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Da Ucrânia saltamos para o outro lado da barricada. O jornalista Miguel Cordeiro conversa com Larissa Tomazian, cidadã russa que nos ajuda a traduzir a imprensa russa de hoje. Nos media russos há dúvidas quanto ao futuro da cultura e estão em destaque ainda as críticas do antigo campeão mundial de xadrez. "Guerra Traduzida" na Rádio Observador. Damos destaque à imprensa russa e para isso contamos com a ajuda sempre da Larissa Tomazian. Bem-vinda, Larissa. Vamos olhar para jornais, rádios e televisões para perceber o que está hoje nas notícias na Rússia. Começamos por notícias de novas sanções à Rússia, agora por parte das empresas. Essas notícias em destaque durante o dia de ontem, McDonald's e Coca-Cola. Sabemos que ontem o McDonald's anunciou que vai encerrar restaurantes na Rússia. Hoje surgem pessoas a revender alimentos desta cadeia de restaurantes em plataformas de venda online, em páginas de classificados.

Sim, é verdade. Temos aqui um site muito parecido às plataformas que existem também em Portugal de revenda. Um site que se chama Avito e é um site onde devido às sanções e ao encerramento de vários estabelecimentos, temos aqui uma revenda de comida do McDonald's, uma situação bastante caricata.

Temos à venda hambúrgueres, molhos, sobremesas. E a preços elevados.

E a preços muito elevados. Nós temos aqui uma tarte que custou cerca de €1. Aqui estão a vender por €36, que são 7 mil rublos. Coisas bastante preocupantes de um ponto de vista, porque são as sanções que estão a afetar, de certa forma, os russos e a forma como eles estão a ficar isolados.

Essas vendas e essas publicações estão já também a ser partilhadas muito no Telegram, como descrevias. Avançamos para uma notícia do site Meduza, na verdade, um podcast, mas temos falado desta publicação nos episódios anteriores. Estamos a falar de uma publicação independente e que tem hoje este podcast, chama-se "What Happened?", que se centra na cultura, um podcast chamado "O Que Aconteceu?", nessa tradução para o português. É uma conversa com a editora desta publicação da Meduza, Natália Gredina, sobre como a cultura pode sobreviver à guerra e se vai sobreviver na Rússia. Vamos escutar um pouco o arranque desse podcast.

Aqui nesta fase inicial, ele descreve aquela mensagem que tem que estar por escrito no site, de ser uma publicação estrangeira. Já tínhamos falado disso.

Sim, tal como já tínhamos visto, sendo um agente estrangeiro, esta mensagem tem de estar sempre presente em todos os artigos e podcasts também.

Todos os artigos e podcasts, todas as publicações que não são estatais têm que ter esta informação. Depois desse aviso prévio, começa o programa e é uma conversa sobre o estado da cultura de forma global na Rússia perante esta guerra.

De facto, há uma preocupação muito grande relativamente à cultura e às artes da Rússia, porque sabemos que é um país bastante famoso e rico nesse aspecto. E temos aqui uma entrevista do maestro do Teatro Bolshoi, que deixou a Rússia. E deixa a Rússia devido à guerra e à situação de conflito que neste momento está a acontecer entre a Rússia e a Ucrânia. Chama-se ele Tugan Sokhiev, trabalhou com a Orquestra Russa e já trabalhou com a Orquestra Ucraniana. Diz que devido a isso não consegue escolher entre uma família musical e a outra. Além disso, ele fala no fato de não querer alimentar também e continuar num país que está a alimentar esta guerra e que está a invadir, como ele diz, a família musical, que para ele também é muito importante. Nesse aspecto também fala sobre o futuro da cultura da Rússia e como é que as coisas irão ficar no futuro, que não tem grandes perspetivas positivas.

Sim, neste podcast é também abordado aquilo que é a influência externa na cultura russa, como as plataformas de venda de séries, de filmes, as plataformas online, os grandes distribuidores que deixaram de servir a Rússia e há também esse impacto para a cultura.

É verdade, porque, por exemplo, as plataformas como Netflix e afins também provocaram um grande choque. Por quê? Porque efetivamente é muito importante termos em conta que a juventude Vivia disso. A juventude precisava de ter informações não só daquilo que se passa na Rússia e da cultura russa, mas sim das coisas do exterior. Coisa que está a perder neste momento de uma forma muito forte e tudo devido à propaganda.

E ao longo deste podcast de quase uma hora é feita essa análise ao impacto para a cultura deste conflito que já vai no 14º dia. Avançamos para o desporto, neste caso para o xadrez, porque temos declarações fortes de Kasparov, que também têm tido eco pelas publicações internacionais, pela imprensa internacional. Mas temos de facto Kasparov, o ex-campeão mundial de xadrez, ativista político também, escritor. Ele falou sobre a guerra e sobre Vladimir Putin e há notícia disso numa publicação chamada Chess News, notícias de xadrez.

Sim, temos aqui a notícia de Kasparov. Ele é ex-campeão mundial de xadrez, ativista político e escritor e já tem comentado há bastante tempo esta situação toda. E ontem encontrei um artigo em que ele fala do ponto de vista mais filosófico, o porquê de uma parte dos russos, que neste momento estão a apoiar, de certa forma, estas atitudes bélicas, o porquê de eles não acreditarem quando lhes dizem a verdade. E o artigo chama-se "A Razão e o Ego Tentam Resistir". E durante 20 anos, sabemos, como temos estado a ler e a ver nas notícias ultimamente, Putin está a inserir veneno nas cabeças das pessoas. E quanto mais dura, mais difícil sair disto, diz Kasparov. No momento em que nos apercebemos de que nos estão a enganar, nós temos de aceitar este facto. E com a propaganda, as pessoas acreditam cada vez mais, aliás, têm dificuldade em acreditar cada vez mais naquilo que estão a ver e acreditar que é de facto verdade.

E, portanto, é uma crítica direta à propaganda e à censura que está a acontecer na Rússia.

Exatamente. E ele diz também, inclusivamente, que por isso é que as sanções que afetaram pessoas normais, pessoas que viviam a sua vida, eram inevitáveis. Essas pessoas têm de começar a questionar, no fundo, como as pessoas na União Soviética, no fim, em 91, questionaram o porquê de não funcionar e será que nos estão a enganar.

Avançamos então dessas críticas de Kasparov para fechar, vamos ainda a um artigo da Novaia Gazeta, Nova Gazeta. Fala essencialmente sobre a fuga de cérebros na Rússia. Estamos aqui a falar de uma publicação independente, a Nova Gazeta, e de pessoas altamente qualificadas, é uma reportagem sobre pessoas altamente qualificadas que estão a deixar o país, num artigo que tem como título uma citação de uma das pessoas: "Não quero mais ajudar a construir este Estado."

Exato. É um artigo que encontrámos hoje sobre russos que, devido à situação atual, deixam o seu país, que é a Rússia, nos últimos dias, devido à situação atual. Os principais destinos são os que restam nas bilheteiras dos aeroportos e que são destinos mais próximos da Rússia, que ainda têm voos. Neste caso, Arménia, Quirguistão, Geórgia. E, portanto, o título do artigo, tal como mencionou, "Não quero ajudar mais a construir este Estado", remete também para o facto de não querer alimentar com o seu trabalho este governo.

Sim, que está a alimentar, neste caso, a guerra e o conflito na Ucrânia.

Exato. E temos aqui vários testemunhos de pessoas que de facto dizem que quando a situação surgiu, as pessoas entraram em pânico e começaram a procurar sítios para onde fugir. A elite teve a oportunidade de ir para fora mesmo da antiga União Soviética e cidades europeias, ao ponto que pessoas que chegaram um pouco mais tarde não conseguiram encontrar voos mais acessíveis, porque os preços estão a ser muito elevados neste momento. Um preço ida até à Arménia é cerca de 400 mil rublos. São 3 mil euros.

Muito caro também para deixar a Rússia. Terminamos assim com essa notícia de fuga de cérebros, pessoas altamente qualificadas a deixar a Rússia por causa também da situação de conflito. Terminamos assim mais uma Guerra Traduzida com Larissa Tomazian. Analisámos a imprensa russa neste 14º dia da invasão à Ucrânia.