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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como afundou o inafundável Bayesian na Sicília. "Secondo, con la struttura, la deriva, diventano dei corpi inaffondabili." Giovanni Costantino é o CEO da empresa que construiu o Bayesian. Nesta entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, mostra-se incrédulo com o naufrágio. "Una notizia che mi ha reso assolutamente in una situazione di tristezza da una parte, di incredulità dall'altra." Explica que o veleiro monocasco é seguro e diz mesmo que a estrutura assenta num corpo inafundável. Atribui culpas a um conjunto de erros que terão sido cometidos pela tripulação. O que devia ser uma viagem de celebração terminou em tragédia.
"I primi quattro corpi sono stati avvistati e recuperati dai vigili del fuoco nel pomeriggio della terza giornata di immersioni, quando sono riusciti a raggiungere le cabine dei passeggeri."
Mike Lynch, um milionário britânico de 59 anos do mundo da tecnologia, livrou-se há cerca de dois meses de um processo legal muito complicado, em que respondia por fraude. Ao fim de anos, conseguiu limpar o nome ao ser absolvido. Também conhecido como Bill Gates britânico, convidou a família, amigos e a equipe de advogados para uma viagem de sonho, num navio de sonho, numa costa de sonho, a Itália. No domingo, 18 de agosto, uma tempestade súbita às 16h, com ventos muito fortes, fez o navio adernar e afundou-se em minutos. A bordo, seguiam 12 passageiros e 10 tripulantes. Quinze pessoas foram salvas e sete morreram. Esta história correu o mundo. Um navio magnífico, alegadamente super seguro, afundou-se em minutos no Mediterrâneo. Como foi isso possível? É sobre este navio e como terá acontecido esta tragédia, que vou conversar com Tiago Cristo, engenheiro naval que trabalha no Algarve. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de sexta-feira, 23 de agosto. Bem-vindo, Tiago Cristo.
Olá, Ricardo.
Tiago, que navio é este que naufragou? Como é que o podemos descrever?
Isto trata-se de uma embarcação, um veleiro, seguramente registrado como uma embarcação de recreio. É uma construção monocasco em alumínio, com capacidade pra 12 passageiros, mais 10 tripulantes, com 56 metros de comprimento, com mastro de alumínio, o maior do mundo deste género, com mais de 70 metros e com um deslocamento de mais de 500 toneladas.
Mais de 500 toneladas.
Exatamente.
Perdoe-me, mas realmente de barcos percebo pouco. Isso imagino que mesmo pra um barco é pesado, ou não?
É, sim. Nós nos barcos não falamos em peso, falamos em deslocamento. Tem a ver com o volume, com o peso d'água que a embarcação desloca. Mas sim, já não é um barquinho, já se trata do navio.
E tem então esse mastro, que será o mais alto do mundo, com mais de 70 metros em alumínio.
Em alumínio. Segundo as informações, é o maior do mundo.
E imagino que a nível de preço, também tenha uns recordes, ou não?
A indicação que eu tenho é que é uma embarcação que o preço inicial de venda seria de mais de € 32 milhões. Trata-se de uma embarcação de luxo com três pisos, seis suítes, camarote pra tripulação e com prêmios de design em 2008 e 2009. É uma embarcação com valor avultado, seguramente.
E há um mercado pra este tipo de embarcação, para uns dias, umas semanas, mais talvez no Mediterrâneo. Nós aqui, se calhar, não sei se temos essa realidade ou não, o Tiago também nos pode ajudar nisso, mas há este mercado de luxo pra ir passar uns dias.
Há este mercado de luxo, há um mercado de luxo de aluguel deste gênero de embarcações. Eu não estou seguro se esta seria uma embarcação alugada, se seria mesmo de propriedade deste senhor que, entretanto, faleceu, já está confirmado.
Mas é um mercado com muita procura ou não? Tem ideia?
Olha, eu não estou dentro deste mercado, mas sim, há procura deste gênero de embarcações.
E o Tiago é engenheiro-
E o Mediterrâneo, por excelência, tem as condições ótimas para este tipo de atividade.
Basta pensar no Mônaco, na Riviera Francesa, na Riviera Italiana também, toda aquela costa italiana.
Todas aquelas costas, sim.
E o Tiago é engenheiro naval. Como é que será desenhar e construir um navio destes?
É seguramente desafiante. Eu nunca estive envolvido num projeto destes, mas vamos lá ver, isto não é feito por um engenheiro, não é uma nem duas pessoas, isto é uma equipe multidisciplinar, que envolve engenheiros navais, engenheiros mecânicos, designers de exteriores, de interiores, especialistas na área da vela É com certeza um grande desafio e uma grande dor de cabeça também.
Porque sendo um veleiro e tendo velas, eu imagino, os cálculos são ainda mais difíceis do que num iate só com motor?
Tem a sua especificidade, há que ter isso em consideração também.
Porque imagino que uma vela num mastro de 72 m faça uma força incrível, não é?
Sim, mas se calhar trará mais trabalho o cálculo da estrutura do mastro e de todo o sistema de suporte do brandal que propriamente o problema relacionado com a força que o vento poderá fazer.
E a nível de equipamentos de segurança e meios de socorro, podemos imaginar ou intuir que um navio destes deve ter o melhor que há ou não?
Sim, seguramente. Em princípio, não de certeza absoluta, terá que cumprir com os mínimos exigidos pela legislação. Mas numa embarcação deste género, seguramente não se olha aos custos, será um valor desprezível no meio de um bolo destes.
E aí estamos a falar de que tipo de equipamentos, por exemplo, consegue dar-nos alguns exemplos?
Todos os equipamentos de salvação individuais. Estamos a falar dos coletes salva-vidas, boias, fatos de imersão hipotérmicos, que no Mediterrâneo não se aplicará tanto, e depois terá com certeza as jangadas salva-vidas. Uma embarcação desta certeza tem barcos de socorro, embarcações de socorro, estará devidamente equipada para o caso de um naufrágio, em condições normais.
Já regressamos à conversa com o engenheiro naval Tiago Cristo. O CEO da empresa que construiu este navio alega que o Bayezid seria inafundável, mas afinal não foi. E por quê? Estamos de regresso à conversa com o Tiago Cristo, engenheiro naval, que há muitos anos trabalha na construção naval, trabalha no Algarve. Tiago, as notícias dão conta aqui de uma tempestade muito violenta. Há quem descreva um fenômeno de downburst, semelhante ao que aconteceu no incêndio de Pedrógão Grande. Na altura falávamos deste fenômeno, do downburst, é uma espécie de turbilhão muito poderoso de vento. Como é que funcionam os alertas de mau tempo? Há avisos para quem está no mar? Como é que isto funciona? É um alerta por rádio, é uma mensagem?
Isto não tem a ver com a engenharia naval, mas mais com a parte da navegação propriamente dita. Mas sim, é um sistema internacional ligado à IMO, o serviço Navtex, que as embarcações podem receber gratuitamente avisos meteorológicos relacionados com outros eventos, relacionados com a navegação. Portanto, recebem alertas à navegação, com indicações e previsões do possível estado do tempo.
Portanto, é de crer que a tripulação, que quem estava no comando do navio, a governar o navio, que penso que será essa a expressão mais correta, terá recebido esse aviso, esse alerta.
Sim, com certeza. Para além disso, hoje todos sabemos que há um sem número de serviços de previsão meteorológica. A embarcação estaria com certeza equipada e a tripulação estaria atenta a essa informação, mas essa informação não passa de previsões. E às vezes as previsões não se concretizam e às vezes são piores do que aquilo que se previa e aparentemente terá sido este um dos casos.
E nessas situações, qual é o procedimento que se deve adotar perante uma ameaça destas, de uma tempestade forte no Mar Mediterrâneo, que todos nós imaginamos quando falamos do Mediterrâneo, imaginamos o azul, a calmaria e o sol, mas é um mar com ondas e com vento, e é poderoso. Neste caso, o que é que o navio deve fazer? Deve fundear, não deve fundear, deve desligar o motor, não deve desligar o motor? Há uma espécie de índice ou de lista de procedimentos a adotar?
Não. Vamos lá ver, a autoridade máxima a bordo do navio é sempre o comandante. E ele é perfeitamente autônomo para decidir em função da informação que tem e das condições meteorológicas. É sempre decisão do comandante fundear ou fazer sol arco e tentar proteger-se navegando à capa. Com a informação que temos disponível, é difícil, para já atualmente, conseguir perceber se as decisões foram tomadas corretamente.
Se foram as mais corretas.
Com a informação que estava disponível na altura.
E nos aviões há uma caixa negra, não é? Como é que agora é feita, por exemplo, a investigação? Existe algo de semelhante neste tipo de navio ou não?
Eu penso que neste tipo de embarcações não há nada do gênero. Vai ser uma investigação complicada, a informação disponível é pouca, e a embarcação é contra a 150 m de profundidade.
Exatamente.
Não é uma profundidade inalcançável. Tem a sua dificuldade, tem o seu desafio.
Mas, por exemplo, os mergulhadores que estão a actuar podem estar muito pouco tempo a uma profundidade dessas, porque não faço ideia qual será a pressão a 50 metros de profundidade.
50 metros são seis bars de pressão.
Isso é muito, imagino.
São seis atmosferas. Nós à superfície terrestre estamos sempre sobre os ombros e sobre todo o nosso corpo, uma pressão de uma atmosfera.
Portanto, são seis vezes mais.
São seis vezes mais, exactamente. Julgo que as autoridades estão a interrogar os sobreviventes e a recolher alguma informação. O resto estará submerso a 50 metros de profundidade. Como eu dizia, não é inalcançável, mas não é simples. Quanto ao tempo que os mergulhadores poderão estar a essa profundidade, depende também do equipamento que estiverem a utilizar, das misturas gasosas que estiverem a utilizar. Eu penso que nestes primeiros mergulhos, se calhar, não havia nenhuma equipa de mergulho especializada para estar muito tempo submerso.
Estamos a falar de alguns minutos, não é?
Estamos a falar de alguns minutos, sim, mas tecnicamente há soluções que permitem estar mais tempo submerso.
Tiago, e há uma hipótese que é içar o navio. Isso é possível, içar um navio destes, um monstro destes, com toda a água que tem dentro? Deve ser um peso inacreditável.
O peso de deslocamento da embarcação será o mesmo. Há a possibilidade, não é a minha especialidade, longe disso, mas não há impossíveis nessas coisas. Será uma operação que certamente envolverá muitos milhões de euros, será um custo bastante avultado, mas eu penso que tecnicamente é possível. Não sei se haverá interesse.
Se calhar para as seguradoras haverá interesse nisso, porque é preciso também perceber se há algum responsável ou não por este acidente.
Sim, eventualmente. Mas, de qualquer forma, se calhar os custos envolvidos numa operação dessas ultrapassarão muito o valor do seguro.
E há aqui um ponto: o construtor afirmou que este navio é inafundável. Perante esta afirmação, acho que a nossa memória colectiva-
Perante factos não há argumentos.
Exato. Lembrou-se de Titanic imediatamente, que também era um navio inafundável. A estabilidade de um veleiro, e agora aqui recorro ao engenheiro naval, sou eu a fazer perguntas que não percebo nada disto, mas a estabilidade de um veleiro não será igual à de um catamarã, porque tem dois cascos paralelos. Ora, numa tempestade com muito vento, mesmo em deslocação, e às vezes vemos isso naquelas imagens fantásticas daqueles veleiros a cruzar o mar, o veleiro pode adornar demais e deixar entrar água. Isso pode ser uma explicação para o que terá acontecido, para esta tragédia? O que terá acontecido aqui?
É difícil responder a isso. As autoridades italianas estão a investigar o caso. Há a informação de que há uma equipa de quatro especialistas ingleses também, que já estão a tomar conta do assunto, mas com a informação de vídeo que há disponível e a informação que actualmente está disponível publicamente, é difícil conseguir perceber o que aconteceu.
Mas ajude-nos aqui. É mais fácil um veleiro adornar e deixar entrar água do que um catamarã, que tem dois cascos?
Um veleiro monocasco. Também temos veleiros monocasco, sim.
Exato. Quando eu falo em veleiro, estou a pensar nos monocascos.
Sim, será mais fácil adornar o monocasco do que um catamarã, seguramente.
E há algum ângulo máximo que estes navios consigam ir? Isso calcula-se?
Isso é tudo calculado, sim, com certeza. Pois há aqui a hipótese de, eventualmente, a pressão do vento no mastro poderia ter adornado a embarcação, por ser um mastro tão alto. Eu estive a dar uma olhada nas imagens de vídeo que estão disponíveis. A tempestade é violenta, mas não se consegue perceber.
Mas é impressionante a rapidez com que o navio afunda, não é?
Sim, isso foi seguramente um fenómeno atmosférico fora do vulgar. Acho que teremos que aguardar pelas investigações das autoridades italianas e da equipa inglesa.
Obrigado, Tiago.
Eu é que agradeço o convite. Obrigado.
Tiago Cristo é engenheiro naval e trabalha há vários anos na construção naval no Algarve. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana e boas férias.