bombeiros por não conseguirem salvar todas aquelas casas e aquelas pessoas.
E por já não terem água, não terem recursos. É muito angustiante esse áudio, mas eu acho importante que as pessoas possam ter essa possibilidade de ouvir. Eu não sei se é muito habitual as posições terem este elemento sonoro.
Sim, havia instalações. Nem sempre são sonoras. No vosso caso, acho que funcionou muito bem. Acho que é um momento muito impactante depois de descer a escadaria sob a fotografia em grandes dimensões da Estrada da Morte.
O que mudaria na exposição? Já que provavelmente a pessoa que melhor conhece, a Patrícia, visto que está lá todos os dias.
O Rui conhece melhor que eu. Eu montei, fui lá e deixei, larguei. E vou lá desmontar. E mais nada. O Rui tem ido lá todos os dias, não é?
Sim, estou lá todos os dias.
O que na sua experiência-
Não mudaria nada, mas poderia mudar tudo.
Ou seja, daqui a 10 anos, quando fizermos os 20 anos.
Quando fizermos os 20 anos, Rui, vai ser consigo, na Sociedade Nacional de Belas Artes. Pode já pôr no calendário.
Obrigado pelo voto de confiança. Eu acho que o processo curatorial é um processo muito pessoal e depende de pessoa pra pessoa. Duas pessoas com exatamente a mesma matéria-prima, as mesmas obras, farão obviamente dois trabalhos diferentes. Nem um está certo, nem o outro está errado, forçosamente. Eu acho que o trabalho que a Patrícia fez está-
Eu acho que é um trabalho de curadoria também muito partilhado, Rui, é preciso dizer isto. Porque eu acho que uma curadoria artística tradicional tem, de fato, esse cunho muito pessoal, mas aqui a curadoria foi uma curadoria partilhada com o João, foi uma curadoria em consonância com aquilo que a direção do jornal pretendia e teve também um auxílio muito precioso do designer que fez o layout da exposição, o Pedro Leitão. E acho que nesse sentido é uma coisa um bocadinho mais jornalística.
Sim, um trabalho muito mais difícil.
Sim. Não sei se é mais difícil, é diferente.
Eu diria que sim. Na exposição de um artista plástico, normalmente estamos a falar Se não estivermos a falar de exposições antológicas, estamos a falar do trabalho de um determinado ciclo, de um determinado ano ou de uma determinada temática. Portanto, podemos ter 20, 30 trabalhos e se calhar não vamos expor 20, 30, mas vamos expor 17 ou 22. É uma seleção relativamente mais simples do que aqui que estamos a escolher momentos de 10 anos. E não é só 10 anos da vida do jornal, é da vida do país, da vida internacional, é do mundo.
Nós tínhamos em média 2600 fotografias por mês de cada ano, portanto, era uma loucura. Foi uma pequena loucura de selecionar as fotografias. Mas é muito engraçado, porque agora retrospectivamente, eu até acho que foi bastante simples.
Sim, porque o nosso papel, e acho que isso espelha um bocadinho na exposição, foi procurar quem eram as pessoas que de facto tinham marcado a década e os acontecimentos que a tinham marcado. E com isso já tínhamos talhado bastante caminho e já excluiríamos algumas pessoas e alguns acontecimentos. Mas obviamente que esses momentos marcantes e essas pessoas marcantes da década, nós temos inúmeros registos delas, e portanto, foi difícil na mesma, foi muito complicado. E acho que nós quando entramos na sala de baixo, Rui, somos quase absorvidos por quase 80 imagens que nos comem quase à atenção e temos até um banco no meio, circular, a forma do logotipo do jornal, que nos permite quase andar à roda a ver as imagens. O Rui, bastante conhecedor e bastante experiente em exposições, como é que o Rui vê aquela sala? O que aquela sala lhe transmite, visto que tem tanta história do país e do mundo? E o que acha que aquela sala dá às pessoas, aos seus visitantes, aos visitantes do seu espaço?
Eu acho que aquela sala foi também um ponto de atração, não só pelo banco, mas pela possibilidade da visualização 360 graus. Tem desporto, tem cultura nacional, tem cultura internacional, tem política nacional, tem política internacional, portanto, era um ponto forte da exposição. E acho que foi bem trabalhado em termos curatoriais e daí ser absolutamente apropriado o banco ali. E o banco, usufruindo do vosso logotipo redondo, do "O", facilitava.
Tem alguma fotografia favorita?
Agora é que o tramamos.
Não, acho que há ali várias fotografias que marcarão. A da Estrada da Morte, até porque de alguma forma, todos nós, infelizmente nos lembramos. E foram imagens que durante vários dias nos eram transmitidas em qualquer canal televisivo que se abrisse, ou rádio, era o assunto do momento. E foi-o depois também durante longos tempos.
Infelizmente, sim.
Pelos piores razões.
E pelas melhores razões, que fotografia que destacaria?
Talvez o Eurofestival. Acho que é um momento de alegria.
A fotografia a que o Rui se refere é uma fotografia em que está Filomena Cautela, Silvia Alberto, Daniela Ruah e Catarina Furtado.
Uma fotografia tirada pelo João Perfílio. A Silvia Alberto esteve aqui no podcast, podem encontrá-la no site "O Observador". Falou-nos sobre esse momento da Eurovisão.
É o momento em que elas estão fora do palco, já depois de fazerem em direto.
Tudo ter terminado.
Afinal.
Alguma descompressão.
Nota-se perfeitamente, porque há ali quase um beijo entre duas das apresentadoras.
É preciso dizer que o João não queria esta fotografia. Vá, João, tu não querias esta fotografia.
Apesar de ser minha, eu não posso negar tal afirmação. É verdade, houve aqui algumas discordâncias.
Na verdade, houve então duas fotografias. Essa e uma referente aos incêndios de Pedrógão.
Sim, claro, porque o Rui imaginará, e quem nos ouve imaginará, que há muita fotografia que nós gostávamos de ter mostrado às pessoas, e isso acho que se nota na exposição, mas obviamente o espaço é limitado e não o podíamos fazer e tínhamos que fazer escolhas. E como a Patrícia tem uma frase desde o início, que marca e que marca muito este projeto, que é: escolher é reduzir?
É excluir.
É excluir, exatamente. Escolher é excluir.
E não podemos ter só desgosto. Também foi uma frase que eu batalhei muito, porque era muito fácil ter só fotografias de desgosto, de momentos trágicos. Era fácil ter só guerra, conflito, desentendimento, pandemia, claro. É preciso não esquecer que vivemos a pandemia, passámos o período da pandemia, incêndios, quer dizer, era muito fácil escolher só tragédia.
Havia desgraça suficiente para fazer os 10 anos.
Mas ninguém aguenta só o desgosto.
Em cinza, em negro.
Não, ninguém aguenta.
Não, mas acho que foi obtido um bom equilíbrio.
E acho que aquela parede-
Porque também houve momentos bons.
Claro.
Portugal foi campeão europeu de futebol.
Ora lá está, esteve cá o Papa, foi um momento muito feliz para muita gente, importante para muita gente, os 50 anos do 25 de abril também é um momento de alegria. Quer dizer, tínhamos que equilibrar aqui a coisa.
Sim.
Nós estamos quase a ir para intervalo, Rui, mas eu gostava de lhe fazer uma pergunta, que é: como é que Como é que a Sociedade Nacional de Belas Artes escolhe este projeto em detrimento de outro projeto? Porque eu sei que a vossa agenda é muito difícil e eu sei que têm uma agenda ocupada até 2026, salvo erro.
Já estou a trabalhar para 2027.
Já está a trabalhar. É melhor marcarmos já, dissermos alguma coisa.
É para os 20 anos, não é?
É para os 20 anos.
Temos tempo.
Temos tempo.
Mas é melhor.
Estamos aqui à conversa com o diretor executivo da Sociedade Nacional de Belas Artes, Rui Penedo. Deixamos esta conversa e já voltamos. É um intervalo muito curto. Rui Penedo, diretor executivo da Sociedade Nacional de Belas Artes, é o nosso convidado deste que é o último episódio do podcast "10 anos de Observador", um podcast que surgiu a partir da ideia que criámos na exposição comemorativa do jornal, que esteve até este fim de semana passado na Sociedade Nacional de Belas Artes. Deixámos uma pergunta: Rui, como é que se escolhe o que se quer exibir na Sociedade Nacional de Belas Artes? E sei que vocês têm uma agenda e uma lista de requisições e cunhas, embora cunhas sejam para os sapatos, mas cunhas, vamos dizer assim.
Pedidos.
Cunhas, Rui. Eu já meti uma cunha. Portanto, cunhas. Como é que se faz essa escolha? Como é que a direção faz essa escolha? O que é mais difícil?
Nos órgãos sociais da Sociedade Nacional de Belas Artes, existe um órgão, que é o conselho técnico, que é composto por uma dezena de artistas plásticos, desde pintores, escultores, arquitetos, designers. E todos os projetos são passados em reunião nesse conselho técnico. Uma vez validados, passam depois para a área da direção para se tentar calendarizar o melhor possível.
Mas Rui, por exemplo, um artista plástico faz uma proposta de exposição. Para esse órgão especialista em decidir se sim ou se não, ele tem que levar as peças, como é que funciona?
Não, o projeto vem na forma escrita.
Uma sinopse.
Exatamente, o mais detalhado possível, com uma bio do artista, com o portfólio das obras, com o projeto, a sinopse do projeto expositivo. Preferencialmente, também pode indicar datas. A nossa limitação tem a ver com o número extensíssimo de candidaturas que presentemente a sociedade tem.
O que significa que há, de facto, uma grande atividade artística e uma grande vontade de expor.
É verdade.
As pessoas nunca pensam nisso, as pessoas acham que há aqui uma exposição, há ali uma exposição. A Sociedade Nacional de Belas Artes tem sempre exposições a acontecer.
Sempre. Nós presentemente fazemos na ordem das 30 exposições anuais. Temos três salas. E poderíamos tentar, se os meses tivessem mais de 30 dias ou o ano mais que 12 meses, fazer mais exposições, porque nós temos dezenas de candidaturas.
E falava há pouco que já está a trabalhar para 2027. Isso quer dizer que já estão a pôr no calendário exposições para mais do que um ano de distância.
Umas pela sua complexidade.
Complexidade, também queríamos falar sobre isso. Complexidade de preparação, é isso?
Sim. Há obras que têm que ser solicitadas em museus, em fundações, a colecionadores particulares, e isso não se faz: "Para a semana preciso daquele quadro."
Claro. E depois todo o trabalho, carpintaria, que não nos podemos esquecer que estamos nos bastidores de uma grande galeria, que é o trabalho de carpintaria, pintura.
Alguma cenografia que é necessária de acordo com os projetos expositivos.
Vocês têm essa equipa convosco?
Eu sei que hoje em dia é muito habitual o outsourcing, mas eu nesse aspecto ainda sou velha escola e, portanto, a sociedade tem uma estrutura, ainda que muito pequena. Temos uma equipa própria na área da pintura, da carpintaria, da iluminação.
É a mesma equipa, João, que hoje, no dia em que o podcast for transmitido, dia 9 de dezembro, estará a cortar os pulsos desde manhã com a quantidade de pregos e buracos que nós deixámos naquelas paredes. Eu peço já desculpa antecipadamente, mas também não havia outra hipótese.
Isso é o habitual.
Mas essa equipa também faz isso. Cada exposição que sai tem que preparar a sala para a exposição que vem a seguir.
Exatamente.
A vossa equipa também tem essa função de restaurar.
Todos os espaços expositivos para acolher o novo projeto.
Muito bem. E falámos que têm muitos artistas, a comunidade artística está muito ativa e quer muito mostrar o seu trabalho e há pessoas para a ver.
Há público.
Há público. Será um público talvez um pouco particular, gosta mais de aparecer no dia da inauguração. Mas temos visitantes. A Sociedade Nacional de Belas Artes, não vou dar números ainda deste ano, que não estão ainda fechados, mas o ano passado passou os 50 mil visitantes. Há cerca de oito anos, quando eu lá cheguei, os números que foram enviados para o INE davam cerca de 9 mil visitantes.
Num ano, período de um ano.
Num período de um ano, isso.
Já respondeu à minha pergunta, que eu ia lhe perguntar se tinha havido um decréscimo ou um acréscimo de visitantes.
Não, o grande decréscimo que houve foi, obviamente, durante a pandemia do ano de 2020 e 2021.
E o Rui sente uma grande dificuldade em comunicar as exposições da sociedade, porque hoje em dia a luta por conquistar um espaço de divulgação de um evento cultural, seja de que natureza for, é uma luta séria, porque não é tão fácil. O espaço que se dá hoje à comunicação cultural é cada vez menor.
É verdade. Se bem que temos um Uma ferramenta à mão, que é as redes sociais. E portanto, através das redes sociais, onde a sociedade também está presente no seu Instagram, Facebook e LinkedIn, a gestão é feita por nós, os custos são controlados por nós e aí não sentimos essa dificuldade.
E a relação com a imprensa?
Aí sim.
É mais difícil.
É mais difícil, sim. É um fato. A sociedade também tem uma estrutura muito pequena, muito reduzida. Apesar de ter um gabinete de comunicação, não tem ninguém da área do jornalismo ou do jornalismo cultural à frente, portanto, tem designer e tem alguém a assegurar um pouco ali da comunicação, mas mais ao nível do social media. E portanto, é difícil. Nós enviamos para cerca de 150 contactos os nossos press releases e às vezes sai uma coisa, às vezes saem duas coisas, mas também está relacionado com o artista. Se for um artista da primeira linha do panorama cultural nacional, a imprensa pega mais facilmente.
Claro.
Independentemente da valia artística ou até às vezes de obras internacionais.
E há uma relação próxima de vocês com a EGAC, que é o instituto que tutela algumas das atividades culturais da Câmara de Lisboa. Há uma proximidade com a própria Câmara de Lisboa e o Pelouro da Cultura, há uma interação entre os vários equipamentos culturais da cidade. Essa rede existe de apoio, de partilha, de comunicação?
Existe, mas eu acho que é também muito devido à proximidade dos responsáveis que estão presentemente nessas organizações, nessas estruturas.
Porque nem sempre foi assim.
Porque nem sempre é assim. Eu acho que continua a haver aqui, para além do relacionamento institucional, a relação pessoal, o contacto direto, o conhecimento, a confiança que existe entre os responsáveis, nomeadamente das instituições que acabou de falar, seja EGAC, seja Câmara Municipal, com a Sociedade Nacional de Belas Artes.
O orçamento da Sociedade Nacional de Belas Artes vem de onde?
Vem exclusivamente de receitas próprias.
Dos associados.
E das receitas que a sociedade conseguir gerir, seja dos seus fundos, seja da sua atividade.
Porque é importante também, não esquecendo a pergunta da Patrícia, mas é importante também dizer que a sociedade tem inúmeros cursos disponíveis para todas as pessoas que quiserem.
É também uma escola.
É também uma escola.
Já lá vamos mais à frente, mas que acho que é importante também referirmos isso, porque há muita gente à procura deste tipo de formação, diria, um pouco mais rápida.
Sim, são cursos abertos, são cursos livres.
Exato.
Com grande flexibilidade.
São cursos com custo ou são gratuitos?
Não, têm custo. Essa é a maior fonte de receita de alguns anos a esta parte da Sociedade Nacional de Belas Artes. É daí que a sociedade suporta o seu orçamento.
E os cursos podem ser sobre história da arte, podem ser de desenho, uma coisa mais prática.
Sim, temos a área prática e a área teórica e área teórico-prática. Temos cursos de fotografia teórico-práticos, temos cursos de pintura práticos, temos cursos de desenho práticos, vários tipos de cursos de desenho, vários tipos de cursos de pintura, desde o regime tutorial, o ateliê livre, o ateliê experimental, o desenho com modelo, ilustração, o estudo da cor, anatomia. E depois temos a área teórica propriamente, com história da arte, contemporânea, universal, portuguesa, teoria da imagem, estética. Tem uma panóplia muito grande, tudo com professores universitários devidamente credenciados.
E naquelas instalações é fácil conjugar estas atividades todas, porque a sociedade, embora o edifício seja magnífico, não é muito grande.
Visto de fora, parece bastante grande. Vai da Rua Castilha, é praticamente metade do quarteirão, mas depois lá dentro, as galerias ocupam uma área muito considerável da área total. Mas sim, temos duas salas de pintura para as áreas práticas, temos duas salas de desenho para as áreas práticas, temos uma sala de fotografia e temos mais três salas para as aulas teóricas. Os nossos horários são fundamentalmente pós-laborais, sempre no período da tarde.
E o que as pessoas terão que fazer para se inscrever? Vão ao vosso site, às vossas redes sociais?
Redes sociais ou site, tem tudo disponível.
Porque os cursos não começam no ano civil, imagino eu.
Não. Os cursos têm alguma semelhança com cursos letivos. Arrancam em outubro, finalizam em meados de junho.
E os cursos têm saída, há muita procura por esses cursos. Qual é o curso que tem sempre muita procura? Eu tinha um palpite.
Um best-seller. Qual é o teu palpite?
Pintura.
Nas áreas práticas, sim, pintura, e este ano com forte incremento. Nas áreas práticas é aquele que teve maior número de inscrições. Na área teórica, estética, normalmente é dos cursos mais procurados.
E a média de idade, o escalão etário destes frequentadores, destes cursos?
Tem vindo a baixar um pouco a média de idade. O aluno maioritário da sociedade está acima dos 40 anos, quando não já cessou ou apresta-se a cessar a sua atividade profissional. Entrou na reforma.
Tem mais tempo.
E teve um gosto a vida toda por desenhar ou por pintar. Sempre lhe disseram que tinha muito jeito e um dia descobre: "Tenho jeito, mas se calhar não percebo assim tanto disto, preciso de aprender alguns ensinamentos básicos para um artista plástico". E, portanto, frequenta as nossas aulas.
E já há na história da sociedade algum aluno desses cursos, mesmo que tenha acontecido há bastantes anos, mas que depois veio a expor na Sociedade de Belas-Artes?
Sim, imensos. Todos eles.
Mas com exposição própria?
Própria.
Sim, imensos.
Ou seja, alguém que começou do zero ou de um gosto que já teria adquirido e que depois evoluiu de tal forma que teve lugar, que é difícil, é preciso dizer isso. Lá está, porque o Rui dizia, são tantas solicitações que é difícil terem um espaço para expor. Isso já aconteceu, alguém que começou no vosso curso e que depois teve lugar?
Sim, muitos. Isso acontece com imensa regularidade. Premiados em prêmios nacionais e até em concursos internacionais, alunos da sociedade. Isso acontece com frequência.
E vocês ainda têm outra coisa, que é: têm associados. Os artistas podem se associar à Sociedade Nacional de Belas Artes. Tem um custo anual. E depois há uma exposição coletiva.
Sim, estamos quase a chegar a essa fase. Este ano a inauguração vai ser no dia 20 de dezembro, é o Salão Anual de Sócios, em que todos os associados em efetividade de direitos podem apresentar, são convidados a apresentar uma obra sua.
Seja ela fotografia, escultura.
Independentemente da técnica.
E não há uma curadoria exatamente.
Há o tal conselho técnico. É o órgão responsável por esta exposição, portanto, valida sem haver um júri. Há algumas regras, nomeadamente em termos de dimensões máximas das obras, porque o espaço não é ilimitado. E o salão, apesar de ter quase 700 m² de área livre disponível, não tem colunas, não tem nada.
Mas também é um espaço bastante versátil. Pode-se fazer ali o que se quiser.
Sim.
Pode-se pôr colunas, pode-se pôr paredes.
Exatamente. Criar uma cenografia.
A exposição dos 20 anos do Observador vai ser aí, Rui. É melhor marcar já, porque eu sei que o salão é mais requisitado que todos os outros espaços.
Sim, de facto. É a sala por excelência, ou seja, institucionalmente, alguns protocolos, até países estrangeiros, através das suas embaixadas, procuram-nos pra acolhermos exposições, muitas vezes do Dia Nacional desse país. A dificuldade, voltamos àquele assunto que já falamos aqui há pouco, é o calendário. Tenho gente a pedir, ainda ontem recebi uma chamada telefônica, era uma coisa pra abril do próximo ano. E tinha que ser em abril do próximo ano.
Impossível.
Temos pena, mas já não vai acontecer.
Não aqui na sociedade.
Não aqui na sociedade. Eu vou cometer aqui uma inconfidência. A exposição do Observador, numa primeira fase, era suposta ter ocupado um outro espaço. Como curadora, eu fico muito feliz por termos ido parar aos braços do Rui Penedo, da Sociedade Nacional de Belas Artes e da sua belíssima equipe. É preciso dizer que a equipe é pequena, mas são pessoas profundamente disponíveis, muito amáveis e competentes.
Obrigado. Confio-me e tenho muito gosto nisso.
E isso é preciso dizer, porque as instituições são as pessoas. E é preciso referir isso. Pra nós foi um prazer imenso. A desmontagem na segunda-feira, dia 9, dia em que isto está a ir pro ar, não vai ser nada fácil.
Mas esperemos que continue a dar-lhe prazer.
Vai ser. E eu estava a pensar, Rui, afinal, em vez de fazermos só a exposição dos 20 anos, cá para ti vamos fazer a dos 15. Marcávamos já o calendário, reservávamos já.
Cinco em cinco.
Cinco em cinco. Talvez, que é pro Rui não perder o hábito de lidar com jornalistas.
Acho que é importante também dizermos que a Sociedade de Belas Artes em Lisboa está situada na Rua Barata Salgueiro, número 36, muito perto da Avenida Liberdade.
Com parques de estacionamento, com metrô, com tudo.
Elétricos, autocarros.
E agora, na época natalícia, está tão bonita a Avenida Liberdade e apoiar a nossa cultura é tão importante, e os nossos artistas. E, portanto, não deixem, por favor, de visitar.
E sigam a Sociedade Nacional de Belas Artes nas redes sociais.
Isso.
E os artistas, por favor, inscrevam-se como sócios da Sociedade Nacional de Belas Artes, que é uma forma também de ajudar. E quem quiser fazer um pezinho, ir fazer um curso, quem sabe?
Será muito bem-vindo.
E este foi o último episódio do podcast "10 anos do Observador". O nosso convidado foi Rui Penedo, diretor executivo da Sociedade Nacional de Belas Artes, a quem nós temos uma enorme dívida de gratidão. Agradecemos muito ter vindo conversar conosco e os meses de auxílio para a construção da exposição "10 anos do Observador". Se não viu a exposição, temos pena, não sabe o que perdeu. Pronto, fica pra uma próxima oportunidade.
Se não for aos 20 anos, aos 15 parece que está a começar.
É isso. Eu sou o João Porfírio, foi um prazer e um gosto fazer este podcast contigo. Obrigado por existires.
Eu sou a Patrícia Reis e este é o último episódio de "10 anos do Observador". Obrigada, Rui.
Obrigado eu.