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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como a Ucrânia coloca em risco a mulher mais rica da Rússia. "Já há quase duas semanas que os depósitos da nossa empresa estão a ser alvo de ataques terroristas." Tatiana Kim, que aqui escutamos, é dona da Wildberries, chamada Amazon da Rússia. Neste registro do fim do mês passado, denunciava um ataque ucraniano de mais de 200 drones contra um depósito da empresa numa cidade russa. Os ataques repetidos por cerca de duas semanas terão causado perdas de dezenas de milhões de dólares aos vendedores de vários países. Tatiana Kim, descrita como a mulher mais rica da Rússia, rejeita as alegações de que vende produtos militares. Diz que os produtos que vende são em tudo idênticos aos disponíveis, por exemplo, na Amazon. Mas afinal, quem é esta mulher e o que explica os ataques ucranianos? Vou conversar com o José Carlos Duarte, jornalista da editoria internacional do Observador. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de terça-feira, 11 de agosto. Bem-vindo, José.

Olá.

José, vamos começar pelo princípio. A Tatiana Kim nasceu na Rússia, mas os pais eram de etnia coreana. O que é que leva exatamente esta mulher a lançar este negócio?

Ela começa este negócio por dificuldades financeiras. Tatiana Kim era professora de inglês, dava aulas particulares, dava explicações, mas quando teve a primeira filha em 2004, não tinha forma de sustentar a família. Ela era casada e o marido é uma peça muito fundamental na sua história de vida, mas havia ali uma falta de dinheiro que a levou a aventurar-se no mundo dos negócios. Além disso, ela sentiu e confessou que não havia muita alternativa para comprar roupa pra bebê, pra comprar coisas pra crianças. Na Rússia havia pouca oferta e, portanto, a ideia dela foi-

Sentiu que havia ali uma oportunidade de negócio.

Exato. Estava de licença-maternidade, não tinha muito trabalho, portanto, foi uma forma de se lançar ao mundo empresarial e começou por vender duas marcas alemãs num pequeno site que ela criou juntamente com o marido, atual ex-marido.

Já lá vamos.

A história é um pouco complexa. E foi aqui que começou o negócio, primeiro com duas marcas alemãs, mas aquilo que diferenciou a Tatiana Kim de outros empreendedores foi que ela queria que esta empresa fosse fácil, queria que comprar online fosse uma coisa muito instantânea. E eu acho que ela teve muito sucesso precisamente por causa disso, porque conseguiu transformar as compras online numa coisa muito fácil.

José, explicaste que começou com uma pequena empresa, mas depois este negócio começa também a expandir-se. Como é que isso acontece?

Em 2004 a empresa é fundada, depois há um processo em que vai crescendo. Em 2006 eles abrem o primeiro armazém pra ter mercadoria, pra ter estoque, e também contratam os primeiros funcionários, que eu acho que foi a irmã dela a primeira funcionária que contratou. O negócio inicialmente era embalar os produtos à mão, entregá-los aos correios e depois eles chegavam à casa da população, era uma coisa um pouquinho mais rudimentar, mas a partir de 2010 o negócio, e acho que aqui inspirou-se um pouquinho na Amazon dos Estados Unidos e em outras grandes empresas de retalho, começou a expandir-se e a procurar parceiros. Isto é, a Wildberries tornava-se apenas uma plataforma de compra e venda de produtos, ou seja, eles procuravam, por exemplo, uma marca de roupa que vendia na Wildberries, eles ficavam com uma taxa da venda que essa empresa fazia, e depois eles tornavam-se aqui um intermediário entre as empresas e o cliente. E foi esse espaço que a Wildberries ocupou no mercado russo. E convém dizer que o mercado russo é realmente bastante complexo, ou seja, para uma empresa como a Amazon, Webpay, ou mesmo Alibaba, a Rússia tem vários desafios, é um país muito grande. Sibéria, o Extremo Oriente, Moscovo, ou seja, é um país que atravessa continentes e, portanto, é muito difícil para uma grande empresa entender as sensibilidades do mercado russo. Eu acho que Tatiana Kim percebeu que não havia nada que chegasse como uma empresa que chegasse a tantos lados da Rússia. Eu acho que foi muito por aí a grande receita pro sucesso.

E é um sucesso que acabou por ser bastante grande e acabou por convertê-la numa das mulheres, senão a mulher mais rica da Rússia.

Sim, a mulher mais rica da Rússia.

E temos então aqui uma mulher que sobe na vida na Rússia, curiosamente, um pouco à imagem daquilo que conhecemos como o sonho americano. Parece aqui um paradoxo, mas não é.

Sim, ela é uma self-made woman. Tinha uma origem humilde, era professora e depois de um momento pro outro tornou-se uma grande empresária. E isso não é muito normal na Rússia acontecer, apesar de haver histórias como a dela, porque o capital financeiro na Rússia está concentrado nas mãos dos chamados grandes oligarcas, que nos anos 90, por causa da reestruturação da economia russa, depois da queda da União Soviética, ficaram muito ricos. A privatização de grandes empresas transformou pequenos empreendedores em homens extremamente ricos Tatiana Kim veio quebrar um pouco esse tabu e essa ideia e subiu a pulso com uma empresa que soube bem aproveitar as vulnerabilidades do mercado russo. E ao mesmo tempo, eu acho uma coisa curiosa da sua história de vida é que ela combinou sempre o fato de ser uma mulher de sucesso com a maternidade. Ela tem sete filhos, tem uma família muito grande e conseguiu sempre combinar os dois mundos e transformar-se numa mulher de sucesso.

José, a invasão russa da Ucrânia e o conflito entre os dois países tem tido, naturalmente, e como bem sabemos pelas notícias, impactos na economia de Moscovo, nomeadamente devido às sanções ocidentais. Aquilo que te pergunto é se esta invasão e este conflito teve consequências e que consequências teve para a empresa da Tatiana Kim.

Paradoxalmente, teve consequências muito positivas. Isso deve-se a dois factores. O primeiro foi o facto da Amazon, por exemplo, ter encerrado funções no mercado russo, deixou de funcionar na Rússia em protesto contra a invasão da Ucrânia. Ou seja, havia menos competição. A Wildberries pôde estender-se a mais consumidores, chegar a mais consumidores.

Porque não havia outra alternativa.

Exatamente, tornou-se uma das poucas alternativas. Há outras empresas a retalho na Rússia, efetivamente, como a Ozone, mas a Wildberries já era dominante. A empresa torna-se dominante no mercado em 2019 e depois em 2022, obviamente que ainda quer aproveitar a sua posição dominante para se consolidar ainda mais no mercado russo. Portanto, isso contribuiu para que a guerra tivesse um impacto positivo na Wildberries. E outro fator foi o facto de várias lojas ocidentais terem abandonado a Rússia, por exemplo, a Adidas, a Zara, a H&M, todas estas lojas saíram da Rússia e os consumidores russos deixaram também de ter menos oferta para comprar roupa.

Deixaram de ter acesso a essas marcas.

E tudo bem que se calhar a Wildberries não as vende, mas vende produtos semelhantes. Ou seja, há aqui uma lógica de como não há tanta oferta, os russos acabaram por ir àquilo que já conheciam, a Wildberries. Eu acho que também para o regime, haver uma empresa tão grande de retalho foi muito importante, porque acabou por não deixar a população urbana, dos grandes centros urbanos, a classe média, desamparada. Ou seja, por exemplo, eles iam ao centro comercial, metade das lojas estavam fechadas depois da invasão, o que é uma imagem um pouco chocante, mas se online conseguissem fazer as suas compras normalmente, já havia aqui uma sensação de tranquilidade.

Alguma compensação.

Exato. A guerra está na Ucrânia, a guerra não está na Rússia, a vida aqui continua com normalidade. Eu acho que a Wildberries acabou por ter uma função social bastante importante na Rússia depois da guerra e o regime também tentou explorar isso.

José, já falaste aqui do lado positivo, digamos assim, das consequências positivas depois deste conflito, mas já em pleno conflito, dá-se uma rutura de Tatiana com o marido que falavas há pouco. E tudo isto por causa de um negócio que até envolveu um tiroteio.

Sim, eu acho também importante explicar aqui o contexto. Apesar de a Wildberries ter tido aqui uma função social um pouco interessante e importante durante os tempos que se deram à invasão, o que é facto é que a Rússia também se fechou muito. E Vladimir Putin apertou muito a malha, ou seja, as empresas ocidentais quase não investiam no país e a economia local passou a ter uma grande preponderância. Mas uma coisa que o regime russo não gosta é que alguém ganhe muito poder. E o que é facto é que o poder económico e o fato de as pessoas ficarem muito ricas pode levar a que elas também queiram tentar a sua sorte no campo político, que é completamente uma linha vermelha para o Kremlin. E, portanto, aquilo que a Rússia às vezes faz é obrigar a reestruturações de grandes empresas e colocar capital público ou capital de empresas que são aliadas e próximas do Kremlin. E foi precisamente isto que aconteceu. Ou seja, em 2024, a Wildberries estava a expandir-se cada vez mais, estava a atingir um volume de negócios que nunca tinha atingido. Há um número que diz que praticamente metade da população russa comprava coisas na Wildberries todos os meses, ou seja, era um grande sucesso. E eu acho que este sucesso, ainda que não tenha totalmente a certeza, levou a que o Kremlin pensasse que era demasiado poder para uma pessoa só. E portanto, há aqui uma reestruturação, que obviamente o Kremlin disse que não teve nada a ver, mas que cerca de 35% da Wildberries tinha de se fundir numa empresa de publicidade exterior chamada Grupo Russ. E, portanto, houve aqui uma fusão.

Promovida por Tatiana Kim.

Exatamente. Tatiana Kim foi quem esteve à frente desse processo, mas o marido, o atual ex-marido, não gostou nada. E aquilo que ele fez foi contestar publicamente esta fusão. E ele arranjou um aliado, que eu diria que era improvável no meio disso tudo, que era o líder checheno. Kadyrov apoiou o ex-marido de Tatiana Kim e em setembro de 2024, na sede da Wildberries em Moscovo, homens armados, um grupo de chechenos, que não são propriamente uns combatentes muito fracos, entraram na sede da Wildberries e tentaram ocupar o edifício. E portanto, foi um episódio totalmente inusitado. Houve vários vídeos na altura nas redes sociais, um caos, e o que é facto é que estes chechenos envolveram-se em confrontos com as equipes de segurança que a empresa tinha, e houve pelo menos dois mortos neste tiroteio em setembro de 2024. Portanto, foi uma ação que tornou visível esta fratura dentro da Wildberries.

E também foi essa ação que levou à fratura do casamento?

Exatamente, eles depois divorciam-se. O casal com sete filhos, o casamento chega ao fim. E, portanto, sim, houve aqui uma adaptação da vida pessoal, porque acho que depois do que aconteceu, não havia forma de continuarem juntos.

José, o certo é que no último mês esta empresa, em vários pontos da Rússia, tem sido alvo de ataques ucranianos. Por que isso tem acontecido?

Lá está, eu acho que é um alvo natural para a Ucrânia. Como já falámos, a Wildberries atingiu um nível e um estatuto de grande empresa na Rússia que é muito difícil substituir. E a Wildberries mexe com a economia russa toda. E não é apenas o O comerciante ou o vendedor não, mexe com tudo. Há pequenas e médias empresas que vendem os seus produtos na Wildberries. Os consumidores vão à Wildberries consumir esses produtos. Ao atacar centros logísticos, armazéns, a Ucrânia está a destruir estoques, está a destruir material que é para os consumidores, que sentem na pele os efeitos da guerra da Ucrânia, os russos que durante algum tempo viveram aqui um pouco de uma redoma, a guerra é apenas na Ucrânia, não nos afeta, mas isso está a mudar, e não só por estes ataques à Wildberries, como também por os ataques às refinarias, e ao mesmo tempo também coloca muitas famílias, muitas pequenas e médias empresas que faziam roupa, faziam eletrodomésticos, faziam o que quer que seja, em apuros, porque a plataforma que usavam para vender os seus produtos deixa de ser fiável. Os seus produtos podem ir para esse armazém e no dia a seguir serem destruídos totalmente com um drone ucraniano. Portanto, efetivamente é um alvo bastante interessante para a Ucrânia, porque mexe com várias famílias, várias pessoas. E além disso, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que a Wildberries contribuía para a máquina de guerra russa, ou seja, dava produtos, como drones, produtos militares que ajudavam a Rússia a sair-se bem na guerra da Ucrânia. A Tatiana Kim recusou totalmente estas acusações, disse que isso não era prática da Wildberries, mas o que é facto é que neste momento a Wildberries também está bastante dependente do Kremlin, porque já há uma joint venture entre ela e uma empresa que tem algumas ligações à presidência russa. Portanto, efetivamente é um ponto de pressão muito bom para a Ucrânia, para realmente mostrar aos russos que a guerra também está daquele lado. E além disso, há outra coisa que eu também queria apontar, que é o facto de ser um lembrete para a elite económica russa. A Ucrânia usa a Wildberries como exemplo do gênero, nem o setor privado na Rússia está a salvo. Também pode ser atacado. Não é só a Wildberries, hoje é a Wildberries, mas amanhã pode ser uma empresa de um grande oligarca. E portanto é também para aqueles oligarcas que têm, ainda que cada vez menos, algum poder sobre Vladimir Putin, que o tentem convencer a sentar-se à mesa das negociações.

José, como percebemos, estes ataques têm tido impactos negativos na empresa. Aquilo que te queria perguntar é que resposta poderá dar Tatiana Kim perante esses impactos negativos e, também na sequência daquilo que explicavas, se poderá contar com o Kremlin para isso.

Sim, Tatiana Kim já gravou um vídeo no final de julho a explicar que vai dar apoios aos clientes, vai dar apoio à rede de vendedores e vai apostar numa estratégia de descentralizar as cadeias de produção, ou seja, haver mais armazéns espalhados pela Rússia, se calhar, e eu acho que é uma teoria que tem lógica, colocá-los mais a leste, onde os drones ucranianos não chegam com tanta facilidade. Portanto, a empresária já tem um plano para evitar que a empresa seja destruída, porque efetivamente houve aqui uma quebra de confiança. O consumidor, se calhar, amanhã prefere comprar noutra loja à exceção da Wildberries. E portanto, há aqui já um plano em curso. Ao mesmo tempo, o Kremlin disse estar a analisar os impactos na empresa e já deixou no ar que poderá aplicar algumas medidas para salvar ou para tentar financiar a empresa para que não fique falida. Acima de tudo, eu também acho que há aqui uma rede de segurança que a presidência russa montou à volta desta empresa, porque, por exemplo, os principais bancos russos públicos têm colocado algum dinheiro, têm feito investimento na Wildberries. Portanto, eu acho que já há aqui qualquer mecanismo que vai prevenir que a Wildberries declare falência. Também acho que esse nem é sequer o objetivo da Ucrânia, o objetivo da Ucrânia é criar disrupções na economia russa e entre a população russa. E portanto, acho que vai haver uma espécie de rede que vai amparar os golpes que a Ucrânia está a dar na Wildberries.

Obrigado, José Carlos.

Obrigado.

José Carlos Duarte é jornalista da editoria internacional d'O Observador. Esta foi a história do dia. O som que escutámos no início do programa foi retirado da rede social X. A sonoplastia é do Rafael Bego. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.