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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a crise da água às portas de Lisboa.

Nós somos cidadãos, pagamos as nossas taxas, pagamos os nossos impostos, não temos água!

O ano é 2026, estamos às portas de Lisboa e o som que está a ouvir é o de pessoas que saíram à rua para pedir uma coisa tão simples, tão básica como água.

Água é um direito! Água é um direito! Água é um direito! Eu quero água na Costa da Caparica já, o dia todo, todos os dias.

Há dias que milhares de pessoas, em várias zonas do Conselho de Almada, abrem a torneira e não sai nada. Ou então sai um fio de água tão fraco que mal chega para as tarefas do dia a dia. E isto acontece também na Costa da Caparica, em plena época balnear, numa das zonas mais procuradas do país.

Eu sou uma moradora da costa. Tenho uma lavandaria, não tenho água! Senhor, demita-se! Demita-se!

Hoje eu vou conversar com a jornalista do Observador, Marina Ferreira, que tem acompanhado este caso desde o primeiro dia. Vamos tentar perceber como é que um problema desta dimensão pode acontecer em 2026, tão perto da capital, quem é que falhou, quem é que assume a responsabilidade e, sobretudo, quando é que a água volta a correr nas torneiras. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 08 de julho. Olá, Marina.

Olá, Pedro.

Olha, pra quem, como eu, cresceu nos anos 80, esta história toda da falta d'água em Almada parece uma espécie de viagem no tempo. Nessa altura, que eu me lembro, de vez em quando havia faltas d'água e coisas que foram desaparecendo com o tempo. De repente, estamos em 2026 e tudo indica, não é a concretização daquelas ameaças das alterações climáticas de que a água seria um bem muito escasso, mas efetivamente o que está a acontecer é que as pessoas não têm água. O que se está a passar ali?

Desde sexta-feira passada que tem havido muitos relatos de falhas nos abastecimentos d'água no Conselho de Almada, especificamente, e em várias localidades.

Mais umas zonas do que outras.

Com mais incidência, sim. Eu já noticiei que nas áreas de Lazarim, Charneca da Caparica, Costa da Caparica, tem sido persistente a falta de água, com situações de corte geral, e também situações em que a água corre, mas com pouquíssima pressão, portanto, não dá na mesma para as pessoas utilizarem.

Portanto, as pessoas podem acordar de manhã e pura e simplesmente abrem a torneira e não há água a correr, ou então há muito pouca água a correr.

Sim, exatamente. Acaba por não dar para utilizar para as coisas básicas, tanto pra higiene pessoal como pro próprio consumo, para pôr as máquinas a lavar.

Para cozinhar, enfim, para as coisas que precisamos d'água todos os dias.

Exatamente. E tem sido esse o relato dos moradores das zonas. Descrevem um cenário de terceiro mundo, um cenário ao qual não estão claramente habituados, sendo que no ano passado, nesta altura, houve de fato alguns cortes de água, mas não tão prolongados como até então.

Sempre, portanto, nesta altura do verão, não é?

Certo. Uma das justificações, até agora, da Câmara Municipal de Almada e dos serviços municipais de abastecimento das águas, que estão sob a tutela da autarquia, é precisamente o aumento acentuado da temperatura, que faz com que as pessoas acabem por consumir mais água necessariamente. Por outro lado, dão também justificação do crescimento da população sazonal no conselho.

Portanto, estamos a falar de uma zona de férias, nomeadamente até a Costa da Caprica é uma zona conhecida de férias e, portanto, esse acréscimo de população estará a fazer, isto de acordo com a justificação da Câmara, estará a acentuar este problema da falta d'água. Ainda assim, é um aumento sazonal, mas é um aumento sazonal que acontece todos os anos, imagino eu.

Certo.

Os turistas não descobriram a Costa da Caparica assim de repente.

Certo. A Câmara Municipal, nas comunicações que tem feito até agora, deu conta de um crescimento de consumo irregular, de um aumento na média de 4% nos primeiros seis meses de 2026.

Ou seja, é um consumo, de fato, excessivo face àquilo que acontecia antes, é isso?

Certo, é aquilo que dizem e dão também conta de, nas localidades da Costa da Caparica, Sobreira e Lazari, um aumento de mais de 14% deste consumo também nestes primeiros seis meses de 2026.

14% de aumento nesses conselhos que estão afetados.

Nessas localidades.

Nas localidades que estão mais afetadas pelo consumo d'água. Portanto, para além de ter havido um consumo geral, um aumento geral do consumo de água, nessas zonas em particular, o aumento foi muito superior ao normal. E há alguma explicação pra isso?

Pois, precisamente. Na segunda-feira, ao final do dia, a autarquia lançou um comunicado bastante exaustivo em que começa por pedir desculpa à população por todos os incômodos que estes cortes d'água têm provocado na vida das pessoas, naturalmente, e acaba por apontar para um aumento muito expressivo do consumo relacionado com aquilo que diz serem situações de utilização irregular da rede, sem explicar A que se refere?

É que se lança logo perguntas. O que isso quer dizer, um consumo irregular de água?

Exatamente. É aquilo que estamos a tentar perceber. Podemos conjecturar à partida que podem estar em causa furos ilegais. Ou seja, aquilo que a Câmara dá conta é que existe uma diferença entre a faturação e a água que é despendida da rede.

Ou seja, há consumos de água que não estão a ser faturados.

Não estão a ser faturados, basicamente.

E, portanto, a autarquia desconfia que pode haver, um pouco como acontece às vezes também com aquilo que se chama as puxadas de eletricidade.

Exatamente. Seria o equivalente disso, mas para o abastecimento à água.

E tu dizes que essa hipótese foi lançada, mas não foi dada mais informação.

A informação que temos é que foram constituídas equipas, por parte dos serviços municipais, que já se encontram no terreno, diz a Câmara Municipal da Almada, a desenvolver as tais ações de fiscalização, incluindo uma intervenção porta a porta nas zonas mais críticas que a Câmara aponta. Até ao momento não temos mais informação. Também tentámos perceber junto à Câmara Municipal da Almada quais são os dados, neste início de semana, da população que tem ou não tem água. Até ao momento também não conseguimos perceber. E o mesmo se aplica à questão de quando é que vai ser restabelecido, na totalidade, o fornecimento da água.

Portanto, em termos estatísticos, a Câmara não está a dar grande informação e em termos de informação aos munícipes sobre quando é que o problema vai ser resolvido, também não está a dar essa informação.

Essa é a principal queixa dos moradores destas zonas, precisamente por não conseguirem antecipar os momentos em que a água vai faltar.

Dias inteiros sem água, a água vem às 05:00 da manhã, vem às 04:00, e pessoas para tomarem banho, principalmente os mais idosos e quem tem crianças.

Está a haver uma corrida aos supermercados, nas redes sociais estão a ser partilhadas imagens de prateleiras vazias, sem garrafões d'água, porque as pessoas efetivamente estão a usar essa água engarrafada para conseguir fazer as coisas básicas do dia a dia e fazem-no porque não conseguem encher, por exemplo, baldes e outro tipo de recipientes para conseguir assegurar as necessidades básicas, porque nunca sabem quando é que a água vai faltar ou vai voltar. Por outro lado, há mesmo casos de pessoas com quem falámos que dizem que não têm água ou água que seja suficiente para fazer face às suas necessidades há vários dias. Já podemos contar vários dias.

Estou a tentar colocar-me no lugar dessas pessoas. Não haver água para as funções básicas da nossa vida é uma coisa que seria impensável nos tempos que correm, mas é um problema e ele tem que ser resolvido. O que é que está a ser feito para resolver isso? Há alguma iniciativa já clara para tentar minorar o problema?

Nós sabemos que a Câmara de Almada aplicou um plano de contingência. Existe também um gabinete de crise para dar resposta a esta questão e foram admitidas várias possibilidades, incluindo a ativação de camiões cisterna com água para ajudar a população que não tem este abastecimento da rede pública. Até ao momento, sabemos que a Junta de Freguesia da Costa de Caparica, em articulação com os bombeiros voluntários de Cacilhas, tem um caminhão a fornecer água, porque esta terça-feira a Costa de Caparica foi especialmente afetada por este corte d'água. Portanto, não são só as residências, mas também os restaurantes e o comércio que naquele local.

Imagino o impacto que isso deva ter nesta altura do ano.

Sim, que também não conseguem fazer face. Muitos não terão conseguido abrir as portas, outros tiveram de abrir com as limitações associadas a este corte d'água, mas, para já, é isso que se sabe, que esse caminhão está a ser disponibilizado nos bombeiros voluntários da Costa de Caparica para conseguir fazer com que as pessoas vão até lá, encham recipientes e depois nas suas casas, nos seus negócios, consigam utilizar essa água para as necessidades básicas.

E está a ser feita alguma gestão da água disponibilizada, a que houver.

Pelos serviços municipais. Sabemos que, essa é a informação que tem chegado, que tem havido uma gestão alternada dos cortes. Pelo menos é aquilo que tem sido comunicado. Mas essa comunicação, pelo menos aos olhos dos moradores, tem sido ineficiente porque eles não conseguem antecipar. Mas sim, aquilo que a Câmara diz é que os cortes têm sido feitos de forma alternada para conseguirem efetuar os trabalhos, por um lado, de algumas reparações de ruturas que indicaram ao longo destes dias e, por outro, para conseguirem fazer os novos furos que estão anunciados e que supostamente vão ajudar, tanto a curto como a médio prazo, a tentar resolver este problema de insuficiência de água da rede pública.

Essa questão dos novos furos pode ser uma forma de tentar resolver o problema, criar novos furos para haver mais água disponibilizada. Sendo que é uma solução que, se já vimos as declarações da ministra do Ambiente, não foi pensada há muito tempo.

Exato. A ministra afirmou esta terça-feira que, de facto, não houve um contacto por parte da Câmara Municipal da Almada ao governo central em relação à necessidade urgente, pelo menos agora à luz daquilo que sabemos, parecia ser urgente, para esta criação destes novos furos.

Não tínhamos nenhum alerta da Câmara de Almada de problemas, nem nenhum pedido, por exemplo, para furos extra. Ainda agora verifiquei com o senhor presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, não havia nenhum pedido. O primeiro contacto que houve foi um contacto telefónico ontem do senhor vice-presidente da Câmara de Almada.

Portanto, à partida, tendo em conta a informação que temos agora, o que parece é que realmente esta situação não foi antecipada.

Mesmo já tendo havido problemas no passado.

Exatamente. E o que a Câmara justifica é precisamente que não tinham como antecipar ou que não conseguiram antecipar este aumento excessivo no consumo, que supostamente não entraria nas estatísticas, precisamente por não estar associado à faturação. É mais ou menos esta linha de raciocínio.

Marina, tu vais continuar a acompanhar este caso e esperar que as respostas, que ainda há muitas respostas por dar, te cheguem às mãos.

É isso.

Então vá, bom trabalho.

Obrigada.

Eu conversei com a jornalista do Observador, Marina Ferreira, que continua à procura de respostas que expliquem, sem margem para dúvidas, de quem é a responsabilidade deste problema, que voltou precisamente na semana em que o país atravessava uma onda de calor com temperaturas a rondar os 40 graus. Por curiosidade, o caso dura há já uma semana. Já houve comunicados e alguns membros do executivo a darem a cara, mas pelo menos até ao início da noite desta terça-feira, a presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, continuava em silêncio. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.