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Esta é a história do dia da Rádio Observador. As acusações de assédio que afastam o fundador do Doutor Finanças.

O Doutor Finanças é uma fintech da área do bem-estar financeiro que todos os anos ajuda milhares de pessoas a tomar melhores decisões relacionadas com a sua carteira. Acreditamos que o bem-estar financeiro deve estar ao alcance de todos. Para tornar isso possível, aliamos a tecnologia com o acompanhamento próximo e personalizado.

Estamos a escutar o vídeo de apresentação da empresa Doutor Finanças. Este vídeo está disponível no YouTube. Esta é uma empresa criada em 2014, que promove a literacia financeira e presta serviço de intermediação de créditos e venda de seguros. É uma das empresas tecnológicas de crescimento mais rápido em Portugal, tem representantes em todo o país e até já procura expandir-se para outras geografias. Rui Pedro Bairrada é um dos fundadores do Doutor Finanças. Ocupa atualmente o cargo de chairman e, desde janeiro, está proibido de entrar na empresa. Em 2025, foram entregues várias denúncias que apontavam para comportamentos impróprios. Rui Pedro Bairrada é alvo de um processo disciplinar por alegado assédio moral e sexual. No programa de hoje, conhecemos este caso revelado pelo Observador. Vou conversar com os jornalistas João Paulo Godinho e Leonor Riso. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de quinta-feira, 09 de abril. João, Leonor, bem-vindos.

Olá, Miguel.

Olá, Miguel.

Vamos talvez começar por explicar que empresa é esta, Doutor Finanças. Muitas pessoas que nos ouvem até podem já ter consultado este portal, mas há sempre quem não conheça. Leonor, o que é o Doutor Finanças?

Nós podemos definir o Doutor Finanças como uma intermediária de crédito, ou seja, apoia várias pessoas, quer na renegociação dos seus créditos, quer a comprar casa, e foi fundada em 2014. Também vende seguros, é outra área de negócio, e nas redes sociais e em toda a sua atividade, promove muito a noção de literacia financeira. Destacam que Portugal está sempre atrás nos rankings de literacia financeira e é uma marca bastante conhecida, ou seja, há lojas e representantes por todo o país, sendo que também já estendeu a atividade para Espanha e Itália.

Muito bem. Por acaso, não sabia, só quando fui perceber bem esta investigação, que tinham lojas físicas, portanto, já estamos a falar de uma empresa muito desenvolvida e que vive para lá do universo online. Rui Pedro Bairrada é um dos cofundadores desta empresa. João Paulo Godinho, quem é este homem e o que sabemos do seu percurso profissional?

O Rui Pedro Bairrada é o primeiro a admitir que não corresponde ao estereótipo de um CEO. Ele tem perto de 50 anos e estamos a falar de alguém que, conforme ele contou num dos livros sobre o seu percurso, não era um estudante brilhante. Não tinha grande motivação, não passava de um aluno mediano, chegou até a chumbar um ano na escola. Depois, segundo aquilo que ele contou num dos seus livros, foi no final do 11º ano que decidiu ir trabalhar a sério numas férias escolares. Foi assim que começou a sua experiência profissional a fazer pizas para uma cadeia de pizzarias. Não durou muito, porque semanas depois teve uma entrevista pra o Deutsche Bank para preencher uma vaga de férias do estafeta do banco, e foi aqui que mudou tudo. Ele entrou em 1995 e ficou cerca de 12 anos e quando saiu já era Partnership Banking Coordinator, já tinha funções bastante assinaláveis dentro do banco. Depois, nos anos seguintes, passou por diversas empresas financeiras, como a Personal Finance, a Dignus Capital, a Reorganiza, até que, como a Leonor dizia há pouco, em 2014, fundou com um pequeno grupo de pessoas o Doutor Finanças e a empresa cresceu exponencialmente nos últimos 12 anos, sempre com o Rui Pedro Bairrada como principal rosto da empresa.

Portanto, ele não criou isto sozinho, criou com outras pessoas, é cofundador da Doutor Finanças. Há uma biografia do Rui Pedro Bairrada no site Doutor Finanças. Estive aqui a consultar. Nesse texto, ele é descrito como um líder de afetos, certo? Esta é a descrição que aparece.

É verdade. Eu tomo a liberdade até para dizer a descrição completa que está aqui no site: "É um líder de afetos que gosta de mobilizar pessoas em torno de um propósito. É alguém que acredita que o bem-estar implica três pilares: corpo, mente e carteira, e que reconhece o poder da literacia financeira como instrumento para o alcançar". É esta a descrição que vem do Rui Pedro Bairrada. E de facto, tanto por aquilo que contou nos seus livros, como pelos relatos que nos chegaram, Rui Pedro Bairrada foi sempre uma figura muito presente no dia a dia da empresa. Era alguém que não se fechava no seu gabinete, que circulava pelos vários departamentos, que procurava e falava com as pessoas. É alguém que tem carisma, que tem sentido estratégico e que cultivava essa atenção e proximidade aos funcionários. A questão agora é o conjunto de denúncias de assédio moral e sexual que foram reportadas por várias pessoas Perceber se essa atenção, se essa proximidade extravasou ou não os limites profissionais.

É isso. Vamos precisamente falar desse caso. Leonor, tudo começa com várias denúncias. Quando é que isto aconteceu e o que referem estas denúncias?

Para colocarmos as coisas em termos de tempo, as alegações remontam a antes de janeiro de 2025, que é uma data importante, porque é o momento em que Rui Pedro Bairrada passa de CEO da empresa que fundou, a chairman. De momento, como chairman, são funções não executivas. Estas alegações, algumas terão chegado diretamente à administração da empresa. Contudo, é importante frisar que, tal como muitas outras empresas, o Doutor Finanças tem um canal de denúncia que funciona pelo menos desde 2022 e que está aberto para todos os trabalhadores que queiram denunciar comportamentos errados. O próprio código de conduta do Doutor Finanças determina situações que devem ser denunciadas, situações de assédio sexual, assédio moral, tal como em todas as empresas. Este canal de denúncia é gerido, e as denúncias que lá chegam também são tratadas por advogados. E é aquilo que aconteceu, está a acontecer, neste caso, o processo está a decorrer, tendo sido aberto no último trimestre de 2025.

Portanto, as primeiras denúncias remontam a janeiro e foi aberto já no último trimestre desse ano, é isso?

As denúncias remontam a um período anterior a janeiro de 2025. Neste momento, houve dois conjuntos de denúncias, pelo que o Observador apurou, que levaram à elaboração de duas notas de culpa, com as quais Rui Pedro Bairrada foi confrontado e que realmente notam-se aqui alegações de assédio sexual e moral que visavam trabalhadoras, pessoas do sexo feminino, e que, segundo os relatos que nos chegaram, podem estar aqui em causa comentários impróprios em contexto profissional e gritos com as pessoas. É de frisar que no Doutor Finanças, a maioria dos funcionários são mulheres.

Para complementar aquilo que a Leonor disse, é perceber que as denúncias foram formalizadas em 2025, mas os comportamentos que estão a ser reportados, alguns deles são certamente anteriores a janeiro de 2025, ou seja, as denúncias foram formalizadas num momento bastante posterior aos alegados factos que aconteceram.

Já continuamos esta conversa sobre as acusações de assédio que estão a afastar o fundador do Doutor Finanças. Fazemos apenas uma curta pausa. Regressamos à conversa com João Paulo Godinho e Leonor Riso sobre as acusações de assédio na empresa Doutor Finanças. Nós já estávamos aqui a utilizar um termo que é nota de culpa. O Doutor Finanças emitiu duas notas de culpa sobre este caso. João, é importante explicar este termo. O que estamos aqui a falar?

Muito sucintamente, as notas de culpa vêm transmitir da parte da empresa ao trabalhador visado, neste caso o chairman Rui Bairrada, a existência das denúncias de assédio, o teor genérico dessas alegações e uma provável delimitação no tempo de quando é que estes comportamentos terão alegadamente ocorrido na empresa. A primeira nota de culpa, isso nós sabemos que foi apresentada a Rui Bairrada em janeiro de 2026, foi na sequência de um primeiro conjunto de denúncias, e a segunda nota de culpa foi emitida, apresentada já em março, após um novo conjunto de denúncias de assédio que foram efetuadas por trabalhadoras. As notas de culpa acabam por formalizar, dessa maneira, a notificação da instauração do processo disciplinar ao visado e levam à imposição das primeiras medidas provisórias, preliminares, enquanto decorre o procedimento e que foi entregue, como a Leonor dizia há pouco, a uma entidade externa ao Doutor Finanças.

Portanto, há um processo disciplinar, está em curso e Rui Pedro Bairrada não pode entrar na sede da empresa.

Sim. Como dizia há pouco, a primeira nota de culpa é apresentada em janeiro, depois do processo disciplinar ter sido aberto no último trimestre de 2025, e foi essa primeira nota de culpa que veio a determinar a proibição de Rui Pedro Bairrada de frequentar as instalações da empresa durante o curso do processo disciplinar. Como consequência da nota de culpa, o chairman do Doutor Finanças já veio apresentar a sua contestação às alegações de assédio moral e sexual que lhe são apontadas por várias trabalhadoras. E o processo está agora nesta fase de contestação, alegações, inquirições.

Vamos falar precisamente disso. Leonor, o que diz neste momento Rui Pedro Bairrada sobre toda esta situação?

Contactado pelo Observador, o fundador do Doutor Finanças negou qualquer má conduta, indicando-nos que nada do que alegadamente aconteceu é verdade e que o provou em resposta às tais notas de culpa com que foi confrontado. Diz ter resposta para todas as denúncias, que o que lá está plasmado não constitui nem momentos de assédio sexual, nem de assédio moral. E quando lhe perguntamos sobre como foi ser impedido de entrar na sede da empresa, ele indicou-nos estar surpreendido por este processo, por essa medida disciplinar cautelar, disciplinar também, e no fim afirmou que se trata de uma montanha de nada. É a expressão usada.

Muito bem, utilizou essa expressão montanha de nada. João Paulo Godinho, e o Doutor Finanças diz alguma coisa sobre este caso?

Sim, o Doutor Finanças confirmou-nos a instauração do processo disciplinar a Rui Bairrada, confirmou a proibição do chairman de frequentar as instalações da empresa. Uma fonte oficial da empresa apontou para, e passo a citar: "Denúncias de comportamentos que, a comprovarem-se, são incompatíveis com os valores e normas de conduta da organização". O Doutor Finanças garantiu também que tomou conhecimento das denúncias através dos canais internos adequados, que desencadeou logo o procedimento quando surgiram as denúncias, embora, como aquilo que falávamos há pouco, saibamos que as denúncias e os relatos que estão nas alegações podem não ser exatamente no mesmo momento. Portanto, são coisas mais antigas. O Doutor Finanças assegurou ainda que este tipo de processos são para ser levados a sério, independentemente da posição do visado, que neste caso é o próprio chairman da empresa, e que não irá permitir que seja colocada em causa a proteção dos trabalhadores. É também por isso que a empresa tem um código de conduta e ética, como falámos há pouco, e que indica que as denúncias são tratadas com confidencialidade, com imparcialidade e com severidade, garantindo proteção contra eventuais represálias, além de uma tolerância zero face a qualquer forma de assédio moral ou sexual.

Sim, tudo o que estamos aqui a falar é um processo interno nesta empresa, o Doutor Finanças. Para fechar, Leonor, há alguma coisa a correr na Justiça?

O Observador questionou a Procuradoria-Geral da República acerca desse possível inquérito, dessas possíveis denúncias terem chegado desse meio judicial e não conseguimos resposta em tempo útil. Mas nada impede que estas mesmas denúncias, que este mesmo processo, não leve à abertura de um inquérito. Afinal, o assédio sexual e moral, em ambiente laboral, é criminalizado pelo Código do Trabalho. Por isso, vamos ver quais é que serão os próximos desenvolvimentos.

Leonor, João Paulo, muito obrigado.

Obrigado.

Obrigada.

João Paulo Godinho e Leonor Rizo são jornalistas do Observador e assinam esta investigação em observador.pt. No código de conduta e ética disponível no site do Doutor Finanças, podemos ler o seguinte: compromisso de tolerância zero. O Doutor Finanças assume um compromisso firme de tolerância zero face a qualquer forma de assédio moral ou sexual no local de trabalho. Depois disto, ainda neste código, aparecem duas definições claras. Assédio moral: comportamentos repetidos que visem humilhar, excluir ou desestabilizar emocionalmente um colaborador. E depois, assédio sexual: comportamentos de natureza sexual indesejados que criem um ambiente intimidatório, hostil ou ofensivo. Rui Pedro Bairrada, cofundador e chairman da empresa Doutor Finanças, está a ser alvo de um processo disciplinar na sequência de várias denúncias de assédio moral e sexual. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Ricardo Pelarigo e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.