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Mário Soares passou o dia a almoçar com pescadores em Peniche e a dançar com varinas na Nazaré, entre foguetes no ar, abraços e beijos. É noite escura quando finalmente se aproxima da Marinha Grande. Subitamente, um enfermeiro, coordenador local da campanha, intercepta a caravana. Tinha levado uma sova. Pede por favor a Soares que volte para trás. Diz-lhe que há uma multidão a umas centenas de metros, que já lhe tinha amolgado o carro e que ameaça não deixar passar ninguém. À entrada, há um cartaz onde se lê: "Moscovo". E ainda avisam: "Se o Mário Soares entra na Marinha Grande, será morto". Soares sabia que ia ter uma recepção difícil. António Carneiro Jacinto, jornalista com ligações ao PS, que faz as vezes de director da caravana, já tinha sido alertado para o risco daquela incursão. E também ele tinha aconselhado o candidato a inverter a marcha. Soares vai entrar no feudo comunista mais a norte do país. Um bastião vidreiro, profundamente afetado pelo desemprego, pelos salários em atraso e pela crise. E, para aquelas pessoas, ele é o grande responsável por essa situação. Mas Soares nem quer pensar nisso. Era o que faltava não poder circular livremente pelo país. Quando chega ao largo onde é esperado, repara num grupo com bandeiras pretas. São umas centenas, bem mais do que os apoiantes da candidatura. Sai do carro acompanhado por Carneiro Jacinto e pelo elemento da PSP destacado para o proteger. E é nesse momento que a situação se descontrola. Os quatro candidatos estão na reta final da primeira volta e ninguém sabe verdadeiramente o que vai acontecer. As sondagens, algumas encomendadas pelas próprias candidaturas, são publicadas e traficadas entre campanhas e jornalistas a uma velocidade vertiginosa. Têm pouca ou nenhuma credibilidade. Freitas do Amaral é o claro favorito. Salgado Zenha não admite outro cenário que não a passagem à segunda volta. Mário Soares já não tem sondagens de 8%, mas continua a precisar de quase um milagre. A esquerda radical e o PRD estão com Zenha. E nem o próprio PS está todo mobilizado em torno da candidatura dele. Maria de Lourdes Pintasilgo já não acredita verdadeiramente. Mas há uma coisa, e só uma coisa, que a move: evitar que Eanes e Zenha, os dois homens que a traíram, saiam vitoriosos. A tensão escala. De norte a sul, há notícias de agressões entre apoiantes das várias candidaturas, cartazes rasgados, material de propaganda destruído e sedes vandalizadas. Mas nem isso permitiu antecipar o que vai acontecer agora. Esta é a eleição mais louca de sempre, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Uriá. Episódio quatro: Portugal não é Moscovo.

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Soares avança em direção à fábrica de vidro dos irmãos Stephens, mas é rapidamente engolido pela multidão. Está cercado. Leva um primeiro murro na cara que quase o derruba. Afasta-se, dá dois passos e enquanto procura recuperar o equilíbrio, é novamente agredido. No preciso momento em que um dos agressores se prepara para lhe acertar com um pau, o segurança consegue pôr-se à frente e tenta proteger o candidato com o corpo. A pancada é tão violenta que fica a sangrar abundantemente da cabeça. Soares é atingido no ombro e nas costas. Naquela confusão de braços, pernas, gritos e encontrões, a comitiva do socialista consegue forçar a passagem e refugiar-se finalmente na fábrica. Será ali, depois de ter sido atacado, empurrado e insultado, que Soares fará, de improviso, um dos melhores discursos da campanha.

O povo português pode saber hoje, aqui, na Marinha Grande, o que é a violência e o que é o espírito antidemocrático dos partidários de Salgado Zenha e dos partidários de Álvaro Cunhal e de Ramalho Eanes. Espancaram gente da minha comitiva. Eu próprio fui agredido, mas isso não me impediu de circular em Portugal, porque Portugal é uma terra de liberdade, não é Moscovo.

A notícia das agressões a Soares na Marinha Grande corre rapidamente o país. Quando chega aos ouvidos da equipa do socialista, passa a haver um único objetivo: conseguir as imagens captadas pela RTP e enviá-las rapidamente para Lisboa. Alfredo Barroso, sobrinho e conselheiro de Mário Soares, recorda que vão ser o último grande trunfo dos tempos de antena do candidato.

O que se passou em relação à Marinha Grande foi o seguinte: houve um incidente e o Nuno Teixeira, que é um homem da televisão, telefonou-me da Marinha Grande. Isto hoje pode-se contar. "Alfredo, você sabe que houve aqui um incidente complicado, não é? E eu agora estou hesitante se peço ao meu colega da RTP que me empreste a cassete pra eu poder enviar-lhe pra aí." E eu disse: "Mas está hesitante por quê?" "Porque isso não se faz", dizia ele. Eu disse: "Tá bem, então faça, se não se importa." E ele fez e conseguiu mandar. E nós conseguimos meter no tempo de antena que estávamos a fazer nessa noite.

Os apoiantes do socialista correm pra Leiria pra assistir ao primeiro comício depois da agressão. A filha Isabel recorda-se de como naquela noite existia alguma coisa diferente no ar, uma energia e um magnetismo que não se tinham ainda visto. A campanha parece ter virado a favor de Soares.

Eu lembro que estava em Lisboa e o meu primo Alfredo, que era diretor de campanha, me disse que tinha havido um incidente na Marinha Grande, que tinham batido nele e no segurança dele, que aliás, teve que ser hospitalizado e tratado, etc. E eu fui até com o José Manuel Galvão Teles, lembro perfeitamente, fomos os dois para Leiria ver com ele, ver o comício. E de facto, depois foi um comício histórico, foi um comício com uma energia e com uma determinação fantástica.

Soares tinha apostado tudo na ideia de que só ele representava a esquerda democrática, tolerante e livre, o único garante da paz social e da estabilidade política. Agora, vê-se finalmente vingado dos três grandes rivais. Zanha, Eanes e Cunhal são apontados como os autores morais daquela cena de violência. Pior, há testemunhas que garantem ter visto autocolantes do Zap, o movimento Zanha à presidência, entre os agressores. A esta distância, 40 anos depois do ocorrido, António Barreto não tem dúvidas. A Marinha Grande foi o símbolo perfeito que a campanha de Soares procurava desde o início.

Quando foi essa coisa da Marinha Grande, na campanha, no Masp. Eu estava lá no Masp nessa altura, era o fim da tarde, o princípio da noite, era por aí. E chegou a notícia: "Bateram no Soares." Houve aquela perplexidade, bateram como? De repente, um taco de beisebol na cabeça, está em coma durante 15 dias. Não, deram-lhe uma bofetada, mas não acertaram bem nele, acertaram mais no guarda-costas e nele só acertaram de raspão. Mas obviamente que o símbolo ficou de pé. E é curioso porque o símbolo teve importância. Eu acho que deu o solavanco, afunda a ideia de pensar que, afinal de contas, eles batam, matam, as esquerdas, o PC, os militares, o que for.

A real gravidade do que aconteceu na Marinha Grande foi sempre um assunto mal resolvido para os adversários de Soares. No mesmo dia, Cunhal havia de acusar os guarda-costas do socialista de terem provocado tudo. Houve até quem jurasse ter visto pistolas nas mãos dos seguranças de Soares. Mesmo passado todo este tempo, Joaquim Lutria, porta-voz da candidatura de Zanha, mantém uma tese semelhante. Soares até pode ter sido agredido, admite, mas todo o caso foi explorado até o limite do razoável.

Foi muito exagerado e a imprensa era toda Soares, quase toda.

Isso prejudicou a candidatura do Zanha?

Prejudicou. Prejudicou e bem. Bem do lado do Soares. Acho que foi uma atitude inteligente, embora pouco simpática. Mas valeu a pena.

Mesmo tendo condenado veementemente aquela agressão a Soares, Zanha não percebe o real impacto da Marinha Grande. Continua a só ter um cenário na cabeça: vai passar à segunda volta. E depois sim, vai derrotar Freitas do Amaral. Mas a campanha de Zanha tem um enorme problema: o próprio Zanha. Ele tem aversão à política espetáculo. É irônico e mordaz, e isso faz dele pouco empático. Tem um temperamento tímido, é bastante distante e frio na rua. Prefere um debate aos banhos de multidão. Dispensa grandes conversas com o núcleo de conselheiros mais próximos e chega a parecer arrogante, recorda Joaquim Lutria.

Era um homem muito interessante, de facto. Era um homem superiormente inteligente, muito culto e com história, com passado. Não foi fácil trabalhar com ele. Às vezes até parecia um bocado arrogante. Não é que o fosse, mas as arruadas, que agora estão muito na moda, era uma coisa que ele não gostava.

Ana Gomes, então uma jovem diplomata e consultora de Ramalho Eanes, viveu de perto a candidatura Além de ser apoiante de Zanha desde o primeiro minuto, o futuro marido, o embaixador António Franco, outro aliado de anos, fez parte do grupo que ajudava a pensar a estratégia. E recorda que todos perceberam que Zanha não tinha a flexibilidade tática que uma campanha daquelas exigia.

Tendo ele tremendas qualidades, também tinha alguns defeitos. Sobretudo, para fazer uma campanha eleitoral, que já era muito midiatizada. Havia muita tensão, às vezes, na comissão política, mais perto do próprio Zanha, porque ele não era uma pessoa fácil de se moldar. Não ia sorrir quando lhe diziam para sorrir. Não ia suavizar a palavra que ele entendia que era a que melhor correspondia à sua ideia. Portanto, não foi um candidato fácil de gerir quando, no fundo, se está numa competição com outros formidáveis candidatos.

Os conselheiros de Mário Soares estão reunidos no Palacete do Saldanha. Para além do grupo do costume, estão também na sala Clara Ferreira Alves e Maria Filomena Mónica. Há pelo menos duas horas que estão ali a pensar em conjunto hipóteses de slogans para a campanha. Vão apontando tudo numa lista, tão longa como frustrante. Não há uma única ideia que se aproveite. É nessa altura que entra um grupo de rapazes, membros da juventude de apoio a Soares. Recorda Alfredo Barroso.

E entraram por ali adentro. Já não me lembro a propósito de quê, se queriam falar comigo. Foi o António Pedro ou o António Barreto que se voltou para eles e disse: "Vejam lá, nós estamos aqui há que tempos a tentar encontrar um slogan que seja ótimo para o Mário Soares." E há um que diz: "É fácil, o Soares é fixe." Era um cara do CDS. E nós ficamos arrasados. O que nós andávamos a fazer durante horas? Nós, com cérebros que julgávamos privilegiados, não encontramos. E entrou um puto e disse: "Ah, o Soares é fixe". E pegou de uma maneira absolutamente extraordinária.

Ainda discutem se vale a pena mudar para "Soares é varil", mas chegam à conclusão de que seria mais elitista. Sem esforço aparente, Adelino Vaz, antigo dirigente da Jota do CDS, um miúdo que se mudou para aquele lado da trincheira por não gostar de Freitas do Amaral, tinha acabado de inventar um dos mais bem-sucedidos slogans da história da política nacional. Nada prepara o staff de Freitas para aquele comício na Fonte Luminosa, em Lisboa. É quinta-feira, 23 de janeiro de 1986. Amanhã, tem 10 ações marcadas na margem sul, mas hoje o dia de Freitas vai ser totalmente dedicado aos eleitores da capital. Primeiro, um almoço numa casa de fados, depois, um passeio pelo Bairro Alto e, a seguir, um desfile pelas Avenidas Novas, por onde, dias antes, os apoiantes andaram diligentemente a distribuir bandeirinhas e confetes pelos moradores. O entusiasmo é enorme e todas as esperanças estão apontadas ao grande comício desta noite. "Se enchermos a Alameda, ganhamos à primeira volta", vaticina José Miguel Judice, um dos conselheiros de Freitas do Amaral. A zona em frente à Fonte Luminosa já está a ficar composta, mas Freitas ainda tem uma última paragem pela frente. Janta em família, em casa da mãe, com a mulher e os filhos. Quando saem para a Avenida António Augusto de Aguiar, são surpreendidos por algumas centenas de jovens apoiantes, que combinaram fazer a pé, a partir dali, o trajeto de 2 km até o local do comício. Um dos grupos traz um cartaz: "Deus, família e pátria em Portugal, só com Freitas do Amaral". Freitas segue de carro, recorda o filho Domingues Amaral, que também faz parte da comitiva.

Fui para os carros, às 22:00 horas vamos para o comício. E nós a achar que íamos entrar por trás. A polícia faz esta coisa extraordinária que é atravessar a Alameda. Tinha uma grande multidão. Nós dentro dos carros e as pessoas a baterem nos carros, de entusiasmo, obviamente. Nós assim: "Vamos morrer aqui todos, esta gente está louca".

Ao microfone, o animador, o Silva dos Comícios, faz as contas por alto e anuncia que estão ali 600 mil pessoas.

Bateria, bateria, tudo bateria. Pensei: "Vão arrebentar os vidros todos". Não fazem ideia o que era as bandeiras e tudo a bater nos carros.

Não fosse a reação rápida de Freitas, reconhece o filho, então com 18 anos, podia ter corrido muito mal.

E aquilo só parou porque o meu pai, a certa altura, teve um momento de lucidez, abriu o teto de abrir do carro e foi para o teto e começou a dizer adeus, e as pessoas começaram a se afastar e deixaram de bater no carro. Era o Freitas, ia ser engolido pela própria multidão entusiasmada.

Já com toda a família de Freitas do Amaral em cima do palco, os dois filhos, as duas filhas e a mulher, Maria José, o comício arranca finalmente. Cavaco Silva é o primeiro a discursar. Ao lado do candidato que escolheu, diz que está ali para manifestar um apoio claro e inequívoco de todos os sociais-democratas, os verdadeiros sociais-democratas, a Freitas, o único capaz de garantir a estabilidade política em Portugal. Freitas associa-se ao movimento iniciado por Cavaco nas eleições legislativas do ano anterior e centra-se na grande mensagem da campanha: esperança e orgulho em ser português. Enquanto o candidato fala, a multidão lança foguetes. Faltam apenas três dias para as eleições e Freitas do Amaral tem a certeza de que vai ganhar. Na mesma noite, Salgado Zenha sobe ao palco do Pavilhão dos Desportos, também em Lisboa. Foi naquele mesmo local que 11 anos antes, o PS arrancou para o grande combate contra a unicidade sindical e o PCP. A luta que fez de Zenha um herói dos socialistas. Zenha promete aos apoiantes ser o presidente de todos os portugueses, o presidente do povo, da esperança e do futuro. Acima de tudo, promete a vitória. Mas há algo que não bate certo. A campanha sofreu inflexões que não são próprias de alguém com o perfil de Zenha. O alvo principal manteve-se Freitas, claro, mas à medida que os dias foram passando, foram subindo de intensidade os ataques a Pintasilgo. Acusou-a de ser uma candidata excêntrica, de ter sonhos chilreados e de sofrer de um anti-ianismo súbito e primário. Cunhal e os comunistas batem todo o terreno que a antiga primeira-ministra percorre. As notícias sobre destruição de cartazes e material de propaganda de Pintasilgo são cada vez mais comuns. Ao mesmo tempo, os ataques à candidatura de Soares, que Zenha sempre classificou de perfeitamente irrealista e votada ao fracasso, também se tornam mais violentos. Mas para quê criticar tanto e com tanta violência os adversários à esquerda, se a passagem à segunda volta estava garantida? Porque, como recorda Joaquim Leiria, talvez não estivesse tão garantida assim.

Toda a gente achava que ele ia ganhar. Eu perguntei: "E se perder?" Ninguém perguntou. E foi ele que disse: "Olha, isso é uma boa pergunta. Temos que pensar nisso." Eu disse: "Eu acho que é mais provável." Não é que eu pensasse que ele ia perder, mas pensei que devíamos contemplar essa hipótese, porque era tudo vitória.

Na noite das eleições, as poucas pessoas que estão no número 24 da Rua Luciano Cordeiro, no centro de Lisboa, a sede de campanha de Maria de Lourdes Pintasilgo, já sabem que ela não vai passar à segunda volta. A expectativa, ainda assim, é enorme. Não é indiferente perceber quem vai enfrentar Freitas. Se Soares ou Zenha. A elevada abstenção causa calafrios e faz temer o pior: que o candidato que veio para dividir e derrotar Pintasilgo, possa passar à segunda volta. A um quilómetro dali, na Latino Coelho, Zenha está no quinto andar da sede de campanha, de mãos entrelaçadas a segurar o queixo, corpo alongado sobre uma cadeira e olhos postos na televisão. Ninguém diz uma palavra. No quartel general de Soares, os elementos do núcleo duro da campanha estão fechados algures no piso superior do Espaço Valbom. Não se atrevem a descer enquanto não souberem os primeiros resultados. As primeiras projeções chegam através da Rádio Renascença. Às 20h, a RTP confirma a tendência. As máquinas das candidaturas vão percebendo rapidamente como é que vai acabar aquela noite. Freitas do Amaral, 46%. Mário Soares, 25%. Salgado Zenha, 20%. E Maria de Lourdes Pintasilgo, 7%. Soares fica à frente de Zenha por apenas cinco pontos percentuais. Confirma-se. Se Pintasilgo tivesse desistido, os 7% que conseguiu provavelmente teriam ido para Zenha e não teria sido Soares a passar à segunda volta. Pintasilgo é a primeira a reagir. Assume as consequências e as responsabilidades pessoais pelo resultado, mas não resiste a uma última vingança contra Eanes, para ela, o grande derrotado da noite. Diz que o general cometeu um erro histórico comum àqueles que cumprem mais do que um mandato. No primeiro, há pudor e humildade democrática. No segundo, assiste-se à sobrevalorização do poder. Zenha desce depois de a ouvir. O mesmo Zenha que minutos antes estava prostrado e melancólico numa cadeira, fala aos jornalistas com expressividade nas mãos.

Perdemos uma batalha, mas não perdemos a luta.

Recusa procurar culpados por aquele resultado e não hesita. Entre Freitas e Soares, sabe bem que lado vai escolher. Mário Soares. Prefere não fazer especulações sobre o futuro político. E despede-se com a frase de sempre: "Só é vencido quem desiste de lutar." No Espaço Valbom, enquanto Soares está a ser maquilhado à pressa numa casa de banho para logo a seguir falar aos jornalistas, os apoiantes assistem à declaração de Zanha num silêncio que só é interrompido por algumas vaias. Respira-se finalmente de alívio. Contra todas as expectativas, Soares sobreviveu, mas vai enfrentar na segunda volta um adversário que parece imbatível. Quando finalmente aparece, Soares está calmo. Tinha acabado de fazer uma recuperação que muitos julgavam impossível e isso ninguém lhe pode tirar. Mas a verdadeira luta começa agora. Terá de unir a esquerda toda para derrotar Freitas do Amaral.

A esquerda continua a ser largamente maioritária em Portugal. Julgo que os democratas, os homens de esquerda, aqueles que são fiéis ao espírito do 25 de Abril, na sua pureza original, e em especial os trabalhadores portugueses, vão sentir a necessidade de me apoiar na segunda volta. Depois destas eleições, nada ficará politicamente como antes. O verdadeiro combate eleitoral para as presidenciais vai começar.

Freitas do Amaral é o último a reagir. Alcançou um feito extraordinário. Teve praticamente os mesmos 46% que a AD de Sá Carneiro tinha tido no pico da popularidade. É recebido no Palacete de Santa Catarina por uma multidão esfuziante. Mais uma vez, o Citroën com que fez toda a primeira volta e onde seguem também a mulher e o filho mais velho, é engolido pela multidão. Há euforia pelo resultado de Freitas e alívio pelo de Soares. Muitos apoiantes chegaram a temer seriamente que o adversário de Freitas fosse Zanha. Talvez a segunda volta fosse mais fácil, concebe-se nas conversas de corredor, mas o país ficaria partido entre a direita e a esquerda radical. O segundo lugar de Soares dá pelo menos uma grande garantia: a democracia liberal sairá sempre a ganhar naquela segunda volta.

Começa agora a segunda volta. Apelo a todos os portugueses, qualquer que seja a sua posição política, económica ou social, para que me ajudem a conquistar a vitória.

O país fica dividido. Os primeiros sinais de que a segunda volta será uma luta brutal entre esquerda e direita chegaram ainda antes de os votos estarem todos contados. Na noite das eleições, mais de uma centena de jovens que empunhavam bandeiras do PSD e do CDS bloquearam a Avenida da Boavista, no Porto, junto à sede do PCP. Os militantes comunistas que se encontravam no interior chamaram a polícia. Diriam mais tarde que o edifício tinha sido atingido com pedras. Enquanto cercavam a sede do PCP, os apoiantes de Freitas gritavam: "Morte aos comunistas" e "Comunistas pra Sibéria". Antes de serem retirados do local pela PSP, deixam um último aviso: a 16 de fevereiro, dia da segunda volta, vão finalmente fazer o ajuste de contas. Freitas parte para essa segunda volta com mais de um milhão de votos de avanço e tem a certeza de que vai crescer ainda mais. Soares é agora o único candidato da esquerda. Sabe que arranca em desvantagem e sabe também que o caminho para uma possível vitória será necessariamente longo e difícil. Por isso mesmo, vai aproveitar todos os atalhos que conseguir, mesmo que isso implique jogar sujo. Chegou a hora da campanha negra. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.

Achavam que era demais, que era excessivo, que era insultuoso, adversarial, que era pugilato.

Era um animal de boxe, portanto, para ter boxe é para dar pancada.

O Dr. Mário Soares inventa este radicalismo, porque o Dr. Mário Soares quer fazer apelo ao medo.

Agora não pode é dar lições de autoridade democrática ou democracia a um homem como eu.

"A Eleição Mais Louca de Sempre" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, e tem banda sonora original de Samuel Úria. O guião e as entrevistas são de Miguel Santos Carrapatoso. A sonoplastia e desenho de som são de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube e da RTP. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.