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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como é que a Farfetch fica perto da insolvência?
Farfetch is a company that's losing a ton of money, which you know we don't like, and it's got no clear path to profitability, which you know we disdain. At least so far as I can tell.
Há meses que os avisos em relação à Farfetch se vinham multiplicando na internet. E as preocupações com a empresa de comércio online de bens de luxo, fundada por um português, ganharam ainda mais razão de ser nos últimos dias. Desde a decisão de não tornar públicos os resultados mais recentes, até se confirmar que a empresa estava mesmo perto da insolvência, que correram apenas três semanas. Agora surgiu o anúncio de que a Farfetch deve ser salva por um gigante sul-coreano. Mas a que custo? O que vai acontecer aos funcionários e aos investidores que têm ações da empresa? Qual poderá ser o futuro da Farfetch, que chegou a valer mais de mil milhões e ficou conhecida como o primeiro unicórnio de ADN português? São questões para a conversa com Cátia Rocha, jornalista da seção de Economia do Observador, especialista em tecnologia. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 20 de dezembro. Olá, Cátia, bem-vinda.
Olá, obrigada.
Estiveste aqui no História do Dia no final de novembro para falar sobre a Farfetch e desde então já aconteceu muito sobre este caso, embora ainda existam muitas dúvidas e já vamos falar sobre isso. A Farfetch chegou a valer mais de mil milhões de dólares. Sabe-se quanto é que vale neste momento?
Bem, por partes. Os mil milhões de dólares era na altura em que a Farfetch atingiu o estatuto unicórnio. Dá-se este estatuto a uma empresa que está avaliada em mais de mil milhões e que não é cotada em bolsa. A partir do momento em que a Farfetch entrou em bolsa, em 2018, passou a ser avaliada pelo valor de quanto está a valer em bolsa, que é um valor que vai mudando ao longo do dia, consoante o valor das ações. Mas ultimamente, a Farfetch estava muito longe deste valor dos mil milhões de dólares. Na sexta-feira, o valor em bolsa era de 245 milhões de dólares. Por que eu estou a falar de sexta-feira? Porque a partir do momento em que o negócio com a Coupang foi anunciado, as ações da Farfetch foram suspensas, portanto, é difícil percebermos quanto é o valor em bolsa da empresa neste momento. Por isso é que estou a dar o valor do fecho de sexta-feira.
Nós costumamos ter um pouco a ideia de que independentemente de crise, o mercado de luxo nunca entra em crise ou nunca vai à falência, o que aparentemente também não é bem assim. Neste caso, como é que podemos explicar que uma empresa como esta tenha desvalorizado tanto em tão pouco tempo?
O mercado de luxo não é completamente imune. Também vai tendo alterações e vai estando mais ativo ou menos ativo. Aliás, as previsões para 2024 até já estão a apontar para um teste a este mercado e à resiliência deste mercado. Mas em agosto, quando a Farfetch anunciou os últimos resultados, que são relativos ao segundo trimestre do ano, os do terceiro trimestre não sabemos quais são estes resultados, porque a apresentação foi cancelada. Já nessa altura, em agosto, a Farfetch alertou que estava a sentir um abrandamento no mercado dos Estados Unidos e também da China, que são os mercados mais relevantes para este negócio de uma plataforma de comércio de luxo. E há que ter em conta que a Rússia, que também já era um mercado que começava a assumir uma relevância para a Farfetch, também teve algum contributo, já que a empresa decidiu suspender as operações no país com o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Tudo isto junto deu o que aconteceu e o que vimos destes resultados de agosto, que foi um prejuízo para a Farfetch.
Vamos então aos últimos desenvolvimentos sobre este caso. E o grupo sul-coreano Coupang anunciou agora a intenção de comprar a Farfetch. Em primeiro lugar, que grupo é este?
É um grupo que é mais novo que a Farfetch. A ideia da Farfetch surge em 2007 e a empresa foi lançada em 2008. E este grupo nasce em 2010 pelas mãos de um empreendedor coreano, mas que passou uma boa parte da vida nos Estados Unidos. É o Bong Kim, que é o CEO e o fundador desta empresa, tem 45 anos e tem uma fortuna estimada de 2,9 mil milhões de dólares, de acordo com números da Forbes. Portanto, é uma fortuna de relevo. É conhecida como a Amazon da Coreia. Começou pelas entregas rápidas, aliás, entregas que são conhecidas como as entregas relâmpago, em que era possível fazer uma encomenda durante a noite e receber ainda durante as primeiras horas da manhã. Mas que, entretanto, com o passar dos anos, já tem muito mais áreas de negócio. Explora as entregas de refeições, tem uma parte de pagamentos e até tem um serviço de streaming. Esta questão da Amazon da Coreia é o facto de ter começado pelas entregas, mas tal como a Amazon tem um serviço de streaming, também esta empresa tem já um pé no entretenimento.
E sabemos já quais são os contornos deste negócio, ou não?
Temos muitas dúvidas. A Farfetch emitiu um comunicado à SEC de 68 páginas, mas que deixa algumas questões no ar e que não estão ainda completamente claras. O que foi anunciado é um plano por parte da Coupang para adquirir a empresa. Vai haver um empréstimo temporário de 500 milhões de dólares Que é feito por uma outra entidade, a Athena, que inclui a Coupang e a Greenoaks, que é uma outra entidade que tem investimentos, por exemplo, no Discord. O que está dito neste negócio? É que implica a saída da Farfetch de bolsa após cinco anos na bolsa de Nova York. Curiosamente, a Coupang também é cotada em bolsa, fez a entrada em 2021, também em Nova York, já depois daqui da Farfetch.
E sabe-se qual é a estratégia, no fundo? O que a Coupang pretende fazer com a Farfetch?
Ainda não é totalmente claro, até porque a Coupang não é, de todo, uma empresa que esteja no mercado de luxo, que é um mercado onde a Farfetch se move desde o início, desde a criação. Mas pelo comunicado, dá a entender que a Coupang quer que a Farfetch se foque no que considera ser uma área principal, que é a de assegurar a experiência de compra de marcas de luxo online. Foi esse o primeiro negócio da Farfetch e dá a entender que é nisso que a Coupang quer que a empresa se recentre.
Portanto, temos aqui uma intenção de compra de negócio. O que aconteceria caso este negócio não fosse para frente e a venda não fosse concluída?
Aqui no comunicado da Farfetch, é dito que, caso não seja concluído, e vou passar a citar: "há uma dúvida substancial sobre a capacidade da Farfetch continuar como operava até aqui". Há um período de exclusividade para este negócio estar concluído, que é até dia 30 de abril, que é quando é expectável que esta venda esteja concluída. O que é que vai acontecer depois e o que é que acontece se o negócio não avançar, ainda não sabemos bem.
Já voltamos à conversa com Cátia Rocha, jornalista do Observador, que acompanha a área tecnológica. Na segunda parte, vamos tentar perceber o que vai acontecer agora, tanto a trabalhadores como a investidores da Farfetch, e também falar um pouco sobre quem é José Neves, o português que fundou a empresa de comércio online de bens de luxo. E se gosta deste podcast, então não se esqueça de carregar em seguir na plataforma que habitualmente usa para ouvir podcast. Dessa forma, está sempre a par dos últimos programas e temas mais recentes. Estamos de regresso à conversa com Cátia Rocha, jornalista do Observador, que acompanha o setor tecnológico. Cátia, com a saída da empresa de bolsa, o que é que vai acontecer agora a quem tem ações da Farfetch?
Voltamos a falar sobre o comunicado da Farfetch, que é agora a principal fonte de informação, já que nós enviamos perguntas e a empresa já disse que não vai prestar mais declarações, continua a remeter para este documento. Mas o que é dito é que com esta saída, estão previstas perdas para os investidores. Só que neste momento não se percebe bem como é que vai ser feita a saída e como é que vão ser anuladas estas ações. Essa é uma das dúvidas que existe.
E com o anúncio de compra pela Coupang, concretizando-se este negócio, a administração da Farfetch demitiu-se, certo? Menos, pra já, o fundador, o português José Neves. Quem é José Neves, de que tanto ouvimos falar em relação à Farfetch? De onde é que vem? Como é que chegou aqui?
É um empreendedor que começou a programar desde cedo. Ele tem dito isso em várias entrevistas, e também em perfis e em entrevistas que foram sendo feitos ao longo dos anos. Disse que a Farfetch era uma forma de aliar duas das coisas que ele gosta, que é a tecnologia e a moda. Teve a ideia de criar a Farfetch em 2007, quando estava na Semana da Moda de Paris, e curiosamente lançou a empresa duas semanas antes da queda do Lehman Brothers, em outubro de 2008, e desde então tem sido a pessoa que mais associamos à Farfetch, continua a ser o CEO e conseguiu fazer a entrada em bolsa da empresa em 2018. É uma figura que tem estado muito associada ao mercado de luxo e agora não percebemos bem o que é que vai acontecer a José Neves, tendo em conta este anúncio, e o que é que vai surgir daqui pra frente.
Começou como uma startup, foi uma empresa que teve um grande crescimento nos últimos anos. Quantos trabalhadores tem neste momento e com toda esta situação, há já despedimentos previstos?
A última vez em que tivemos acesso a dados sobre o total de trabalhadores, foi no relatório anual de 2022, que tinha dados até o fim desse ano, mas que só foi publicado em fevereiro. E até dezembro do ano passado, eram 6.728 trabalhadores e a empresa tinha mais de 3.300 funcionários só em Portugal. É importante relembrar que a Farfetch opera também em outros mercados, portanto, tem trabalhadores noutros mercados. Não sei responder à questão dos despedimentos, até é uma questão que não fica clara e não é possível perceber, tendo em conta a informação que temos neste momento, o que é que vai acontecer a estas pessoas. Mas é de relembrar que no comunicado que foi conhecido em agosto, dos relatórios do segundo trimestre, a Farfetch já falava numa redução de custos e já previa uma redução do número de trabalhadores. Não foi especificado quanto, mas já havia esta ideia. Portanto, não sabemos se ainda continuam a trabalhar 6.728 pessoas na Farfetch hoje em dia e também não sabemos o que é que vai acontecer daqui pra frente.
Havia um outro negócio de que se falava nos últimos tempos em vista da Farfetch com a Richemont, dona, entre outras, da Cartier e da Montblanc. Com todos estes desenvolvimentos, sabes o que é que vai acontecer agora?
É um negócio que foi anunciado ainda o ano passado, que esteve sujeito a questões regulatórias, recebeu aprovação por parte da Comissão Europeia e também do regulador da Autoridade da Concorrência do Reino Unido, houve toda esta questão, mas esse negócio agora caiu por terra com este anúncio da Coupang. O que esse negócio previa? Que a Farfetch ficasse com uma participação de 47,5% na entidade que controla o site Net-a-Porter, que era considerado um rival da Farfetch. E assim que foi anunciada a intenção de compra da Coupang, a Richemont emitiu um comunicado em que disse que o negócio já não ia avançar. Mas há aqui uma questão que é importante reter. Quando começaram a surgir as primeiras notícias de que a Farfetch podia sair de bolsa, a Richemont fez questão de se distanciar e emitiu um comunicado, na altura, em que já dizia que não queria investir ou emprestar dinheiro à Farfetch. E isso é reafirmado agora neste comunicado, onde diz que o negócio não vai efetivamente acontecer. A Richemont diz que agora vai explorar outras opções para conseguir fazer a sua visão para este grupo, mas este negócio é certo que já não vai acontecer.
Já falámos aqui dos trabalhadores, muitos deles em Portugal. A empresa tinha também planos em Portugal para um grande investimento em Matosinhos. Em que pé é que fica esse investimento, sabemos?
Não sabemos. É um projeto que foi anunciado em 2021. A ideia era construir uma espécie de Moon Valley, em que uma parte ficaria para os escritórios da Farfetch e outra para ser utilizado por outras empresas, mas depois também havia ali outras questões, mais serviços, um hotel, até. Era um projeto considerável. Agora, não sabemos como fica a participação da Farfetch nesta questão. A empresa não está a responder essas questões. É uma das dúvidas. E aqui do lado do Castro Group, que é um dos promotores que está envolvido neste projeto, já foi dito num comunicado da semana passada que continuam a acreditar no projeto e que estão focados na execução. Ficam aqui as dúvidas sobre o papel da Farfetch e o que é que vai acontecer daqui para frente. É mais uma das dúvidas que temos.
Mais uma incógnita, não é, em relação à empresa. Obrigado, Cátia.
Obrigada.
Cátia Rocha é jornalista do Observador e acompanha a área tecnológica. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos também um som retirado do YouTube. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.