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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a estranha ligação de Jeffrey Epstein às casas reais da Europa. Provavelmente, não percebe norueguês, mas esta era a princesa Mette-Marit, casada com o herdeiro do trono da Noruega, a explicar como é estar sob escrutínio público num dos momentos mais difíceis da sua vida. O filho, de outro casamento, começou a ser julgado por crimes de violação e por filmar mulheres sem o seu consentimento, e ainda agora foi novamente detido por agressões e ameaças. E tudo isto ao mesmo tempo que o nome da princesa apareceu num novo lote de documentos divulgados nos Estados Unidos sobre o criminoso sexual Jeffrey Epstein. A princesa não era o único membro de uma casa real com relações próximas ao milionário, que ainda hoje assusta os ricos e poderosos do mundo inteiro.

There is no good time to talk about Mr. Epstein and all things associated.

O ex-príncipe André é talvez a face mais visível desta teia de relações e agora, com a divulgação de novos documentos e fotografias altamente comprometedores, volta a estar debaixo de fogo. So former Prince Andrew, his ties to Epstein- Hoje eu vou falar com a Maria Ramos Silva, editora de lifestyle do Observador, para percebermos melhor esta estranha ligação de Epstein com as casas reais europeias. Que ligação é esta? Quando é que tudo isto começou e o que tudo isto nos diz sobre a teia intrincada de relações deste predador sexual, que a certa altura pareceu ter o número de telefone de toda a gente importante. Eu sou o Pedro Bom Vides e esta é a história do dia de quarta-feira, 04 de fevereiro. Olá, Maria.

Olá, Pedro.

Vamos começar pelo mais básico de tudo, que é o que são estes fechar os Epstein que andamos a falar há tanto tempo.

Ora bem, ou o que não são os fechar os Epstein. Porque talvez seja essa mais a pergunta, porque parece que estamos diante de uma caixa negra de um avião. Estima-se que nós possamos estar a falar de qualquer coisa como 6 milhões de páginas de documentos, imagens, vídeos, qualquer coisa também como 300 GB de informação. Nem todos vieram cá pra fora. Há uma grande expectativa de que ainda possa sair mais qualquer coisa. Supostamente, esta será a última tranche, mas vamos ver.

São 3 milhões, falava-se que iam ser seis ou sete.

Sim, esta mais recente, de fato, é de 3 milhões. Há muita coisa que já foi libertada em setembro do ano passado, cerca de 30 mil fechos. Esta semana saiu, de fato, aquela tranche mais generosa, que traz alguns detalhes novos. Sobre as ligações perigosas, os passos do financiador americano, o agressor sexual Jeffrey Epstein.

Sim, é dessa pessoa que estamos a falar.

Estamos.

Uma pessoa que foi presa por agressões sexuais, por profilidia.

Uma rede de tráfico.

Deixe-me só te perguntar, de onde é que apareceu este homem que aparentemente tem tanta influência? Ou teve tanta influência.

Sim, é uma outra pergunta muito interessante, porque aparentemente quando começamos a vasculhar, o Epstein vem do nada. Ou seja, do nada, isto é, ele é um jovem nova-iorquino, nasceu ali no Brooklyn, e ainda muito jovem, com cerca de 21 anos, é contratado para dar aulas de matemática numa escola privada em Nova York, a Dalton. Isto no início dos anos 70, ele fica ali muito pouco tempo, mas há um dado que pra mim é muito curioso nesta trama, só por ser altamente mirabolante, é que na altura o master da escola, um senhor chamado Donald Barr, que supostamente o terá contratado. Isto não é um dado certo, mas especula-se e ajuda a compor também um pouco esta teoria da conspiração. Ele é autor de livros de ficção científica e terá escrito uma espécie de distopia, uma ópera espacial em texto chamado Relações Espaciais, precisamente em 73. Para tu teres aqui um pouco a ideia do que é o contexto disto. Ele imagina um futuro em que os humanos formariam um império intergaláctico liderado por aristocratas, pessoas muito poderosas da elite, numa trama com muito sadismo e sexo, que chega a envolver a dominação de adolescentes. Isto te faz lembrar alguma coisa?

Faz-me lembrar a teia, precisamente, onde o Jeffrey Epstein-

Parece que quis cumprir tudo isto de alguma forma. Ele leu o livro.

Como se a história já não fosse recambulesca o suficiente, ainda temos essa teoria da conspiração. Estes documentos de que estamos a falar nos Estados Unidos têm muito interesse até pela ligação de Donald Trump.

Que terá filtrado entretanto. Ou seja, há essa ideia de que, de alguma forma-

E terá metido a burro também Bill Clinton e Hillary Clinton, que agora vão já esperar compor sobre este caso. Mas aqui na Europa, os fecharas também nos contam algumas ligações interessantes. Aquela que talvez seja a mais conhecida seja a do ex-príncipe André.

Exatamente.

Como é que eles se conheceram e quando é que isto começou?

O príncipe André é, de fato, esta ligação que nós temos mais próxima, e já há muitos anos. É o nome mais recorrente trazido para este processo. Também o mais mediático, por ser irmão do atual rei de Inglaterra, filho da rainha Isabel II, na altura ainda era a rainha Isabel II que estava no trono. Mas, de fato, é extraordinário, porque tudo começa mais ou menos com aquilo que parece ser uma ligação amigável, meio casual. Ele supostamente há de ter sido apresentado ao Jeffrey Epstein pela Ghislaine Maxwell, que também é uma protagonista muito importante desta história.

Era a sua parceira, digamos, a sua sócia.

Exatamente, que cumpre pena de 20 anos de prisão. Ela ainda está detida, mas que seria a recrutadora. Nos círculos sociais, há quem diga também que ela primeiro conhece a Sarah Ferguson, na altura já ex-mulher do príncipe André, que depois teria facilitado o contacto. É, de fato, um círculo que se vai montando, remonta pelo menos a 99, e o que é certo é que o caso Com uma menor, mais mediática associada ao príncipe André, o ex-príncipe, neste caso, será de 2000. É o caso com a Virginia Giuffre, que foi um dos casos mais mediáticos. Aliás, ela suicidou-se em 2025, num desfecho brutal.

Uma das alegadas vítimas desta suposta rede.

E aliás, um ano depois, em 2001, é quando é feita aquela infame fotografia, que de alguma forma trama completamente André, em que ele surge ao lado da Virginia, a segurar na cintura da Virginia, com a Ghislaine ao lado, também ali a fazer companhia na foto.

Explica a clara ligação.

Sim, é que nós quando pensamos, de facto, já lá vão 27 anos. Não há este tempo todo, obviamente, a seguir este caso com atenção, mas a história tem raízes, de facto, muito remotas já.

E foi, aliás, feita a primeira denúncia já há imenso tempo, de uma rapariga.

Sim, em 2005. Nós depois fomos descobrindo ao longo dos anos que esta teia montada pelo Epstein tem, de facto, vários pontos, várias escalas: a sua ilha privada, a sua mansão em Nova York, também depois pontos na Europa. Mas há, de facto, ali um momento em que o escândalo começa, de alguma forma, a compor-se. Ou seja, há uma ponta que é puxada e é quando, em 2005, quando ele está em Palm Springs e há uma primeira acusação por parte do pai de uma miúda, de uma adolescente de 14 anos, que diz: "Pagaram à minha filha aqui por umas massagens estranhas” e portanto, é aí que começam, de alguma forma, as investigações. E nos primeiros anos, aquilo que vai sendo reunindo, são uma série de outros casos. A certa altura, em 2006, já serão 60 as suspeitas ou acusações no ar. Aliás, o Epstein, e esse é um ponto curioso, é que o Epstein chega a estar preso. Há ali uma primeira fase entre 2008 e 2009, em que ele chega, de facto, a dar-se como culpado. Há até uma polêmica. Essa declaração de culpa vem, de facto, com esse lastro de polêmica, porque terá havido ali um acordo especial, para ele ter uma pena também mais leve. O procurador que na altura está ao leme desse caso acaba por dizer mais tarde: "Alguém me disse que este senhor era importante para os Estados Unidos, para o governo dos Estados Unidos".

Ele acabou por se safar.

Ele acabou por se safar, porque me disseram que isto era para ser assim. Como vês, isto é uma trama absolutamente estratosférica. Mas a verdade é que muitas destas pessoas e destes nomes que são citados posteriormente neste caso e que nós vamos descobrindo quando procuramos por eles, tudo isso surge depois desta condenação. As pessoas sabem ao que vão.

Ou seja, já havia suspeitas sobre a aproximação dele.

Já havia mais do que suspeitas. Ele já se tinha dado como culpado de solicitar prostituição com menores. Isso é fundamental.

E mesmo assim houve aqui vários contactos, até com várias casas reais.

Com várias casas reais, sim.

Vamos já falar sobre isso, Maria. Até já. Estamos de regresso à conversa com a Maria Ramos Silva. Nós falamos do príncipe André. Houve agora mais divulgação de fotografias altamente comprometedoras. Soube-se que ele terá-

E mais uma nova alegada vítima.

Mais uma nova alegada vítima. Soube-se que alguns desses encontros aconteceram em propriedades da realeza.

No Royal Lodge, é verdade.

Exatamente. Mas a Casa Real Inglesa ou Britânica não é a única que está envolvida com o Epstein.

Não está.

Uma das que está agora também nas notícias é a da Noruega. Conta-me aqui a ligação.

A Noruega tem tido uma semana particularmente dura, para já porque arrancou esta terça-feira o julgamento do Marius Borg, que é o filho mais velho da princesa Mette-Marit, fruto do seu primeiro casamento. Isso promete arrastar-se até março. A questão é que isto envolve, sobretudo, a Mette-Marit. A princesa é casada com o príncipe Haakon, portanto será herdadeira da coroa norueguesa. E a verdade é que já se questiona se é possível vir a ter uma rainha com este tipo de dano reputacional, digamos assim.

Estamos a falar de uma princesa, que tem um filho que está a ser julgado por violação.

Por agressões sexuais, exatamente.

Que acabou de ser detido também recentemente por outras suspeitas de agressão, de ameaças com faca, etc. Os olhares estão todos sobre a princesa, naturalmente, e o filho que tem, mas ao mesmo tempo é ela que aparece ligada.

Citada por mais de mil vezes, sim.

Era que tipo de ligação? Era sexual? O que fica claro ou não fica?

Nós não conseguimos dizer a 100%, mas percebe-se que é uma relação muito próxima e muito íntima com o Epstein. Essa menção do nome da Mette-Marit remonta pelo menos a fevereiro de 2011. Percebe-se que eles ter-se-ão encontrado por várias vezes entre Paris, Nova York e Flórida. Ela terá mesmo ficado hospedada na casa do milionário em Palm Beach por quatro dias, em 2013. Mas a verdade é que há ali um nível de conversa que percebes que para uma futura rainha não é normal. Há sugestões, ela chega ao ponto de dizer que Paris é uma cidade boa para o adultério, as candidatas dão ótimas esposas. Há ali muitas piadas e um nível de proximidade que, de facto, não é normal, sobretudo porque ela é uma mulher na altura e atualmente casada, com aquele que se espera vir a ser o sucessor no trono e, portanto, se a situação já era complexa, não me parece que fique melhor nos próximos dias.

Portanto, Noruega, Reino Unido, há mais casas reais que tenham ligações ou que se descubra agora com esta divulgação de documentos que tenham ligações mais diretas?

Algumas coisas já eram relativamente conhecidas, outras foram sendo aprofundadas. Por exemplo, ali não muito longe, na Suécia, o cenário não é melhor. A princesa Sofia, que se casou com o príncipe Carl Philip em junho de 2015, também está sob fogo. Pelo menos cinco anos antes, quando ainda namoravam, parece que uma empresária sueca, Barbara Odenbo, partilhou com o Epstein fotografias da jovem Sofia. Umas fotos também meio comprometedoras. E ela acabaria mesmo por encontrar-se em contextos sociais com o americano. Também é curioso, acho que isto é um dado interessante, se a Mette-Marit era uma figura divorciada, que vinha de um contexto que já de si tinha sido polémico na Noruega, porque tinha vivido com um homem que esteve preso por agressão, por posse de droga, tinha um filho, era divorciada. A Sofia também era uma plebeia, uma mulher comum, que antes de namorar com o príncipe participou até num reality show. Tinha feito fotos sensuais até quem diz que ela tinha sido stripper em Las Vegas. Todo um currículo que não é fácil encaixar neste contexto. Mas há outras menções, mesmo na Grécia, que envolvem Marie-Chantal e o Pavlos. Há aqui um misto de entusiasmo também da parte do Epstein, porque percebe: "Ok, eles vêm viver para a rua à frente de mim, em Nova Iorque". Não se percebe bem exatamente quais são depois os interesses, os envolvimentos e nem tudo terá a ver com a trama sexual, obviamente.

Essa era a minha questão, se isso tinha a ver necessariamente com a trama sexual e depois o que estas ligações a vários membros de várias casas reais da Europa nos dizem sobre esta rede de influência de Jeffrey Epstein.

Sim, eu acho que é sobretudo isso. Faltou mencionar, por exemplo, o Príncipe Alberto do Mónaco. Há e-mails em que o Epstein dá a entender que tem grandes planos para abrir uma agência de modelos no Mónaco, que contaria com o alto patrocínio do seu amigo Príncipe Alberto. Tu falavas, e bem, eu acho que é sobretudo aqui uma teia que o Epstein tenta criar e desenvolver de altos contactos, da elite que se move em diferentes círculos, que pode eventualmente abrir portas.

Poderosos e poderosas, e celebridades de várias partes do mundo.

Sim, e forçando-os depois muitas vezes, eu acho que é aí que nós chegamos à parte do tráfico sexual e, portanto, esse subplot em que cria uma espécie de dependência. Essas pessoas ficam de alguma forma reféns dos seus atos, como por exemplo o Príncipe André, porque se veem envolvidos depois nesse subenredo.

Do qual há registros, ainda por cima.

Exatamente. Porque muitas destas coisas, atenção, nós nem imaginamos aquilo que não ficou registado. Se isto é o que ficou registado e divulgado para fora e já é o quê, agora imagina tudo aquilo que aconteceu atrás de portas. Há, de facto, este ponto comum em que tu percebes que ele tenta furar o caminho pelos ricos e poderosos, com muitas coisas que são mais ou menos relevantes. Porque depois muita desta conversa acaba por ser quase coscuvilhiço. Porque nós também vemos a Mette-Marit a queixar-se do casamento aborrecido, que foi no Luxemburgo. E nós também quando vamos ver estes senhores sentimo-nos um pouco voyeurs a pensar: "Bem, estamos a ver aquilo que correspondia ser privado destas pessoas".

Mas temos ao mesmo tempo a oportunidade de ter aqui uma janela para este mundo.

Que não é inocente, de facto.

Para este mundo que não é inocente e que é estranho e que continuará a estar aí nas notícias, seguramente. Maria, obrigado.

Obrigada.

Jeffrey Epstein morreu a 10 de agosto de 2019, na cela da prisão onde era suposto ser vigiado de meia em meia hora. Nessa noite, uma série de coisas que deviam ter acontecido não aconteceram e Epstein foi encontrado morto. Oficialmente, e até ver, tratou-se de suicídio. Mas como percebemos por esta conversa com a editora de lifestyle do Observador, a Maria Ramos Silva, mesmo depois de morto, Epstein é como um incêndio que não apaga e consome tudo à volta. Esta quarta-feira, prepare-se para os efeitos da tempestade Leonardo, que hoje se estendem a todo o país numa altura em que Portugal ainda está a braços com a devastação da tempestade Christine. Por falar nisso, hoje é suposto já estar a funcionar a plataforma online para que as pessoas se possam inscrever e pedir apoios até 10 mil euros para reconstrução das casas afetadas pelo mau tempo. O responsável pela estrutura de missão para a reconstrução da região Centro garante que o processo vai ser, e estou a citar, supersimplificado. Lá fora, na frente de guerra, há hoje uma nova ronda de negociações trilateral entre a Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos da América. Vai ser nos Emirados Árabes Unidos. A primeira ronda terá sido construtiva, mas não houve avanços na questão do território e do controle da central nuclear de Zaporíjia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Gonçalves. Até amanhã.