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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como a guerra das tarifas nos poderá afetar.
Other countries are big abusers also. It's not just China. China is an abuser, but the European Union is very bad to us. They treat us very badly. They don't take our cars at all. They don't take our farm products, essentially. They don't take very much.
Donald Trump ameaçou e cumpriu tarifas adicionais para produtos chineses, mexicanos e canadianos. E a União Europeia poderá ser a próxima na lista. Queixa-se Trump que os europeus não compram os carros dos Estados Unidos ou produtos vegetais. A balança pende, diz o presidente norte-americano, e muito para o lado europeu. Donald Trump diz que quer proteger a economia norte-americana e nivelar a diferença entre importações e exportações. Mas esta política protecionista vai ter consequências globais. E que consequências poderá ter para nós, em Portugal? Vou conversar com Miguel Faria e Castro, professor economista na Reserva Federal do Banco de Saint Louis, no estado do Missouri, nos Estados Unidos. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 04 de fevereiro. Bem-vindo, Miguel Faria e Castro.
Olá, obrigado pelo convite.
O que afinal Donald Trump propõe? Ajude-nos a perceber que propostas são estas.
Para começar, muito rapidamente, quero só enfatizar que isto são as minhas opiniões pessoais e não refletem as posições da Reserva Federal. Mas basicamente o que o presidente propôs, e assinou uma ordem executiva a definir, são tarifas de 10% em todos os bens importados da China e tarifas de 25% em todos os bens importados do Canadá e do México.
Isto já foi feito, portanto esta ordem executiva, este decreto, já foi assinado.
Exatamente. Agora a questão é quando é que será exatamente implementado. Era suposto isto tudo ser implementado na terça-feira a seguir à assinatura da ordem executiva, mas entretanto, já algumas das tarifas, nomeadamente as tarifas aplicadas no México, já foram adiadas por um mês a implementação. Mas em princípio, tarifas sobre o Canadá e a China serão implementadas em breve.
E se é que podemos usar aqui a figura, a Casa Branca, no fundo, Donald Trump ameaça fazer o mesmo com a União Europeia?
Sim, já houve indicações nesse sentido. Agora, não é claro exatamente quais são os detalhes exatos desse tipo de tarifas que serão implementadas, e aqui os detalhes interessam muito, porque esta medida é um pouco sem precedentes, porque estão a ser tarifas aplicadas em todos os bens e serviços que são importados destes países. Mas aquilo que se passou, por exemplo, durante a primeira administração Trump, foram várias tarifas seletivas que eram apenas aplicadas em determinados tipos de bens e serviços, como aço e outros materiais intermédios industriais.
Já agora ajude-nos a perceber isto. Aqui podemos ter, eu diria, dois tipos de tarifa. Uma aplicada ao valor do produto, outra ao produto. Ou seja, vamos imaginar que um microfone importado enquanto objeto tem uma tarifa de 10%. Isto é uma coisa independentemente do custo do microfone. Outra coisa é aplicar 10% ao valor desse microfone. Portanto, se o microfone valer nessa altura $500, passará para, já estou aqui perdido nas minhas contas, 550? É isso?
50, exatamente. Sim, estas tarifas são todas sobre o valor, são tarifas ad valorem. Aplicam-se ao valor das importações. Seria o segundo exemplo. Mesmo que o preço do microfone flutue, o valor da tarifa também irá flutuar, porque é sempre uma percentagem fixa do valor do bem ou do serviço que é importado.
E quais são as razões que o presidente norte-americano evoca para avançar com este tipo de medidas e, já agora pergunto-lhe também, se lhe podemos chamar medidas protecionistas.
Sim, pode chamar, definitivamente. Este é o melhor exemplo que há daquilo que é política protecionista. Eu não quero estar aqui a especular sobre as razões que levaram o presidente a implementar esta medida, mas algumas razões mais ou menos explícitas que já foram referidas pelo próprio presidente e por membros da administração têm a ver com tentar utilizar estas tarifas talvez como alavancagem negocial para resolver problemas que não são necessariamente económicos, por exemplo, a questão da imigração na fronteira sul dos Estados Unidos. O presidente já disse várias vezes que uma das razões pelas quais quer causar alguma dor ao México é precisamente para forçar o México a atuar na questão da crise da imigração na fronteira sul. Em relação ao Canadá, não é muito claro qual é o objetivo das tarifas, porque caso eu saiba, não existe uma crise de imigração.
Uma tentativa de fuga de canadenses para os Estados Unidos, não é?
Sim. Que eu saiba, não. E aliás, há muitos fluxos migratórios temporários entre Estados Unidos e Canadá, porque há muitos canadenses que trabalham nos Estados Unidos e vice-versa, nas zonas da fronteira. Há muita gente que tem família no Canadá, muitos canadenses que têm família nos Estados Unidos.
Podemos comparar mais ou menos com Portugal e Espanha, nomeadamente na zona raiana, que há muitas trocas, portanto, as pessoas vivem de um lado ou do outro e trabalham de um lado e do outro.
Sim, sem dúvida. Acho que é uma boa comparação. Eu não tenho dados. Não sei o que são os dados, mas eu acredito que as zonas fronteiriças do Canadá e dos Estados Unidos estejam mais integradas economicamente e culturalmente do que Portugal e Espanha estariam. Há uma integração muito forte, de facto, nas zonas fronteiriças. E depois há imensos fluxos comerciais, não apenas nessas zonas, entre as economias americana e canadiana. Os Estados Unidos importam, por exemplo, muito petróleo cru, não refinado do Canadá. Grande parte da capacidade de refinação de petróleo dos Estados Unidos está dedicada a petróleo que vem do Canadá. E há muita troca também de bens intermédios e bens industriais entre as duas economias. Isso também é verdade com o México.
Mas a energia, nomeadamente o petróleo, não está abrangido por estas tarifas, ou está?
Está, de certa forma. Aquilo que a ordem executiva indica é que há uma tarifa de 25% em todos os bens e serviços importados do Canadá, com exceção de bens e serviços energéticos, que estão sujeitos a uma tarifa de apenas 10%. Portanto, há uma tarifa mais baixa para bens energéticos como o crude, mas há uma tarifa, mas é uma tarifa mais baixa.
Já voltamos à conversa com Miguel Faria e Castro, professor e economista na Reserva Federal do Banco de St. Louis. Afinal, que consequências podem ter para nós, aqui em Portugal, estas decisões tomadas em Washington? Estamos de regresso à conversa com Miguel Faria e Castro, professor e economista na Reserva Federal do Banco de St. Louis, nos Estados Unidos, no estado do Missouri. Miguel Faria e Castro, e quem é que vai pagar os aumentos que vão resultar destes aumentos nas tarifas aí nos Estados Unidos e, a confirmar-se também que estas tarifas vão ser aplicadas, ou o aumento destas tarifas vão ser aplicadas também à Europa e à União Europeia, aqui na Europa. Quem é que vai pagar isso tudo? É, como sempre, o consumidor?
É uma excelente questão, porque derradeiramente será o consumidor e serão os trabalhadores, porque as tarifas têm efeitos diretos, tornam as coisas mais caras, mas ao tornar as coisas mais caras, também reduzem a procura por essas coisas e, portanto, pode haver incentivos a que as empresas que produzem alguns desses produtos reduzam a sua capacidade de produção e isso resulte em despedimentos de trabalhadores. A questão mais interessante, e que de facto não é super claro, é quais os consumidores e quais os trabalhadores que vão pagar por isso. Por exemplo, assumindo no cenário hipotético de os Estados Unidos imporem tarifas em bens importados da Europa, e digamos que a Europa retalia e impõe também tarifas em bens importados dos Estados Unidos, não é claro à partida. Alguém há de pagar por isso, mas a distribuição do custo não é clara, porque à partida, o efeito de primeira ordem das tarifas é que as tarifas são um imposto sobre bens e serviços importados. Logo, assumindo que a empresa que importa o produto e vende ao consumidor final transmite todo o valor da tarifa pro preço do produto final, acabam por ser os consumidores a pagar principalmente a tarifa. Só que depois há muitos efeitos de segunda ordem aqui que podem afetar a transmissão da tarifa pro preço final do produto. Há o efeito da procura, que eu já referi. Aquilo que vai acontecer, provavelmente aqui nos Estados Unidos, é que tudo o que vem do exterior torna-se mais caro. Portanto, as pessoas vão começar a substituir o seu consumo de bens e serviços por bens mais baratos, talvez produzidos domesticamente por outros produtos. Isso, portanto, acaba por reduzir as importações e também vai reduzir a receita que advém da tarifa, porque há menos importações. Outro efeito que também é bastante importante e que se calhar não é tão intuitivo, tem a ver com as taxas de câmbio, porque aquilo que vai acontecer é que os Estados Unidos, ao imporem tarifas em bens importados, o que acaba por acontecer é que vai haver menos procura pela moeda dos países onde esses bens são produzidos por parte de consumidores e produtores americanos. Isso vai levar a uma apreciação do dólar face a outras divisas. E o dólar, ao apreciar aquilo que torna, efetivamente, tudo o que é produzido no exterior, torna isso mais barato. Portanto, isto ajuda a atenuar bastante os potenciais aumentos de preços que podem advir das tarifas. Mas também torna as exportações dos Estados Unidos menos competitivas, porque tornam-se mais caras do ponto de vista do resto do mundo.
Então, posso lhe perguntar pra quê? Há ganhos efetivos, por exemplo, para a indústria norte-americana, no fundo, é esta a desculpa ou a razão avançada por Donald Trump. Há ganhos para a indústria nos Estados Unidos, para o tecido empresarial nos Estados Unidos, de ter estas medidas protecionistas?
No agregado, eu penso que não, porque a maior parte das empresas que talvez poderiam beneficiar de um aumento de tarifas, por exemplo, em carros, automóveis importados da Europa e do México, estamos a pensar, por exemplo, nos produtores de automóveis domésticos americanos. Isto vai ser mal pra eles, porque aquilo que se passa é que na economia globalizada em que nós hoje vivemos, esses produtores de automóveis estão dependentes de cadeias de abastecimento muito complicadas que atravessam vários países.
Exato.
E, portanto, a General Motors em Detroit, que é atualmente um dos maiores produtores domésticos de automóveis, a grande parte dos componentes que vão pra esses automóveis que eles produzem no Michigan, imensos componentes são importados do México. Portanto, estas tarifas vão contribuir pra aumentar o custo dos bens intermédios que são usados por esses produtores e vai acabar por magoar esses produtores domésticos. Portanto, é possível que alguns setores ganhem com isto, setores que não importam bens intermédios, mas esses setores são uma parte relativamente pequena da economia.
Deixe-me só pôr outra dúvida, porque já deu em parte esta explicação, mas isto pode ou não conduzir a uma subida da inflação nos Estados Unidos e se calhar por aqui também?
Sim, pode potencialmente. Tal como expliquei quando estava a falar dos efeitos macroeconômicos das tarifas, há aqui muitos efeitos mais ou menos subtis que podem, à partida, atenuar os aumentos dos preços, nomeadamente a questão das taxas de câmbio e da apreciação. Mas sim, à partida, podem contribuir para um aumento dos preços e da inflação.
O Miguel Faria e Castro é também professor de economia. Deixe-me aqui fazer-lhe uma pergunta muito utópica, imaginando que ela possa estar a ser feita também por alguns dos nossos ouvintes e aproveitando, obviamente, todo o seu conhecimento da economia. Um mundo sem tarifas aduaneiras, em que o comércio seria totalmente livre, é impossível porque os desequilíbrios seriam incontroláveis, é isso ou não?
Não, eu não acho que seja impossível, porque os preços e taxas de câmbio ajustam para refletir esses desequilíbrios. Portanto, um mundo desse gênero seria um mundo bastante eficiente, porque seria um mundo em que haveria muita especialização por parte dos países, em que basicamente se a China é o país do mundo onde é mais barato produzir veículos elétricos, então todos os veículos elétricos seriam produzidos na China. E eles enviariam, por exemplo, esses veículos elétricos para os Estados Unidos e para a Europa. Os Estados Unidos especializar-se-iam, por exemplo, em serviços financeiros ou educação, que são duas exportações muito importantes do país. A Europa especializar-se-ia em coisas como turismo. E trocariam bens entre si. Acho que é perfeitamente sustentável, seria um mundo bastante eficiente. Agora, esta questão das tarifas vai muito para além de questões de eficiência e questões de economia e são frequentemente, como temos visto, usadas mais para atingir fins e objetivos políticos, que não têm necessariamente a eficiência em mente.
Ou seja, como explicava há pouco, será mais uma arma para a Casa Branca poder usar em futuras negociações.
Sim, eu não sou cientista político, não sou analista político, não sou especialista nesses assuntos, mas sim, o objetivo das tarifas parece-me ser mais desse gênero. Acho que não há nenhum objetivo econômico muito profundo por trás das tarifas. Acho que tenham objetivos mais políticos do que econômicos.
O Miguel Faria e Castro tem uma visão de quem está, estamos a ter esta conversa com o Miguel em St. Louis, no Missouri. Aqui neste cantinho da Península Ibérica e da Europa, que consequências é que antevê que possam ocorrer aqui no nosso dia a dia em Portugal? Consegue dar-nos exemplos de possíveis consequências desta decisão tomada em Washington, na Casa Branca?
Sim, isto vai ter um efeito bastante disruptor no comércio internacional e tal como eu expliquei antes, dando o exemplo da General Motors, aquilo que se passa é que grandes fabricantes, principalmente empresas do setor secundário e manufatura, aqui nos Estados Unidos, têm cadeias de abastecimento muito internacionais que passam por países como Portugal. Uma vez mais, não tenho aqui os dados comigo, mas certamente que haverá empresas em Portugal que abastecem ou diretamente empresas nos Estados Unidos ou abastecem empresas talvez na Alemanha ou na França, que por sua vez abastecem empresas nos Estados Unidos. E ao disruptermos estas cadeias de abastecimento, vamos certamente afetar essas empresas em Portugal que participam dessas cadeias de abastecimento internacionais. Para além disso, vai haver disrupções na produção, vai haver efeitos nos mercados energéticos, certamente. O Canadá é um grande produtor de petróleo. Isto vai contribuir para o aumento dos preços do petróleo por todo o mundo, garantidamente, o que vai afetar naturalmente os preços da gasolina, etc., em Portugal e também o custo dos materiais intermédios para fabricantes portugueses. E também o México é um grande produtor de determinados tipos de bens agrícolas a nível global, e isso também vai afetar esses setores.
Os famosos abacates, por exemplo, não é?
Exatamente, os abacates, que o preço certamente vai aumentar.
Deixe-me só fazer aqui mais uma pergunta. O Miguel há pouco falava da questão do turismo e estando Portugal tão dependente do turismo e tendo agora recentemente tantos norte-americanos a vir para Portugal, quer para viver, quer para passear, isto também pode ter um reflexo, por exemplo, nas tarifas da TAP ou nas tarifas de avião?
Sim, possivelmente. Isto pode ter um efeito, aliás, como nós temos visto, já os mercados bolsistas têm reagido às tarifas, têm se ressentido. Ainda não é bem claro se será grande ou pequeno, mas isto terá um efeito no poder de compra dos americanos. E depois também a questão é que não é claro o que vai acontecer em termos de retaliação.
Que é expectável que aconteça, não é? Ou não.
Exato. Se os Estados Unidos acabam por impor tarifas na União Europeia, pode ser que a União Europeia retalie e complique a vinda de americanos para a Europa. E acho que isto teria consequências importantes para a economia portuguesa, porque tal como referiu, os americanos têm-se tornado bastante importantes para o setor do turismo em Portugal.
Muito obrigado, Miguel Faria e Castro.
Obrigado eu. Obrigado pelo convite.
Miguel Faria e Castro é professor e economista na Reserva Federal do Banco de St. Louis. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.