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Começa agora mais uma viagem pelos cinco continentes, como é habitual nas manhãs 360 fim de semana, com Bruno Cardoso Reis. Bom dia, Bruno. E como é habitual, começamos o nosso programa ao olhar para mais uma semana de guerra na Ucrânia. Esta semana há uma cidade de que ouvimos falar bastante, chama-se Soledar, fica na região de Donetsk e de acordo com o presidente ucraniano, está neste estado.

E o que a Rússia está a ganhar com isto? Está tudo completamente destruído, quase não resta vida e milhares de pessoas estão perdidas. Toda a terra de Soledar está coberta pelos cadáveres dos invasores e pelas cicatrizes dos golpes. A loucura é muito parecida com isto.

Ouvimos Zelensky perguntar: o que a Rússia está a ganhar com isto? Bruno, consegues responder? E se a Rússia até diz estar a ganhar, como se explica que nomeie um novo general para comandar esta invasão?

Olá, bom dia. Sim, realmente é um paradoxo, um de vários paradoxos nessa nomeação de um novo comandante, mas começando talvez por Soledar em si mesma. Na verdade, não é uma cidade, nós diríamos talvez uma vila, tem around 10 mil habitantes, portanto, não tem grande importância. Agora, a verdade é que é a primeira povoação que a Rússia consegue conquistar desde julho. Portanto, mesmo nesta zona do Donbass, que foi precisamente desde o verão declarada a grande prioridade russa, de facto, os avanços têm sido mínimos e obviamente, entretanto, a Rússia sofreu alguns reveses importantes, nomeadamente a perda de Kherson. Agora, só terá algum significado maior na campanha se de facto daqui resultarem outros avanços, desde logo, se isto significar aqui um esforço bem-sucedido de Tenaz, ou seja, no fundo, atacar a norte, que é o caso de Soledar e a sul de Bakhmut, e tentar cortar as linhas de comunicação de Bakhmut e eventualmente até conseguir cercar essa cidade, que se transformou numa espécie de grande praça forte e grande centro da resistência ucraniana. Mesmo a queda de Bakhmut em si mesma não significará necessariamente um colapso da frente ucraniana. Sabemos que os ucranianos têm feito trincheiras, construído linhas defensivas em profundidade, inclusive entre Bakhmut e Soledar e todas as outras cidades desta zona do Donbass que ainda estão nas suas mãos, nomeadamente Kramatorsk ou Sloviansk. Portanto, de facto, é difícil ver aqui uma mudança decisiva. É interessante que o próprio conselho do presidente Zelensky veio referir-se a esta zona de Bakhmut como uma espécie de Verdun, que era uma referência que nós já tínhamos feito àquela grande batalha de desgaste de trincheira na Primeira Guerra Mundial. Ora, a verdade é que ainda hoje os especialistas discutem se alguém realmente ganhou a Batalha de Verdun. Sabemos que, na verdade, os dois lados tiveram imensas perdas e também é o que parece estar a acontecer aqui, imensas baixas. No fundo, muito vai depender depois como é que a campanha vai evoluir. Se isto é, de facto, um sinal de uma maior capacidade de iniciativa russa. Há, pelo menos, sinais. De facto, os ucranianos estão a levar mais a sério a possibilidade de haver uma ofensiva russa, nomeadamente a partir do norte, a partir da Bielorrússia. Já falámos aqui disso várias vezes, mas parece que essa hipótese está a ser vista de forma mais séria. E de facto, é uma altura difícil para os dois lados. Provavelmente, eles têm a noção de que estas ofensivas que se perspetivam serão, se calhar, as últimas grandes ofensivas que eles conseguem fazer durante bastante tempo. E, portanto, quem avançar primeiro, no fundo, tem a vantagem de escolher o terreno, ter a iniciativa. Por outro lado, também sabe que o outro lado à partida terá unidades de reserva preparadas para outras ofensivas, mas que também podem ser utilizadas para contra-ataques, por exemplo. E, portanto, é de facto uma escolha difícil. Isso explicará aqui esta substituição de comando do general Surovikin pelo general Gerasimov. Esse aspecto é realmente bastante invulgar. Por um lado, temos uma nova substituição no comando desta operação, já é a quarta ou a quinta, mesmo aí os especialistas também se dividem sobre quantos comandantes é que já houve, o que também revela alguma coisa do nível de confusão no comando russo. Mas ele só estava há poucos meses no comando, há pouco mais de três meses, e não se pode propriamente dizer que tenha falhado redondamente, até nalguns aspetos, por exemplo, nestes ataques aéreos em profundidade, numa retirada organizada de Kherson, parecia estar a ter alguns resultados. Portanto, é de facto estranho. O segundo aspeto estranho é que é nomeado para comandar uma operação, no fundo, para o comando conjunto de uma operação específica, o comandante do conjunto das Forças Armadas Russas. Ora, isso por regra não se faz e também não se percebe muito bem como é que ele vai conseguir acumular essas duas funções extremamente exigentes, sendo que ele tem recebido muitas críticas, inclusive em relação a essa capacidade de comando conjunto das Forças Armadas. Portanto, não se percebe muito bem a esse nível. As especulações que me parecem mais credíveis dizem que isto tem, sobretudo, a ver com intrigas políticas e com estas crescentes disputas entre o grupo Wagner e as Forças Armadas. E no fundo, a ideia seria que colocar o general mais graduado, mais sênior, poderia eventualmente melhorar a capacidade que ele teria de exercer um comando conjunto. Também há muitas referências a dificuldades de coordenação entre a Força Aérea e as Forças Terrestres, entre várias unidades terrestres, mesmo dentro das Forças Regulares Russas. E depois ainda temos, de facto, estas forças irregulares, os mercenários da Wagner, os tchetchenos, e portanto, que isso seria uma tentativa de controlar um pouco isso. Eu, francamente, duvido muito que isso tenha grandes efeitos e, em todo caso, e terminava com este ponto, acho que isto pode ser um sinal perigoso, que é, de facto, Putin está a ficar sem generais para nomear para estas funções claramente altamente desgastantes. E isso é mau para os generais e para as Forças Armadas, mas também é mau para o próprio regime de Putin, se os militares se convencerem que são aqui sistematicamente os bodes expiatórios das dificuldades de uma campanha, que de facto é claramente uma iniciativa pessoal do presidente Putin.

Seguimos para a América do Sul. Esta semana ficamos

Com uma impressão de déjà vu quando olhamos para as imagens do ataque às sedes do poder brasileiro. Entretanto, Lula da Silva reuniu vários governantes e no final do encontro disse isto:

Nós não vamos permitir que a democracia escape das nossas mãos, porque ela é a única chance da gente garantir que esse povo humilde que vive na periferia, dormindo na rua, consiga o direito de comer três vezes ao dia ou consiga o direito de trabalhar.

Bruno, como é que olhaste para este episódio, ou estás a olhar, porque isto ainda vai tendo mais episódios, que parece tirado a papel químico do ataque ao Capitólio nos Estados Unidos?

Sim, embora em certo sentido ainda mais grave, neste sentido que foi um ataque não apenas ao Parlamento, mas às sedes dos três poderes, que para quem conhece Brasília sabe que estão muito próximas fisicamente, isso também facilita um pouco as coisas, mas de fato não só ao Congresso brasileiro, ao Parlamento, mas também ao Supremo Tribunal e à própria presidência, à sede do governo. Por outro lado, a verdade é que houve aqui um aspecto muito positivo, muito importante, que é esta frente unida, esta frente ampla, se quisermos, que foi simbolizada também por este encontro entre o presidente Lula e o conjunto dos governadores, também os presidentes dos tribunais supremos e também os presidentes do Congresso, para deixar claro que não havia aqui divisões no seio dos responsáveis máximos da política brasileira. E aqui a questão dos governadores é realmente muito importante. Nós às vezes esquecemos que o Brasil realmente é um país enorme, é metade da América do Sul, tem mais de 200 milhões de habitantes e é realmente um país federal, é um país com 26 estados, e os estados têm bastantes poderes, nomeadamente nesta área da segurança pública. Portanto, uma das grandes questões que se colocava, e que me levou sempre a ser um pouco mais cético em relação àqueles que diziam que não havia aqui problema nenhum, que estava tudo a decorrer de acordo com o previsto, quem falava em algum tipo de ameaça golpista estava a exagerar. Uma das questões que suscitava dúvidas era como é que reagiria, nomeadamente, por exemplo, a Polícia Militar, não tanto as Forças Armadas, mas a Polícia Militar, que podemos dizer que é uma espécie equivalente à nossa GNR, mas no fundo são as unidades policiais que têm também a função de controle de manifestações, de controle de motins. E estão dependentes, mesmo na capital, mesmo no Distrito Federal, que é uma entidade híbrida, que tem atribuições de Estado e de município, mesmo em Brasília, estão nas mãos, de fato, do governador. Obviamente, há razões para pensar que houve aqui, no mínimo, incompetência, mas eventualmente até cumplicidade ou complacência, pelo menos de alguns, e também ao nível do próprio governo do Distrito Federal. Portanto, é de fato bastante importante que haja esta frente unida. Se há uma coisa que nós sabemos dos estudos dos golpes de Estado é que eles não acontecem, não são bem sucedidos apenas porque os militares, porque as forças armadas, porque forças com armas, quisermos, de repente decidem tomar o poder. Um dos fatores aqui fundamentais é haver um impasse, uma crise no sistema político, no conjunto até do sistema constitucional, judicial, etc., e haver grandes fraturas, não só entre a população, e portanto algum apoio de massas a esse tipo de movimentos golpistas, mas também no seio das próprias elites, haver atitudes equívocas ou muitas vezes até apoio aberto ou encapotado, pelo menos, a uma tomada de poder pela força e uma mudança radical. E portanto, é de fato fundamental que esta frente unida se mantenha. Agora, sendo realista, é verdade que isso poderá ser difícil a prazo. O Lula basicamente ainda nem começou quase a governar. É normal que nem todas as medidas agradem. A própria militância do PT muitas vezes tem aqui também algum sectarismo, às vezes é o seu pior inimigo. E é evidente, também não se está aqui a pedir à direita brasileira que deixe de ter as suas posições e as suas divergências. Agora, é fundamental que haja realmente aqui uma linha vermelha, que é nenhum tipo de equívoco ou de compromisso com este tipo de vandalismo político, de tentativa de destruir a democracia brasileira, simplesmente porque não se gostou dos resultados das eleições. E desse ponto de vista, há um último aspecto de otimismo, é que apesar de tudo, e também para já, de fato, as sondagens mostram que a maioria dos brasileiros estão claramente contra este tipo de vandalismo, este tipo de golpismo. Mais de 90% manifestaram as suas divergências. E terminava dizendo ainda que é evidente que isto interessa sobretudo aos brasileiros, mas interessa também muito ao resto do mundo. O Brasil é um país muito importante e portanto não é por acaso que nós vimos reações praticamente unânimes de condenação desse tipo de vandalismo político, desde Pequim até Washington, passando pelos vários estados europeus e pela União Europeia.

Bruno, seguimos esta viagem agora pela Europa. O líder dos trabalhistas deu o seu apoio ao primeiro-ministro britânico para avançar com a revisão do protocolo que pode resolver o impasse na Irlanda do Norte e com a União Europeia. Bruno, com este passo, será que Keir Starmer vai conseguir convencer Rishi Sunak a resistir à pressão dos eurocéticos?

Eu acho que essa é realmente a grande questão. O Keir Starmer, o líder trabalhista, veio falar no culto do Brexit, que era preciso resistir ao culto do Brexit e procurar realmente compromissos, quer da Irlanda do Norte, quer com a União Europeia. Eu acho que isso é muito avisado. Tem também a vantagem para os trabalhistas, no fundo, de permitir desaparecer aqui como quase já um partido de governo, claramente um partido responsável, que virou a página em relação àquela sua fase mais radical. Em princípio, em termos de números, na Câmara dos Comuns, de facto, o Sunak não precisa desse apoio trabalhista, tem uma maioria de mais de 60 deputados. Agora, realmente o grande problema que permanece é que o Rishi Sunak obviamente não quer partir o partido e, portanto, esse tem sido sempre o problema na gestão do Brexit por todos os sucessivos primeiros-ministros conservadores, que é como é que conseguem chegar a compromissos razoáveis quando sabem que têm uma fação que parece fazer do Brexit radical uma espécie de culto. E neste caso ainda temos a complicação de que o próprio acordo que foi feito na Irlanda do Norte dá uma espécie de capacidade de veto, de bloqueio ao segundo partido, ao partido unionista radical, portanto, o defensor radical da ligação com a Grã-Bretanha e hostil ao nacionalismo irlandês, que é o DUP, e que se tem manifestado muito intransigente. Agora, eu realmente espero que se esteja aqui a criar as condições para chegar a um compromisso. Acho que a continuação destes problemas não interessa a ninguém. Seria péssimo do ponto de vista do processo de paz também na Irlanda do Norte, que aliás é algo que muitos avisaram ser um dos grandes problemas do Brexit e que foi obviamente postulado por figuras como Boris Johnson e que se revelou realmente ser verdade. Mas seria péssimo também em termos do contexto mais regional e global até, vermos aqui uma nova crise séria nas relações entre a União Europeia, entre a Irlanda e a Grã-Bretanha, isso neste momento só interessava a alguém como o senhor Putin.

Na Ásia-Pacífico, a tensão entre as Coreias está de regresso.

A história mostra que os países que confiavam na falsa paz não se conseguiram sustentar e desapareceram. Aqueles que procuram a paz através da força continuam a existir.

Esta é a voz do presidente da Coreia do Sul, que fala pela primeira vez de armas nucleares para reagir ao arsenal e também à agressividade da Coreia do Norte. Bruno, como é que podemos ler estas palavras e este posicionamento?

Em primeiro lugar, é preciso sublinhar que aqui o elemento novo é que ele vem falar não só em eventualmente pedir aos Estados Unidos para colocar armas nucleares táticas na península da Coreia, isso é uma questão que por vezes aparece como uma possível reação, um reforço da dissuasão, se de facto esta escalada, nomeadamente o arsenal nuclear da Coreia do Norte continuar, mas ele vem falar eventualmente da possibilidade das nossas próprias armas nucleares, ou seja, da própria Coreia do Sul desenvolver armas nucleares, e isso é a primeira vez que um presidente da Coreia do Sul coloca publicamente e coloca problemas. Por um lado, é compreensível, mais de 70% dos coreanos nas sondagens, dos coreanos do Sul, dizem que seria importante a Coreia do Sul também ter um arsenal nuclear. É evidente que há aqui a questão da Coreia do Sul ser o pior vizinho possível do ponto de vista de um país que deseja a paz e a segurança, portanto, uma monarquia comunista totalitária, sem qualquer tipo de escrutínio, que basicamente precisa de alimentar este belicismo constante para justificar também uma terrível repressão e as terríveis condições de vida no país. Agora, aqui o problema é que uma das formas de conter a Coreia do Norte, através, por exemplo, de sanções, é precisamente o argumento da não proliferação. Ora, a Coreia do Sul, à partida, é um signatário do Tratado de Não Proliferação, portanto, não pode desenvolver armas nucleares. Depois, isto coloca problemas nas relações, inclusive com o Japão, que este presidente também mostrou vontade de reforçar. Obviamente, colocar-se-ia a questão de saber então o Japão também não deve desenvolver armas nucleares para, nomeadamente, conter a ameaça da Coreia do Norte, que em certo sentido ainda visa mais o Japão, o inimigo histórico colonial da Coreia, do que até a Coreia do Sul, em certo sentido. Colocaria muitos problemas com a China, que tem uma relação económica extremamente intensa com a Coreia do Sul e teria também formas de retaliar economicamente de forma bastante pesada, e mesmo inclusive com os próprios Estados Unidos. Portanto, veremos quais são os desenvolvimentos. A minha impressão seria que provavelmente o presidente Yoon vai esclarecer que não se está a pensar nisso e que eventualmente seria sempre primeiro tudo conversado com os aliados, nomeadamente com os Estados Unidos, cuja garantia de segurança, o Tratado de Defesa Mútua de 1953, é o grande pilar da defesa e da segurança da Coreia do Sul. Portanto, eu acho que provavelmente veremos aqui um esforço para conter alguns eventuais estragos destas declarações talvez menos pensadas do presidente Yoon.

Bruno, temos aqui um minuto para fechar e terminamos a nossa viagem de hoje em África, mais precisamente em Moçambique, um vídeo que andou a circular parece mostrar soldados, inclusive da África do Sul, a atirar e a incendiar cadáveres num monte de entulho. A Amnistia Internacional usou este vídeo como um exemplo de violações de direitos humanos no norte de Moçambique. Esta é, como diz a Amnistia, uma guerra esquecida, Bruno?

Eu acho que não será totalmente esquecida, por exemplo, para um país como Portugal, mas em grande parte, sim, mesmo em Moçambique. Isto é no extremo norte de Moçambique, em Cabo Delgado, são 2 mil quilômetros de distância da capital. E apesar de tudo, graças sobretudo à intervenção destas forças africanas, nomeadamente o Ruanda e da África do Sul, também é um esforço de melhorar a eficácia das Forças Armadas moçambicanas, inclusive com uma missão de treino da União Europeia, de facto, a situação militar tem melhorado. Não temos tempo, eu diria só duas coisas. Uma é que é verdade que este grupo islamista jihadista cometeu atrocidades terríveis contra a população civil, contra os soldados moçambicanos, e é muito importante conseguir controlar esta ameaça, que este levantamento armado já causou quase 4 mil mortos, mais de 1 milhão de deslocados, impediu um investimento, que seria o maior investimento em África no gás natural nesta região, que seria fundamental para o desenvolvimento de Moçambique. Agora, o segundo aspecto é que não pode evidentemente valer tudo. É muito importante, mesmo do ponto de vista do sucesso deste tipo de campanhas de contraguerrilha, conquistar as populações civis, conseguir separar as populações civis destes grupos, garantir que eles não os apoiam. Ora, não se consegue isso com atrocidades. E portanto, teremos de ver se é um caso relativamente isolado, mas é muito importante que se investigue. Os sul-africanos já disseram que o fariam, esperemos que Moçambique também o faça.

Muito bem. Bruno, hoje ficamos por aqui. Continuação de um ótimo sábado, bom fim de semana. Bruno Cardoso Reis e Cinco Continentes de regresso para a semana.