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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A inteligência artificial já é a grande cena?

Computers as bicycles for the mind. It's sort of a beautiful metaphor. I think it captures the essence of what computing is. But then, last November, we got an upgrade. We went from the bicycle to the steam engine with the launch of ChatGPT. It was like the mosaic moment for this generation of the AI platform.

Satya Nadella é o CEO da Microsoft e aqui falava na semana passada na conferência de programadores. A Microsoft é uma das empresas que apostaram no metaverso como a próxima grande coisa. Mas agora, a mesma empresa, a Microsoft, ajustou o foco e é a grande investidora do ChatGPT. A inteligência artificial é cada vez mais a grande cena do momento. Na área dos gigantes tecnológicos, os mundos virtuais passaram para segundo plano e a inteligência artificial ganha cada vez mais destaque. É sobre esta mudança de foco que vou conversar com a jornalista Cátia Rocha, especialista do Observador em Tecnologia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia.

Obrigada, Ricardo.

A tecnologia é como a vida, andamos sempre à procura da próxima grande cena.

Isso foi muito filosófico.

Foi. Isto estava num pacote de pastilhas elásticas.

Andamos e às vezes na indústria tecnológica até se perseguem várias coisas ao mesmo tempo. Nos últimos tempos já houve muitas tendências, já falámos aqui sobre muita coisa, desde realidade virtual ao blockchain, aos NFTs, e ultimamente andamos a falar muito sobre o metaverso, não é?

Exatamente, porque há uns meses a grande cena, eu gosto de dizer grande cena, era o metaverso. Até há um episódio da História do Dia sobre precisamente o metaverso, que é uma espécie de mundo sonhado por várias empresas, com especial destaque para a ex-Facebook e atual Meta, de metaverso, de Mark Zuckerberg. Que mundo é este, afinal, Cátia Rocha?

É uma tendência tecnológica que quer construir mundos digitais. E já foi apresentada como algo que pode ter infinitas aplicações, desde o mundo do trabalho até à criação de um conceito que o nome soa um bocadinho estranho, que é os gêmeos digitais.

Gêmeos digitais.

Que é algo que está a ser falado na indústria, por exemplo, na indústria automóvel, em vez de se construir algo na realidade, um protótipo de um carro ou um modelo, algo que exista fisicamente, testa-se primeiro no ambiente digital, ou seja, cria-se um gêmeo digital de algo que mais tarde pode ou não existir na realidade.

Eu estava a pensar noutra coisa completamente diferente, que era eu poder ter um gêmeo digital que trabalhasse enquanto eu ficava no jardim a ler.

Também há uma ideia de haver um avatar, neste caso pode ser um gêmeo de alguém que existe na realidade, mas acho que a ideia é que se continue a trabalhar, mesmo que seja no metaverso.

Portanto, vou continuar aqui a fazer a história do dia e não será o meu avatar, nem o meu gêmeo virtual.

Pelo menos por agora, acho que será assim. Mas é um conceito que é emprestado da literatura. Já se falava nisto, este nome, pelo menos desde os anos 90. Falaste do Mark Zuckerberg, mas há várias empresas que já falaram no metaverso e que têm ambições no metaverso. Só que quando se associa a esta ideia, fala-se sempre da Meta, justamente pela história da mudança do nome. Foi uma aposta ambiciosa.

No fundo, isto é um universo muito parecido com o Second Life, para os mais antigos. Um universo digital, um mundo digital onde se pode andar, interagir.

Que há muitos especialistas que acreditam que é uma das primeiras interações com o metaverso.

E entretanto foram investidos muitos milhões neste metaverso, mas agora esse entusiasmo está a esfriar.

Há alguns sinais nesse sentido, sim. Um dos exemplos foi a compra de propriedades no metaverso, que é uma ideia que para muita gente é bastante estranha.

Portanto, comprar terrenos virtuais.

Comprar terrenos virtuais num mundo digital.

Mas que custa dinheiro real.

Exatamente, muitas vezes comprados com criptomoedas. E havia a teoria de que continuariam a valorizar. E houve aqui até grandes figuras a associar a sua imagem a esta lógica de imobiliário no metaverso.

Mas se calhar um T1 no metaverso continua a ser mais barato do que um T1 em Lisboa, ou não?

Depende de onde é que se comprava, qual é que era a plataforma e o que é que estava nessa propriedade no metaverso. Houve, por exemplo, figuras como Snoop Dogg a fazer investimentos em imobiliário no metaverso. A questão é que num ano, o preço médio de uma propriedade na Decentraland, que é uma das principais plataformas, caiu 90%. Portanto, é algo já bastante significativo. E houve aqui também outra questão que entrou em jogo, foi o lançamento do ChatGPT em novembro, que mostrou aqui e que criou também um maior apetite pela inteligência artificial.

E esse é um dado importante pra nossa conversa e até há aqui um dado curioso, temos de falar dele, um dado que resulta do trabalho de quem se dedica a medir estes pormenores, como por exemplo, a quantidade de vezes que é dito metaverso contra o número de vezes em que se fala de inteligência artificial, isto pelos grandes players da área da tecnologia.

Sim, há quem esteja a analisar aquilo que é dito pelos CEOs e pelos diretores financeiros nas apresentações de resultados, neste caso do primeiro trimestre, e só as quatro big tech, a Amazon, a Meta, a Alphabet, que é a dona da Google, e a Apple, falaram quase 170 vezes em inteligência artificial durante esta época de resultados, o que é um número bastante significativo. Só quatro empresas. Se falarmos de um universo ainda maior de empresas que são cotadas e que têm estas apresentações de resultados, estamos a falar de quase mais de 5000 referências à inteligência artificial.

Ou seja, está a aumentar o interesse pela inteligência artificial e a diminuir o interesse pelo metaverso. Isso já está a ter consequências na prática, Cátia?

Antes de mais, é importante especificarmos que é normal que haja mais empresas a falar de inteligência artificial, porque é algo que pode ser utilizado por mais empresas do que propriamente o metaverso. Ainda por cima o metaverso é algo que ainda está a ser desenvolvido. Mas sim, já há alguns efeitos mais práticos. A Disney, por exemplo, queria muito desenvolver experiências de entretenimento que fossem mais imersivas, que é uma das grandes promessas do metaverso.

Com realidade virtual, com os óculos, com aquelas coisas todas.

Exatamente. E criou uma equipa para isso. Só que entretanto, com essa história dos despedimentos nas grandes empresas, decidiu encerrar essa equipa. A Microsoft também tinha, em 2017, comprado uma plataforma de eventos virtuais, que usava realidade virtual, e decidiu também encerrar essa plataforma este ano em março. Mas Mark Zuckerberg, temos de voltar a falar dele aqui, um dos grandes nomes que está associado ao metaverso, diz que se criou uma falsa narrativa de que se está a perder o interesse por esta tecnologia, e continua de pedra e cal com este objetivo. Dizem que vão continuar empenhados em conseguir atingir estes dois objetivos, ou seja, o metaverso e a inteligência artificial. Ele acha que conseguem chegar às duas coisas, mas voltou a frisar que o metaverso é algo para se conquistar a longo prazo e que não vai ser só uma empresa a conseguir dominar esta tecnologia, que é algo que ele tem dito desde o início.

Já voltamos à conversa com a jornalista Cátia Rocha, especialista em tecnologia do Observador. Vamos tentar perceber o que significa esta expressão, estarmos a viver o momento iPhone da inteligência artificial. Voltamos à conversa com a jornalista Cátia Rocha, especialista em tecnologia do Observador. Cátia, o que é isso do momento iPhone da inteligência artificial?

O momento iPhone é uma ideia ou um conceito que se fala muito na indústria, sempre que alguma coisa se consegue tornar numa ideia que seja familiar para o público em geral. E obviamente que o iPhone não foi o primeiro smartphone, mas é uma ideia que associamos facilmente quando pensamos no que é um telemóvel, embora haja mais marcas a fazer smartphones. A inteligência artificial diz que está a passar por algo semelhante. Muita gente mesmo já brincou com o ChatGPT. Só um mês após o lançamento, já tinha sido usado por pelo menos 1 milhão de pessoas. Portanto, tornou-se uma ideia e uma interação que já é familiar para muito mais gente, ainda que já houvesse inteligência artificial antes e que já se usasse inteligência artificial para outras coisas, só que se calhar não percebíamos que era uma interação desse gênero.

Eu já fiz um pouco a experiência de experimentar o metaverso e experimentar o ChatGPT. E o ChatGPT, claramente, é muito mais simples de usar e é muito mais barato.

Os especialistas que eu vi para este especial dizem justamente isso, que o fato de ser uma interação que é muito semelhante à forma como nós fazemos uma pesquisa no Google, que é uma ideia com a qual a maior parte das pessoas que usa a internet já está mais do que familiarizada. E o fato de não ser preciso instalar nada, e de não serem necessários grandes requisitos do equipamento que estamos a usar, é claro que ajuda na popularidade de um sistema deste gênero. O metaverso é diferente. Para já, neste momento, não está totalmente desenvolvido. Existem algumas experiências e é possível experimentar algumas coisas, mas continuamos muito dependentes do suporte que estamos a usar. Neste caso, terá de ser uns óculos de realidade virtual ou de realidade mista, que são equipamentos que continuam a ser algo dispendiosos. E depois, há também o fato de o metaverso, idealmente, ser uma experiência social. Precisas de mais pessoas pra interagir pra poder tirar todo o potencial daquela tecnologia. Enquanto que com o ChatGPT, continuamos a falar do ChatGPT pra associar essa ideia de inteligência artificial, mas é uma experiência que pode ser feita individualmente. Basta abrir num site e tens ali uma interação com uma inteligência artificial.

Como nós os dois experimentamos aqui na História do Dia, quando fizemos alguns programas sobre o ChatGPT e testamos o ChatGPT. E é isso mesmo, no metaverso, dessa minha experiência, apesar de fugaz, ninguém falou comigo, eu também não falei com ninguém, dei por ali uma volta e fui-me embora.

Se não há pessoas, se calhar não há um aliciante pra experimentar, mesmo que tenha o equipamento.

E do ponto de vista empresarial, Cátia, a inteligência artificial também acaba por ser mais útil no sentido rentável do termo, ou seja, se eu vou ter que pôr dinheiro nalguma coisa, se calhar é mais fácil, mais rápido e mais útil estar a pôr em inteligência artificial do que estar a criar uma loja ou um espaço qualquer no metaverso.

A questão é que, neste momento, parece que a inteligência artificial tem um caso de uso muito mais evidente do que o metaverso.

O resultado prático.

Exatamente. Há mais aplicações e também mais empresas que já estão dispostas a investir. Desde que o ChatGPT começou a mexer, têm sido diversos anúncios de empresas que estão a trabalhar com esta tecnologia. Há um estudo de uma consultora, inclusive, que refere que há empresas que acreditam no potencial do metaverso, mas que estão a esperar para ver o que é que vai acontecer até se comprometerem com grandes investimentos. E isso é uma questão que é muito notória.

Sobretudo no contexto económico em que estamos, com a guerra e com as grandes economias mergulhadas na inflação. Isso também ajuda a tomar essas decisões.

Há muitas empresas que estão mais pressionadas e querem reduzir custos, inclusive na indústria tecnológica. Já falámos aqui sobre uma vaga de despedimentos na indústria tecnológica. E se há uma ferramenta que neste momento comunica à indústria que promete agilizar tarefas, como se tem falado muito com o ChatGPT, há mais empresas que estão disponíveis a tirar partido disso e se calhar a investir e a trabalhar nesse conceito. Mesmo no ponto de vista das tecnológicas que estão a trabalhar no metaverso. Claro que há pressão para reduzir custos. E há sempre a questão de o metaverso ser um objetivo a longo prazo. A grande questão é essa. Enquanto a inteligência artificial, mesmo que se vá investir e que seja um projeto que ainda precise de trabalho, parece ser uma coisa mais palpável neste momento.

E nesta avaliação do que poderá vir aí, do que é a próxima grande cena, tu e eu, Cátia, nós gostamos de tecnologia e se calhar podemos estar até num jantar a falar os dois de metaverso, mas se calhar mais ninguém se mete na conversa. Agora, quando começamos a falar de inteligência artificial, até pela controvérsia que o tema gera, aí já toda a gente quer falar. Tem sido também mais fácil, através desta controvérsia, manter este assunto na ordem do dia com mais atenção do que falar, por exemplo, sobre o metaverso?

Sim, e também há a questão de já haver muitas referências da cultura pop de inteligência artificial.

A música.

E sobre os perigos e tudo isso. E temos o caso do "Terminators". É o exemplo que as pessoas muitas vezes associam quando se fala de inteligência artificial e dos perigos.

E era neste momento que íamos ouvir a frase emblemática do Exterminador.

"Hasta la vista, baby."

Exatamente. Tem-se falado muito na questão dos perigos e discute-se muito o impacto no mundo do trabalho e quantos empregos é que podem ser substituídos com este uso de inteligência artificial e com a automatização. E isso também ajuda a manter a questão viva e a falar sobre a inteligência artificial e o que a inteligência artificial vai mudar. No metaverso também já discutimos perigos, já se falou sobre o que é que pode acontecer com estes mundos digitais, mas é uma discussão que parece ser ainda uma coisa de nicho.

E distante.

Sim, porque ainda não experimentámos, enquanto a inteligência artificial, com esta ideia da inteligência artificial generativa, estamos a ter usos muito mais práticos, está a tornar-se familiar.

E assim, Cátia, podemos dizer já nesta altura que a inteligência artificial já é a grande próxima cena ou já é a grande cena?

Na verdade, era uma tecnologia que estava há muito tempo no radar de várias empresas e já se usava internamente e já se falava aqui sobre todo este potencial. Mas esta tecnologia dos grandes modelos de linguagem, da possibilidade de escrever uma coisa e de repente aparecer um texto completo, que é a tecnologia da inteligência artificial generativa, que consegue criar coisas e criar imagens, é que veio dar um novo fôlego a esta questão e pôr muitas mais empresas a discutir este uso desta tecnologia.

Obrigado, Cátia.

Obrigada, Ricardo.

A jornalista Cátia Rocha é a especialista do Observador em Tecnologia. Esta foi a história do dia. E para quem nos ouve na app do Spotify, e atenção, só funciona na aplicação do Spotify, deixamos aqui uma pergunta: qual destas tecnologias já usou? O metaverso ou o ChatGPT? Este episódio contou com a colaboração da jornalista Maria Miguel Duarte, sonoplastia do Artur Costa e a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.