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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que olhamos para as principais notícias que vão marcando a atualidade da guerra no planeta, tanto na Ucrânia como no Médio Oriente. Hoje, para nos ajudar a descomplicar esses principais conflitos a nível global, temos o tenente general Marcos Serronha. General, seja bem-vindo e obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Olá, bom dia.
Vamos começar ainda pela situação política em Israel. O líder da oposição Gadi Eizenkot veio ontem admitir formar governo com o apoio dos partidos árabes, que são necessários para compor a maioria no Parlamento israelita. Diz que desde que esses deputados respeitem os princípios fundamentais de Eizenkot, vão ser considerados potenciais parceiros. General, o que significaria para o conflito na região que em Israel, o grande inimigo de praticamente todos os países à volta, passasse a ter um governo com partidos árabes?
Bom dia e mais uma vez obrigado pelo convite. Vamos lá ver. O formato do apoio a um governo tem geralmente duas modalidades. Uma é com participação dos partidos apoiantes todos, neste caso, os partidos árabes ou alguns deles, embora eles estão relativamente unidos num conjunto de coisas, pelo menos a grande maioria dos partidos árabes. E o outro modelo é ser um apoio pura e simplesmente no Knesset e não integrarem o governo da coligação de centro e centro-esquerda que possa vir a ser formada nesse contexto. Depois ainda há aqui outra questão, que é uma questão sensível sob o ponto de vista daquilo que são os interesses políticos dos partidos árabes e que não são completamente uniformes entre todos os partidos, como sabemos. E aquilo que é o modelo que qualquer partido judeu, por assim dizer, isto falando em termos étnicos, que pode não ser exatamente a melhor pintura que se possa dar aos partidos políticos em Israel, mas só passou para melhor se compreender. Portanto, neste caso, os partidos que apoiam Eizenkot e Lapid e todos esses partidos, que têm um modelo, sob o ponto de vista da segurança e da política externa, e mesmo da política interna, que de algum modo pode aqui chocar com um ou outro ponto daquilo que são as ambições dos partidos árabes. Há aqui questões que têm a ver com a segurança regional, têm a ver com o reconhecimento pelos partidos árabes do estatuto terrorista do Hezbollah e do Hamas, questões que hoje são muito sensíveis e uma diminuição da adesão de uma boa parte da opinião pública israelita da questão dos dois Estados. Sabemos que a guerra em Gaza e o 7 de outubro levaram, de facto, muita gente a Israel, que era no passado apoiante da solução política dos dois Estados. Muita dessa gente diminuiu porque percebe que aquilo que é a autoridade palestiniana não tem condições para ter partidos, mesmo a OLP ou a Fatá. Não tem força suficiente para gerir, que poderia ser a mais amigável de Israel, não tem força para gerir nem a Faixa de Gaza, nem a Cisjordânia. Portanto, muito provavelmente é o Hamas e a Jihad Islâmica que iriam ganhar eleições nesse sentido e portanto as pessoas têm algum grau de dificuldade em aceitar isso. Portanto, há aqui muito impedimento a uma aliança dessa natureza entre os partidos árabes e partidos israelitas tradicionais, naturalmente. Mas os árabes também sabem outra coisa. Sabem que se não houver condições para o governo ser um governo de centro ou centro-esquerda, poderão ir para eleições e pode haver o risco de, de facto, Netanyahu vir a ganhar as eleições dentro de seis meses, para criar condições de estabilidade e condições de segurança, naturalmente. Enfim, a situação política é complicada e muito provavelmente o que vai acontecer ou é uma solução dessa natureza ou é pura e simplesmente eleições a curto prazo.
Até porque nestes quatro princípios que são enunciados por Gadi Eizenkot, esses quatro princípios fundamentais que são necessários para formar um governo com os partidos árabes, dois deles são reconhecer Israel como um Estado judaico, democrático, liberal e igualitário, e um outro reconhecer o Hamas como organização terrorista cujas capacidades militares e de governação em Gaza devem ser destruídas. Assim sendo, há espaço, há alguma hipótese de um governo com partidos árabes?
Vimos alguma dificuldade já. Vimos alguma dificuldade dos partidos árabes, dos líderes dos partidos árabes quando se aposta essa questão do Hamas, do reconhecimento do Hamas como Como grupo terrorista fogem à resposta. O que eu diria é que sob o ponto de vista político não estão confortáveis pra tomar esse tipo de posição pra já, pelo menos de forma pública. É uma situação que poderá ser inultrapassável, porque isso é uma questão central da segurança do Estado de Israel e não é uma coisa que possa ficar em meias-tintas sob o ponto de vista do entendimento, porque o que vai acontecer, se isso por acaso fosse pra frente, o novo governo teria que tomar as rédeas da questão da segurança do Estado de Israel e da Faixa de Gaza, iria ter, muito provavelmente, como também já Eisenkot já o disse, terá que haver medidas na Faixa de Gaza para pacificar e desarmar o Hamas, que é uma questão central. E isso implicava apoio de toda a coligação relativamente às medidas que tivessem que ser tomadas em Gaza e mesmo na Cisjordânia, onde o Hamas é que lidera muitas das manifestações que se fazem na Cisjordânia. Esse apoio político poderia ser quebrado se houvesse a necessidade de operações militares mais ativas ou de polícia, seja na Faixa de Gaza, seja na Cisjordânia. Aí constituiria uma fratura imediata do governo se não houver um entendimento sobre essa questão. Eu vejo algumas dessas questões relativamente inultrapassáveis e que a unidade anti Netanyahu pode não chegar para construir essa solução governativa.
Muito bem. Viramos a página para outro conflito, do ponto de vista agora dos Estados Unidos, o Pentágono veio aconselhar os países europeus a moderarem a retórica contra a Rússia. De acordo com a Reuters, entre os países visados estão a Lituânia, a Letônia e também a Estônia, por isso os países que estão bastante perto da fronteira com a Rússia. General, este tipo de notícias vem confirmar as suspeitas ou as acusações de quem diz que Washington já deixou de ser um aliado 100% confiável pra Europa?
A administração americana é relativamente habilidosa nesse tipo de mensagens. É um pouco com a Rússia, também é verdade. Quando há coisas mais sensíveis, aparecem elementos de terceira linha da administração com esse tipo de enunciados, que naturalmente nós sabemos que estão muito em linha com aquilo que uma boa parte da administração pensa, que é nitidamente nesta fase, pró-Rússia, sob o ponto de vista que é preciso estar mais do lado da Rússia, porque a Rússia é que tem uma palavra a dizer no final da guerra, uma percepção que é errada, que nós sabemos, naturalmente. Essa mensagem não é verbalizada pelo presidente, embora o vice-presidente já em determinadas alturas verbalizou contra os europeus, como sabemos. Mas de qualquer modo, é um sinal, por assim dizer, que é dado à Rússia, relativamente a uma questão que é o apoio ou a dar mais importância à Rússia nesse processo negocial que será iniciado, naturalmente. É evidente que essas chamadas de atenção em público são prejudiciais, sejam ditas por quem for, e essa aí por quem foi, foi por um dos número dois do secretário da Guerra.
Diminuem a Europa?
Eu acho que não diminuem a Europa, porque é muito pouco do governo dos Estados Unidos diminuir alguém nesta fase, como sabemos. A credibilidade internacional de muita da administração americana, embora se sabe que os Estados Unidos continuam a manter a sua capacidade e o seu poder que tiveram, menos efetivo nesta fase, como sabemos, em especial após a guerra. As operações da guerra contra o Irã, como sabemos, em que os Estados Unidos foram relativamente fragilizados sob o ponto de vista da política externa e até sob o ponto de vista da capacidade de impor alguma ordem nesta ordem internacional, que é de caos, por assim dizer, não são suficientes pra estar agora a machucar a posição dos europeus. Os europeus presumo que se deixem machucar por isso, mesmo que eventualmente não venham a responder a isso, que é uma política que a Europa tem feito, de só responder, de facto, se houver situações relativamente graves, como foi aquela de Gerry Evans na Conferência de Munique há dois anos, ou do próprio presidente, que não tem feito muitas vezes esse tipo de afirmações contra os europeus. O aspecto positivo disto é que dá, de algum modo, à Europa, cada vez mais aos líderes europeus, e às opiniões públicas europeias e às populações da Europa, a noção de que têm que se preparar para uma situação que seja uma opção da Rússia sob o ponto de vista militar, que seja diferente desta da Ucrânia, de expansão ou de escalada da guerra a outras regiões, têm que estar preparados, porque podem eventualmente vir a não ter apoio, porque há uma coisa que põe, que é a dúvida relativamente ao apoio dos Estados Unidos aos aliados europeus no âmbito da Aliança Atlântica. E essa questão tem razão para se colocar.
Ajuda a clarificar as coisas.
Eu não sei se vai clarificar, porque depois temos Donald Trump, por outro lado, como disse aqui há uns tempos atrás, que sob o ponto de vista da Aliança Atlântica, a aplicação do artigo quinto não está em causa. Há aqui questões que são de modelação complicada às vezes de perceber, mas quem anda nisto, como nós andamos aqui já há uns anos a perceber a posição, principalmente do Donald Trump, relativamente à sua relação com a Rússia, que induz naturalmente algum tipo de receio que numa situação em que os Estados Unidos tenham que tomar uma decisão definitiva sobre apoiar os aliados europeus, essa questão pode haver dúvidas que isso venha a passar. E isto só obriga os europeus a construírem de forma mais rápida e mais efetiva a sua autonomia sob o ponto de vista estratégico e político. Pelo menos que essa parte sirva. Eu julgo que pro lado dos países bálticos, que foram os países mais atingidos nisto Essa questão não se põe. Eles estão perfeitamente cientes que as primeiras tomadas de posição defensivas terão que ser deles, caso haja uma agressão da Rússia, e esperar que ocorra o apoio dos países, ou pelo menos do pilar europeu da Aliança Atlântica, naturalmente. E isso poderá ser suficientemente dissuasivo, mas pra isso a Europa tem que reconstruir e construir capacidades militares que não tem, e tem que o fazer de forma rápida.
Já que falamos dos Estados Unidos, estamos a dois dias das eleições intercalares norte-americanas, as chamadas midterms, que quase sempre acabam com uma derrota do partido do presidente em funções. Se isso acontecer, ou seja, se Donald Trump, por exemplo, passar a contar com uma maioria democrata no Senado, o que isso poderia significar pra estas duas guerras que estão em curso?
Há diversos tipos de derrota. E o que pode acontecer nesta é uma derrota estrondosa. Naturalmente, porque perder em todos os seis estados que estão em jogo sob o ponto de vista do Senado e a muitos daqueles que estão em jogo sob o ponto de vista do Congresso, da eleição de congressistas. E, portanto, tal como a alteração das duas maiorias que neste momento têm para maiorias democratas, que, como sabemos, quando o presidente, a administração não está em linha com pelo menos uma parte ou Congresso ou Senado, se tiver contra os dois, é possível as duas Câmaras de algum modo bloquearem muito daquilo que é a capacidade da administração americana. Agora, aqui outra questão se põe, que é mais séria pros americanos, que é a atitude que a administração, especialmente Donald Trump, que é quem tem a palavra final, relativamente à forma de conduzir a política interna e externa dos Estados Unidos. Muitas das coisas, sob o ponto de vista legal, como sabemos, exigem autorização do Congresso e do Senado. A guerra, a continuação da guerra, por exemplo, no Irão. Até que ponto ele vai seguir as instruções do Senado e do Congresso é uma questão que, sob o ponto de vista constitucional americano, pode colocar problemas internos graves aos Estados Unidos. E aí poderemos vir mais rapidamente do que esperávamos a perceber qual é a atitude do Donald Trump relativamente a introduzir mecanismos de natureza mais autocrática e autoritária dentro do regime americano. E isso aí é o problema mais sério que pode haver, porque uma crise constitucional americana séria, grave, que no limite pode ter situações de tensão interna muito complicadas, não é bom pro mundo. Porque os Estados Unidos, independentemente de serem com Trump, os Estados Unidos desorganizados e sem capacidade de atuar em termos externos, especialmente pra nós na Europa, é uma situação muito complexa e pode levar Donald Trump a tomar atitudes completamente empoderadas relativamente aos seus aliados mais democratas, em detrimento dos seus amigos mais autocratas, que é no fundo aquilo que ele gosta, como sabemos. E, portanto, isso pode ser um acelerador de instabilidade mundial, não só de instabilidade dentro dos Estados Unidos, mas de instabilidade mundial. Esperemos que isso não aconteça e que as instituições americanas consigam funcionar nos limites daquilo que a Constituição e a lei interna dizem relativamente àquilo que são as competências das duas Câmaras, do Congresso e do Senado, e que, no limite, poderá haver dificuldades de implementação dessas decisões, o que vai levar a situações de tensão interna nos Estados Unidos graves, como sabemos. Ou então Donald Trump aceita a regra do jogo democrático e tem que negociar, como muitos presidentes americanos fizeram no passado, com o Congresso e com o Senado, ou seja, os dois partidos negociarem soluções, que serão soluções que muitas delas poderão estar em linha com aquilo que é a opinião do circuito mais radical, mais MAGA da administração.
Aceitar as regras do jogo.
Vai ser curioso ver o que vai acontecer se isto, como tudo indica, se passar, pelo menos no caso do Senado. A probabilidade de ganhar os seis estados é enorme, como sabemos pelas diferenças das sondagens.
A ver vamos que resultado ditam essas eleições intercalares que acontecem daqui a dois dias. Tenente-general Marcos Rinho, muito obrigado por ter estado com o Rádio Observador.
Obrigado, bom domingo.
Bom domingo, obrigado.