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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como funciona a nova tática do cerco criada pela Ucrânia? No início do século XVIII, Antonio Vivaldi, compositor nascido em Veneza, apresentou ao mundo as "Quatro Estações", um conjunto de quatro concertos para violino e orquestra. Uma obra-prima que se tornou imortal e que ainda hoje é reconhecida em todo o planeta. Foram estas "Quatro Estações" que inspiraram as Forças Armadas da Ucrânia, e é Vivaldi que dá nome à mais recente operação para combater a invasão russa. Operação Vivaldi, um plano de quatro fases que utiliza táticas nunca antes vistas. Há drones que transportam antigos carros blindados russos convertidos em robôs kamikaze, há ataques ao sistema de comunicação russo para assim cegar o comando e impedir a utilização de drones inimigos. Há também campanhas de desinformação com circulação de relatórios militares falsos e depois, com todas estas manobras aplicadas, há ataques de infantaria. É uma nova forma de cerco e mais um exemplo de como a Ucrânia está a mudar a forma de combater numa guerra. Vou conversar sobre esta Operação Vivaldi com o Coronel José do Carmo. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de sexta-feira, 2 de outubro. Bem-vindo, Coronel José do Carmo.
Olá, Miguel.
Vamos falar desta Operação Vivaldi. É mais um caso de sucesso, podemos dizer assim, das forças ucranianas, mas de alguém com experiência militar, que análise faz, que olhar tem para esta operação, que é mais um caso das forças ucranianas conseguirem surpreender o adversário?
Esta é uma operação que visa fazer frente a uma tentativa de envolvimento russo pelo norte daquela zona das fortalezas, Sloviansk. Esse avanço russo estava com uma saliência a noroeste de Liman, e não tinha ocupado Liman ainda, estava a pressionar Liman. E o que fez esta operação ucraniana foi, de forma muito discreta, isto foi em quatro fases, por isso é que chamou isto Vivaldi. Com as quatro estações. O que fez foi, paulatinamente, em diversas fases, reduzir essa saliência e o que conseguiu até agora foi travar, parar e até neutralizar uma tentativa de envolvimento russa, que estava a ser feita de forma lenta, por infiltração e depois por junção de forças. E este movimento ucraniano conseguiu cortar esse envolvimento e agora está numa outra fase que provavelmente irá avançar para cortar mesmo a frente desse envolvimento.
Estamos aqui a falar de um caso que já aponta para um sucesso, mas vamos explicar como é que isto funciona. Porque há aqui, de fato, quatro fases nesta operação e alguns métodos criativos. Perceber aqui como é que se começou a estruturar esta ideia, porque isto mostra um trabalho de vários meses. Como é que começou esta Operação Vivaldi? O que foi preciso as forças ucranianas para darem início a esta operação?
Primeiro foi fazer aquilo que é normal, que é estabilizar a frente e depois limpar a infiltração. Isto foi a primeira fase, ou seja, estabilizou-se a frente, estabilizou-se uma defesa para as tropas russas não avançarem muito mais. As tropas russas avançam por infiltração, infiltram pequenas equipas e depois tentam reabastecê-las por drones e depois juntar forças, paulatinamente, a essas infiltrações. É isto que estava a acontecer. Portanto, o que os ucranianos fizeram na primeira fase foi estabilizar a frente e depois limpar a infiltração. No fundo, resistiram às tentativas russas de apoiar esses infiltrados e depois localizaram-nos e exterminaram. Tudo isso foi feito, na maior parte das vezes, com drones. A parte de resistir às tentativas russas foi por drones que eram utilizados contra as forças russas que tentavam juntar-se a elas. Isso que fizeram na primeira fase, foi estabilizar e depois limparam essas bolsas de infiltração. E depois, na segunda fase, avançaram com tropas para ocupar aquelas zonas, apoiados sempre por drones, com umas bolhas de defesa aérea e eletrônica, que mantiveram os russos bastante cegos em relação ao que estava a acontecer. E depois, na fase seguinte, foi aquela que acabou, e agora vai começar uma quarta, não sabemos como, mas foi uma manobra sobre uma cabeça de ponte, que é a população de Nov. Nós chamamos Nov, não sei bem como é que eles chamam lá, mas é uma população. E que os russos não estavam a contar, os russos estavam a contar com uma manobra em direção a Guemoska, a população maior que havia no saliente. Os ucranianos fizeram um movimento pro norte, flanquearam também a frente da saliência pro norte e atacaram uma espécie de pega serranhelha e acabaram por parar todo esse movimento do envolvimento e neste momento estão a ameaçar o flanco do envolvimento. Portanto, eventualmente irão prosseguir para cortar essa cabeça.
E já ganharam aqui vários quilômetros no território.
Sim, já. Quase 200 km², andará por aí.
Mas toda esta operação tem uma grande novidade, uma grande inovação, que é esta questão dos drones terrestres e a forma como começam a ser utilizados. Há esta novidade tecnológica Tática, podemos dizer assim, em que há uma conversão de antigos veículos blindados das forças ucranianas em robôs explosivos, em veículos não tripulados de ataque, que servem quase como manobra de dissuasão e para distrair os russos para essa ameaça, para depois poderem avançar no território.
Sim, os ucranianos estão a utilizar drones aéreos pesados.
Estamos a falar, por exemplo, de helicópteros.
Sim, helicópteros e outros. Não são drones, são meios tripulados. Mas eles estão a usar, inclusive, drones aéreos pesados.
Muito bem.
Para colocar atrás das forças russas, nos seus flancos ou em zonas onde há boas defesas. Neste caso, o que colocaram lá foram duas viaturas BTR-60, que são viaturas blindadas antigas de transporte pessoal, têm quatro rodas de cada lado, se não estou em erro. Eram quatro rodas de cada lado, ou seis. Já não me estou a lembrar muito bem, que na altura isto é isso, mas já não me lembro se eram quatro ou seis. Mas era uma BTR-60, uma viatura de transporte de infantaria, já antiga. Encheram aquilo de explosivos e de facto utilizaram aquelas viaturas russas para destruir defesas bem colocadas nas povoações que depois atacaram para ocupar, que foi Nove e a outra que fica ligeiramente a noroeste, a uns três ou quatro quilómetros de Nove. Sim, foi o que fizeram. Eles estão a utilizar drones para colocar outros drones, portanto, drones aéreos para colocar drones terrestres, e estão a fazer ataques com estes drones. Estes por acaso tinham explosivos, mas também há drones com metralhadoras. Claro, depois no fim têm que chegar as tropas. No fim têm que ir tropas para lá e foram umas brigadas mecanizadas e de assalto que depois concretizaram. Tem que haver sempre uma ocupação que não é apenas mecânica, não é apenas automática, no fim, o que concretiza esta ocupação final, que é justamente tropas que se instalam lá e depois estabelecem a sua defesa perante tentativas russas de contra-atacar.
Sendo que estes foram-
Os russos foram enganados justamente porque estavam a contar com o ataque para frente.
Exatamente. E era por aí que eu ia, porque para além dessa utilização de drones, os ataques ucranianos, nessa utilização desses drones terrestres transportados por drones aéreos, podemos dizer assim, tiveram como objetivo principalmente atacar pontos de comunicação, ou seja, neutralizar a comunicação e os postos de comando russos para depois os ucranianos poderem avançar com a infantaria. Qual foi o impacto concreto desta paralisia na capacidade de reação e desorganização das tropas russas?
O que os ucranianos fazem, porque tudo isto é observado, tudo isto é visto, e portanto, o que os ucranianos fizeram foi criar uma espécie de bolha de guerra eletrónica e defesa antiaérea. Essa bolha acompanha as tropas. As tropas ficam dentro dessa bolha, o que no fundo cega tudo aquilo que é ação inimiga, que não consegue ver em tempo o que está a acontecer. Por isso não reage com a rapidez que é necessária e é apanhada em contramão. Isto no fundo é a retomada da manobra, que é uma coisa que está quase herdada do campo de batalha, mas nesse caso é a retomada da manobra e é uma maneira que nós temos que aprender também, como é que se retoma a manobra com estas bolhas de guerra eletrónica e defesa antiaérea, que no fundo perturbam os drones russos. Eles atacaram também e destruíram uma parte de uma unidade muito forte russa dos drones, que é a unidade Rubicon, também atingiram isto e conseguiram também reduzir bastante essa ameaça naquela zona. E portanto, no fundo, este silêncio, estas bolhas de guerra eletrónica e antiaérea, causaram surpresa e engano. E os russos não podem ver em tempo. Não é que não deduzam depois, mas o problema é o momento em que está a acontecer, chama-se surpresa tática. Não há tempo para reagir. Estas coisas não são automáticas. As reações implicam sempre uma cadeia de comando, uma perceção do que está a acontecer, uma mobilização de unidades para ali. Os russos, de facto, levaram para a frente, como pensavam que ia ser o esforço da Ucrânia, levaram para lá as unidades de reserva, o que também foi bom, porque empenharam ali as suas reservas. E foi inútil, desviaram-nas de outros sítios e já as empenharam. Agora estão empenhadas. E portanto, agora estão numa situação em que perderam a iniciativa naquela zona, o que é uma coisa bastante interessante. A ideia é que era a Rússia que estava com a iniciativa no campo de batalha, e é na maior parte do território, sempre com infiltrações, não há manobras assim sagazes.
Sim.
Mas a Ucrânia tomou a iniciativa e fez uma manobra que tomou completamente os russos de surpresa, embora eles tentem minimizar. Há uma tentativa em estudo final de minimizar o que aconteceu, mas de facto depois os bloggers russos dão conta que realmente aquilo doeu um bocadinho.
Coronel José do Carmo, fazemos apenas uma curta pausa, já voltamos à conversa. Estamos de regresso a esta conversa com o coronel José do Carmo, na "História do Dia". E estamos a falar destas novas estratégias que as forças ucranianas estão a avançar neste conflito. Nós podemos falar aqui nesta Operação Vivaldi da criação de um modelo de cerco do século XXI, em que já não se baseia apenas em infantaria e em sistemas tradicionais. Há aqui todas estas novas tecnologias que mudam completamente a forma de abordar este tipo de estratégia em guerra?
Sim, estamos. Neste momento já é impossível fazer a guerra. Em termos de infantaria, o que tínhamos, digamos, até esta guerra, eram unidades de infantaria. Vamos imaginar um batalhão de infantaria com cerca de 600 homens. Tinha três unidades de manobra, três companhias de infantaria, três companhias de atiradores, cada uma com 100 e tal homens. E depois tinham os seus morteiros, que no fundo faziam com que um batalhão tivesse um alcance de cerca 10, 11 quilómetros, depende agora do tipo de morteiro que tivessem. Neste momento, isso já não é assim. Neste momento, por exemplo, a Polónia está a organizar já unidades que têm três companhias de infantaria e uma companhia de drones. E uma companhia de drones, no fundo, e também já estão a pensar colocar drones inclusive nas companhias de infantaria, em cada viatura ter um drone, cada unidade de transporte ter drones. E, portanto, tudo isto leva o alcance de um batalhão Que vamos situar em normal em 10, 12 km, vai colocá-lo pra 30, 40, 50 km. Tudo isto muda. Os batalhões vão ter mais espaço. Em vez de terem uma frente de ataque ou defesa, que se media por centenas de metros, quilómetros, um quilómetro, na defesa é mais um pouquinho. Neste momento são muito maiores, as unidades estão mais dispersas, mas há estes drones que fazem o reconhecimento do que está a acontecer. Não há nada que aconteça à frente do batalhão, até uma distância de dezenas de quilómetros, que o batalhão não possa ver e não possa atacar. Isto altera completamente a guerra. As unidades têm que ser reestruturadas, a doutrina tem que ser mudada e isto tudo se está a fazer aos bocadinhos, com base nesta guerra. A Polónia já está a fazer isso, nós também temos que fazer. Temos que reformar doutrinas, porque as unidades que nós temos não estão preparadas para este tipo de guerra, estão preparadas pro que é habitual. Foi algo que eu aprendi. Um batalhão são três companhias e os morteiros, era isso que os batalhões tinham.
Os dados desta Operação Vivaldi mostram, além de números de baixas russas, mostram também um número muito elevado de prisioneiros de guerra russos, que os ucranianos conseguiram deter com esta operação. Que impacto é que isto tem para as ambições russas e também pra motivação desses militares do lado russo?
Segundo as informações ucranianas, os russos terão tido cinco mil e poucas baixas, mortos, feridos e desaparecidos, e cerca de 250 ou 300 prisioneiros. Mas foram unidades inteiras, não foram prisioneiros apanhados um a um. Há alguns casos em que foi, aqueles grupos de infiltração, mas depois houve unidades que se renderam. Isso acontece normalmente. Nas guerras, quando há um envolvimento, quando uma força é apanhada por trás, é normal que não consiga digerir o que está a acontecer e tem forças por trás dele e rende-se. Isto acontece nas guerras que já aconteceu, já houve rendições, de centenas de milhares de homens em batalhas, na Primeira Guerra Mundial. Isto pra Rússia é uma pequena coisa, aquilo é um territóriozinho. É evidente que os russos agora já percebem, vão aprender, também não são tontos, aprendem que há uma manobra ucraniana que está a ter resultados, irão obviamente tentar copiá-la, se for possível, ou pelo menos tentar arranjar métodos de a neutralizar ou de a tornar menos eficaz. Mas neste momento, sim, para os russos não foi uma boa notícia, não só em termos táticos, que perderam ali uma pinça de envolvimento, mas também em termos estratégicos, isto causa no Estado-Maior russo, e também na ideia de que o Estado-Maior russo está a controlar o que está a passar. As notícias que chegam ao Kremlin ou que são divulgadas não são verdadeiras, de fato, e os bloggers russos já vêm dizendo isso, que há ali uma cadeia de informação que está a funcionar, os comandantes dizem coisas que não estão a acontecer, digamos que melhoram os seus sucessos, e essa não é a informação certa que chega ao Estado-Maior russo, e depois acaba por haver informações que pra política também não são as verdadeiras. Isto estabelece uma desconfiança, obviamente, dentro da cadeia de comando russa.
Coronel José do Carmo, mesmo pra terminar, naturalmente, esta Operação Vivaldi pode ter um impacto nesse período de negociações que todos anseiam, porque pode colocar, de facto, menos território nas mãos russas e mais conquistas, neste caso, do lado ucraniano.
Sim, qualquer desaire russo ou ucraniano, qualquer desaire que haja de uma das partes, fragiliza a sua posição numa eventual negociação. Agora, a Rússia está a perceber que, em termos de guerra convencional, a linha da frente, os avanços no terreno, apesar de ter muitas mais forças, apesar de ter forças maiores e mais bem apoiadas em termos de apoio de fogos, não está a conseguir avançar. Já se sabia que estas fortalezas estão muito bem defendidas. Estas táticas de contra-ataque ucraniano estão a funcionar bem, são bem planeadas, são inteligentes. Tudo isso coloca a Rússia naquela possibilidade de: "E agora, lançamos mais lenha pra fogueira, mais carne pra canhão, mais homens pra frente, sempre na mesma estratégia de infiltrar alguns coitados, que depois lá ficam à espera que os apoiem?" É o que a Rússia tem que pensar. Pode fazer isso, obviamente, pode mobilizar mais gente e lançar pra frente. Mas também não pode fazer muito mais com eles, porque são tropas mal preparadas, também não podem fazer muito mais que isto, que é no fundo, ir pra lá e esperar que alguém os ajude, que alguém os apoie e que os outros se desistam. A Ucrânia está a fazer bem, está a preparar bem as suas tropas, pelo menos aquelas que depois executam estas operações, e consegue estes sucessos, desde que os faça com inteligência. No fundo, inteligência nisto não é morrer pela pátria, como se costuma dizer, é fazer com que o inimigo morra pela pátria dele. Esta é que é a ideia de uma guerra.
Vai mostrando à Ucrânia que também aqui o ataque pode ser a melhor defesa. Coronel José do Carmo, obrigado.
Foi um prazer. Muito obrigado.
Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Tomás Ferreira e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.