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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Estão contados os votos das eleições autárquicas. Agora que são conhecidos os resultados, será que ganharam todos?

Nós somos efetivamente, objetivamente, os grandes vencedores. Eu não sei dizer isto de outra maneira. Eu sei que toda a gente se apresenta como ganhador e eu respeito isso, cada um apresenta o seu ângulo.

No discurso de vitória, o Luís Montenegro admite que o PSD não se saiu bem em alguns combates, mas diz que é objetivamente um vencedor das eleições autárquicas. O PSD venceu as principais Câmaras: Lisboa, Porto, Gaia ou Sintra, mas perde Viseu, um dos bastiões do partido. Do lado do PS, perdeu a maioria das Câmaras, mas ganhou algumas ao PSD e à CDU, como Viseu e Évora, e José Luís Carneiro concluiu que o PS voltou. O Chega ganhou as primeiras Câmaras. André Ventura diz que foi uma noite boa, mas admite que o partido não venceu como queria. Vou conversar com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de segunda-feira, 13 de outubro. Bem-vindo, Rui.

Olá, Luís.

Rui, depois desta grande noite eleitoral e longa noite eleitoral, estão contados os votos. O PSD conquista Câmaras como Lisboa, Porto, Sintra, Cascais, Gaia, mas também perde Viseu, só para dar um exemplo de uma autarquia emblemática. Estes resultados vão ao encontro daquilo que eram as expectativas de Luís Montenegro, Rui?

Sim, naturalmente que o PSD não esperava perder algumas autarquias que acabou por perder, como por exemplo Bragança e Viseu, que foi o exemplo que deste. Mas o PSD melhora em muito a sua situação. Estava umas boas dezenas de Câmaras ainda atrás do Partido Socialista há quatro anos, em termos estritamente numéricos, e há oito ainda mais. Separavam-nos, creio, mais de 50 Câmaras entre os dois. E o PSD sempre definiu como objetivo a liderança da Associação Nacional de Municípios, e isso é conquistado ao Partido Socialista, mesmo excluindo, por exemplo, candidaturas independentes que o PSD apoiou, mas que não iam com o símbolo do partido. Portanto, contando só com as que vão com o símbolo do partido. Claro que são em coligação com o CDS e com a Iniciativa Liberal, mas não há dúvidas sobre a liderança da Câmara ser para o PSD. E depois, curiosamente, fizeste muito bem nesses exemplos que deste, porque o PSD ao manter Lisboa, ao manter Cascais, ao conquistar o Porto e ao reconquistar Sintra e Vila Nova de Gaia, tem as big five populacionais do país, para não falar da importância que é ter Lisboa e Porto do ponto de vista simbólico. Perder Lisboa teria transformado esta vitória do PSD numa derrota, e perder o Porto ia saber a pouco, porque depois de 12 anos de Rui Moreira, não reconquistar essa cidade ia saber a pouco. E, portanto, tudo o que eram essas vitórias obrigatórias, podemos dizer que o PSD de Luís Montenegro teve. Claro que não foi em toda a linha. Perdeu Faro, que também estava nas mãos sociais-democratas, mas em determinada altura da noite até se achou que se podia perder, por exemplo, Braga ou Aveiro ou outras cidades, e não, e conseguiu vencer essas cidades. E, portanto, não foi tão mau assim como seria de esperar. Claro, Viseu é o cavaquistão, é teoricamente um local onde o PSD venceu sempre, mas também houve um trabalho ao longo dos últimos anos de João Azevedo e havia um desgaste já com a figura do presidente Fernando Ruas, que foi para a Europa, porque quando atingiu a limitação de mandatos, depois voltou e pelos vistos já não cria o mesmo entusiasmo nos eleitores de Viseu, e o PS venceu essa autarquia, certamente com mérito.

E este resultado, Rui, vem de certa forma reforçar a legitimidade do governo a nível nacional, ou seja, é mais um trunfo para a governação de Luís Montenegro?

Sim, eu não acho que seja uma vitória em toda a linha, como disse o primeiro-ministro, mas é uma vitória clara e é uma vitória em que dá para perceber que a marca Luís Montenegro, este PSD, conta para alguma coisa. Ou seja, é verdade que algumas vitórias nas legislativas, em conselhos onde o PSD não sabia como é que estava, se manteve algum desse eleitorado e mostrou que há aqui uma certa regularidade nesta nova fase dominadora do PSD, não no sentido de ter a maioria do país, mas ser o partido em que mais pessoas votam no país. E, portanto, foi assim nas legislativas, depois não foi nas europeias em que perdeu por pouco para o Partido Socialista, creio até em virtude daquilo que era a força da candidata Marta Temido, e depois venceu novamente umas segundas legislativas em pouco tempo. Numa altura em que o PSD continua a ser assombrado pelo caso Pinum Viva, que atinge o primeiro-ministro, continua sem ter uma maioria sólida, apesar de parecer que o orçamento já está quase pré-aprovado pelo Partido Socialista, é muito importante este reforço. Isto dá muita força ao PSD, as Câmaras de Gaia e de Sintra, para aquilo que é o reforço das estruturas, dos votos e mesmo para catapultar vitórias futuras, parece-me que Luís Montenegro foi se deitar certamente bastante descansado e vai ser uma segunda-feira pós-eleições muito de festejo e de festa para o Partido Social-Democrata e para o governo, que ganha aqui, obviamente, um balão de oxigénio importante para o que aí vem.

Rui, olhemos agora para o PS, que conquistou algumas câmaras importantes, como Évora ou Viseu, à CDU e ao PSD, mas não conseguiu vencer as mais significativas, perde também a Associação de Municípios. Ainda assim, José Luís Carneiro diz que o PS voltou. Tem razão Carneiro nesta análise?

Por comparativo com há quatro anos, o PS está pior, mas há quatro anos o contexto era diferente. Pouco tempo depois dessas eleições autárquicas, o Partido Socialista teve maioria absoluta. Só que o Partido Socialista de hoje não é o mesmo dessa altura e está em dificuldades e foi ultrapassado em número de deputados, embora não em votação, pelo partido Chega. Aqui a ideia era perceber se essa implantação nacional da figura de André Ventura passaria como uma espécie de vocação partidária, como tifosi para os eleitores que passariam a votar sempre no Chega como uma massa adepta, independentemente de ter ou não André Ventura como candidato. Eu sei que já vamos falar do Chega, mas isto era um risco muito grande para o Partido Socialista. E o PS conseguiu, aguentou-se, resistiu. E essa resistência não foi só como a CDU, que é aguentar, não, conseguiu ir para caminhos que não tinha ido antes. Por exemplo, conquistar Viseu. Qual é o problema do Partido Socialista? Perde a liderança da Associação Nacional de Municípios e simbolicamente desce o número de câmaras, fica atrás do PSD e ao mesmo tempo frustra um pouco as expectativas, porque em determinado momento achou-se que era possível, até o início da noite eleitoral, que o Partido Socialista ainda pudesse vencer Lisboa, porque estaria taco a taco, e também o Porto, onde aliás foi favorito quase sempre nos últimos meses. A juntar ainda uma possibilidade de vencer Braga e Aveiro. Podia ter tido uma noite magnífica. Não teve, não se pode dizer que seja vencedor, mas é um resultado lisonjeiro para o Partido Socialista. Eu percebo que o secretário-geral diga que está de volta, porque ninguém sabia em que estado estavam aquilo que Carlos César chamou os edifícios do PS depois de um tsunami, que ele chamou de tsunami à derrota das legislativas. E eu creio que o Partido Socialista provou que ainda é, e o ainda é não é como se estivesse a esfumar ou a escapar-lhe pelos dedos, é porque ainda é e ainda se consegue afirmar como um grande partido em Portugal e destas autárquicas sai essa confirmação do PS ainda ser a segunda, e muito perto da primeira, potência autárquica.

Rui, este foi o primeiro teste de Carneiro numa eleição depois de ser líder do PS, ainda que não tenha sido ele a preparar todo este ato eleitoral. Alguns nomes já vinham também da liderança de Pedro Nuno Santos. Como é que fica a liderança de José Luís Carneiro depois deste resultado?

Não fica mal. Acho que a liderança de José Luís Carneiro ficaria melhor se tivesse ganho Lisboa e o Porto, mas mesmo assim também essas escolhas poderiam ser atribuídas a Pedro Nuno Santos. Mas eu creio que José Luís Carneiro mostra que tem alguma sensibilidade. Eu acho que as autárquicas eram as melhores eleições para ele, sinceramente, porque ele é alguém que conhece bem a realidade. Ele foi autarca de Baião, que já agora o PS perdeu para o PSD. Luís Montenegro fez questão de dizer que ganhou na terra de Pedro Nuno Santos, ganhou na terra de André Ventura, ganhou na terra de José Luís Carneiro e ganhou na terra dele. Por estranho que não, também é uma coisa que é simbólica para ele. E na verdade, José Luís Carneiro conseguiu ter uma derrota bastante honrosa e que lhe dá boas perspectivas para ficar algum tempo à frente do Partido Socialista, que eu acho que tem mesmo que aguentar este líder, pelo menos até umas próximas eleições legislativas.

Já vamos continuar a conversa com Rui Pedro Antunes, agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com o Rui Pedro Antunes. Rui, olhemos agora para o Chega, conquista três câmaras, mas o resultado fica aquém daquilo que eram os objetivos de André Ventura. Ainda assim, vencer estas primeiras câmaras é uma vitória?

Sim, eu creio que André Ventura é um dos derrotados da noite. Não tenho dúvidas relativamente a isso, até porque tem metade das câmaras do CDS. O Chega conquistou três, o CDS manteve as seis que tinha e mesmo assim teve um quarto das câmaras que teve a CDU, por exemplo, e só teve mais uma do que o Nós Cidadãos. Isto para um partido que tinha acabado com o bipartidarismo e que tinha a expectativa de avançar também no campo autárquico, o que não é muito fácil para partidos novos. E isso era a grande diferença do Chega relativamente, por exemplo, ao Bloco de Esquerda, que só teve uma câmara e foi de uma autarca que passou do PCP para o Bloco de Esquerda e manteve-se no cargo. Isso era significativo. Eu acho que não podemos negar que o Chega tem um crescimento a nível de vereadores, mandatos, tem presidentes de junta, já tem também três presidentes de câmara. E eu acho que a Câmara do Algarve, de Albufeira, é uma câmara com significado, com orçamento, com peso. Ainda por cima neste novo venturistão que é o Algarve, olhando as legislativas, e onde ele parece ter uma grande popularidade naquela região. Não ignorando isso, o Chega ficou muito aquém daquilo que chegou a ser a expectativa. É um partido com implantação nacional, está presente norte a sul do país, mas ainda é um bebezinho autárquico comparado com o Partido Socialista e com o Partido Social-Democrata. Disso não há dúvida nenhuma. Inclusivamente, está atrás e bastante atrás da CDU.

Rui, queres deixar também aqui alguns destaques de outros partidos nestas autárquicas?

Sim, na verdade, foi surpreendente, porque não acompanho essas dinâmicas autárquicas mais localizadas, o Nós Cidadãos conseguir eleger dois presidentes de câmara. Parece-me que os independentes basicamente esfumaram-se, são muito menos do que nos últimos anos, ou pelo menos os vitoriosos são menos, embora ainda sejam o terceiro partido com mais autarquias, se fossem um partido, seriam a verdadeira terceira força. E depois dizer que, mais uma vez, os outros pequenos partidos do nosso Parlamento provam que estão longe de conseguirem ser grandes potências autárquicas. O LIVRE e o Bloco de Esquerda se tivessem vencido Lisboa poderiam ter algo para abanar a dizer: "Isto foi a nossa grande coligação". Não conseguiram, não têm muito para mostrar pelo país fora, e isso acaba por ser um bocadinho dramático para o plano autárquico destes partidos. Mesmo a Iniciativa Liberal, é certo que está em Lisboa e no Porto, isso é importante para fazer o seu caminho, mas foi um bocadinho à boleia de outras figuras do principal partido, neste caso do PSD, e em alguns casos até parece, mesmo que tenha melhores lugares, parece ainda não ter sequer o mesmo peso que o CDS nessas coligações, apesar de o CDS ser um partido, neste momento, mais fraco no espectro político e naquilo que é os votos que tem conseguido à nível nacional. E por isso parece-me que esses partidos estão muito debilitados, nunca foram grandes potências autárquicas e também não parece que vão ser nos próximos anos por esta amostra.

Assim sendo, Rui, e olhando para PSD, PS e Chega, quase que podemos dizer que ganharam todos?

Só se for por-

Pelo menos pelos discursos parecia

...parência ganharam todos, mas uns ganharam mais que outros. E parece-me claramente que, dito por esta ordem, PSD, PS e Chega estaria bem hierarquizado quem ganhou mais e o Chega está bastante longe do Partido Socialista, ou seja, José Luís Carneiro teve um resultado muito melhor que o de André Ventura. Sei que o PS tem 50 anos de estrada e disto, e que é mais difícil ao Chega recrutar pessoas, estar presente nos sítios, e o PS é uma marca muito forte há muitos anos por todo o país, mas também não nos podemos esquecer que a política também é feita de expectativas e com o resultado que o Chega teve nas legislativas e com aquilo que foi o que o seu líder andou a dizer nas últimas semanas e nos últimos meses, temos que olhar para este resultado como uma derrota clara. Portanto, deixa-me só contestar, uns ganharam mais que outros e eu diria que, no caso de André Ventura, perdeu mesmo.

Obrigado, Rui.

Obrigado, Luís.

Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. Nesta história do dia, deixo ainda três coisas a ter em conta esta segunda-feira. O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, participa na reunião plenária da Assembleia Parlamentar da NATO em Liubliana, discursa na sessão plenária e participa numa sessão de perguntas e respostas moderada pelo presidente da Assembleia Parlamentar, o português Marcos Perestrello. Organizado pelo Banco de Portugal realiza-se o encontro de Lisboa dos bancos centrais dos países de língua portuguesa. É uma das primeiras iniciativas a contar com o novo governador, Álvaro Santos Pereira. Participam governadores de bancos centrais do Brasil, Moçambique, Angola ou Cabo Verde. Em Lisboa, no Teatro Tivoli, sobe ao palco a cantora e compositora Maria Luiza Jobim, filha de Tom Jobim. Um espetáculo que começa às 21:00 e que conta com a participação especial do português António Zambujo. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Artur Costa. O som que escutámos no início do programa foi retirado da emissão da Rádio Observador. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.