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O paleontólogo e biólogo evolutivo Neil Shubin (n.1960, EUA) assumiu, no passado dia 1 de Julho, o prestigiado cargo de presidente da National Academy of Sciences dos EUA, publicou um respeitável número de artigos científicos (maioritariamente sobre peixes extintos ainda antes da aparição dos dinossauros) e tem uma carreira premiada como divulgador de ciência. O seu livro de maior notoriedade foi The inner fish: A journey into the 3.5-billion-year story of the human body (2008), em que mostra como muitas das características físicas que assumimos como tipicamente humanas, têm origem em criaturas que viveram há centenas de milhões de anos. As nossas mãos, por exemplo, têm afinidades estruturais com as do Tiktaalik roseae, um peixe de água doce com capacidades anfíbias e crânio achatado, que viveu há cerca de 375-383 milhões de anos e é visto como o elo entre os peixes e os tetrápodes, isto é, as criaturas que se locomovem sobre quatro patas (das quais os humanos descendem, embora tenham adoptado a postura bípede, única entre os mamíferos).
Reconstituição do Tiktaalik roseae
Os primeiros fósseis de Tiktaalik roseae foram descobertos, em 2004, por uma equipa que incluía Neil Shubin, na Ilha de Ellesmere, no Canadá, bem acima do Círculo Polar Árctico, em formações rochosas que, no tempo do Tiktaalik roseae, faziam parte do continente Laurência (Laurentia) e que não estavam longe do Equador terrestre.
Neil Shubin com um molde do crânio do Tiktaalik roseae, em 2008
Shubin é hoje um dos maiores especialistas destes “peixes de transição” (ou “peixópodes”) e tem um longo curriculum de expedições ao Árctico e Antárctico em busca dos seus fósseis, que teve início na Gronelândia em 1988. O que Shubin se propôs fazer em Ends of the Earth: Journeys to the polar regions in search of life, the cosmos and our future (2025), que chegou agora às nossas paragens pela mão da Temas & Debates, com o título Os confins da Terra: Viagens às regiões polares em busca da vida, do cosmos e do nosso futuro e tradução de Ana Pinto Mendes, foi cruzar a sua experiência directa das regiões polares com a história dos exploradores e cientistas que o precederam nestas regiões, as invulgares condições climáticas e geológicas que as caracterizam, as adaptações da flora e fauna a essas condições e o papel das regiões polares num mundo que atravessa alterações climáticas que se tornam mais evidentes de década para década.
Antes de entrarmos no livro propriamente dito, o presente artigo esboça uma breve panorâmica da evolução da percepção que a humanidade teve das regiões polares ao longo da História, uma vertente que Shubin não aborda.
Hiperbórea, Passagem Noroeste e outras especulações
Em tempos, as regiões polares fervilhavam com possibilidades bizarras e excitantes, nascidas, antes de mais, do profundo desconhecimento existente sobre elas que reinava nas regiões temperadas. Na Grécia Clássica, havia quem acreditasse que o Árctico era habitado pela raça hiperbórea, que viveria uma vida abençoada, a salvo de guerra, doença ou envelhecimento. A Hiperbórea beneficiaria de um clima invulgarmente ameno, de Primavera eterna, decorrente do resguardo oferecido contra os ventos frios pelo míticos Montes Ripeus (ou Riféus), e da protecção do deus Apolo, que passaria o Inverno entre os hiperbóreos.
Mais tarde, deu-se crédito à lenda de que no Polo Norte existiria uma ilha, a Rupes Nigra, inteiramente constituída por rocha magnética, que explicaria o facto de as bússolas apontarem todas na mesma direcção. O rumor terá sido fomentado por um livro (entretanto perdido) intitulado Inventio Fortuna, redigido no século XIV por um frade franciscano que terá empreendido navegações no Atlântico Norte, e foi perpetuado em vários mapas dos séculos XVI e XVII.
Detalhe do mapa Septentrionalium Terrarum (1606), de Gerardus Mercator, com a “Rupes nigra et altissima” no Polo Norte
No final do século XV, mal Colombo regressou da primeira viagem às Américas, começaram a germinar rumores e especulações sobre a existência de uma Passagem Noroeste, um percurso navegável entre o Atlântico e o Pacífico. O incómodo obstáculo que o continente americano representava para o comércio entre a Europa e a Ásia Oriental deu uma duradoura vitalidade à ideia de que existiria, a norte, um acesso rápido e expedito aos portos da China (o apetite por produtos chineses precede em muito o advento da Shein e da Temu). O primeiro a tentar encontrar a lendária passagem, em 1497, foi John Cabot (Giovanni Caboto), navegador italiano ao serviço de Henrique VII, e a possibilidade de encurtar muitos milhares de milhas de navegação e evitar a travessia do Estreito de Magalhães ou a dobragem do Cabo Horn, ambas arriscadas, fizeram com que sucessivas expedições buscassem o hipotético atalho setentrional. Esta demanda foi estimulada pela comprovação, em 1728, por Vitus Bering (navegador dinamarquês ao serviço do Império Russo) de que a Ásia e a América do Norte não formavam uma massa contínua, e pela criação, em 1745, pelo Almirantado britânico, de um prémio de 20.000 libras a quem descobrisse a Passagem Noroeste. A busca prolongou-se pelo século XIX dentro, mas todas as expedições, por terra e por mar, se revelaram vãs. O primeiro a navegar do Atlântico para o Pacífico foi o norueguês Roald Amundsen, numa viagem que se estendeu entre 1903 e 1906 e que, ainda que corada de sucesso, pôs termo à efervescência em torno da Passagem Noroeste, por ter comprovado que as baixas profundidades de alguns canais inviabilizavam o seu uso comercial.
A Passagem Noroeste, num mapa da América do Norte por 1687 por Guillaume Sanson
Entretanto, em 1885, o teólogo William Fairfield Warren, primeiro reitor da Boston University, publicara o livro Paradise found: The cradle of human race at the North Pole, uma especulação que, baseando-se em indícios paleontológicos de que algumas regiões do Árctico teriam tido um clima mais quente do que o actual e fundindo e recombinando vários mitos sobre civilizações e lugares perdidos, propôs que a Atlântida, a Hiperbórea e o Jardim do Paraíso teriam estado localizados num continente árctico, entretanto submerso, e que teria sido ele o foco de irradiação de toda a humanidade.
Typus Orbis Terrarum (1587), por Abraham Ortelius, com as regiões polares ocupadas por dois grandes continentes, a Terra Septentrionalis Incognita e a Terra Australis Incognita
A Terra Australis Incognita e a Terra Oca
No que respeita às regiões austrais, persistiu durante muito tempo a ideia de que nelas existiria um continente gigantesco, que serviria de contrapeso às massas terrestres da Eurásia e América do Norte (é claro que este suposto imperativo de equilíbrio na distribuição das massas de terra era destituído de sustentação geológica). A hipótese de uma Terra Australis Incognita despontara primeiro entre autores da Grécia Clássica, mas só em 1820 se registaram os primeiros avistamentos de um continente austral (ou das massas de gelo que o bordejavam), uma primazia disputada entre o britânico Edward Bransfield, o russo Fabian Gottlieb von Bellingshausen e o americano Nathaniel Palmer. A Antárctida começou a ser explorada nas décadas seguintes, ainda sem a certeza de que se tratava efectivamente de um continente e não de várias massas de terra interligadas por massas de gelo. Este continente não tinha, todavia, qualquer correspondência, para lá da localização, com o mítico continente que inflamara a especulação dos europeus durante séculos e que, nalguns mapas, como o planisfério de 1587 por Rumold Mercator (filho do mais célebre Gerardus), não só tem uma área equivalente às áreas combinadas da Eurásia e América do Norte, como se estende para norte até perto da Indonésia (ou seja até regiões de clima tropical).
Planisfério de 1587 por Rumold Mercator
A Terra Australis Incognita foi o foco de abundante produção ficcional nos séculos XVII e XVIII, uma voga iniciada em 1605 com Mundus alter et idem, de Joseph Hall (sob o pseudónimo de Mercurius Britannicus), que, na verdade, uso o fabuloso continente austral e os habitantes dos seus reinos – Crapulia, Lavernia, Moronia, Pamphagonia e Viraginia – como pretexto para satirizar a sociedade inglesa (e, em particular, londrina) do seu tempo, intenção que é expressa, desde logo, no título: o outro (“alter”) mundo é, afinal, o mesmo (“idem”) mundo que conhecemos.
O continente austral segundo Mundus alter et idem
Outra hipótese excitante envolvendo as regiões polares postulava a existência nestas de entradas para uma Terra Oca. Esta possibilidade foi primeiro formulada, no meio científico, pelo astrónimo e físico inglês Edmond Halley (o mesmo que dá nome ao célebre cometa), que admitiu que o interior do planeta era habitável, que a sua atmosfera emitia luz e que eram as fugas desses gases luminosos pelos orifícios polares que estavam no origem das auroras boreais. Embora a hipótese da Terra Oca tenha sido categoricamente refutada em meados do século XVIII, ela continuou a estimular a imaginação de escritores de ficção e de alguns “iluminados”. Entre os primeiros, a primazia pertenceu ao dinamarquês-norueguês Ludvig Holberg, com o livro Nikolai Klimii iter subterraneum (1741, As viagens subterrâneas de Niels Klim), e ao italiano Giacomo Casanova, com a saga em cinco volumes Icosaméron (1788), ainda que em ambos os casos a entrada na Terra Oca se fizesse por cavernas, não por aberturas nos polos; a mesma opção assumiu Jules Verne na célebre Viagem ao centro da Terra (1864, Voyage au centre de la Terre), em que os exploradores se deparam, no interior do planeta, com relíquias da flora e fauna de outras eras.
Luta entre um plesiossauro e um ictiossauro: ilustração por Édouard Riou, em edição italiana de 1874 de Viagem ao centro da Terra
Entre os mais famosos dos “iluminados” esteve John Cleves Symmes Jr. (1780-1829), capitão da marinha americana que consagrou a vida a fazer palestras sobre a sua versão da teoria da Terra Oca, acessível pelos polos, e a tentar angariar fundos para financiar uma expedição ao Polo Norte que a comprovaria. Edgar Allan Poe fez eco das teorias de Symmes no seu famoso romance The narrative of Arthur Gordon Pym of Nantucket (1838, As aventuras de Arthur Gordon Pym).
A Terra Oca, segundo o romance de ficção científica The goddess of Atvatabar (1892), por William R. Bradshaw
Inspirado na teoria da origem árctica da humanidade, defendida por William Fairfield Warren, Marshall Gardner, em A journey to the Earth’s interior (1913), livro a meio caminho entre o ensaio científico e a ficção, propôs que os humanos tivessem origem na Terra Oca e que se tivessem disseminado pelo planeta a partir da abertura no Polo Norte – ainda que, quatro anos antes, o explorador americano Robert Peary (ou o britânico Frederick Cook, ou, novamente, Roald Amundsen – há disputa quanto à primazia) tivesse triunfado na corrida pelo Polo Norte e não tivesse encontrado a colossal abertura postulada pelos “terraoquistas”. A Terra Oca de Gardner era iluminada por um sol no centro da Terra, possibilidade também explorada pelo geólogo e romancista russo Vladimir Obruchev, que, no romance Plutonia (1913), descreveu um mundo interior onde ainda subsistiam uma flora e uma fauna pré-históricas, incluindo dinossauros, pterossauros e grandes répteis aquáticos (retomando a ideia de Viagem ao centro da Terra). Edgar Rice Burroughs (mais conhecido como autor de Tarzan), seguiu os mesmos pressupostos (Terra Oca, acessível pelos polos, iluminada por um sol interior e povoada por flora e fauna pré-históricas) na série Pellucidar, em sete volumes (um dos quais é um crossover com a série Tarzan), iniciada em 1914 com o romance At the Earth’s core (No coração da Terra).
Capa de At the Earth’s core (1914)
Nas Montanhas da Loucura
H.P. Lovecraft, cujo fascínio pela Antárctida começou em tenra idade, fez dela o cenário de uma das suas obras mais célebres e tenebrosas, Nas Montanhas da Loucura (At the Mountains of Madness), escrito em 1931 e publicado na revista Astounding Stories em 1936. O romance assume a forma de relato pessoal de uma expedição à Antárctida, em 1930-31, feito por um dos seus poucos sobreviventes, o geólogo William Dyer. A expedição descobre uma cadeia montanhosa tão imponente quanto os Himalaias e que alberga profundas cavernas; quando os exploradores se internam nestas, descobrem, em estratos antiquíssimos, restos de criaturas monstruosas, sem qualquer semelhança com as formas de vida da Terra.
Ilustração de Ville Assinen inspirada por Nas Montanhas da Loucura
Após parte da expedição ter sido selvaticamente massacrada, Dyer e um aluno seu descobrem que o maciço montanhoso oculta uma cidade colossal, abandonada, cuja arquitectura diverge de tudo o que foi erguido pela mão humana; através das imagens e hieróglifos que encontram, os exploradores percebem que a cidade foi erguida por uma civilização alienígena, os Antepassados, que se instalou na Antárctida após a Lua se ter separado da Terra (evento que terá ocorrido há cerca de 4500 milhões de anos). Na verdade, os obreiros da cidade tinham sido os shoggoths, criaturas gelatinosas, capazes de assumir variadas formas e que desempenhavam todas as tarefas físicas, funcionando como escravos dos Antepassados. Porém, os shoggoths revoltaram-se contra os seus amos, o que, juntamente com as alterações do clima da Antárctida, forçaram os Antepassados a reinstalar-se num vasto mar subterrâneo. Pouco a pouco, os exploradores tomam consciência de que este passado remoto não está completamente enterrado e que o massacre de parte da expedição foi obra de criaturas que sobreviveram aos cataclismo de outras eras. O autor do relato termina este suplicando que ninguém mais se aproxime das Montanhas da Loucura, sob risco de as monstruosidades que as habitam se espalharem pela Terra.
Um shoggoth, ilustração de Nottsuo inspirada por “Nas Montanhas da Loucura”
A obstinada persistência dos mitos polares
As explorações no Árctico e no Antárctico ao longo dos séculos XX-XXI dilataram formidavelmente o conhecimento sobre estas regiões, mas não impediram que continuassem a proliferar lendas e teorias conspirativas tão descabeladas como o mito hiperbóreo dos gregos – que, ao menos, tinham como atenuante pouco ou nada saberem do mundo que existia a norte do Mar Negro ou a norte das Ilhas Britânicas (há um único registo de uma expedição grega no Atlântico Norte, no século IV a.C., comandada por um certo Píteas, que terá, eventualmente, chegado à Islândia e encontrado gelo flutuante em mar aberto).
As fantasias polares dos séculos XX-XXI incluem a existência de bases secretas nazis na Antárctida, onde Hitler se terá refugiado em 1945, juntamente com as elites militar e científica alemãs. As bases, ocultas sob o manto de gelo, terão começado a ser criadas em 1938-39, quando da terceira Expedição Antárctica Alemã, que pretendia reclamar para o III Reich um território a que foi dado o nome de Neuschwabenland (Nova Suábia) (ver Como Hitler escapou do bunker de Berlim e se refugiou numa base secreta na Antárctida), e disporão de tecnologia avançada, desenvolvida pelas luminárias científicas do III Reich e que terá permitido aos nazis resistir a várias tentativas dos EUA e do Reino Unido para os desalojar (recorrendo, inclusive, a armas nucleares). A primeira dessas tentativas de anulação do poderio nazi na Antárctida terá ocorrido em 1946-47, a coberto da Operação Highjump, liderada pelo contra-almirante e explorador polar Richard E. Byrd, que tinha como missão oficial estabelecer uma base de investigação americana na Plataforma de Ross; porém, as forças americanas terão sido rechaçadas por “discos voadores” nazis.
Esta teoria tem seguidores suficientes para justificar a realização anual, desde 2002, do Neuschwabenlandtreffen (Encontro da Nova Suábia), em Berlim, onde vários “iluminados”, quase todos conotados com a extrema-direita, se encontram para trocar reflexões e “descobertas”, abrangendo também o tema dos “discos voadores” (uma criação da ciência avançada nazi).
A hipotética delimitação da Nova Suábia
O mito do kraken, uma gigantesca criatura marinha do folclore norueguês, inspirada, provavelmente, nas lulas gigantes, e a que o naturalista francês Pierre Denys de Montfort (1766-1820) conferiu alguma credibilidade científica, incitado pela descoberta de um tentáculo de oito metros de comprimento no estômago de um cachalote, foi reciclado, em versão antárctica, em 2016, mediante interpretações fantasiosas de imagens do Google Earth das imediações da Ilha Deception, no arquipélago das Shetland do Sul. O novo e sensacional kraken era, afinal, algo bem mais prosaico e há muito conhecido: a Sail Rock, um rochedo com 12 metros de largura e 30 metros de altura.
Navio atacado por kraken, gravura de 1801 por Étienne Claude Voysard, a partir de desenho de Pierre Denys de Montfort
Em 2007, alguns fóruns online japoneses começaram a propagar o mito do ningen, um ser aquático, combinando características humanóides e cetáceas, que teria sido avistado, em 1958, nas águas antárcticas, pelo Sōya Maru, um navio de investigação japonês. A especulação ociosa na Internet em torno do ningen acabou por dar origem a duas criaturas completamente diferentes: uns defendem que é aquática e tem 20-30 metros de comprimento e enormes braços que terminam em mãos; outros vêem-na como um humanóide com 6-10 metros de altura e habitat terrestre.
Finalmente, há que assinalar que o renascimento, no século XXI, da teoria da Terra Plana (um exemplo paradigmático do poder da Internet para potenciar a imbecilidade humana) também devolveu à vida a ideia da Muralha de Gelo Antárctica, que rodeará toda a Terra conhecida; os terraplanistas divergem quanto ao que existe para lá da Muralha de Gelo: uns crêem que o disco terrestre termina e começa o vazio, outros crêem que poderão existir terras desconhecidas para lá dela. Uns e outros estão de acordo em que os “governos” e os “militares” limitam o acesso à Antárctida e vigiam escrupulosamente a Muralha de Gelo, de forma a impedir que alguém consiga atravessá-la.
A Muralha de Gelo Antárctica, na perspectiva terraplanista
Caminhando na neve em círculos
O programa de Os confins da Terra é demasiado ambicioso para 274 páginas de texto, para mais quando estas exibem um generoso espaçamento entre linhas; resulta daqui que muitos temas são tratados superficialmente, ou são omitidos de todo. Mais desconcertante (ou enervante, consoante a natureza do leitor) é que o livro careça de estrutura e continuidade, com os diversos temas a sucederem-se em regime non sequitur, dando ideia de que Shubin se limitou a verter nele as notas, anedotas e reflexões sobre regiões polares que foi coligindo ao longo de quase quatro décadas. O livro está, inquestionavelmente, recheado de informação pertinente e reveladora, mas a ausência de fio condutor torna a leitura numa experiência análoga à de caminhar numa paisagem uniformemente branca num dia de nevoeiro: não sabemos para onde vamos, nem que distância já percorremos, nem em que ponto do trajecto estamos.
O livro é também prejudicado pela constante intromissão de relatos, geralmente desconexos, frívolos e inconsequentes, das experiências de Shubin nas regiões polares: as pessoas que encontrou, os truques para montar tendas, a modorra da vida nas bases enquanto se aguarda transporte ou meteorologia propícia. Trata-se de mero excipiente, quiçá adicionado para perfazer o número mínimo de páginas acordado com o editor e para aligeirar exposições de assuntos científicos, que, de outro modo, correriam o risco de maçar alguns leitores.
Nota-se também alguma falta de esmero na elaboração do livro: por exemplo, os três mapas providenciados – dois logo no início, outro na pg. 247 – não são suficientes para situar os leitores numa geografia com a qual muito poucos estarão familiarizados, o que é tanto mais relevante por o livro aludir reiteradamente às rotas de numerosas expedições. Estranha-se, por exemplo, que nesses mapas a Ilha de Ellesmere não seja identificada, embora seja mencionada 17 vezes ao longo do livro (a dar crédito ao índice remissivo) e esteja longe de ser um elemento geográfico negligenciável, uma vez que tem uma área de 196.000 km2, o que faz dela a 10.ª maior ilha do mundo.
A ilha de Ellesmere, ao centro; à direita, o extremo noroeste da Gronelândia
O Grande Comunicador
Os louvados e premiados dotes de Shubin como divulgador científico (em 2015 foi distinguido com o prémio de excelência na comunicação das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina) também não parecem estar na sua melhor forma. Por exemplo, na pg. 40 menciona o “gelo azul”, que resulta da acumulação de sucessivas camadas de neve sobre os glaciares, o que sujeita as camadas do fundo a um processo de ultracompactação; o gelo azul assim formado nas profundezas, pode, em resultado da movimentação dos glaciares, ascender à superfície. Ora, Shubin, logo depois de referir que “parte deste gelo tem 6 milhões de anos”, acrescenta que “fundir este gelo para beber significa consumir água de neve que caiu quando os neandertais deambulavam pelo planeta”. Nenhuma das afirmações é factualmente errada, mas não são um exemplo de comunicação rigorosa e eficiente. Para começar, quando se afirma que “parte deste gelo tem 6 milhões de anos” deixa-se aberta a possibilidade de haver “gelo azul” mais antigo (7 milhões de anos? 10 milhões de anos?), quando, na verdade, o valor “6 milhões” é o limite superior do intervalo: o “gelo azul” mais antigo que se conhece tem 6 milhões de anos de idade. Por outro lado, se há “gelo azul” com 6 milhões de anos, de que adianta tentar reforçar a ideia da sua antiguidade recorrendo ao Homo neanderthalensis, que surgiu há 400.000 anos e se extinguiu há apenas 40.000 anos? Na verdade, o “gelo azul” mais antigo precede até os primeiros Australopithecus (3.9-2-9 milhões de anos) e os primeiros Ardipithecus (4.4 milhões de anos) e coincide com o último antepassado comum entre homens e chimpanzés.
Áreas da Antárctida em que o “gelo azul” ocorre à superfície
Na pg. 54, referindo-se ao anarquista russo Pyotr Kropotkin (cujo nome próprio é grafado no livro como “Peter”), após afirmar (correctamente) que nasceu em 1842, Shubin informa que, após um período de exílio, “aos 40 anos [em 1882?] regressou à Rússia por volta da altura da Revolução Bolchevique”. Efectivamente, Kropotkin regressou do exílio em 1917, mas não tinha então 40 anos.
Na pg. 57, quando se aborda a extracção de testemunhos de gelo (“ice cores”) junto à estação soviética/russa de Vostok, na Antárctida, Shubin narra o processo de forma confusa, começando por dar ideia de que as perfurações se iniciaram “em finais da década de 1990”, para, ao fundo da página, afirmar: “deu-se início à perfuração do gelo junto da Vostok em 1970” (que foi, efectivamente, quando esta investigação se iniciou).
Na pg. 198, a propósito de um fenómeno de rápido aquecimento da temperatura na região árctica, escreve-se que “as variações de temperatura davam-se a um ritmo exponencialmente mais rápido do que alguma vez alguém achou possível”. Ora, se na linguagem corrente, o termo “exponencial” (que tem um significado matemático preciso) está hoje firmemente implantado como sinónimo pedante de “muito”, é desconsolador ver um cientista de renome alinhar nesta corrupção da linguagem.
Na pg. 257, o permafrost é definido como “uma região onde o gelo persiste no subsolo durante pelo menos dois anos”; ora, o permafrost não é uma “região”, é um solo ou subsolo ou camada de sedimentos cuja temperatura se mantém abaixo de 0ºC durante um período de pelo menos dois anos.
Hospital em Longyearbyen, Svalbard: nas zonas de permafrost contínuo, o calor emanado dos edifícios pode fazer derreter o permafrost e instabilizar as fundações, pelo que os edifícios são assentes em pilares de betão
Em geral, há muito mais formulações ambíguas, explicações pouco claras, frases deselegantes e tentativas falhadas de fazer humor do que seria de esperar num autor deste gabarito. Mas a verdade é que há cada vez mais livros, assinados por autores no zénite da sua carreira, com reputação firmada e uma multiplicidade de compromissos académicos, mediáticos e empresariais, que dão a impressão de terem sido preparados à pressa (ou terem sido redigidos, pelo menos em parte, por assistentes) e de terem resultado menos de um impulso inato do autor do que da obrigação de honrar um contrato firmado com uma editora (ver, por exemplo, Uma história climática dos últimos 4500 milhões de anos, a propósito do ambicioso e trapalhão A história do mundo: Do big bang até aos dias de hoje, de Peter Frankopan).
Gelo polar e alterações climáticas
A extracção de testemunhos de gelo nas regiões polares remete-nos para um dos assuntos mais pertinentes tratados em Os confins da Terra: as variações nos climas da Terra no passado e o que eles nos dizem sobre a previsível evolução do clima nas próximas décadas.
Os testemunhos de gelo são um dos mais preciosos elementos na reconstituição do clima de outras eras: a análise da composição isotópica das moléculas de água permite estimar temperaturas e a análise das bolhas de ar retidas no gelo permite determinar a composição da paleoatmosfera – especialmente a percentagem de dióxido de carbono e metano, os mais relevantes gases de efeito de estufa. Na primeira metade do século XX, presumia-se que as mudanças climáticas ocorriam muito gradualmente, uma ideia que foi desfeita pelas investigações do paleoclimatologista dinamarquês Willi Dansgaard. Dansgaard, que foi quem primeiro, em 1952, usou a composição isotópica das moléculas de água como indicador de temperaturas pretéritas, revelou-nos que o gelo árctico tinha passado por evoluções bem mais bruscas, com “intervalos breves, de algumas décadas, nos quais […] as temperaturas chegaram a subir 5.5ºC” (pg. 198). Por outro lado, os estudos de sedimentos nos fundos oceânicos pelo oceanógrafo alemão Hartmut Heinrich, em meados da década de 1980, sugeriram que, “há milhares de anos, icebergues se separaram de glaciares no Canadá, desceram até ao oceano e depositaram detritos rochosos que se sedimentaram no leito oceânico durante o processo de degelo. […] Estas rupturas ocorreram num período inferior a 250 anos. E cada um destes acontecimentos levou, com a mesma rapidez, à subida dos níveis globais do mar entre 90 e 180 centímetros. Ao perfurar o gelo polar e a lama dos oceanos, Dansgaard, Oeschger e Heinrich descobriram que o Árctico passou celeremente de climas mais quentes a mais frios enquanto os mantos de gelo se quebravam para dentro do oceano, alterando os níveis do mar. A capacidade de operar alterações muito rápidas é uma componente natural do sistema do gelo, clima e correntes oceânicas” (pg. 200).
Se esta descoberta revolucionou a compreensão do clima da Terra, foi ainda mais perturbador descobrir que a Antárctida, que fora “sempre vista como um baluarte que resistia estavelmente às alterações no gelo” (pg. 201), sofrera, na sua parte ocidental, um degelo generalizado há cerca de 120.000 anos. O glaciologista britânico John H. Mercer encontrou indícios, em rochas contendo fósseis de organismos marinhos, na Indonésia, que sugeriam que, há 120.000 anos, o nível do mar era 4.2 metros mais elevado do que hoje, o que correspondia à liquefacção dos 30 milhões de quilómetros cúbicos de gelo da Antárctida Ocidental.
Durante o último período interglacial (também conhecido como Eemiano ou Riss-Würm), há 130.000-115.000 anos, as áreas no mapa a cinzento-claro encontravam-se submersas
Em 1968, Mercer sugeriu um mecanismo para este rápido degelo: a maior parte da Antárctida Ocidental está abaixo do nível do mar, devido ao peso colossal do gelo que a cobre; isto permite que quando a água do mar aquece, esta comece por “atacar” os glaciares costeiros por baixo e vai, depois, avançando com o seu “trabalho de sapa” para o interior do continente. À data, “Mercer foi acusado de ser alarmista” (pg. 206), mas a hipótese foi confirmada por estudos publicados em 2014.
Perfil da Antárctida Ocidental, entre o Mar de Bellingshausen (A) e o Mar de Ross (B): a azul escuro, gelo; a castanho, rocha
Entretanto, em 1995, o mundo assistira já à fragmentação da plataforma de gelo conhecida como Larsen A, no Mar de Weddell, no Antárctico; em 2002, a Larsen B sofreu processo análogo, e em 2017, foi a vez de parte da Larsen C – em resultado destes episódios, a área total da plataforma Larsen diminui de 85.000 para 67.000 km2 (uma perda similar à soma das áreas dos distritos de Beja e de Évora).
10 de Novembro de 2016: a separação do bloco C da plataforma Larsen inicia-se com a abertura de uma fenda de 100 metros de largura
Visite as Maldivas (enquanto é tempo)
A análise da informação hoje disponível sobre temperaturas e níveis do mar revela que, ao longo dos últimos 400.000 anos, as temperaturas variaram num intervalo de 6ºC e os níveis do mar variaram num intervalo de 110 metros, ou seja, “por cada grau centígrado de aumento da temperatura, deu-se uma subida do mar de cerca de 18 metros” (pg. 223). Porém, esta correspondência tem alguma inércia e regista desfasamentos pontuais: “para a nossa temperatura global actual […] o nível do oceano é [ou melhor: está ainda] relativamente baixo”, o que significa que “quando o globo se ajustar aos aumentos muito recentes de temperatura, […] os níveis do mar irão inevitavelmente subir” (pg. 223).
Por outras palavras, a inércia do sistema faz com que os avanços do mar a que estamos a assistir em certas regiões do planeta, que já são preocupantes em si mesmos, estão desfasadas em alguns anos da realidade climática. Mesmo que, por absurdo, hoje mesmo, a humanidade travasse a fundo nas emissões de gases com efeito de estufa, ainda iria assistir à continuação do aumento do nível dos oceanos durante vários anos. O atraso na “recepção da factura” alimenta em muitos terráqueos a ilusão de que as alterações climáticas não são reais, ou não são tão significativas quanto anunciado, ou que as suas repercussões no nível dos oceanos têm sido exageradas.
Evolução da concentração de dióxido de carbono (CO2), em partes por milhão (ppm) na atmosfera nos últimos 800.000 anos. Note-se que, durante centenas de milhares de anos, a concentração de CO2 oscilou entre c.170 e c.280 ppm, e que, desde a Revolução Industrial, tem vindo a subir abruptamente, rondando hoje os 400 ppm
Seria simplista assumir que os efeitos das alterações climáticas seriam iguais em todo o planeta: por exemplo, a parte norte do continente europeu ainda está a recuperar do período em que esteve coberto de espessos glaciares – liberta do peso destes, continua hoje a elevar-se muito lentamente (um fenómeno designado por ajustamento isostático glacial). Shubin refere, na pg. 220, que “a Finlândia criou inclusivamente um novo enquadramento legal fundiário para determinar quem é proprietário da terra que vai surgindo com a subida das linhas costeiras (entenda-se: com o recuo do mar).
Durante o último período interglacial, boa parte da Finlândia encontrava-se submersa
A Europa meridional irá, cada vez mais, debater-se com o problema inverso: o que fazer perante a perda de terras emersas no litoral, nas rias e no estuário dos rios. Para já, considerando o caso português, o problema tem sido enfrentado com um misto de inconsciência, ignorância, oportunismo e ganância. De Caminha a Vila Real de Santo António, autarcas, veraneantes, concessionários das praias e proprietários de restaurantes, hotéis, resorts turísticos e moradias a poucos metros da linha de preia-mar reclamam do Estado (i.e., do contribuinte anónimo) a incessante realimentação das praias e a construção de obras de “engenharia pesada” para travar o avanço do mar. Empreendedores imobiliários invocam “direitos” adquiridos num tempo de legislação ambiental omissa para continuarem a erguer construções o mais próximo possível das falésias e das praias. Proprietários abastados e ciosos da sua privacidade intentam processos judiciais contra o Estado, fundamentados em vetustos alvarás régios, que visam subtrair praias ao Domínio Público Marítimo a fim de usufruírem delas em regime de exclusividade, sem que a populaça perturbe as suas sunset parties, e é muito provável que, caso logrem obter dos tribunais a almejada privatização, se apressem a exigir aos poderes públicos que realimentem a sua praia privativa até ao fim dos tempos. E a verdade é que o Estado português tem, até agora, mostrado relutância (ou insuportável lentidão) em demolir construções clandestinas ou ilegais sobre dunas e falésias e parece ter aceitado que é sua obrigação perene manter o litoral tal qual é hoje, mesmo que a subida do nível do mar seja um dado garantido (não serão seguramente conferências internacionais como as COPs sobre alterações climáticas que lograrão travá-la).
Em contrapartida, nalgumas micronações insulares do Pacífico e do Índico, cujos “picos” se erguem escassos metros acima do nível do mar, tem prevalecido o realismo. Tuvalu já dá como inevitável que o arquipélago fique submerso ou se torne inabitável em meados deste século e estabeleceu um acordo com a Austrália que permite que, todos os anos, 280 tuvaluanos se estabeleçam definitivamente na Austrália, continuando a manter os seus vínculos como comunidade – a primeira vez que se assiste à reinstalação de todo um Estado. O Governo de Kiribati tem vindo a promover a emigração dos seus cidadãos para a Austrália e Nova Zelândia e adquiriu terreno em Vanua Levu, nas Ilhas Fiji, como refúgio de emergência, prevendo a completa submersão do arquipélago em 2100. Este ano é também aquele em que se prevê a submersão total das Maldivas, arquipélago cujo ponto mais alto atinge uns “vertiginosos” 2.4 metros (ver capítulo “O que diz realmente a ciência” em Alterações climáticas, ideologia e sectarismo: O que está afinal em jogo em Sharm El Sheikh? e capítulo “O colapso climático não irá poupar-te” em Alterações climáticas: Estaremos todos no mesmo barco?).
Malé, capital das Maldivas, 2017
O risco dos fenómenos climáticos de retroacção positiva
A complexidade, interdependência e subtileza do sistema mar-atmosfera torna impossível fazer previsões rigorosas quanto às alterações na temperatura média da Terra e noutros parâmetros climáticos, na cobertura de gelo das regiões polares e na concomitante subida do nível do oceano. Se as previsões correntes já são inquietantes por si mesmas, há indícios de que a mudança possa ser acelerada por fenómenos de retroacção positiva ligados às regiões polares.
Um deles é a “amplificação árctica”, que Shubin descreve assim (num trecho que pouco deve à elegância e à clareza): “O gelo é reflector e absorve menos radiação solar do que as camadas mais escuras de terra ou mar. Quando o gelo funde sobre o mar, reflecte-se menos luz e a água absorve mais radiação solar. Quando a água aquece, mais gelo se funde, desencadeando um ciclo de feedback em qualquer lugar onde ocorra o recuo do gelo” (pg. 232).
O outro fenómeno é o degelo do permafrost, que “constitui um dos maiores reservatórios de carbono do planeta”, representando cerca do dobro do carbono hoje existente na atmosfera. “Quando a matéria orgânica descongela e é libertada do gelo, a acção microbiana gera metano e outros gases com efeito de estufa” (pg. 259).
Charcos criados pelo degelo do permafrost, Hudson Bay, Canadá, 2008
É difícil estimar o contributo preciso deste fenómeno para o aquecimento global, uma vez que ele depende do rácio entre o metano e o dióxido de carbono libertados, que, por sua vez, depende das características do solo (nomeadamente da drenagem, do teor de carbono e da maior ou menor profundidade a que o carbono se encontra) e de parâmetros meteorológicos, mas é muito provável que possa contribuir significativamente para o efeito de estufa, com a agravante de que o aumento de temperatura daí resultante fomentará o degelo de mais permafrost, e assim sucessivamente. Como sublinha Shubin, “este é um ciclo que, uma vez iniciado, serão precisas décadas para abrandar” (pg. 259). O facto de os mecanismos de retroacção positiva, uma vez postos em marcha, serem difíceis de travar e de reverter recomendaria prudência adicional na condução das políticas ambientais e energéticas, que nenhum governo – exceptuando os das micronações insulares – parece ter interesse em pôr em prática.
Eldorado ou ameaça apocalíptica?
A possibilidade de um degelo generalizado e rápido das regiões polares é visto por muitos governantes e empresários, não como uma ameaça, mas como uma oportunidade para negócios fabulosos e para ganhar posições de vantagem na luta pela supremacia global – é o caso do actual presidente dos EUA, que invocando razões de “segurança nacional”, lança um olhar cobiçoso sobre as reservas de minérios e combustíveis fósseis da Gronelândia, território autónomo da Dinamarca, que pretende obter “a bem ou mal”, e das regiões árcticas do Canadá, país que anunciou pretender reduzir à condição de 51.º estado dos EUA (ver capítulos “A disputa pela supremacia global” e “As riquezas da Gronelândia e as alterações climáticas” em Uma história da Gronelândia, de Erik o Vermelho a Donald o Laranja). Shubin, escrevendo antes de Donald Trump ter começado a exprimir ruidosamente o seu apetite pelos recursos do Árctico, dá conta de que “o Serviço Geológico dos EUA estima que se encontrem no Árctico 30% dos recursos de gás natural e 13% do petróleo ainda por descobrir no mundo. Pensa-se que o leito marinho conterá também lítio para alimentar baterias e metais de terras raras para os chips de silicone [no lugar de “silicone” deveria estar “silício”, que é coisa bem diferente]. […] Com a redução do gelo, as tensões entre os países – que fervilham em lume brando há décadas, estão a aquecer” (pg. 233).
As regiões polares, após terem sido vistas como paraísos hiperbóreos, antros de monstros marinhos, local de origem da humanidade, portas de entrada para o interior oco do planeta e refúgio da cúpula do III Reich, assumem, aos olhos de políticos e empresários venais e gananciosos, o papel de Eldorado do século XXI. Ao contrário destes magnatas, que não levam a sério o fenómeno do aquecimento global ou vêem nele uma impostura criada pela China para coarctar o desenvolvimento do Ocidente, quem tenha alguma compreensão do funcionamento do planeta verá nas regiões polares um dos principais palcos onde irá decidir-se se iremos continuar a viver nos moldes dos últimos anos, ou se os desequilíbrios gerados irão ultrapassar um ponto de não-retorno e as condições de vida no planeta irão alterar-se substancialmente, com efeitos disruptivos na hipercomplexa civilização moderna. Para os que têm disposição mais catastrofista, as regiões polares representam uma ameaça ominosa ao bem-estar, e até à existência das gerações futuras, e um alfobre de terrores inomináveis, só que o agente de destruição, em vez de serem os monstros alienígenas imaginados por Lovecraft, é o próprio homem e a sua atitude ignorante, sobranceira e predadora face ao planeta.