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Esta é a história do dia: como é a vida em Kiev, a capital de um país em guerra. "We have been at war with Russia for 20 days and there has been some adjustment in their positions. They see that the war is not going according to their plans." Mykhailo Podolyak é um dos conselheiros do presidente ucraniano. Diz à televisão norte-americana PBS que há uma chance para a paz. Isto numa altura em que haverá um rascunho de acordo. Sergei Lavrov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, diz que é possível um encontro entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelenskyy, mas apenas para assinar um acordo. Mykhailo Podolyak diz à PBS que esse encontro poderá ocorrer em breve. A esperança cresce na frente diplomática, mas no terreno as armas continuam a ser disparadas. Entre a destruição e a morte, há milhões de pessoas mergulhadas na incerteza. Como é a vida nessa incerteza? Como é a vida em Kiev? Hoje vou conversar com um dos enviados especiais d'O Observador à Ucrânia, Pedro Jorge Castro, sobre a vida numa capital em guerra. Bem-vindo, Pedro Jorge Castro.
Olá, Ricardo.
Onde é que estás?
Tu apanhas-me num mau dia pra fazer essa pergunta. Estou aqui dentro do hotel, que é o pior sítio em que um jornalista quer estar num momento destes, em que está acontecendo tanta coisa. Está um confinamento obrigatório de 35 horas e eu estou exatamente no meio desse confinamento. Fica que tenho tempo pra falar contigo, mas não estou num sítio interessante.
E esse confinamento, esse recolher obrigatório de 35 horas, essas ordens são mesmo cumpridas, não há ninguém na rua?
Do que vejo, sim. Do que consigo ver da janela, que não é muito, pois estou numa zona bastante central, tem o Ministério dos Negócios Estrangeiros aqui ao pé, tem uma catedral, não se vê nada, não se vê ninguém. Passa um carro talvez de hora a hora, o que é muito tempo para se sentir o silêncio. Silêncio esse que obviamente é perturbado pelas sirenes que continuam a soar. Hoje soaram três vezes ao longo do dia, normalmente as sirenes soam mais durante a noite.
Pedro, para nós que estamos em Portugal, como é a vida numa capital de um país em guerra?
É uma vida nervosa. Acho que é a palavra que melhor pode descrever a situação e aquilo que tenho encontrado. Os ucranianos tentam passar uma imagem de extrema confiança, acho que até excessiva, confiança na sua capacidade de derrotar os russos. Essa é a primeira imagem que eles querem passar, mas na verdade, aquilo que se sente muito é nervosismo das autoridades militares e dos civis que continuam a tentar viver na cidade. Se calhar a primeira coisa que salta à vista são os inúmeros checkpoints. Se calhar numa avenida de dois quilômetros somos capazes de passar por quatro checkpoints, portanto têm barreiras de cimento tapando a circulação na estrada, aquelas cruzes de ferro castanhas, sacos de areia com a bandeira ucraniana alinhada, e há quatro ou cinco militares ou voluntários em cada checkpoint que mandam parar o carro, pedem pra ver a identificação de todas as pessoas que estão no carro, isso significa passaportes, credenciais, cartão de imprensa, pedem pra abrir o porta-malas às vezes pra ver o que está no porta-bagagens e depois mandam seguir. E parece que não há aquela comunicação básica de checkpoint pra checkpoint, tudo se repete passado uns metros, para tentar encontrar os infiltrados russos ou os infiltrados do inimigo que possam andar aqui a circular, que possam andar aqui a fazer sinais em alvos pré-definidos com cruzes nas casas, nos jardins, edifícios ou telhados, para sinalizar possíveis alvos pra aviação russa ou pra artilharia russa.
E, por exemplo, Pedro, há lojas abertas?
Lojas, no sentido mais convencional do termo, muito poucas. Tudo que pode ser considerado comércio supérfluo não existe. Há algumas mercearias abertas, pequenas bancas de fruta, legumes, pão. Há alguns quiosques de café abertos, mas muito poucos. Na maior parte dos estabelecimentos estão fechados, as lojas estão tapadas com as montras protegidas pra evitar possíveis bombardeamentos. Todo esse movimento desapareceu. Aliás, sei que um administrador de uma grande empresa de lojas de eletrônica explicou isso, ele decidiu fechar tudo porque os funcionários têm imensa dificuldade em deslocar-se até às lojas para trabalhar. Os clientes também não se conseguem deslocar com facilidade até aos estabelecimentos para fazer suas compras, e os fornecedores tampoco. Toda a economia acaba por ficar bloqueada e reduzida apenas ao estritamente essencial.
E é possível, por exemplo, comprar pão
Sim. Anteontem, no primeiro dia que chegamos aqui, fomos logo a um dos prédios atingidos por bombas. Passámos numa padaria que fica mesmo ali ao pé e que estava aberta, em que estava a senhora padeira, até nos contou exatamente como é que tinha sido a reação das pessoas que estavam na fila, que entraram em pânico quando foi o bombardeamento. Explicou precisamente que continua a trabalhar para servir as pessoas.
E os miúdos vão à escola?
Não tenho indicação nenhuma de haver escolas abertas. Tenho visto muito poucas crianças na rua. Vi uma, curiosamente duas horas antes de se iniciar este longo período de recolher obrigatório excepcional. Num miradouro junto à Catedral de São Miguel tem um parque infantil completamente vazio, excetuando um casal jovem com o filho de quatro anos que estava a brincar no escorrega, a descer no escorrega com o pai e a mãe de cada lado a ajudá-lo. O miúdo ia dar voltas, subir pro escorrega e descer. Aproveitei pra perguntar ao pai, que se chama Maxim, que é o diretor financeiro de uma grande empresa de energia, eletricidade e gás, e perguntei-lhe precisamente como é que o filho lidava com esta discussão, como ele explicava ao filho a guerra que o rodeava. Ele contou-me que tentou manter o filho o mais afastado possível de tudo isto, mas obviamente não consegue evitar a pergunta sobre as sirenes. O filho de quatro anos pergunta que barulho é esse das sirenes e ele responde que são os maus que tocam nuns botões e que obrigam as pessoas a ficar em casa pra não lhes acontecer nada de mal.
Essa pessoa que encontraste nesse parque infantil, o Maxim, disseste que é diretor de uma grande empresa. Também já falaste num grande retalhista de produtos de eletrónica. As empresas também estão fechadas ou não?
Há muitas empresas que estão fechadas, há muitas empresas que simplesmente não conseguem operar, ou não têm matérias-primas suficientes, ou não conseguem fazer chegar os seus produtos ao destino final, mas as empresas essenciais continuam a funcionar. Por exemplo, a internet funciona extraordinariamente bem. Continua a haver, em partes significativas do país, pelo menos em Kiev ainda nesta fase, água, electricidade, aquecimento e comida. Continua a chegar comida, embora não com grande variedade, mas continua a haver os bens alimentares essenciais. O Maxim ficou em Kiev precisamente pra continuar a trabalhar Esta empresa abastece outras empresas, por exemplo, fábricas onde se produz pão. E ele diz que continua a trabalhar precisamente porque acha que é a maneira que tem de ser mais útil ao país, continuar a contribuir, tentar manter a economia a funcionar, continuar a pagar impostos para suportar o esforço de defesa que a Ucrânia tem feito.
E nesse cenário que descreves Pedro Jorge Castro, ainda há pessoas a querer sair de Kiev ou não?
Ainda há pessoas a querer sair de Kiev. A estação está cheia, por exemplo, a estação de comboios de Kiev, que é provavelmente a forma mais segura ainda de sair da capital. Os comboios continuam a funcionar, apesar dos atrasos. O átrio estava cheio de pessoas para sair, mulheres e crianças, claro, quem é dada prioridade, não há homens. E sim, há filas de espera. Havia uma fila grande de cerca de 100 pessoas na estação para comprar bilhete ou obter informações sobre a forma de sair daqui. Me encontrei no meio da rua um médico, que aliás foi ele que me encontrou. Descobriu que era jornalista de Portugal e manteve conversa comigo pra dizer: "Portugal! Eu quero enviar a minha família pra Portugal". Ele continua em Kiev, não pode sair daqui. Tem a família já em Lviv, portanto na parte oeste da Ucrânia, tem filha, quer que eles passem pra Romênia e daí apanhem um avião ou um autocarro para Portugal. Diz ele que é a prioridade número um, era a opção número um. "Portal number one, Spain number two, number three Italy."
Há pouco, Pedro, descrevias os vários checkpoints que às vezes existem numa só avenida. Há forma de distinguir quem é militar, quem é polícia, quem é um civil armado, no fundo, há autoridade visível ou é tudo assim um pouco anárquico?
As duas coisas. Aquilo que distingue a autoridade, na verdade, é o fato de terem uma arma. Toda gente tem uma arma. Há imensos grupos de militares ou de voluntários civis que se juntaram às forças de defesa do território, que andam armados a patrulhar as ruas. Portanto, a arma manda. Se a pessoa tem uma arma, a partir dai é porque tem a autoridade pra ter. É difícil muitas vezes distinguir quem é que já era militar, quem é que é Polícia Civil, quem são estes voluntários que se juntaram. Tanto quanto sei, os voluntários que se juntaram e que não tinham qualquer experiência militar ficam sob comando de voluntários que tinham experiência militar. É a única grande diferença hierárquica digamos assim, nos voluntários que se juntaram às Forças de Defesa do Território. Depois todos eles são obviamente comandados pelos militares e também obedecem à polícia, às autoridades de Polícia Civil. Mas sim, é tudo um pouquinho anárquico, a quantidade de uniformes que se vê difere muito e aquilo que distingue mesmo as pessoas é o fato de terem as Kalashnikovs imponentes a impor respeito.
Entre essas pessoas está o líder de uma famosa banda ucraniana que fez um vídeo que se tornou viral Este cantor é precisamente um desses civis que se juntou à defesa. Pedro, quem são estas pessoas que se juntam à resistência?
Há uma grande variedade. Há muitos antigos combatentes, veteranos, que combateram pela Ucrânia. Falei ontem com um que me disse que sabia que este momento ia chegar, sabia que ia chegar o momento da guerra com a Rússia, só não sabia quando seria e viveu a vida dele para este momento e juntou-se logo ao exército para ajudar a defender o seu país. Mas depois há muitas outras pessoas que são civis, que tinham outras profissões, desde guionistas até realizadores, empresários. E sim, há este cantor, este vocalista dos Boombox, que era uma banda rock ucraniana, que estava em digressão. Ele tinha acabado de dar um concerto na noite em que começou a guerra da Rússia. Soube deste ataque pelo seu guitarrista quando vinha na carrinha de regresso a Kiev e decidiu logo, instantaneamente, primeiro pôr a família a salvo e depois "como é que eu vou fazer pra me juntar para defender o meu país?". Estive com ele a conversar, ia me contar toda a história, mas apenas deu para falarmos durante cerca de seis, sete minutos. A conversa foi abruptamente interrompida porque segredaram alguma coisa ao ouvido. Os seis, sete minutos de conversa que tivemos, durante todo esse tempo, ele esteve a limpar armas em cima da mesa e a montar e desmontar armas enquanto falava comigo.
Pedro, temos notícia de combate de ataques nos arredores da cidade e alguns bem perto do centro de Kiev. Como é que se lida com esta espera, com esta incerteza do que vai ser a próxima hora ou as próximas horas?
Na verdade, eu acho que deve ser difícil para os ucranianos responder a isso. Deve ser muito difícil para os ucranianos que permanecem em Kiev ou que estão em cidades cercadas pelos russos, responderei essa pergunta. Eu não sei como eles conseguem, como eles entre o medo, que seguramente sentem de serem alvo de um bombardeamento, optam apesar de tudo pela coragem de ficar e de assim entenderem que ajudam a defender o país. No meio de tudo isto, precisamente antes de começar o recolher obrigatório encontrei um pianista sem abrigo. A tocar sozinho num miradouro. Chegou a tocar mesmo o hino ucraniano e antes fez questão de o dedicar à Rússia soviética, dos cidadãos de Kiev.
Obrigado, Pedro Jorge Castro.
Obrigado.
Pedro Jorge Castro e João Porfírio são os enviados especiais d'"O Observador" à Ucrânia. Vale a pena ler as reportagens no site e olhar para as fotografias que nos contam histórias. Vale a pena ouvi-los também na Rádio Observador. Ao fim de três semanas de guerra, a redação d'"O Observador" continua mobilizada para atualizar informação ao minuto no jornal e na rádio. Esta foi a História do Dia. A música do genérico e a sonorização são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã!