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Bem-vindos aos 10 anos de Observador. Nascemos há 10 anos e a rádio há cinco. Assinalamos esta década com uma série de entrevistas especiais em que procuramos os bastidores dos momentos mais marcantes de cada ano. Eu sou o João Porfírio, diretor de fotografia.
Eu sou a Patrícia Reis, escritora e curadora da exposição 10 Anos do Observador. Para este episódio convidámos a médica internista Sandra Brás, que esteve na linha da frente no maior hospital do país, o Hospital de Santa Maria, em 2020, quando o mundo mudou por causa da Covid-19. A cada conversa associamos uma fotografia e neste caso serão duas: uma relativa a 2020 e outra a 2021. Resolvemos destacar a pandemia, um momento altamente marcante para o mundo e estas duas imagens revelam exatamente esses dois anos da nossa vida. Sandra, o que vê nesta primeira fotografia?
Um reencontro, certamente muito esperado, muito desejado. Um familiar, filha, talvez, que vai visitar a mãe ou outro familiar muito próximo, mas a barreira das luvas, da bata, do plástico, uma máscara, ainda tem um plástico, mas consegue ver-se amor, carinho, muita emoção. Foi um momento muito esperado. Foi do grupo dos mais vulneráveis, os idosos. Sofreram muito e estão a sofrer.
Estavam, sobretudo, lá. Isto é quando se dá novamente a abertura das visitas aos familiares.
Exatamente.
E nesta segunda imagem, também relativa à pandemia, mas já referente a 2021.
A imagem de um cemitério, covas abertas e infelizmente preparadas para receber corpos e muitas outras já tapadas. É chocante. É o oposto da outra. A outra tem doçura, esta ainda é um choque. Isto foi tudo aquilo que eu quis evitar. Não consegui, somos humanos, mas era isto que eu queria evitar.
A morte.
Era.
Estas duas imagens fazem parte de um conjunto de 80 que estarão em exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, entre 7 de novembro e 7 de dezembro, na exposição que marca os 10 anos do Observador. O ano de 2020 e o ano de 2021 ficaram marcados pela Covid-19 e eis alguns números para reavivar a memória. João, queres reavivar a memória sobre a pandemia dando alguns números?
Até ao dia 10 de março de 2022, registaram-se em Portugal 3.380.263 casos confirmados, um total de 21 mil mortos por Covid-19 e mais de 2 milhões de pessoas recuperaram da doença. Bem-vinda, Sandra Brás. Recordo que foi a primeira médica a ser vacinada no Hospital Santa Maria. Quando a vacinação ficou disponível e os profissionais de saúde eram, de facto, a prioridade, e bem. Como é que recorda esses dias?
Foi também um dos momentos mais esperados, porque julgávamos na altura, e aconteceu, a vacina dava-nos a oportunidade de recuperarmos alguma da liberdade que estávamos privados. E portanto, era simultaneamente um avanço da ciência, e houve muitos, em pouco tempo. É um dos aspetos muito positivos e que não devemos esquecer. E depois algo que tem a ver com o ser humano gregário, vive em sociedade, e isso dar-nos liberdade, dar-nos segurança para podermos voltar a ter uma vida próxima do normal.
Foi o momento de esperança.
Foi a esperança. Foi, sem dúvida alguma.
Voltando ao início de 2020, lembras-te do primeiro caso que recebeu no Hospital Santa Maria com Covid-19?
Lembro. Um doente que veio de outro hospital, o Hospital Beatriz Ângelo. E esse momento foi muito simbólico. Por um lado, porque nós estávamos até aí muito agarrados a um conceito que na realidade não devia existir, que é a área de residência. Um cidadão que vai a um hospital e que tem indicação para internamento, poderá escolher se fica naquele hospital ou não. Mas na prática, muitas vezes questionamos, ou o próprio doente e a família questiona, se não prefere ir para o hospital mais próximo da sua casa. Este doente não pertencia à área de residência de Santa Maria. Isso foi uma condição que eu estabeleci desde o início. Isso foi-me permitido pelas minhas chefias. O hospital está aberto. Enquanto tivermos vagas e, sobretudo, cuidados intensivos, está aberto a qualquer cidadão. E portanto, nesse aspeto, foi um exemplo. Ele veio do Hospital Beatriz Ângelo. Depois foi-me referenciado por uma colega e amiga e os laços funcionaram nessa altura. A comunicação estava facilitada, mas houve muitas referenciações e muita discussão entre colegas fora do hospital, porque haviam laços, porque tinham sido meus alunos, meus internos, e portanto, é também um exemplo disso. E porque mais tarde eu segui esse doente na consulta.
Portanto, recuperou.
Recuperou e eu e o meu grupo criamos a consulta de seguimento pós-covid. Eu tive a oportunidade. Portanto, foi um seguimento, desde que ele entra e que eu o conheço, o primeiro, até à consulta, e ficou bem até a alta.
Que idade é que tinha?
38, 39.
Bastante novo.
Novo. Sim.
Parece-me evidente que a Sandra Brás, sendo médica internista, tem que gerir duas componentes muito específicas: uma que é a científica, que é a médica, com um certo pragmatismo, e a outra, que é bastante desafiante, que é a parte emocional. E a pandemia colocou esse tecido emocional à mostra, de uma forma muito premente. Como é que se faz isso? Como é que se gere esse equilíbrio entre a resposta médica e a resposta emocional numa situação que é claramente original e inesperada, porque ninguém estava à espera disto.
Exatamente. O médico é um ser humano e, portanto, eu vivi as mesmas emoções que qualquer cidadão. Senti medo, senti raiva, frustração, angústia, tudo igual. A diferença é que eu não podia mostrar isto aos doentes e não podia mostrar isto aos meus internos, aos mais jovens. Não podia mentir. Isso também não faz parte de mim, mas se eu mostrava medo aos doentes, eles perdiam a confiança. Se eu mostrava medo aos internos, eles-
Ficavam mais fragilizados. Claro
Portanto, isto foi muito difícil e foi preciso criar metas, acreditar, vai aparecer a vacina, eu vou poder estar com eles e centrar-me em atividades, as poucas que eu conseguia fazer e que me dão prazer, e focar-me lá dentro, em pessoas que me conheciam muito bem e que eu sabia que já tinham maturidade, capacidade de me deixar ir abaixo. Houve momentos desses em que tive que me fechar com alguns em gabinetes e chorar e dizer: "Eu não vou aguentar isto". E depois tinha o meu suporte emocional fora do hospital, onde também não era muito fácil de gerir. Mas conseguiu-se, porque as duas pessoas mais importantes para mim eram uma adolescente, que temos ter cuidado, porque julgam que podem tudo e que nada lhes vai acontecer, e uma mãe, que também tinha os seus medos. E portanto, achava que a filha também podia ter Covid e passar muito mal. Mas estiveram sempre lá para mim. Portanto, isto foi-se gerindo.
Como é que se gere uma unidade de internamento num hospital, se sai e depois se gere uma casa com uma adolescente e uma mãe. Como é que também essas duas pessoas olhavam para si, num momento tão complicado como este e tendo a doutora estado na linha da frente no combate a este vírus?
Não lhe pediram para abandonar?
Não.
A sua função.
Não. Elas conhecem-me muito bem. Sabiam perfeitamente que eu não ia aceitar. Primeiro, esta foi uma decisão minha. O primeiro caso em Portugal surge no dia dois, que é precisamente o aniversário da Margarida, que é a minha afilhada. Ela fez 16 anos e nós estivemos todos juntos, o que foi muito bom, porque foi a última reunião familiar. E depois a unidade abre no dia 16. Eu voluntariei-me para criar a unidade, porque considerava que era a minha obrigação como médica, como profissional, porque achava que podia dar o meu contributo, porque no meu passado, na minha formação, as doenças infecciosas estão muito presentes e porque, algo que pode ser muito difícil de entender, mas era um tributo aos meus orientadores. Eu tive mestres, o doutor João Machado e o doutor António Morinelli foram os meus mestres e eu achava que eles mereciam que eu fizesse isso, que desse o meu contributo, que transmitisse o meu conhecimento, que o pusesse em prática. Portanto, eu voluntariei-me e a partir do momento em que a proposta de abertura da unidade é aceite, eu comunico à família o que vou fazer.
Mas consciente de todas as implicações que isso viria a ter.
Sim.
As horas infindáveis de trabalho, a possibilidade de não ir a casa durante vários dias, várias semanas, provavelmente.
Potencial contágio, obviamente.
Tinha perfeita consciência. Passei as primeiras noites antes de lhes comunicar, eu não dormi. Eu sabia, tinha perfeita noção. Eu cheguei a pensar em deixar escrito algumas decisões, algumas vontades. Agora, parece um exagero, mas não tenho vergonha nenhuma em assumi-lo, porque na altura era assim que estávamos a viver. Eles não tiveram qualquer dúvida. Aliás, foi mais ou menos: "Eu já estava à espera disto". Respeitaram, estiveram lá e respeitaram os meus tempos, que foi: "Eu não vos vou visitar, eu não quero estar convosco".
Quanto tempo é que esteve sem ver a sua família, Sandra?
Eu via eles na rua. Eu ia à casa da minha mãe, ela tem um parque à frente e ficávamos lá, e com a Margarida também era sempre na rua. O problema foi quando eu percebi que isso me estava a abalar muito.
Psicologicamente.
Sim, não estava a aguentar. E portanto...
Mas preferiu cessar o contato por algum tempo?
Sim. Eu não tenho muita noção do tempo. Eu vivi numa-
Bolha?
Numa bolha. Podem achar estranho, mas eu não sou capaz de dizer: "Foi no mês tal que eu voltei a entrar em casa". Lembro-me do que comi. A primeira refeição em casa da minha mãe, eu lembro-me.
O que foi?
O frango assado da minha mãe, no forno.
Há sempre estas coisas, não é, que marcam.
Lembro-me do primeiro abraço à Margarida e da nossa primeira saída, porque nós sempre tivemos muitos programas juntas. Isso lembro-me. Mas foi quando eu achei: "Eu já não vou conseguir, estou tal forma instável e sedenta deste carinho e do contacto que eu vou errar e vou estar insuportável ou ainda mais insuportável no trabalho". Comecei a ir lá à casa da minha mãe com máscara e não comia, não tocava. E depois, progressivamente. Depois veio a vacina e isso deu uma outra liberdade. Depois de eu estar vacinada e de ela estar vacinada.
Começámos por um caso de sucesso, o primeiro doente que a doutora recebeu em março.
Sim.
Mas tenho que lhe perguntar, sabendo bem que os médicos são das profissões que mais lidam com a morte e que têm que lidar com a morte quase diariamente e que têm que ter um grande estofo emocional para se desligarem emocionalmente da pessoa que trataram durante várias semanas, meses até, e que depois acaba por morrer. Como é que se lida com a morte de alguém, jovem ou não, porque houve muitas mortes de muitos jovens vítimas da Covid-19. Independentemente da idade, como é que se lida com uma morte de uma pessoa que não tem visitas, uma pessoa que está, acredito eu, muito carente de afeto. O único afeto que tem são vocês, profissionais de saúde, que estão limitadíssimos ao afeto que podem dar, no sentido do toque. E depois, sempre que veem um doente, sempre que estão em contacto com um doente, estão, desculpem a expressão, muito mascarados, óculos, muitas máscaras, os EPIs, vestidos de branco, isso cria um distanciamento gigantesco entre os doentes. Como é que se lida com a morte de alguém que passou por esse processo todo de não ver os seus familiares durante semanas e semanas e depois infelizmente acaba por morrer sozinho?
Lida-se muito mal e vai deixar marcas, porque há famílias que não fizeram e não vão fazer o luto, porque não passaram por todo o ritual que é doloroso, mas que tem que ser feito. É um caminho que tem que ser feito. No meu caso, profissionalmente, sempre tive interesse pela área, porque eu tive várias perdas ao longo da minha vida e procurei sempre ler sobre o assunto e fazer tudo para que a fase final do doente seja digna e sem sofrimento. A área dos cuidados paliativos também sempre me interessou, mas acreditem que nada do que eu aprendi serviu para mitigar o sofrimento das equipas, das famílias, o meu. Foram os momentos mais difíceis. Quando achávamos que o doente ia precisar de ser ventilado, saber se havia vaga ou não. E aí funcionou muito bem. O primeiro doente que nós tivemos de transferir para ventilação fora do hospital foi no dia 31 de dezembro de 2020, até aí nós tivemos sempre resposta e não tivemos assim tantos dentro dos milhares que tivemos que obrigou a transferência, mas sempre que um doente tinha aqui para a unidade e que nós sabíamos que podia não voltar, era um sofrimento para toda a equipe e depois ver o medo na cara das pessoas. O que procurávamos fazer? Um telefonema, uma videochamada. Mas tivemos alguns doentes que recusaram, porque perceberam que do lado de lá, exatamente, que os familiares iam perceber. E depois, a partir do momento em que estavam na unidade e que não estavam contactáveis, fazermos chamadas para a família para explicar como é que estava. Depois tivemos um grande apoio da equipa de psicologia do hospital e esse apoio estendeu-se aos profissionais também, porque acho que nem todos nós nos protegemos disso. E só mais tarde é que percebemos e provavelmente algumas pessoas deviam ter feito uma paragem e passar para serviços não Covid, era assim que chamávamos, porque já era demasiado tempo ali, demasiado sofrimento.
Nós estamos a ir para intervalo. Volto a recordar que estamos à conversa com a médica internista Sandra Brás, que teve um papel fundamental na linha da frente do Hospital de Santa Maria durante a pandemia. Antes de irmos embora, João, tens uma pergunta que queres deixar?
Sim, se Portugal estará preparado para uma nova pandemia com as mesmas dimensões daquelas que vivemos em 2020 e como é que o Sistema Nacional de Saúde suportaria uma nova pandemia. Já voltamos e esperamos pela resposta.
Bem-vindos de volta ao podcast 10 Anos de Observador, um podcast que celebra o nosso aniversário e que explora alguns acontecimentos e protagonistas da década, fazendo uma antevisão do que será a exposição 10 Anos de Observador, que estará patente na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa entre 7 de novembro e 7 de dezembro. A nossa convidada é a médica internista Sandra Brás, que esteve na linha da frente ao combate à Covid-19 no Hospital de Santa Maria. Bem-vinda de regresso. João, tinhas deixado uma pergunta.
Sim, se Portugal estará preparado para uma nova pandemia com as mesmas dimensões daquelas que vivemos em 2020 e como é que o Serviço Nacional de Saúde suportaria uma nova pandemia daquela dimensão. E se estaria.
Eu espero que não seja necessário, mas eu quero acreditar que sim, porque quero ser otimista. E se nós não aprendermos com os erros, com as falhas e não tirarmos também tudo de bom que a pandemia trouxe, porque também houve coisas boas.
E lições que existiram.
Exatamente, e em termos de organização, de gestão, então o que é que nós andamos aqui a fazer? Passamos por tanto. Mas talvez esta seja uma resposta politicamente correta, porque nem sempre aquilo que eu vejo me faz acreditar que sim. Mas muito provavelmente em termos individuais, isto é, em termos coletivos, de SNS, de decisores, acho que aprendemos muito. Depois há que ter vontade. Falando no Hospital de Santa Maria, o que a pandemia mostrou em termos muito objetivos, foi que nós conseguimos fazer com os mesmos recursos, quer técnicos, logísticos, recursos humanos, aquilo que nós achávamos impensável antes da pandemia. E fizemos bem, graças a uma equipa que era desde o segurança à porta do hospital até à mais alta chefia. O que foi preciso? Foi preciso uma ameaça externa e foi preciso vontade. Para muitos não foi a vontade, foi: "Não há saída. Ou eu entro nisto, ou então vou ficar doente". Às vezes o que falta é isso, vontade.
Alguma vez pensou em desistir?
Desistir. Vamos lá ver. Ao fim de 16 meses, eu demiti-me. Se isso para alguns foi uma desistência, para mim não, porque sem qualquer modéstia, eu cumpri o meu trabalho. Este foi o maior desafio ou foi o desafio da minha vida profissional. E foram 16 meses, 24 horas por dia.
Mas estava exausta ao fim de 16 meses.
Eu não me protegi.
Claro.
E portanto, entrei num processo de exaustão física e psicológica que provavelmente deixou marcas.
Aquilo que as pessoas designam como burnout.
Sim.
E despedir-se era a solução naquele momento? Teve que parar, parou?
Houve dois momentos.
Obrigou-se a isso?
Sim, eu obriguei-me a isso. Primeiro, eu não me apercebi. Só me apercebi quando tenho finalmente férias, no meu lugar, que eu chamo de férias, e sinto-me estranha, porque eu não conseguia ouvir o telefone a tocar, não conseguia ler mensagens. Eu zangava-me quando um e-mail caía na caixa de correio. Eu só queria era estar sentada a olhar para o mar. Eu não me mexia. E portanto, começaram a achar estranho e eu própria comecei a achar estranho. No dia em que eu estou no aeroporto para regressar, eu recebo uma chamada de um ex-interno a dizer: "Esta semana quero estar consigo, vou me despedir de si, eu vou voltar a casa". E aí, sim, as coisas não vão voltar a ser como dantes. Era um ex-interno, que tínhamos uma ligação muito forte. Ele sofreu tanto de isolamento, longe da família, que decidiu voltar para casa, para o norte. E depois, há um momento em que já tínhamos serviços não Covid e que numa urgência interna, portanto, a equipa médica que está de serviço fora do horário habitual, eu sou chamada para ver uma doente, era uma situação de urgência, e eu demorei segundos a dizer à enfermeira que fármaco é que eu queria. Eu sei que foram segundos.
Pareceu-lhe uma eternidade.
Eu pensei assim: "Eu não sou assim. Isto é uma situação urgente, mas banal. Qualquer dia eu só sei tratar doentes com Covid, eu não quero isto". Portanto, foi este processo de exaustão e o querer voltar a ser internista, que é saber um pouco de tudo e ver o doente como um todo, eu quero voltar às minhas funções. E portanto, foram 16 meses, eu não atirei a toalha ao chão e não desisti, mas sim, demiti-me.
Mas a Sandra abandonou o Hospital de Santa Maria e abandonou o Serviço Nacional de Saúde e foi para o privado.
Mais tarde, sim.
E agora quer voltar.
E agora quero voltar.
Por que quer voltar?
Porque eu sou uma defensora acérrima do Serviço Nacional de Saúde. Eu não tenho nada contra os privados. Nos últimos um ano e meio, é aí que eu vou buscar o meu dinheiro. Não tenho nada a dizer sobre o funcionamento, mas a minha forma de pensar e de estar na medicina vai mais ao encontro do SNS. E portanto, é aí que eu quero estar Eu já trabalho há 25 anos, também pode parecer estranho, mas eu considero-me a entrar agora no terço final da minha carreira e é lá que eu quero acabar.
Apesar de todos os constrangimentos que o Serviço Nacional de Saúde tem.
Voltamos atrás, que é quando há vontade, quando se trabalha em equipe e quando se tem os mesmos objetivos. Quando nos identificamos, acima de tudo, com as pessoas com quem trabalhamos, porque nós passamos demasiado tempo no trabalho, portanto temos que gostar do que fazemos e sermos felizes e identificarmos com aquele objetivo. Então sim, é lá que eu quero estar. Eu saí do Hospital de Santa Maria, porque eu precisava de um projeto diferente. Eu cumpri a minha missão ali. Não tinha mais nada pra dar. Também não me pareceu que houvesse mais nada que aquela instituição tivesse pra me dar e, portanto, saí. Fui à procura de outros projetos. E neste momento, acho que já sei o que quero. Acho, não. Tenho a certeza que sei o que quero e com quem quero trabalhar. E é isso que eu pretendo, é voltar ao SNS.
Recordas-te do último dia no Santa Maria?
Não.
Por quê?
Porque foram tempos muito difíceis. Foram tempos num sítio onde eu já não era feliz.
Então sair de lá foi um descarregar de muito peso.
Foi. A par dos meus mestres, eu tinha pessoas com quem me identificava e que já tinham saído do hospital antes da Covid. Portanto, eu perdi as minhas referências. E não me identificava com os projetos que aquele serviço tinha e, portanto, sem qualquer desprimor pra esses projetos ou pra equipe que lá trabalha, é uma questão de identificação. Sobretudo depois de uma pandemia, e de vermos a nossa vida em risco e a vida das pessoas que estão à nossa volta e de assistirmos a tantas mortes. A nossa vida tem um fim e, portanto, vamos lá aproveitá-la e estar e trabalhar com quem nos identificamos.
Portanto, é muito clarificador de prioridades pra nossa vida, na verdade, um acontecimento.
Eu acho que deve ser. Eu fui ingênua quando disse, em alguma entrevista, eu lembro perfeitamente, que nada voltaria a ser como antes. Eu acho que pra muitas pessoas está exatamente igual e talvez até mais egoístas ainda. Mas, felizmente pra elas, não viram o que eu vi. Eu, depois de ver o que vi, não vou aqui dizer que eu passo muito mais tempo com a família, mas quando estou, eu estou por mim a pensar: "Bem, isto é mesmo bom. É mesmo bom estar a ouvir a Carolina falar, que é a outra adolescente, da sua vida escolar e das suas amigas, ou ver os projetos do João Pedro mais velho, ou estar com a Beatriz que ainda é bebê, é mesmo bom, é isto que eu quero". E tenho a certeza, já não vou atender o telefone se for alguém do hospital.
Então há uma valorização também desse patrimônio afetivo.
Completamente. É isso mesmo.
Mas muita gente passou, felizmente, a valorizar isso mesmo. E provavelmente terá sido a pandemia necessária pra isso. Isso provavelmente terá sido uma das coisas boas da pandemia, a valorização da família e dos amigos.
Acho que sim. Da família, dos amigos, do espaço. Não me dedico a esse estudo.
Porque até então sempre demos por garantido. Se queremos estar com fulano X, vamos ligar pra fulano X. Se queremos ir a um restaurante, vamos a um restaurante. Demos isso sempre por muito garantido até março de 2020.
Exatamente. Há um antes e o depois. As próprias famílias que decidiram ir pro campo, passaram a valorizar o sossego, a liberdade, ter as crianças a correr na rua, a natureza. Acho que é mesmo isso. Põe tudo em perspectiva. Relativizamos tudo. Pra que é que eu me vou irritar com isto? Isto não tem significado nenhum.
Damos muita importância a coisas que não têm importância nenhuma.
Sim.
E hoje em dia há algumas pessoas, talvez não todas, como disse, porque também é um processo. Não ficamos todos bonzinhos e não ficamos todos solidários, e não ficamos todos cheios de compaixão uns pelos outros, mas se calhar há um processo de valorização até do toque, do abraço, que de repente estarmos privados desse contacto físico, então pra nós que somos desta cultura mediterrânica, foi particularmente difícil.
Eu lembro-me da primeira doente que vi, em contexto também de urgência interna, sem o fato de proteção e sem luvas. Eu não esqueço. Poder pôr a minha mão nela e ficar ali a conversar, com máscara, sim, fazia parte das regras.
Mas o toque, não é?
O toque. Eu lembro-me da interna que estava comigo dizer: "Mas não colhemos já a história e não fizemos já o exame objetivo? Já podemos ir." "Não, eu vou ficar aqui mais um bocadinho a conversar."
Porque ser médico também é isso, não é?
Pra mim é. É impossível trabalhar de outra maneira. É ouvir, tem muito de escuta. Não é tratar a doença, é tratar o doente. Isso não é conversa pra passar numa aula aos alunos ou aos internos, é dar o exemplo. Nós, como em qualquer profissão, é dar o exemplo. Não basta dizer, eles têm de ver. Se nos veem a fazer, a probabilidade de o repetirem será maior. É isso mesmo que faltou na pandemia. Não havia tempo para ouvir.
Tendo estado no cargo de chefia de uma equipa grande de profissionais de saúde, como é que se lida com as fraquezas e as desistências desses profissionais de saúde que vão ter consigo, acredito eu, que foram ter consigo, acredito eu, a dizer: "Não consigo mais. Amanhã não consigo vir." Como é que se lida com isso?
As pessoas que começaram na equipa foram convidadas, não foi imposto. E nunca me canso de lhes agradecer, porque foi um ato de generosidade. Não sabiam muito bem, nem eu nem eles, o que nos esperava. E foram muitos jovens e internos. E quando eu os convidei, houve situações, características que eu disse logo: não vou chamar estas obviamente. As grávidas, pais recentes e que não tinham onde deixar os bebês, nem fazia sentido deixar os bebês, e pessoas que emocionalmente estavam a passar por fases complicadas. Eu falo muito, mas também ouço muito. Muita gente passava naquele gabinete a falar dos seus problemas, eu já sabia, estes não podem ir. E depois procurei antecipar e perceber que havia ali algo que foi dito, a forma como foi dito, que aquela pessoa não estava bem. E propor uma folga, ou se calhar fazes menos e os outros fazem mais, mas não consegui proteger. Houve pessoas que pediram para sair.
Teremos certamente muitos internistas jovens a considerar a Sandra Brás a sua mestre. Teremos certamente. Não vale a pena, não é uma pergunta, é uma constatação. Claro que sim.
Os meus internos, sim.
Claro que sim.
E eu respeito-os muito, ao ponto de eles serem médicos, alguns, dos meus familiares. Sem dúvida alguma, são pessoas muito especiais. Cardiologistas, internistas, pneumologistas, gastro. Tenho o pacote completo.
Tenho que lhe perguntar isto antes de terminarmos. Estamos mesmo a terminar. Sandra Brás cuidou de doentes, não da doença, de milhares e milhares de pessoas. Houve algum doente muito próximo da doutora Sandra Brás que a doutora não tenha conseguido tratar?
Sim, de quem tenho muitas saudades. Sim, era meu doente já há alguns anos. A primeira coisa que ele me disse na consulta foi: "Não perca tempo comigo, porque eu estou preparado para morrer". Era um senhor que na altura deveria ter 80 anos e tinha várias patologias. Tinha uma confiança cega em mim. Não faria nada que outro médico sugerisse sem falar comigo. Tinha um carinho enorme por mim. E depois liga-me no Natal a dizer: "Tenho Covid". E eu percebi o que é que aí vinha. E perdi-o. Despedi-me dele na sexta-feira, expliquei a quem ficava lá no fim de semana que não conseguia voltar ao hospital. Já tinha despedido, mas queria que me avisassem quando acontecesse. E esse eu não fui capaz de falar eu com a família, pedi que telefonasse. Já falei várias vezes com a família desse doente, depois disso. E fica uma enorme saudade. Há um dia que já era dele, que era o dia 25 de abril, e eu não vou esquecer dele, mas esse dia é mesmo o dia dele. E que eu farei por cumprir aquilo que ele fazia naquele dia, que era descer a Avenida Liberdade.
Estamos no final do podcast. Porventura, o episódio mais emotivo deste conjunto de podcasts. A nossa convidada é a médica internista Sandra Brás e eu espero mesmo que volte para o Serviço Nacional de Saúde. Por favor, volte.
Muito obrigada.
Precisamos muito de médicos de provocação. A Sandra Brás esteve na linha da frente ao combate da Covid-19 em 2020 e 2021 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. E João?
Só para terminar, só um desejo enquanto cidadão. Os médicos que cuidam de todos nós 24 horas por dia, desde sempre, na pandemia, depois disso, antes disso, espero que alguém cuide verdadeiramente dos médicos. No próximo episódio vamos falar sobre o ano de 2022.
Exato, 2022. Já estamos perdidos, João. É, 2022. Já estamos todos a chorar aqui no estúdio e, portanto, vamos terminar rapidamente.
Otimismo.
Otimismo. Força, João.
Vamos falar sobre o ano de 2022, sobre o acontecimento que marcou esse ano. Sou o João Porfírio, fotojornalista e editor de fotografia do Observador.
E eu sou a Patrícia Reis e este é o 10 Anos de Observador. Sandra Brás, mais uma vez, obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigada.