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Novembro de 1985. Isabel Soares atende o telefone. Quem está a ligar é um dos melhores amigos do pai, o homem que 34 anos antes, Mário Soares escolheu para ser o padrinho dela. Francisco Salgado Zenha tem uma notícia para lhe dar. Uma notícia que vai abalar a família e o Partido Socialista.

Ele falou: "Vamos almoçar os dois". Eu fui almoçar com ele. Disse: "Olhe, vamos viver aqui épocas um bocadinho duras e não queria que isso afetasse de todo as nossas relações." Eu disse: "Claro que não afeta, com certeza." Eu era a afilhada dele. E ele sempre tinha por mim uma grande ternura e, portanto, quis marcar e dizer: "Olha, isto não é contigo, vamos manter e tal, e com certeza."

Zenha decidiu avançar com a candidatura à Presidência da República e enfrentar, finalmente, Mário Soares, o amigo ao lado de quem travou todas as lutas políticas dos últimos 30 anos. A relação entre os dois vem dos tempos da resistência à ditadura. Partilharam a mesma cela. Juntaram-se a Norton de Matos e a Humberto Delgado contra Salazar. Militaram no PCP. Estiveram juntos na fundação do Partido Socialista em 1973. Depois do 25 de Abril, bateram-se contra os comunistas. Travaram a unicidade sindical.

Como se impõe um sindicato único, como se impõe todo um complexo de disposições que são de verdadeiro manietamento da classe operária.

E lutaram por eleições livres na Assembleia Constituinte. Eram tão próximos que até protagonizaram um slogan em conjunto: "Soares e Zenha, não há quem os detenha". Soares referia-se a Zenha como a consciência moral do PS. Mas os anos no poder foram afastando os dois. Criaram ressentimentos e semearam a desconfiança. Só que nunca ninguém imaginou que chegasse a este ponto. O eterno número dois vai enfrentar a figura maior dos socialistas e deixar o partido e as pessoas que sempre o trataram como parte da família, em estado de choque. Talvez por isso, tenha tido um último gesto para com a afilhada e filha de Soares. Quis dizer-lhe que tudo iria correr bem. Só que está enganado. Depois desta eleição, nada voltará a ser o que era. Com a entrada em cena de um novo nome, passam a existir três candidatos à esquerda. Maria de Lourdes Pintasilgo, Mário Soares e agora Salgado Zenha. Além de ser uma luta política, é também uma luta pessoal e de traições. Pintasilgo vai sentir-se traída por Salgado Zenha. Vai propor-lhe uma aliança, sem saber que ele já tinha um plano em marcha. Zenha sente há muito tempo que foi traído por Soares nas guerras internas no PS. E Soares sente-se traído por Zenha. Aquele que tinha considerado um dos melhores amigos está agora no caminho dele. E isso deixa-o perturbado e abatido. Alfredo Barroso, sobrinho de Soares, lembra que ele foi apanhado de surpresa e ficou perplexo. Mas há pior. É que Zenha não vai avançar sozinho. Tem com ele dois outros políticos. E não são dois políticos quaisquer. São os dois maiores inimigos de Mário Soares. Esta é a eleição mais louca de sempre. Uma série em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Urién. Episódio dois: uma traição inesperada.

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18 de outubro de 1980, cinco anos antes de Zenha anunciar a candidatura. Soares vê-se ao espelho enquanto faz a barba. Está furioso com Eanes. Decide ali mesmo que não pode continuar a apoiar aquele cabrão. Há de contar em 2011, ao jornalista e biógrafo Joaquim Vieira. A menos de dois meses das eleições presidenciais, Ramalho Eanes, preocupado com a recandidatura, acaba de anunciar a um jornal que se sente mais próximo do modelo de sociedade da AD do primeiro-ministro Sá Carneiro. É o mais recente golpe contra o PS.

Comuniquei aos jornalistas a decisão do presidente da República de me exonerar. Foi um reflexo de tipo pessoal normal, mas evidentemente que o problema tem também uma leitura política.

Soares nunca lhe perdoou o facto de o ter afastado do governo em 1978. Aliás, soube logo aí que o presidente haveria de criar um partido para tentar derrotar de vez o PS Até tinha pensado em avançar contra o general e tomar a presidência. Só que quase ninguém no partido o apoiou. Preferiram todos juntar-se a Yanes. E agora o presidente tem a lata de dizer que se revê mais na AD do que no PS? Para Soares, basta. António Campos lembra-se bem desse episódio e de como aquela decisão provocou uma cadeia de acontecimentos que, anos mais tarde, vai pôr frente a frente Soares e Zanha.

O Soares desde o primeiro dia que foi ter com o Yanes, me contava: "Este rapaz é um tipo ambicioso e é um analfabeto político. Eu tenho que ir para lá dar-lhe aulas de política." Um dia eu estava no Estoril, em São João do Estoril, ele telefona-me logo de manhã e diz: "Vem, eu preciso urgentemente de falar contigo." Havia a Comissão Política Nacional à noite. Eu chego lá, ele ainda estava a fazer a barba, resolvi opor-me à candidatura de apoio ao Yanes. "Tu és maluco, temos logo a Comissão Nacional convocada. Agora, como é que resolvemos isto?" "Já te digo, demito-me de secretário-geral e acabou. Ele vai montar um partido contra nós e eu não quero ficar nessa ficha." Foi uma barraca monumental depois da comissão nacional à noite. Aquilo partiu-se tudo.

A autossuspensão de Soares vai deixar o Partido Socialista em estado de guerra civil. Salgado Zanha é um dos mais furiosos. Não consegue aceitar que depois de décadas de cumplicidade, Soares tenha tido o descaramento de tomar uma decisão daquela magnitude sem o informar. Está farto de caprichos. Tinha aceitado tudo. Ser a sombra do líder, o homem que verdadeiramente pensa e que ajuda o partido a refletir, para que Soares brilhe e recolha os louros, para que mande e desmande sem prestar contas a ninguém. Salgado Zanha tinha até aceitado a humilhação de não continuar ministro em 1976, o cargo que realmente queria, para, em vez disso, ser líder parlamentar do PS. Uma decisão que Soares tomou sozinho, mais uma vez sem o ouvir e até contra os apelos da mulher, Maria Barroso, que sabia bem o quanto o padrinho da filha queria continuar no governo. Quando se encontram depois da Comissão Nacional do PS, em casa do líder do partido, Zanha grita furiosamente com Soares. Diz-lhe que o que acaba de fazer é inaceitável, uma traição. Soares desculpa-se. Responde que tomou a decisão enquanto fazia a barba e que não tinha tido tempo de informar Zanha, mas mantém o que pensa sobre o presidente Ramalho Eanes. Eticamente, não pode aceitar apoiar aquele homem. Zanha tenta convencê-lo. Apela ao bom senso. Lembra-lhe a vontade da maioria do partido, mas não vale a pena. A decisão está tomada. Depois desse dia, Salgado Zanha nunca mais voltará a entrar naquela casa. De regresso à liderança depois da reeleição de Ramalho Eanes, Mário Soares fica isolado, sem tropas, com o grupo parlamentar e a esmagadora maioria do principal órgão do partido, o Secretariado Nacional, contra ele. Só que Soares não se dá por vencido. Marca um congresso para o Coliseu de Lisboa e desafia todos os opositores a irem a jogo.

É lógico e normal que esses que assim pensam e que estão em divergência comigo, avancem com o nome de um candidato a secretário-geral. Isso é que é lógico.

O grupo do Secretariado apoia Zanha. Tenta convencê-lo a avançar para a liderança, mas ele resiste e acaba por recusar. Quer poupar esse sofrimento ao doutor Mário Soares, justifica-se com sarcasmo. Sem concorrência, a vitória de Soares é fácil. A oposição interna é esmagada. Zanha será afastado da liderança parlamentar e alvo de um processo disciplinar. Durante anos vai manter-se afastado, mas agora o dia do ajuste de contas finalmente chegou. Quando desce da suíte 708 do Hotel Tivoli, em Lisboa, Francisco Salgado Zanha sabe bem o que quer dizer ao país. É verdade que é o último dos candidatos a entrar na corrida e que isso lhe cria naturais dificuldades. Só está a mostrar-se ao país a 15 de novembro de 1985, quando os adversários já têm milhares de quilómetros de rodagem. Mas Zanha sabe como causar impacto e não pensa noutra coisa senão na vitória. No Tivoli, o friso de apoiantes impõe respeito. O ianismo assiste a tudo nas primeiras filas. Melo Antunes, Henrique de Barros, Miguel Galvão Teles e Joaquim Letria, todos homens do presidente, mostram de que lado estão. Os socialistas António Arnaut e Aquilino Ribeiro Machado não faltam à chamada. Até Luísa Gutierrez, mulher do futuro primeiro-ministro, marca presença. O PCP não envia qualquer dirigente, mas toda a gente sabe que os comunistas não se expõem assim. Há momentos em que basta apenas dar um sinal. José Saramago e Urbano Tavares Rodrigues, dois dos grandes intelectuais do partido, são convidados de honra de Zanha A sala não engana. O PRD, o PCP e uma parte importante do Partido Socialista querem Zanha em Belém. E ainda falta Manuela Eanes, a mulher do presidente, que se tornará a grande estrela da campanha. Ramalho Eanes empenha-se pessoalmente. Recebe Zanha no Palácio de Belém, posam juntos para a fotografia, escreve-lhe uma carta de apoio e torna-se o primeiro proponente da candidatura. A segunda é Manuela Eanes. A influência do presidente não se vai esgotar aí. Afinal, alguém tem de contribuir para as contas da campanha. E há um armador de Monção que vai ser particularmente importante nessa operação. António Gonçalves Gomes tem a alcunha de Samarra. É um dos homens de negócios mais conhecidos do norte do país, dono de uma cadeia de supermercados. Conta-se com uma fortuna feita à base do contrabando de café. É um empresário influente, próximo de Pinto da Costa, que terá ajudado a salvar o Futebol Clube do Porto da falência. E próximo do presidente Ramalho Eanes, que há de fazer dele comendador. Um dia encontra-se com Joaquim Letria, diretor de campanha de Zanha. Precisa que ele entregue uma coisa ao candidato.

E então deu-me uma mala, uma malinha daquelas de executive. Achamos bom, como se dizia antigamente. Cheia de dinheiro. Cash. E eu andei com aquilo, guardei aquilo, e andei com aquilo dias sem conseguir passar aquilo ao Zanha, à campanha, nada. Até que finalmente lá apareceu o homem das contas e lá se resolveu isso. Mas esse foi um apoio grande financeiro.

Com dinheiro, estruturas e um candidato reconhecido por todos, nasce oficialmente o movimento ZAP: Zanha à Presidência. Freitas não fica indiferente a Zanha. É fácil perceber por quê. Pinta Silga é uma adversária notável, mas não tem qualquer estrutura partidária a apoiá-la. Representa apenas um perigo relativo. Soares tem sondagens risíveis. Jamais conseguirá unir a esquerda ou recuperar a imagem que deixou enquanto primeiro-ministro. Mas Zanha, não. Zanha é respeitadíssimo no país. Mais importante ainda, tem por trás dele a força do novo Partido Renovador Democrático, promovido pelo presidente Eanes, e ainda a poderosa máquina do PCP. Juntos, os dois partidos representam quase dois milhões de portugueses. São cerca de 33% dos votos potenciais. Além disso, Zanha ataca-o desde o início, onde o afeta mais. Chega a dizer que Freitas é o candidato da União Nacional, o partido de Salazar e Marcelo Caetano, e acusa-o de representar um perigo para a democracia. Logo Freitas, que tinha tido o cuidado de apresentar a candidatura a Belém a 26 de abril. O dia 24 era uma data proibida. Há de responder da mesma forma. Freitas diz que Zanha é o herdeiro dos derrotados do 25 de novembro e quer fazer um ajuste de contas a partir de Belém. A tensão entre as candidaturas escala até ao limite. Não há dia que passe sem que os freitistas, como são conhecidos os apoiantes de Freitas do Amaral, não se envolvam em escaramuças com as chamadas Brigadas Z. E até um detalhe na forma como Freitas se veste vai ser aproveitado para o atacar. O casaco nem sequer deveria ter entrado na campanha. Num país maioritariamente de esquerda, com meio milhão de desempregados, a inflação na casa dos 20%, milhares com salários em atraso, o candidato da direita, e logo aquele candidato, e logo daquela direita, não devia usar aquele casaco. É tudo menos recomendável. Mas Freitas não o larga. Comprou numa loja em Cascais, no outono, para substituir um sobretudo inglês que lhe tinham roubado. Viu uns quantos, mas achou graça àquele modelo tradicional usado pela aristocracia austríaca. Em bom rigor, feitas as contas, até custou metade do preço do casaco anterior. E é uma homenagem simpática a Salzburgo, refúgio para onde se escapa com regularidade para passear com a mulher, Maria José, e fazer uma das coisas de que mais gosta: assistir a concertos de música clássica. Pouco lhe importa que se arrisque a ser chamado de classista ou coisa pior, mas os homens da campanha contorcem-se.

O Loden era a coisa que confesso que a nós nos prejudicou um pouco, porque era uma visão um pouco elitista. E quando o professor Freitas apareceu de Loden, a gente ficou um pouco hesitante, mas pensamos: "O que é que eu fiz? A gente não ia." Era um bocado também desagradável dizer ao senhor para despir o Loden, mas depois aquilo acabou por também ser uma imagem.

Proença de Carvalho está certo. Neste contexto, apresentar-se assim ao país não é a ideia mais brilhante e não ajuda nada a afastar os preconceitos que existem sobre Freitas. Mas a verdade é que metade do país é tomado pela Loden mania, a metade que apoia Freitas, naturalmente. Quem não tem, compra um. E quem não pode comprar, cobiça-o. Veem-se grupos de jovens a passear pelos cafés e associações recreativas do país suburbano e pobre esvoaçando o Loden verde-acinzentado, igualzinho ao do candidato. Usar um laudané, por estes dias, um sinónimo de sofisticação e de modernidade. Isso e os palhinhas, inspirados nos chapéus típicos da Madeira, que alguém decide levar para a campanha e que se tornam um sucesso. É um acaso cósmico, uma daquelas coisas que ninguém consegue explicar, nem mesmo 40 anos depois. Mas que não haja equívocos: na campanha de Freitas, tudo é pensado ao pormenor. Nuno Cintra Torres, que tinha trabalhado com Proença de Carvalho na RTP, é um homem com uma missão. Quer aprender tudo com os melhores especialistas do mundo em campanhas políticas. E os melhores a fazer da política uma festa são, naturalmente, os americanos. No verão de 1985, Cintra Torres aterra em Washington e não desiste até conseguir o encontro com um veterano das campanhas de Richard Nixon e consultor político de Ronald Reagan, Roger Ailes. O mesmo que, 10 anos depois daquele encontro com o português, fundará uma das cadeias de televisão mais influentes dos Estados Unidos e do mundo, a Fox News. Cintra Torres é o grande responsável por pensar a imagem de Freitas em campanha e os valiosos tempos de antena. E é com Roger Ailes que vai aprender três grandes lições. Os consultores não devem tentar mudar a natureza dos candidatos, apenas corrigir alguns detalhes irritantes. Os candidatos não devem menosprezar o próprio instinto. E mais importante, os candidatos nunca devem jogar à defesa. Como confessa o autor do livro "Televisão Política", tudo na campanha de Freitas é pensado à imagem e semelhança de Ronald Reagan.

"And keeping America strong and always searching for peace. Well, nothing is more important than that."

O ator de Hollywood, que se tornou presidente dos Estados Unidos e que tinha acabado de ser reeleito à boleia de uma ideia poderosa: o renascimento da América.

O grafismo da campanha, isso foi como eu escrevo o meu livro, foi completamente influenciado pela campanha de Ronald Reagan, que era um presidente que eu admirava muito e que aproveitei para conseguir autocolantes, "bumper stickers", aquelas coisas que os americanos colam nos para-choques dos carros. E todo o grafismo da campanha de Freitas do Amaral foi inspirado na campanha de Ronald Reagan.

É também isso que Freitas quer oferecer ao país. Liberdade, otimismo, confiança e modernidade, sem crispação e sempre com espírito positivo. Tudo devidamente condensado num slogan de apelo ao orgulho nacional, mas propositadamente despido de ideologia. Afinal, Freitas é um homem da direita mais conservadora, num país sociologicamente de esquerda. Sabe que não pode bipolarizar aquela corrida. A solução sai da cabeça de Daniel Proença de Carvalho, o homem-sombra do candidato. E assim nasce: "Para a frente, Portugal".

Além da crise económica e social, havia uma coisa que era a crise psicológica extrema. O país não acreditava, os portugueses estavam sem esperança. Havia uma crise de pessimismo terrível. Os portugueses são sempre um bocadinho assim, mas naquela altura ainda era mais. E nós viemos como um onda de choque de otimismo. Foi mesmo uma pedrada no charco, a sério. "Mas para a frente, Portugal. O passado, esqueçamos o passado, para a frente." E toda a campanha foi gizada nesta ideia: "Vamos fazer os portugueses acreditarem que é possível."

Só fica a faltar um hino que ponha o país a cantar com e por Freitas do Amaral. E a grande inspiração virá de novo da América. Não podia ser de outra maneira. Quando chega às rádios portuguesas, a música criada por aquela verdadeira constelação de estrelas é um sucesso instantâneo. "There comes a time" Tommy diz altas tabelas e não há português que não saiba trautear "We Are the World". 1985 é o ano da solidariedade pop. E é também esse o espírito que vai inspirar o hino de Freitas do Amaral. A música é criada durante uma tarde quente de julho, no Estoril, na casa de Proença de Carvalho, também ele músico e amante de jazz. É escrita pelo poeta e jornalista Torcato Daluz, com composição de Rui Ressurreição, administrador da RTP, elemento do quarteto de jazz de Proença de Carvalho e autor de alguns dos melhores jingles publicitários do país. Tem arranjos do maestro alemão Tilo Krassmann, autor do estrondoso êxito "Vila Faia", a primeira telenovela portuguesa. E é cantado pelo coro de Santo Amaro de Oeiras, com uma participação especial de Nicolau Breyner. Pela paz, pela riqueza. É Portugal. A música torna-se um sucesso imediato. Até a maior artista do país se entusiasma. A campanha de Freitas, que já tem Eusébio a marcar gols nos tempos de antena, chega a usar um ramo de flores pra tentar convencer o outro grande símbolo nacional a juntar-se à campanha.

O Eusébio fez um tempo de antena em que, num estádio, já não me lembro qual é o estádio, ele mete um gol e diz: "Para a frente, Portugal." Era uma coisa fantástica. E liguei ao João Braga, que era muito amigo dela. E pedi-lhe que ela convidasse a Amália e a mim para termos um jantar lá em casa dela. E fomos.

Ela já tinha ouvido o hino e em casa estava a dizer: "O hino é muito bonito. A Amália cantou." E a Amália cantou o hino e a gente ficou arrepiado. O hino em si mesmo já era muito bonito, mas cantado pela Amália, aquilo era uma coisa impressionante. Tentei-lhe explicar que a campanha era uma coisa positiva para o país, o futuro. Não temos nada contra ninguém, a Amália dava um contributo fantástico, porque era um símbolo, etc. E eu fiquei na dúvida. Pareceu-me até que ela estava disponível. Depois lembro-me, por acaso, no dia seguinte mandei uns ramos de flores com um cartão simpático. E ela ligou-me. Não vou comprometer. E eu percebo perfeitamente, ainda hoje acho que ela fez bem.

As coisas estão cada vez piores para Mário Soares. No dia em que reage à candidatura de Zanha, não se refere sequer ao antigo número dois pelo nome. Limita-se a dizer que há apoios que mudam os candidatos, independentemente da vontade deles, e que o país sabe que os não democratas apoiam um democrata quando isso lhes serve, quando esperam fazer dele um instrumento. Em público, Soares tenta manter a ferocidade do animal político que toda a gente reconhece que é. Não suporta que lhe falem mais da possibilidade de desistir ou que o aconselhem a estar preparado para o pior dos cenários. Quando Almeida Santos lhe diz que deve estar pronto para perder com honra, irrita-se e responde que não perde nem a feijões. Mas as coisas não são assim tão simples. Além de impopular em todo o país, Soares tem apenas o apoio de uma parte do Partido Socialista, que acabou de ser derrotado de forma humilhante nas urnas. A direita está unida em torno de uma candidatura que arrasta multidões e o resto da esquerda está com Zanha. Soares sente que está perdido, mas não vai cair sem dar luta. Monta não uma, mas duas sedes de campanha. O amigo Fernando Martins, presidente do Benfica e dono do Hotel Altis, empresta cinco andares de um edifício recém-erguido na Avenida Conde de Valbom para os serviços do MASP, o Movimento de Apoio Soares à Presidência. O empenho é tal que é o próprio Soares quem faz a lista de materiais necessários, incluindo interruptores e mobílias. Já o velho palacete da Praça Duque de Saldanha, que lhe é cedido por um amigo empreiteiro, vai servir de quartel general para a comissão executiva da candidatura. É lá que se reúnem os grandes cérebros da campanha. Almeida Santos, Jaime Gama, António Guterres, Jorge Sampaio, António Barreto, Vasco Polido Valente, Alfredo Barroso e António Campos. O cineasta António Pedro Vasconcelos é o arquiteto da campanha televisiva de Soares. Tem a ajuda do realizador Nuno Teixeira, que já tem no currículo sucessos como "Vila Faia" e o "Tal Canal", e também de um outro sobrinho de Soares, o cineasta Mário Barroso, que traz de França uns técnicos tão bons que deixam todos impressionados. Bons e caros. Custam 25 mil contos, mais 3 mil contos em material. O diretor de campanha, o comandante Gomes Motta, é uma escolha pessoal de Soares e será uma peça essencial para o socialista, lembra Alfredo Barroso, sobrinho e conselheiro de Soares.

Quem sacou a empresários dinheiro e sabia fazê-lo muito bem, foi o comandante Gomes Motta. O comandante Gomes Motta era muito amigo de Mário Soares e teve um papel fundamental na campanha, sem dúvida nenhuma.

Apesar das más perspetivas, o dinheiro vai chegando. Vem dos empresários que Gomes Motta consegue convencer, de José Manuel de Melo a Belmir de Azevedo. E vem das relações internacionais de Soares, dos amigos do SPD alemão, dos socialistas franceses, dos espanhóis do PSOE. Vem até de Macau. E vem mesmo muito dinheiro de Macau.

Lembro-me de uma personalidade conhecida, meu amigo, e sobretudo amigo do Mário Soares, que entrou no meu gabinete no Saldanha e disse: "Olha", era papel de mercearia, "queres ver?" E arrumou assim um bocadinho, era uma cambada de notas. "Isto é Macau, isto é o contributo de Macau. Posso guardar aqui?" "Eu acho que deves pôr isso num cofre." "Não, fica aí bem no armário teu." Nunca foi preciso mexer naquele dinheiro. Para que aquele dinheiro foi usado? Para a Fundação Mário Soares.

No Palacete do Saldanha, os egos são enormes, sobretudo o do candidato. E há um clima de suspeição pouco próprio de uma campanha eleitoral. Soares desconfia de todos, sobretudo dos amigos que Zanha deixou no PS. Até se temia que António Guterres fosse, na verdade, um agente duplo, lembra António Barreto, membro da campanha de Mário Soares.

Para nós era evidente que havia dentro do Partido Socialista, nos tops, nos de cima, grandes simpatias pela candidatura do Zanha, que havia simpatias pela candidatura de Pinto Silva Havia quem tivesse hesitações em estar com o Mário Soares. Talvez melhor não estar com ninguém. Esse assunto foi vivo, esteve presente até praticamente aos últimos dias de campanha. Às vezes havia conversas que não eram tidas explicitamente dentro de toda a gente, porque sentia-se que havia simpatias muito fortes, mesmo de pessoas que estavam na campanha. Estou a pensar no António Guterres, o Jorge Sampaio, que estavam lá, estavam na campanha, estavam na comissão, mas sabia-se que tinham simpatias pelos outros candidatos e que mantinham a conversa, a coisa corria. Havia uma tensão, se quiser. Não creio que houvesse ou que tivesse havido traição, não creio que não, mas havia uma tensão real e portanto alguns assuntos escolhiam-se outros momentos de decisão ou de conversa.

O ritmo de trabalho é frenético. Soares ouve muita gente. Sempre gostou de um bom debate, ainda que seja sempre ele a ter a última palavra. Prepara-se ao detalhe. Um homem que parte para a corrida em último lugar não se pode dar ao luxo de ser apanhado desprevenido pelos adversários ou pelos jornalistas. Os homens de Soares entregam-lhe um manual confidencial. Lá dentro estão 650 possíveis perguntas ou temas difíceis com os quais preveem que possa ser confrontado. A imaginação não tem limites. Os conselheiros conseguem ser ainda mais incômodos do que jornalistas e adversários. Os debates são preparados com dois ou três dias de antecedência. É interrogado pelos homens mais capazes da candidatura, vezes e vezes sem conta, e cada resposta é analisada ao pormenor. Até aceita pela primeira vez que os discursos sejam escritos por outras pessoas. Começam a ser mais curtos e mais cirúrgicos. Também acha uma perfeita loucura mal aparecer nos primeiros tempos de antena e não ser ele o maior protagonista dos cartazes da rua. Mesmo assim, vai aceitar a sugestão de Harry Walter, o consultor alemão que tinha trabalhado nas campanhas de Willy Brandt e Helmut Schmidt, amigos e aliados de sempre de Soares. Aparecem a fadista Hermínia Silva, o campeão olímpico Carlos Lopes, Humberto Coelho, estrela do Benfica e da Seleção Nacional, e Adriano Jordão, pianista de renome internacional. São eles, e não Soares, as estrelas dos cartazes. É que a cara dele já os portugueses conhecem e nos últimos anos não tem sido muito apreciada.

Deu-nos uma sugestão formidável que nós aproveitámos, porque o Mário Soares é um tipo tão conhecido e apesar de tudo tão popular, não precisam tanto de usar a imagem dele. Porque é que vocês não escolhem imagens de pessoas da sociedade civil, que o apoiem e fazem os cartazes com eles e nesses tempos de antena, puxam também por essas pessoas.

Ao mesmo tempo, a mulher de Mário Soares não fica parada.

Não é difícil acompanhar o meu marido. Difícil, quer dizer, quando a gente age por amor, quando o que nos liga é uma grande ternura, uma amizade profunda, eu acho que não é difícil.

Maria Barroso lança-se à estrada para fazer uma verdadeira campanha paralela. A ideia não parte de Soares, nem da mulher. O staff do candidato é que percebe que estava a desperdiçar um ativo. Maria Barroso alarga as fronteiras da candidatura e traz votos que Soares afasta.

Ela era muito mais capaz de cativar e de nem sequer suscitar a animosidade dos comunistas, porque ela tinha aquela maneira de ser dela, muito delicada. E além disso, havia também a memória do que ela tinha feito. Ela tinha sido a declamadora que tinha declamado todos os grandes poetas da esquerda, que acompanhava o coro da Academia dos Amadores de Música Lopes Graça, e a PIDE andava sempre atrás e tentava boicotar.

Maria de Lourdes Pintasilgo não fica menos chocada do que Soares com a entrada de Zanha em campo. Conhecem-se perfeitamente. Dois dias antes da apresentação oficial da candidatura dele, tinha recebido o casal Francisco e Irene Zanha para um almoço prolongado. Ironia das ironias, tinha convidado o antigo número dois do PS para ser mandatário da campanha dela. O que a magoa verdadeiramente nem é Zanha, é a atitude de Eanes, que conspirou contra ela desde o primeiro minuto. Só encontra uma palavra para descrever aquele gesto: traição. Já para não falar dos comunistas. A ofensiva de que é alvo por parte do PCP torna-se esmagadora. Álvaro Cunhal, que antes da campanha a procurava frequentemente para conversar sobre o estado do país, deixa de a contactar Ângelo Veloso, o candidato oficial do partido, é pouco mais do que um fantoche e só alguém muito desprovido de faro político é que ainda acredita que se vai manter na corrida. Os meios do PCP passam a estar todos ao serviço de Salgado Zenha. Nos bastiões comunistas no sul do país, onde Pintasilgo é mais forte, o PCP faz campanha porta a porta para exaltar Zenha e combater a antiga primeira-ministra. Sabem que quanto mais votos tiver Pintasilgo, mais difícil será para Zenha passar à segunda volta. Soares e Zenha sentam-se frente a frente. O ar está carregado de tensão. Soares pede que lhe ajeitem a cadeira. Zenha limpa os óculos. Não trocam uma palavra. Passaram o último mês e meio a lançar acusações um contra o outro através dos jornais. Zenha desconsidera Soares. Diz que as hipóteses dele são meramente académicas. Chega a sugerir que nem lê o programa do adversário por ser uma perda de tempo. Soares não fica atrás. Acusa Zenha de estar a tentar destruir o PS e de trair o partido em nome de uma candidatura frentista e revanchista, sem condições de dar um futuro de estabilidade aos portugueses. Agora, vão finalmente enfrentar-se em directo perante milhões de pessoas. Os dois amigos de longa data, que a política veio desunir, estão nos estúdios da RTP. No meio deles está apenas o jornalista Miguel Sousa Tavares. Dali a poucos segundos, vai começar o debate mais duro da vida de Soares e de Zenha. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.

Completamente mentira. Isso foi divulgado por um senhor que é um aldrabão político, e eu digo aldrabão com todas as letras, porque ele ainda está vivo.

Nós sentíamos uma resposta na rua como nunca se tinha vivido.

É, em primeiro lugar, uma candidatura de visão da esquerda. É, em segundo lugar, uma candidatura fratricida. Se porventura se entende que ele é meu irmão, ele não é meu irmão. Não é, nunca foi, nem nunca será.

"A Eleição Mais Louca de Sempre" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, e tem banda sonora original de Samuel Úria. O guião e as entrevistas são de Miguel Santos Carrapatoso. A sonoplastia e desenho de som são de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube e da RTP. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast.

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