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Como habitualmente, à segunda-feira, recebemos a visita da Ana Pimentel. Muito boa tarde, Ana. Bem-vinda.

Olá, Nelson. Boa tarde. Para ti também, Aníbal.

Ana, a editora de tecnologia e startup do Observador, está aqui sempre à segunda-feira. E hoje, Ana, vamos olhar um caso bicudo. Há uma série de empresas que estão a fazer um boicote ao Facebook, deixaram mesmo de ter campanhas publicitárias nesta rede social.

É verdade, é mesmo um caso bicudo, Nelson. São já várias as empresas que decidiram boicotar o Facebook nos últimos dias. A mais recente, anunciada hoje, por exemplo, foi a Starbucks. Antes dela, já a multinacional Unilever, que comercializa bastantes marcas, bastante conhecidas, como a Dove, a Bessel ou a Lipton, por exemplo. Também já a Coca-Cola tinha anunciado que iria participar neste boicote ao Facebook. E como é que isto está a acontecer? Todas elas decidiram suspender as campanhas de publicidade que tinham na rede social liderada por Mark Zuckerberg. Por quê? O que é que está na base disto? Está aqui muito a escalada do discurso de ódio e de desinformação que o Facebook permite, e com a qual estas marcas não se revêm e de alguma forma estão a querer contrariar e provocar alguma mudança. A Starbucks, por exemplo, decidiu suspender as campanhas nas plataformas lideradas por Zuckerberg, onde circula o Instagram, porque o Facebook também detém o WhatsApp e o Instagram, por tempo indeterminado. A empresa diz que acredita em unir as comunidades tanto online como offline e que os líderes das empresas têm de se reunir para haver uma mudança real. E sobre esta mudança real, posso falar melhor um pouco mais à frente. A Coca-Cola, por exemplo, anunciou que vai suspender a publicidade em todas as redes sociais, e aqui não é só apenas no Facebook, também inclui o Twitter, a partir de 1 de julho, e que o fará pelo menos durante 30 dias, porque quer reavaliar, diz a empresa também em comunicado, as políticas e standards de publicidade e determinar se são necessárias revisões internas. A Coca-Cola diz até que deve esperar mais dos parceiros de redes sociais para livrar as plataformas de ódio, violência e conteúdo impróprio, e apela claramente a uma maior responsabilização, ação e transparência por parte destas mesmas empresas de redes sociais. Já a Unilever, por exemplo, decidiu suspender os anúncios nas plataformas do Facebook, Instagram e Twitter, nos Estados Unidos, até ao final do ano. Portanto, muita coisa ainda que vai acontecer.

Mais de 100 empresas que estão neste boicote. E por quê? Consegues nos explicar?

Claro que sim. São mais de 100 empresas que querem obrigar Mark Zuckerberg a responsabilizar-se pelo discurso de ódio que existe na plataforma. Como? Deixando de fazer estas campanhas de publicidade na plataforma. Sabemos bem que a publicidade, estas campanhas, são a grande catalisadora de receitas da rede social, representa grande parte da faturação do Facebook. Nenhum de nós paga para subscrever uma conta do Facebook, ou de Instagram, ou do WhatsApp, mas a verdade é que toda a informação que nós depositamos naquela rede social é depois usada para promover estas campanhas de publicidade direcionada às grandes marcas. E agora as marcas argumentam que a rede social não está a controlar a forma como é usada para propagar discursos de ódio. Portanto, há aqui esta grande preocupação, que na verdade, não é nova. As polêmicas não são de agora. O líder da maior rede social do mundo tem sido alvo de várias críticas, porque se recusou publicamente a intervir diretamente nos posts que o Donald Trump fez na rede social. Estas críticas levaram a muitas coisas, motivaram inclusive que alguns colaboradores do Facebook se despedissem, claramente em discordância com as opiniões expressas publicamente pelo presidente do Facebook. O que é que estava aqui em causa? O facto de o Facebook ter decidido não mexer nas publicações que o Donald Trump fez sobre a votação por correspondência e também quando ameaçou usar a força policial contra aqueles que protestassem contra a brutalidade policial, o racismo e a desigualdade social, agora na sequência das manifestações todas provocadas pela morte de George Floyd. Na altura, segundo o The Wall Street Journal, Zuckerberg terá dito inclusive que as publicações de Trump eram profundamente ofensivas, mas que isso não justificava que as empresas privadas decidissem interferir no discurso político. E tem sido sempre esta a opinião que Zuckerberg tem dito publicamente.

Aqui o Facebook agiu de forma diferente do Twitter. O Twitter chegou mesmo a assinalar como pouco confiável informações que Donald Trump deixava nessa rede social.

Exatamente, foi isso mesmo, Nelson. Na sequência desse fact check que o Twitter fez às publicações do Donald Trump, o presidente norte-americano chegou mesmo a abrir uma guerra contra o Twitter. Temos até uma epita vizinha sobre isso, que para quem nos ouvir em podcast, pode ir pesquisar num dos episódios anteriores, porque o Twitter, que é concorrente do Facebook, optou por fazer esse tal fact check às suas publicações e classificá-las como enganadoras, ou seja, que não correspondiam totalmente à verdade. E também que incitavam à violência. Esta opinião foi inclusive publicamente reivindicada por Jack Dorsey, o diretor-executivo do Twitter, que teve aqui uma postura muito diferente da de Zuckerberg, e que quando o Zuckerberg, no Facebook, optou por ir por outro caminho, contrariando aquilo que Jack Dorsey fez no Twitter, acabou por criar um ambiente um pouco mais hostil neste ecossistema de redes sociais. Zuckerberg, na altura, chegou a afirmar que o Facebook tinha uma política diferente da do Twitter, portanto salvaguardou isso mesmo, e que acreditava que não devia ser o árbitro da verdade de tudo aquilo que as pessoas diziam online. Uma opinião que, na verdade, não é nova, se tivermos em conta tudo aquilo que o presidente da rede social já disse desde o caso Cambridge Analytica, não sei se vocês estão recordados, mas a verdade é que apesar de o Facebook ter um sistema de fact checking, onde verifica muitas publicações da rede social para combater a desinformação e a propagação das fake news, têm vindo a abster de verificar afirmações ditas por políticos na sua própria plataforma, por considerar que tal pode ser limitativo da sua liberdade de expressão.

E como é que reagiu o Zuckerberg a este boicote?

Zuckerberg com o anúncio surpresa, também deve ter ficado surpreendido e também um pouco assustado, porque de facto estas empresas representam grande parte das receitas de publicidade do Facebook. Pouco depois de a Unilever ter tornado a sua decisão pública, Zuckerberg revelou que o Facebook vai passar a incluir, houve aqui uma mudança, uma mensagem semelhante à do Twitter em todas as publicações que violem as políticas da rede social, mas cujo interesse público justifique que continuem online. Basicamente aquilo que o Twitter fez com os tweets do Donald Trump. Elas continuavam online, mas tinham aquela referência de que eram enganadoras. A rede social, pelos vistos, vai também incluir neste despoiso uma ligação para uma página interna sobre eleições, com informações sobre os candidatos e outros temas relacionados com a política norte-americana e não só, mas em todas as publicações que inciderem sobre eleições vai haver informação sobre candidatos, uma informação que vem de fontes fidedignas, incluindo as afirmações feitas por políticos. Além disto, as publicações que possam levar à violência, porque era aqui outro grande tópico, que possam levar à violência ou privar as pessoas do seu direito de votar, vão ser removidas independentemente do autor, ou seja, mesmo que sejam políticos. Acho que este boicote está a obrigar mesmo Mark Zuckerberg a dar aqui um passo atrás.

Ana Pimentel, e amanhã, porque é terça-feira, a newsletter Startups.

Nelson, é isso mesmo. Não vai haver um passo atrás na minha newsletter, espero que não. Ali pelo meio da tarde, final de tarde, claro que sim, as novidades sobre os negócios tecnológicos chegam à correio dos nossos leitores, sempre com o update da semana que passou e também com alguma reflexão sobre estes tempos tão conturbados que vivemos de pandemia e digitalização de tanta coisa. Portanto, sim, amanhã Newsletter Startups, como já vem sendo um hábito, que não vai ter nenhum passo atrás, confio que sim.

Combinado. Ana Pimentel, às segundas-feiras à tarde em direto com a app da Vizinha.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.