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Cinco continentes na Rádio Observador com Bruno Cardoso Reis, coordenador do doutoramento em História e defesa do ISCTE e da Academia Militar. Bom dia, Bruno. Tudo pronto para seguirmos esta nossa viagem e olharmos para os principais acontecimentos nos cinco continentes. E como sempre, começamos também por fazer um ponto da situação na guerra da Ucrânia. Esta foi uma semana marcada por uma troca de acusações entre Moscovo e Kiev. A meio da semana, os russos vieram acusar os ucranianos de ataques com drones em território russo. Entretanto, as autoridades ucranianas já vieram dizer que não é verdade. Bruno, estaremos aqui perante um ataque sob bandeira falsa ou os ucranianos estão mesmo a começar uma nova estratégia?

Olá, bom dia. Houve essa questão dos drones. Houve também a questão sobre aquele ataque com supostamente forças especiais de dissidentes russos, mas que estariam do lado da Ucrânia em Bryansk, portanto, já no interior do território da Rússia. Em relação aos drones, de facto, isso não será uma novidade. Os ucranianos fizeram vários ataques contra, nomeadamente, bases militares russas já em vários momentos da guerra e o modus operandi ucraniano tem sido sempre não confirmar nem desmentir, mas o entendimento generalizado parece ser de que há tentativas de ataques com drones, alguns bem-sucedidos, outros não, e que isso corresponde a uma tentativa ucraniana de retaliar contra o próprio território russo sem quebrar aquilo que têm sido os termos dos acordos feitos com os países ocidentais. Uma das grandes ironias e uma das grandes hipocrisias de toda esta narrativa russa é que eles insistem que os países ocidentais estão a querer destruir a Rússia, estão a querer destruir os russos, estão a querer estimular uma agressão à Rússia, mas na verdade, pelo contrário, o fornecimento de armamento ocidental, por exemplo, tem sido sempre condicionado a que esse armamento não seja utilizado para atacar o território internacionalmente reconhecido da Rússia, ou seja, o território da Rússia nas fronteiras de 1991. Estes ataques têm sido feitos com drones de fabrico ucraniano ou pelo menos não de fabrico ocidental, e são uma forma de tentar fazer com que a população russa não possa manter esta ideia de que a guerra é uma coisa que lhes é completamente estranha e distante, e também dificultar para os militares russos a questão da sua logística e também esta ideia de que teriam uma retaguarda segura no próprio território da Rússia. Outra coisa são ataques com meios humanos no interior do território russo. Houve um caso, que foi aquele atentado próximo de Moscovo, em que o alvo seria o grande ideólogo do imperialismo, do nacionalismo mais agressivo russo, Alexander Dugin, e acabou por vitimar a filha, que também era uma comentadora nacionalista, e que foi bastante criticado pelos países ocidentais. E agora surge este último ataque em Bryansk. Este ataque em particular tem muitos aspectos estranhos, desde logo, um vídeo em que estas forças se exibem, sem haver qualquer indício também de combate. O facto de haver logo uma reação muito rápida de Putin, de haver uma enorme cobertura noticiosa pelos canais oficiais russos, mas também sem imagens em direto do terreno, mais uma vez sem haver propriamente indícios de combate, alegações de que houve mortes, mas não se veem imagens propriamente do terreno. Depois também este aspecto estranho que é o ataque foi muito rapidamente detetado e noticiado, mas aparentemente não conseguiram fazer nada em relação a esta força que se teria infiltrado. Enfim, os ucranianos vieram desmentir. Numa operação especial, muitas vezes essas operações são feitas para poderem ser desmentidas, mas neste caso a verdade é que toda esta visibilidade iria contra aquilo que tem sido o modus operandi habitual. As forças especiais ucranianas ou a guerrilha ucraniana, mesmo quando faz ataques no interior do território da Ucrânia ocupada pela Rússia, por exemplo, em Mariupol, etc, por regra, esses ataques depois não são acompanhados de vídeos nem deste tipo de exibicionismo, que é bastante mais típico das forças mais irregulares que estão a combater ao lado da Rússia, por exemplo, do grupo Wagner ou dos chechenos. Portanto, há aqui uma série de elementos estranhos e o desmentido da Ucrânia também nos leva a ter aqui algumas dúvidas. Poderia ser uma operação de falsa bandeira, ou seja, um beligerante fazer uma ação para depois atribuir a responsabilidade a outros. Aqui, a vantagem para o lado russo seria alimentar esta propaganda de que a Rússia está ameaçada, de que isto não é uma guerra distante, mas uma guerra próxima e que a própria população civil russa é aqui um alvo. E essa seria também a grande diferença em relação a todos os ataques anteriores, quer com drones, quer esse atentado contra Alexander Dugin, é que à partida tinham alvos militares ou pelo menos de elementos da elite ligados ao regime e não simplesmente a população civil.

Bruno, e qual é o significado da possível queda de Bakhmut de que tanto se tem falado nestes dias?

De facto, temos falado nestes dias de uma forma mais insistente novamente, mas a verdade é que já falamos há muitos meses e esse é um significado importante, pelo simples facto de se ter tornado aqui o ponto de referência mais frequente em relação à guerra nos últimos meses, acaba por lhe dar alguma importância política. É, de facto, um primeiro ganho depois de muitos meses por parte da Rússia. Em termos de alterações no terreno e em termos de alterações na linha da frente, não é expectável que aconteça algo semelhante àquilo que aconteceu, por exemplo, no caso de Kherson ou no caso de Kharkiv, ou seja, as últimas grandes ofensivas ucranianas, em que se dá um colapso da frente, um colapso da possibilidade de resistência do outro lado e há uma recuperação importante de território a seguir. Aqui a expectativa é que os ucranianos consigam reconstituir a resistência com trincheiras, com linhas defensivas, poucos quilómetros adiante da cidade, mesmo que sejam forçados a retirar para evitarem ficar completamente cercados. E há a informação credível que eles estão muito ameaçados de cerco e que o comando ucraniano pode ter de optar por uma retirada pra evitar uma situação do tipo de Mariupol. A segunda consequência é permitir à Rússia recuperar aqui a iniciativa e optar por onde é que quer continuar os ataques a seguir. Ou seja, quer continuar nesta zona do Donbass, por exemplo, avançar em direção a Kramatorsk ou Sloviansk, ou quer dar prioridade a outras zonas. Sobretudo, a grande questão que temos agora é perceber se isto já é a grande ofensiva russa e se é, de facto, é muito pouco. Não se vê aqui nenhuma mudança radical em termos de capacidade de empregar forças de reserva, de fazer operações com armas combinadas, combinando múltiplas unidades e meios terrestres, aéreos. De facto, não se viu ainda uma mudança desse tipo. No fundo, é uma expectativa que existe desde o início da guerra, que um exército com os meios, com o diferencial até de capacidades que tem a Rússia, que conseguisse fazer isso com muita eficácia e de facto nunca conseguiu. Teremos de ver se seria também o início dessa fase, de uma mudança na forma como se fazem as ofensivas russas, no sentido a se tornar mais eficazes. Se isso não acontecer, será mais uma razão pra acreditar que não será uma viragem radical naquilo que está acontecendo na linha da frente.

Bruno, esta também é uma semana de G20 em Nova Déli, na Índia.

"Todos devemos reconhecer que o multilateralismo está hoje em crise. A experiência dos últimos anos, que incluiu uma crise financeira, as alterações climáticas, a pandemia, também o terrorismo e as guerras, mostra claramente que a estratégia global falhou."

Esta é a voz de Narendra Modi, o primeiro-ministro indiano. Bruno, este é um encontro do G20 inevitavelmente muito marcado pela guerra.

Sim, não porque fosse essa a vontade da Índia. A Índia tentou colocar aqui muito em cima da mesa temas que lhe são mais queridos e que são até históricos na sua política externa, como um grande país do Sul, aliás, provavelmente actualmente o país mais populoso do mundo, já terá ultrapassado a China, um líder histórico do Sul global, por exemplo, logo a partir da sua independência em 1947. Depois vai liderar, por exemplo, toda a questão do movimento dos não alinhados a partir da Cimeira de Bandung nos anos 50. Mas, por exemplo, um dos temas que a Índia queria muito colocar em cima da mesa era a questão alimentar, a questão da escassez de alimentos, da insegurança alimentar, mesmo da fome. Obviamente, isso foi tudo muito ultrapassado ou contaminado pela guerra. Aliás, os Estados Unidos tiveram aí uma utilização inteligente desse tema, que foi recordar, por um lado, que a China e a Rússia muitas vezes vêm falar desses temas, mas quem é responsável por mais dois terços do orçamento da Organização no sistema das Nações Unidas, que trata das questões alimentares e da insegurança alimentar e de combater as fomes da FAO, é pago pelos Estados Unidos e pelos países europeus e pelos seus aliados. Veio recordar também pela voz de Anthony Blinken, isto era uma cimeira dos ministros dos negócios estrangeiros, embora tenha sido aberto obviamente pelo chefe do governo indiano, que um dos grandes desafios aqui é a questão do bloqueio russo aos portos ucranianos e do risco renovado, porque a Rússia voltou a ameaçar isso, de que não iria continuar com aquele acordo mediado pelas Nações Unidas e pela Turquia para fornecimento de cereais e portanto aproveitou a reunião para sublinhar isso mesmo. Um outro aspecto relevante é destacar que este papel do G20 está um pouco abalado por um mundo muito mais dividido, como diz o próprio Modi, de facto, estes modelos de governação global estão um pouco em crise, mas não foi completamente posto de lado. Continua a realizar-se anualmente E embora tenha sido impossível fazer um comunicado conjunto com o acordo de todos, foi possível fazer um comunicado com a presidência indiana fazendo referência a que esta era a posição majoritária, mas a China e a Rússia tinham divergências. E apesar de tudo, tem esta utilidade que é permitir algum diálogo, pelo menos clarificar posições e também fazer alguns encontros paralelos. Ou seja, foi a primeira vez desde o início da guerra que o secretário de Estado americano, o chefe da diplomacia americana, o Anthony Blinken, e o chefe da diplomacia russa, o Lavrov, se encontraram num pequeno encontro bilateral. Portanto, acho que isso é sempre útil haver a possibilidade de manter alguns canais de comunicação. O último ponto que eu destacaria é que, de facto, o G20, à partida, tem um enorme potencial. Reúne 85% do conjunto das economias globais, portanto tem os 19 países com as maiores economias, depois a União Europeia, a soma é around 85% do PIB mundial, 75% do comércio mundial, portanto, sobretudo no campo económico, tem um enorme potencial, mas de facto, isso implica que haja a possibilidade de haver acordo entre as partes. Eu acho que apesar de tudo, na dimensão económica, é mais provável que se continue a conseguir fazer isso, por vezes. Nesta dimensão mais política de negócios estrangeiros, isso é mais complicado, e aí a alternativa são formatos que são conhecidos muitas vezes por minilateralismo. Portanto, o próprio presidente Modi fala dessa questão, de uma certa crise do multilateralismo, mas de facto, a resposta muitas vezes são formatos mais pequenos. E um dos resultados também deste encontro em Nova Déli foi uma nova reunião de um formato desse tipo, o chamado Quad, ou seja, o encontro entre os Estados Unidos, a Índia, o Japão e a Austrália, as quatro potências mais importantes no Indo-Pacifico, que procuram fazer alguma contenção da China. E, portanto, esse tipo de formatos ganha peso, ganha maior preponderância, quando estes formatos mais ambiciosos e com maior número de países, se tornam mais difíceis de gerir por causa das enormes divisões entre eles.

Vamos falar agora de Portugal, com a ajuda deste som do presidente da Assembleia da República.

Nós teremos o enorme prazer de receber o presidente da República Federativa do Brasil, um país irmão, numa sessão solene de boas-vindas que lhe será especialmente dedicada.

Este é um registo do anúncio de Augusto Santos Silva, o presidente da Assembleia da República, no final da conferência de líderes desta semana. Bruno, estamos quase a chegar ao fim do nosso tempo. Perguntava-te se depois destes avanços e recuos, as relações diplomáticas entre Portugal e o Brasil continuam doces, como garantiu Marcelo Rebelo de Sousa?

Eu não daria demasiada importância a este incidente, embora me pareça que é importante que os partidos, sobretudo os partidos portugueses, percebam que não é a sua missão fazer oposição ao presidente do Brasil. Pode haver muitos aspectos da política interna, da política económica do presidente brasileiro que mereçam críticas, até pontos da política externa brasileira, por exemplo, declarações às vezes um pouco equívocas ou até amigáveis em relação a regimes como o da Venezuela ou da Nicarágua, ou mesmo em relação à guerra na Ucrânia, embora aí seja de destacar que o Lula tenha corrigido um pouco a sua posição inicial, que era de facto estabelecer uma completa equivalência entre as partes. Ele já veio deixar claro, nomeadamente no encontro com o chanceler alemão, que a Rússia errou, como ele disse, ao invadir a Ucrânia. Já veio, aliás, também falar nos últimos dias com o presidente Zelenskyy. Portanto, eu acho que a forma inteligente de aproveitar este interesse do presidente Lula por Portugal, que nem sempre é o caso na política brasileira. Eu recordo que o presidente Lula, nos seus mandatos anteriores, veio seis vezes a Portugal, o presidente Bolsonaro veio zero. Portanto, acho que aproveitar este interesse de um presidente do Brasil por Portugal é algo que nos interessa. São obviamente relações bilaterais bastante importantes, por várias razões, desde logo pela importância da diáspora portuguesa, da comunidade de portugueses ou descendentes de portugueses no Brasil e de brasileiros em Portugal. Neste momento, Portugal é o país da Europa com a maior comunidade brasileira, o segundo maior do mundo. Portanto, tudo isso faz com que as relações bilaterais sejam bastante importantes e não devem ficar simplesmente reféns de ganhos políticos internos. Acho que isso aconteceu um pouco, talvez, na gestão desta crise. Obviamente, teria sido desejável que antes de se fazer declarações públicas sobre o que o presidente Lula iria fazer ou não fazer no Parlamento, isso tivesse sido decidido pelo Parlamento. Mas em todo caso, eu espero que rapidamente se ultrapasse esta dimensão mais de política interna e nos foquemos no essencial, que é de facto a importância para Portugal as relações com o Brasil.

Bruno, terminamos este "Cinco Continentes" no Reino Unido. O Brexit está perto de um final feliz?

Eu acho que no Brexit há sempre mais episódios. Em todo caso, eu acho que este acordo, este chamado Acordo Windsor, tem o potencial de ser um virar de página, pelo menos no sentido que questões futuras venham a ser geridas de uma forma muito mais pragmática, com boa fé dos dois lados e sem que se procure aqui ganhar pontos, lá está mais uma vez em termos de política interna, em termos de capas dos tabloides britânicos. Acho que desse ponto de vista, a mudança na chefia do Partido Conservador e no governo britânico, o Rishi Sunak permitiu essa viragem de página. E o acordo é muito importante também porque permite alguma esperança de que as coisas não se degradem mais na Irlanda do Norte. Esse foi sempre o ponto mais delicado da gestão do Brexit, a relação entre a Irlanda do Norte e o resto da Irlanda, ou seja, de uma fronteira terrestre que passa a existir entre o Reino Unido e a Comunidade Europeia, em que a República da Irlanda continua a fazer parte, que poderia pôr em causa o processo de paz, que pôs fim a décadas e décadas de extrema violência política terrorista na Irlanda do Norte. E portanto, tudo o que seja avançar nesse sentido, acho que evidentemente deve ser apoiado. Acho que também é significativo que a própria opinião pública britânica pareça estar a mudar. Atualmente, a maioria dos britânicos consideram que o Brexit foi um erro e mesmo um em cinco daqueles que votaram pelo Brexit acham que foi um erro e portanto acho que isso também ajuda a explicar por que esta viragem de página para um maior bom senso, nomeadamente do lado britânico.

Muito bem, Bruno. Hoje ficamos por aqui, até para a semana.

Obrigado.

Bruno Cardoso Reis regressa na próxima semana com mais uma edição do "Cinco Continentes" para ouvir na Rádio Observador.