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Estamos no ar, a viajar pelos cinco continentes na Rádio Observador. É por aqui que viajamos todas as semanas pela política internacional, sempre com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bom dia, bem-vindo.

Bom dia, Bruno.

Olá, bom dia. Obrigado.

Bom dia. Bruno, olha, começamos pelas duas guerras e vamos primeiro ao Médio Oriente. A marcar esta semana esteve a morte do presidente iraniano Ebrahim Raisi, num acidente de helicóptero. Bruno, pergunto: esta morte do presidente do Irão pode reforçar a aproximação do país à China, Rússia e ao Hamas, ou pode colocá-la em causa?

A resposta normal seria que vai depender do sucessor, ou seja, do próximo presidente que será eleito a 28 de junho. Mas a verdadeira resposta é que quer essa eleição, quer as prioridades de política externa dependem, sobretudo, do guia supremo, ou seja, estamos a falar de um regime híbrido, mas em que o que prevalece é muito mais a dimensão teocrática e autoritária do que propriamente democrática e eletiva. E, portanto, no fundo, quem manda acima de tudo, quem vai condicionar muito, por exemplo, a escolha dos candidatos que se poderão apresentar nas eleições, como já aconteceu na eleição em que foi eleito Ebrahim Raisi em 2021, será realmente o guia supremo, o Aiatolá Khamenei, o sucessor do Aiatolá Khomeini. E a aposta dele é bastante clara, sobretudo nos últimos anos, ou seja, realmente é de, no fundo, deixar cair qualquer esforço de aproximação, de melhoria de relações com os países ocidentais, os Estados Unidos e a Europa, e apostar, sobretudo, no reforço das relações com estes regimes autoritários, nomeadamente a Rússia e a China. Importa recordar que o Irão é o único país, a par da Coreia do Norte, que abertamente fornece armamento à Rússia para a sua agressão, para a sua invasão da Ucrânia. Isso foi notado pelo presidente Putin, publicamente, que fez um elogio rasgadíssimo ao presidente Raisi. É clara também a aposta em termos económicos, na cooperação quer com a Rússia, quer com a China. O Irão aderiu à União Euroasiática, que é uma espécie de União Europeia de alguns Estados ex-soviéticos que a Rússia tentou criar. Aderiu à Organização de Cooperação de Xangai, que é uma espécie de organização conjunta entre a China e a Rússia, embora agora tenha se expandido um pouco mais. E, sobretudo, tem na China, de longe, o seu principal cliente, o principal cliente do seu petróleo. No ano passado, a exportação de petróleo aumentou quase 50%, apesar das sanções ocidentais, e quase todo esse aumento foi para a China. Em relação ao Hamas, também é muito claro. Ou seja, o guia supremo apoiou este ataque sem precedentes do 7 de outubro do Hamas contra Israel, apoiou o próprio presidente Raisi e, no fundo, corporizou pela primeira vez um ataque direto do Irão a Israel também há poucas semanas. E ainda agora, mais uma vez, a pretexto do funeral, o líder político do Hamas, que está no Qatar, o senhor Haniyeh, foi a Teerão para os funerais, para as cerimónias fúnebres, e foi recebido pelo guia supremo, que lhe disse que a eliminação de Israel, o objetivo final partilhado, a eliminação de Israel estava próximo. Portanto, realmente, até as próprias cerimónias fúnebres foram mais um sinal de que não haverá aqui qualquer mudança a esse respeito e, pelo contrário, eventualmente, até uma maior aproximação, até porque obviamente as reações dos países europeus e dos Estados Unidos são um grande contraste com isto. Ou seja, alguns países europeus, inclusive Portugal, enviaram sinceras condolências, que geralmente é um sinal que as condolências não são muito sinceras, mas não enviaram, por exemplo, qualquer delegação ao funeral. E houve muitas referências no Ocidente ao histórico do presidente Raisi como o chamado "Carniceiro de Teerão", ou seja, como uma das figuras que encarnam o lado mais repressivo, mais autoritário deste regime. Tudo isto também mostra, no entanto, um aspecto com implicações mais amplas, que é uma dinâmica de uma segunda Guerra Fria, ou seja, de constituição de blocos, apesar do que é dito em muitos países, é isso na prática que está a acontecer, e isso significa que o Irão está a ir mais para o bloco dominado pela China, ou seja, o bloco onde se sentem mais confortáveis os regimes autocráticos, ditatoriais, golpistas. E o Ocidente tem dificuldades porque não há assim tantas democracias no mundo e realmente se quer ser fiel aos seus princípios, tem de ter relações mais complicadas com muitos destes regimes e isso abre o flanco, dá oportunidades que são exploradas pela China e pela Rússia, por exemplo.

Bruno, vamos à guerra na Ucrânia. Temos aqui dois grandes temas durante esta semana. Primeiro a Rússia iniciar uma nova disputa territorial no Mar Báltico com a Finlândia, de certa forma, a fechar-lhe a porta. E temos depois a Polónia a admitir que pode defender a Ucrânia de mísseis russos. O conflito não começa a ter também demasiada presença de atores externos? Temos aqui a Finlândia até a bater o pé à Rússia, depois temos também a Polónia a unir-se um pouco mais, de forma mais prática, à Ucrânia. Começa a entrar mais atores externos nesta guerra?

Esta guerra, como quase todas as guerras, tem sempre muitos atores externos. É muito difícil pensarmos num conflito que desde logo não impacte muito os países vizinhos, e aqui estamos a falar de países vizinhos, a Finlândia ou a Polónia, que se envolvem por questões tão simples como, por exemplo, vagas de refugiados, porque sentem a sua própria segurança ameaçada, etc. Portanto, ao longo da Guerra Fria, houve múltiplos conflitos armados e a regra era mesmo o envolvimento de pelo menos Uma das grandes potências de um dos lados e da outra, do outro. Não vejo que isso tenha algo de excepcional. Não quer dizer que não haja riscos a gerir nesse sentido. A segunda componente da resposta é: se a Rússia acha que há demasiados atores externos, então talvez não devesse ter gestos, ações que são vistos como ameaçadores por países vizinhos. Se a Rússia não quer o alargamento, então tem de conter os seus gestos agressivos, as suas posturas agressivas. Vamos lá ver, esta questão no Báltico. Por um lado, o argumento é disparatado. Não é porque mudam as tecnologias que se mudam os mapas e os acordos territoriais que foram assinados há 100, há 200 anos. Portugal tem fronteiras delimitadas com a Espanha há séculos, não é por isso que se vai mudar essa delimitação. Pode-se até, eventualmente, conseguir depois, na prática, implementar ligeiramente melhor, mas não é isso que altera no fundamental o que foi acordado. Mesmo que esse argumento fosse válido, e se fosse válido, passávamos o tempo todo a voltar a ter conflitos territoriais pelo mundo todo, porque as tecnologias não têm parado de evoluir. Mesmo que isso fosse verdade, a forma de os países resolverem essas questões é através de negociação, não é anunciarem unilateralmente que vão alterar as fronteiras com outros estados. Isto mostra bem o tipo de mentalidade imperialista da Rússia, expansionista, de que tem um estatuto que o coloca acima de qualquer outro Estado e de qualquer vizinho, de que pode impor a sua vontade aos Estados vizinhos, que são, por regra, mais fracos. Aí, aquilo que faz a diferença é realmente haver alguma reação, e haver alguma reação credível também em termos de capacidade militar de defesa. E isso, felizmente, existe nos países bálticos, nomeadamente da parte da Finlândia ou da Suécia, que foram, aliás, não por acaso, também por causa de gestos como estes, passaram a ser os mais recentes membros da Aliança Atlântica, da NATO, que é de longe a aliança militar mais robusta do mundo, pelo menos enquanto os Estados Unidos continuarem comprometidos com ela. Em relação à Polônia, é uma questão que se vem colocando também já há muito e que resulta sobretudo disto, que é a Rússia continuar a fazer ataques aéreos massivos com mísseis e com drones, sobretudo com mísseis, mesmo junto à fronteira da Polônia, e já várias vezes houve mísseis que entraram em território polaco e até num dos casos, um incidente que resultou na morte de polacos, depois percebemos que era como resultado da ação da defesa antiaérea ucraniana. Mas lá está, uma das formas de resolver isso é a Polônia fazer aqui uma espécie de zona de exclusão ou defesa aérea avançada na zona leste da Ucrânia. Isso teria vantagens para a Ucrânia, porque libertaria eventualmente alguns meios para outras zonas, e teria vantagens para a Polônia, que no fundo garantia que não voltava a haver incidentes desse tipo. Se a Rússia quer evitar esse envolvimento, tem fácil remédio, que é, desde logo, acabar com a invasão da Ucrânia, mas nomeadamente acabar com estes ataques aéreos tão próximos da fronteira com países da NATO.

Bruno, ainda na Europa, vamos ter eleições antecipadas no Reino Unido, ficaram marcadas para julho. A questão aqui, Bruno, é por quê? E também pergunto se isso pode ter algum impacto nas relações externas.

Bem, por quê? A razão de fundo é: os conservadores da Grã-Bretanha não conseguiram recuperar do desastre do Brexit, não conseguiram cumprir as expectativas completamente irrealistas que foram vendidas à população britânica sendo o resultado garantido dessa saída da União Europeia, nem sequer se conseguiu aquele objetivo mínimo, que era acabar com as divisões no interior do Partido Conservador, destas múltiplas fações. Desde 2016, desde David Cameron, tivemos sucessivos líderes que duraram pouco mais de um ano no poder, Theresa May, o Boris Johnson, a Liz Truss, que foi a primeira-ministra que teve menos tempo em funções na Grã-Bretanha, pouco mais de um mês, e agora o Rishi Sunak. Algumas dessas promessas, sobretudo em particular não cumpridas, resultam em uma situação que é bastante impopular, ou seja, um crescimento econômico bastante anêmico, problemas sérios de inflação e sobretudo uma explosão da imigração ilegal e legal. Como já aqui discutimos, tiveram de rever os números a respeito de 2022, porque perceberam que tinham tido quase 800 mil migrantes legais. Isto quando o objetivo anunciado pelo Boris Johnson, e que seria garantido por causa do Brexit, era 100 mil. Tudo isto realmente minou muito a credibilidade do Partido Conservador. E nas últimas eleições locais, os conservadores perderam praticamente metade dos seus lugares. Em todas as sondagens aparecem com um diferencial de quase 20% em relação aos trabalhistas, portanto, favorável ao Partido Trabalhista, que é o partido histórico de oposição aos conservadores. Parece-me que Rishi Sunak decidiu que não valia a pena arrastar mais esta agonia. Teria de haver eleições até o final do ano, mas ele achou que mais valia, no fundo, antecipar as eleições. Com expectativas e com sondagens tão negativas, é quase impossível que os conservadores não recuperem qualquer coisa. E portanto, pior dificilmente poderia ser. Agora, em termos de impacto externo, eu diria, o Rishi Sunak já representou uma visão e uma ação muito mais moderada do que os seus antecessores. Por exemplo, em termos da relação com a União Europeia, que basicamente deixou de viver naquelas tensões constantes que nos habituamos no tempo do Boris Johnson. O Partido Trabalhista também virou bastante ao centro, por isso é que conseguiu recuperar muitos votos com este Sir Keir Starmer e portanto, por causa disso, em termos da ação externa, não são expectáveis grandes mudanças Porque, por exemplo, a questão que se poderia colocar é se será que vai ser reaberta a questão do Brexit, um regresso à União Europeia. Os trabalhistas têm sido muito claros a dizer que não querem reabrir essa caixa de Pandora e que está toda a gente cansada na Grã-Bretanha dessa discussão, eu diria até na própria Europa também. Portanto, a aposta será em melhorar relações, em intensificar relações, mas não haverá aqui uma viragem fundamental. E o mesmo se aplica em relação a outras grandes prioridades, como as relações com os Estados Unidos ou, por exemplo, o apoio à Ucrânia. Portanto, na dimensão externa não é expectável grande mudança, seja qual for o resultado das eleições agora do início de julho.

Bruno, viajamos agora até a Ásia, vamos a Taiwan, que tem um novo presidente, o presidente Lai Ching-te. Tomou posse esta semana. Em reação, a China tem feito exercícios militares punitivos à volta de Taiwan. Não é um começo muito fácil para este novo presidente.

Sim, não é. Era um pouco expectável. É verdade que ele representa um partido e tem um discurso um pouco mais pró-independência, mas nunca vai ao ponto de declarar a independência. Portanto, é importante recordar, em Taiwan, formalmente, o governo que lá existe chama-se República da China, é o resultado da guerra civil chinesa que terminou em 1949 com os comunistas a conquistarem todo o continente e o outro lado, os nacionalistas apoiados pelos Estados Unidos, a refugiarem-se na ilha Taiwan. Agora, aquilo que aqui sobretudo irrita o governo chinês, o governo comunista chinês, o partido Estado chinês, é esta contradição fundamental que eles dizem: Taiwan é inequivocamente chinês, mas também dizem sempre, insistem, é impossível, é contrário à natureza e à cultura e à história da China ter uma democracia do tipo ocidental multipartidário, com eleições em que a oposição de vez em quando ganha na China. Ora, as duas afirmações são incompatíveis e Taiwan mostra isso. Ou seja, se Taiwan é inequivocamente chinês, então mostra que é possível uma democracia multipartidária, que é aquilo que existe, uma verdadeira democracia, com eleições em que o governo de vez em quando muda, num país chinês, num contexto chinês. A alternativa a isso é dizer: então existe essa democracia, mas isso significa que Taiwan não é chinês. Mas isso é inaceitável, porque poria em causa esta tese de que Taiwan é chinês, é território chinês e deve voltar a reunificar-se com a China continental. Aqui o problema prático é que realmente a China tem investido muito em defesa, tem reforçado muito também, em particular, os seus meios aéreos e navais. Ainda agora anunciou o início de operações, de testes de um novo porta-aviões. E temos estes exercícios, esta técnica de exercícios que na prática cercam, dificultam muito as comunicações aéreas e navais com Taiwan. O nome é Joint Sword-A e a questão que se coloca é, já duraram dois dias, será que vai haver um B, um C, ou seja, será que isto vai ser um ciclo de crescendo de exercícios, de tensões militares. Esperemos que não, porque Taiwan, sendo um Estado relativamente pequeno, um anão ao pé desta gigante que é a China, tem apenas 25 milhões de habitantes, face a 1,4 mil milhões da China, mas por exemplo, em termos económicos globais, tem um peso importante, sobretudo na questão dos microchips. Representa praticamente metade da produção mundial e dos mais avançados, quase 90%.

Bruno, em África tivemos uma visita do presidente do Quénia. O presidente William Ruto foi até aos Estados Unidos em visita de Estado. Bruno, qual é que foi o objetivo e também pergunto o que significa esta visita?

Desde logo, significa que os Estados Unidos perceberam que têm de estar mais pró-activos, mais activos em África. Ainda agora quando discutimos a questão, por exemplo, de São Tomé e da Rússia, foi um dos pontos que eu sublinhei. Esta visita de Estado, que no fundo é uma visita protocolar mais importante, em que há várias cerimónias, em que geralmente também são assinados acordos mais importantes, este tipo de visita de Estado não acontecia com um líder africano desde 2008, há 15 anos. Desde logo, esse é um aspecto importante e positivo. Um segundo é que o Quénia é claramente um dos principais parceiros dos Estados Unidos em África, a par, por exemplo, de Angola ou da Nigéria. Mas o Quénia é muito importante na zona da África Oriental, onde há, por exemplo, ameaças também jihadistas importantes na Somália, Moçambique, etc. E, entretanto, ganhou protagonismo com a ajuda que se disponibilizou a dar uma missão policial comandada pelas Nações Unidas para resolver a questão dos gangues no Haiti, ali na vizinhança próxima dos Estados Unidos, mas um país de população majoritariamente de origem africana. Isso é algo que os Estados Unidos encorajaram, financiaram e claramente estão muito gratos por isso. Como resultado, vários acordos de cooperação reforçada a nível económico, militar, etc. E inclusive o Quénia foi declarado um Major Non-NATO Ally, que é um estatuto importante em termos de cooperação militar e um reconhecimento também desta parceria cada vez maior entre o Quénia e os Estados Unidos.

Bruno, vamos fechar na América Latina e temos dois minutos, um pouco menos do que isso. Vamos mais propriamente ao Panamá. José Raúl Mulino venceu as eleições presidenciais com 35% dos votos. O novo governo tomou posse há uma semana. Qual é que é o significado desta eleição na região?

Por um lado, e muito sinteticamente três pontos, o Panamá é um país muito importante, muito mais do que o seu pequeno tamanho, porque tem o canal do Panamá, que é um destes pontos de estrangulamento, passagem obrigatória, nomeadamente entre o Pacífico e o Atlântico. Depois, o que isso significa? Sobretudo confirma esta tendência para a rejeição de quem está do partido, do setor político que está a governar na maior parte dos países latino-americanos. A rejeição passou desde logo pelo partido do presidente anterior ter perdido, mas só nove deputados é que foram reeleitos. Mesmo no Parlamento foi uma limpeza. E por último, um aspecto central nesta campanha e também no apelo deste presidente é o fato dele ter sido um antigo ministro da administração interna, das polícias, da segurança interna, e ter prometido, era uma promessa central na sua campanha, fechar a fronteira, a chamada Selva Darian, que liga o Panamá com a América do Sul e que é um dos pontos de passagem obrigatório de migrantes, e isso é muito associado a mais criminalidade, mais insegurança no Panamá.

Muito bem, Bruno, hoje já não temos mais tempo. Nós voltamos para semana para mais um Cinco Continentes. Até lá, obrigada, Bruno.

Até para a semana, Bruno.

Obrigado.