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É segunda-feira, é dia de App da Vizinha. Conosco está a Ana Pimentel, a editora tecnologia e startups do Observador. Olá, Ana, bem-vinda.

Olá, boa semana.

Obrigada. Ana, hoje vamos falar de espionagem na nossa App da Vizinha, ou melhor, de um spyware que parece que teve como alvo espiar ativistas, jornalistas e políticos. Não é assim?

É isso mesmo, Ana. É uma das notícias do dia de hoje. Houve, como há pouco estavas a dizer, um consórcio de 17 órgãos de comunicação internacionais que denunciou que vários jornalistas, ativistas e também dissidentes políticos podiam estar a ser espiados. E aqui espiados, falamos de um software criado por uma empresa israelita que se chama Pegasus. E este software, uma vez instalado, o que é que permite? Permite que entidades terceiras acedam a eventuais mensagens, fotografias, contactos e até inclusive que possam ser ouvidas chamadas dos proprietários dos smartphones que correspondem a estes números de telefone. Segundo os vários órgãos internacionais que acabaram por denunciar esta história, e falo de nomes como o jornal britânico The Guardian ou o francês Le Monde. Tudo isto foi também um trabalho das organizações Forbidden Stories e a Amnistia Internacional, que terão tido acesso a uma lista que incluía 50 mil números de telefone selecionados pelos clientes desta tal empresa israelita que comercializa este software. E destes 50 mil, pelo menos, 180 serão de jornalistas, alguns são correspondentes estrangeiros de nomes bem conhecidos também, como o Wall Street Journal, a CNN, o New York Times, 600 serão de políticos, 85 serão de ativistas e também encontram-se outros líderes de empresas e até governantes nesta listagem.

Então este software já era conhecido e comercializado, certo, Ana?

Sim, Miguel. Na verdade, este software é desenvolvido por esta empresa israelita, ela chama-se NSO Group, que até já tinha sido acusada no passado de andar a vender este Pegasus a regimes autoritários. Mas a verdade é que a NSO tem-se defendido dessas acusações, diz que este software só é utilizado para obter informações sobre redes criminosas ou terroristas. O que é certo é que, segundo o que veio agora a público, o que foi revelado nesta segunda-feira, parece que desde 2016 que há estes tais 50 mil números de telefone, que terão sido sinalizados por clientes da empresa, como sendo de potencial interesse para possíveis ações de espionagem. Isto depois começa a levantar várias questões. Uma das questões que veio logo a público durante o dia de hoje foi que um dos contactos sinalizados era o do jornalista mexicano Cecilio Pineda Birto, que foi morto a tiro algumas semanas após o seu nome ter surgido na lista. A empresa israelita apressou-se logo a dizer que nada disto significava que tinha sido através da ferramenta Pegasus que o seu paradeiro foi descoberto pelos assassinos. O que é certo é que agora tudo isto está a saber e também se sabe que além de jornalistas, também há entre estes contactos um chefe de Estado e dois chefes de governo europeus.

Ana, e o que esta empresa israelita, o grupo NSO, como dizias, diz sobre tudo isto que veio a público agora?

Tem negado estas acusações, como seria de esperar. Diz que a investigação feita por este consórcio de jornalistas internacionais está, e agora vou passar a citar, "cheia de falsas suposições e teorias não substanciadas". O que é certo é que apesar de negar, a NSO também admite que vai continuar a investigar todos os relatos credíveis de má utilização deste seu spyware, deste seu software. E, na sequência disso, agir de forma devida. Ou seja, tendo em conta o que estas investigações depois poderão demonstrar, eles admitem agir tendo em conta as conclusões. E como tinha já dito também há pouco, a NSO Group diz que comercializa, na verdade, este software só a agências militares, de segurança e de serviços secretos de 40 países, que não chega a identificar quais são os países. Mas que utiliza este software para monitorizar de forma cuidada o historial de direitos humanos também dos clientes. Ou seja, tenta aqui salvaguardar um pouco a sua posição.

E entretanto, os jornalistas chegaram a encontrar-se com algumas pessoas da lista.

Exatamente, sim, Miguel. Quando tiveram acesso a esta listagem, os jornalistas conseguiram contactar alguns destes nomes, falo dos jornalistas que estiveram a trabalhar nesta investigação, os que vieram tornar tudo isto público. Eles conseguiram aceder a 67 telefones, que estavam ligados aos tais contactos da listagem. Estes telefones foram submetidos a um exame técnico, este exame técnico foi depois feito num laboratório da Amnistia Internacional e a ONG acabou por confirmar que tinha havido pelo menos uma tentativa de infeção por este spyware em 37 destes telemóveis, incluindo 10 na Índia, os restantes tiveram alguns resultados inconclusivos. Uma das coisas que também se soube nesta investigação e nestes contactos que os jornalistas tiveram, é que dois dos telefones pertenciam também a mulheres próximas do jornalista Jamal Khashoggi, que devem estar recordados, foi assassinado em 2018 no consulado da Arábia Saudita, na Turquia. Estima-se que se calhar agora mais pormenores venham a público sobre o que se passou, que investigação é esta, que listagem é esta e o que poderá estar mais por descobrir.

Certo, este é um assunto que vamos continuar a acompanhar e aliás, há um artigo em observador.pt sobre este spyware com mais detalhes. Detalhes trazidos aqui pela Ana Pimentel, a editora tecnologia e startups do Observador. Ana, chegamos ao fim desta rubrica. Hoje é a última edição. Nós não dissemos isso no início, quisemos deixar-te explicar este tema complexo, mas de facto, foram dois anos a contar contigo nesta rubrica. Dois anos em que a tecnologia ganhou espaço aqui na rádio pela tua voz. Portanto, tu agora vais voar, vais enfrentar novos desafios e nós cá estaremos para te acompanhar também e estaremos a torcer por ti. E continuaremos sempre a contar contigo, porque sabemos que vais continuar a ouvir a Rádio Observador.

Vou sim, senhora.

Terás sempre um espaço muito especial na história desta rádio. Portanto, um obrigada muito grande em nosso nome, em nome de toda a equipa da Rádio Observador. Obrigada por teres dedicado tanto à App da Vizinha.

Obrigada eu pela oportunidade. Foram dois anos de App da Vizinha, foi um belo bairro que nós criámos na Rádio Observador, na internet e espero que também um pouco pelos nossos ouvintes que nos foram ouvindo, quer em direto, quer em podcast. Foi uma viagem muito rica, espero eu, pelo menos para mim foi. Espero que para vocês e para os nossos ouvintes também. E obrigada por estas palavras tão queridas. Já me tinha emocionado em muitos sítios, é a primeira vez que me emociono em direto na rádio.

É, não é? Está a ser uma primeira vez para tudo e esta App da Vizinha será sempre a app mais bonita. Ana Pimentel, obrigada, um beijinho para ti.

Obrigada a vocês todos. Muito obrigada. Um beijinho.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.