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Esta é a história do dia da Rádio Observador: das esfregonas ao altar-palco, os custos da Jornada Mundial da Juventude.

Nós temos a obrigação de tratar de tudo o que significa o peregrino, da sua inscrição até o dia em que ele se for embora. É tudo da nossa responsabilidade. Se eu te disser que o tal orçamento que nós estávamos a desenhar, eu acho que ele já passou os 80 milhões de euros de responsabilidades. Não vamos desbaratar 1 cêntimo.

Em janeiro, e na altura ainda bispo auxiliar de Lisboa, Dom Américo Aguiar atirava para a casa dos 80 milhões de euros a conta a pagar pela Jornada Mundial da Juventude. E atenção, esta era a parcela que dizia respeito apenas à Igreja. Estamos já em outubro e as faturas pagas pelo Estado começam agora a ser conhecidas e há gastos com os palcos, a iluminação, transportes, alimentação, cabos de esfregonas, colchões, almofadas e até concertos pop. É sobre essas contas que vou conversar com Ana San-Lees, editora adjunta de Economia do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.

Obrigada, Ricardo.

Qual era a estimativa de custos da Jornada Mundial da Juventude?

Nunca houve um número oficial, mas foram saindo estimativas que as várias partes envolvidas foram revelando e esse bolo grande rondava os cerca de 160 milhões de euros. Mas aqui temos várias partes que temos que dividir. A maior parte dizia respeito à Igreja, cerca de 80 milhões de euros, é um número que só será confirmado ou só será revelado o valor final no final do ano, em princípio. Depois temos o valor que cabia ao governo, que são 30 milhões de euros, 36 milhões se juntarmos o IVA. A Câmara de Lisboa previa gastar 35 milhões de euros e a de Loures mais ou menos 10 milhões.

E agora os contratos ou as faturinhas começaram a ser publicadas, é isso? Já dá para perceber pra onde é que foi o dinheiro?

Já dá pra ter uma ideia. As faturas foram sendo publicadas aos poucos no portal Base, que é onde caem os contratos públicos, todos os contratos feitos entre entidades públicas e empresas privadas. Os mais antigos já estavam disponíveis, a maior parte deles só agora com, terminada a jornada, terminado o mês de agosto, é que começaram a cair e são mesmo muitos, são quase 300. Nós fizemos esse levantamento exaustivo e há de tudo, desde serviços de segurança, refeições, transportes, comunicação. Temos mesmo contratos para todos os gostos.

Vamos então olhar pra essas contas. Podemos talvez começar pelas assessorias e aqui imagino, e peço que a Ana explique também isso, que sejam assessorias de instituições públicas e não eclesiais. São duas contas diferentes, não é?

Sim, não estamos a falar da Igreja quando falamos nestas assessorias, são apenas das câmaras e da Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. E são sobretudo câmaras, na verdade, Lisboa e Loures, com o grande peso aqui para a Câmara de Lisboa. E há vários casos distintos dos assessores que foram contratados. Há situações em que algumas pessoas já tinham contratos de prestação de serviços com a Câmara, as chamadas avenças, em que é feito um contrato grande, mas os pagamentos vão sendo feitos por parcelas ao longo dos meses.

Como se fosse um ordenado?

É como se fosse um ordenado, exatamente. Imagina um contrato feito por 12 meses. Aquela pessoa que tem aquela avença recebe um X durante cada mês. E havia casos em que alguns assessores já tinham contratos com a Câmara, puseram-lhes termo para assinarem outros contratos direcionados especificamente para a Jornada Mundial da Juventude. Ainda houve outros casos de assessores contratados para a JMJ e que quando acabou o evento, assinaram novos contratos de prestação de serviços, novas avenças e que continuam lá atualmente.

Então estamos a falar de recontratos, se podemos inventar esta palavra?

Estamos a falar de contratos por cima de contratos. Dou exemplo de um assessor para a área das finanças, que foi contratado pela Câmara de Lisboa, tinha uma avença com a autarquia desde julho de 2022, mas em dezembro terminou esse contrato e assinou outro apenas para prestar serviços de assessoria econômica e financeira à unidade de missão da JMJ que a Câmara de Lisboa montou.

Mas isso tudo custou quanto, afinal, Ana San-Lees?

Os contratos todos feitos pela Câmara Municipal de Lisboa, no total, foram 230 mil euros só relacionados com a Jornada da Juventude.

Isso assessoria?

Assessórias, apenas assessorias e as chamadas avenças. E há casos muito interessantes e há um que se calhar pode chamar mais a atenção das pessoas. Foi feita uma adjudicação direta para a prestação de um serviço de assessoria com o rosto conhecido do público, é um ex-pivô da TVI, João Maia Abreu, que assinou um contrato para assessoria de comunicação da Jornada Mundial da Juventude. Foi feito um contrato de cerca de 38 mil euros mais IVA por um período de 10 meses, acabou a 31 de agosto. Já depois disso, em setembro, foi assinado um novo contrato entre João Maia Abreu e a Câmara de Lisboa para consultoria e assessoria de comunicação no âmbito de apoio técnico ao gabinete do vice-presidente da Câmara de Lisboa, Ana Coreta Correia, e aqui serão mais 48 mil euros, 49 aproximadamente, mais IVA, e terá uma duração de 13 meses.

Já voltamos à conversa com Ana San-Les, editora adjunta de economia do Observador. Temos ainda de falar de cabos de esfregonas e almofadas. Regressamos à conversa com Ana San-Les, editora adjunta de economia do Observador. Ana, vamos agora falar das compras mais peculiares, também das mais baratas e, claro, das mais caras. Vamos começar pelas mais caras. Começamos por onde?

Vamos começar pelas mais caras e a compra mais cara de todas custou € 7 milhões e foi um contrato ganho pela empresa Oliveiras S.A. que consistiu basicamente na recuperação daquela grande zona que era o aterro sanitário de Beirolas, na área do Tejo Trancão, onde se realizaram os últimos grandes eventos com o Papa, no chamado Campo da Graça. Foi onde se realizou a vigília e a missa de encerramento, o último grande evento da JMJ. Este foi o maior contrato de todos.

Nós, dos 35 milhões, há 25 milhões de euros que ficam pra cidade. Portanto, o que nós estamos aqui a falar é de um investimento de 10 milhões, no fundo, a diferença entre 35 e 25, pra um evento que vai trazer centenas de milhões.

Depois há ainda um contrato com valor bastante significativo, € 6 milhões, que foi ganho pela Pixel Light e aqui com âmbito completamente diferente. Foi para instalar os sistemas de áudio, vídeo, iluminação e afins, esse tipo de sistemas, no mesmo Parque Tejo. E foram estes os dois grandes contratos, os dois juntos dão quase € 15 milhões.

E o palco-altar ou o altar-palco, aquela fonte de grande polêmica que custava uma pipa de massa, nas palavras de Durão Barroso, está no top 10 das maiores despesas?

O que achas? Achas que está, achas que não está?

Já falaste na Pixel Light e nos sistemas de áudio e vídeo.

Sim, é verdade. Acho que não é uma grande surpresa pra nenhum dos nossos ouvintes dizer que o altar-palco está, de facto, no top 10 das maiores despesas da JMJ.

O número magoou-me, como é óbvio, magoou-nos a todos.

Este foi um contrato feito pela SRU, a empresa municipal, que foi adjudicado à Mota-Engil e baixou de preço, como te deves lembrar, depois de toda aquela polêmica do elevado valor, mas mesmo baixando o preço, manteve o quarto lugar das maiores despesas da JMJ. Foram quase € 3 milhões.

E em relação às casas de banho, também serão concursos públicos, provavelmente são dois, um pra Lisboa e outro pra Loures, e prevê-se qualquer coisa entre 2 milhões e 2,5 milhões.

E já que estamos no Campo da Graça, as casas de banho também entram pra estas contas?

Não sei por que me passa para junto a essa. Eram muitas casas de banho, era 1,5 milhões de pessoas.

E funcionaram bem.

E funcionaram bem, é verdade.

Que eu estive lá e vi.

Estivemos lá e por isso também não sei se é surpreendente ou não que as casas de banho também estão no top 10 dos maiores gastos. Foram feitos vários contratos de casas de banho e por várias entidades. O maior deles todos foi feito pela Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. Totalizou quase 1 milhão e 300 mil € e foi o grupo Vendap que ganhou esse concurso.

Já falamos das contas mais caras. Vamos agora olhar para as mais baratas, Ana San-Les.

E há faturas mesmo baixinhas.

Então vamos a elas.

A compra mais barata de todas custou apenas €121.

€121. Foi pra quê?

Não custou quase nada. Eu acho que esta nem tu serias capaz de adivinhar, Ricardo. Foi para comprar 106 cabos de madeira para esfregonas.

Cabos de madeira pra as esfregonas.

Exatamente.

106.

106. E estamos a falar só dos cabos, o resto da esfregona não consta nos contratos que estão disponíveis no Portal Base.

Ana San-Les, se há cabo, há esfregona. Isto é quase certo. E há mais despesas destas mais pequeninas?

Há várias despesas pequeninas, não sei se serão tão peculiares quanto esta. Temos o aluguer de uma carrinho de nove lugares, por exemplo, por €680, por parte da União de Freguesias de Sintra. Temos materiais de comunicação, várias coisas que foram baratas, mas eu diria que os cabos para as esfregonas foram o contrato que nos chamou mais a atenção.

Temos que perguntar à Câmara de Almada onde andam os 106 cabos de madeira.

Pra que serviram? Será que foram só os cabos?

Não, de certeza que o chão ficou bem lavado, disso não há dúvidas. E depois também temos aqui umas contas mais peculiares. Porque me explicaste isso antes de começarmos esta conversa, temos nadadores-salvadores, colchões e almofadas.

Temos muita coisa, e sabonetes e alcatifas. Eu vou te mandar a lista dos quase 300 contratos, porque eu acho que tu vais divertir.

Também podemos ler o texto no site do Observador e vale bem a pena.

Mencionaste nadadores-salvadores, e estes foram um investimento da Câmara de Cascais. Basicamente, o município pensou, e com razão, que ia acolher muita gente, ficaram lá muitos peregrinos a dormir, ia estar bom tempo e por isso era de esperar um aumento da afluência às praias. Por isso, a Câmara de Cascais gastou cerca de €50 mil por um reforço de 48 nadadores salvadores, sendo que as praias do Conselho estiveram vigiadas 24 horas por dia. Havia dois turnos, das 9 às 19 e das 19 às 9. E também foi a Câmara de Cascais que celebrou um contrato para a compra de colchões, edredons, almofadas, sacos-cama. Foram cerca de €75 mil, mas os colchões não foram uns colchões quaisquer, tinham tecido em aloe vera antiácaros e eram antialérgicos.

Também não se pode dar qualquer coisa aos peregrinos. Só me faz confusão os edredons, porque ninguém ia adivinhar que naquela semana ia estar aquela brasa que esteve. Esteve mesmo muito calor.

Sim, pode ser que ainda sirvam pra outra coisa.

Nessa semana da Jornada Mundial da Juventude. E como é que aparece no meio desta história Miguel Araújo, o cantor.

Miguel Araújo, cantor dos maridos das outras. Miguel Araújo surge aqui com um dos contratos mais peculiares da JMJ. Não foi contratado diretamente, foi através de uma empresa que organiza eventos e foi lançado um concurso público urgente, especificamente para a contratação do cantor, e foi a Câmara de Alcobaça que o lançou. Foi um concurso que durou 48 horas.

Um concurso público urgente.

Concurso público urgente, especificamente com o objetivo de contratar Miguel Araújo. O objetivo era uma empresa que fizesse o serviço chave na mão, que incluísse tudo: casses, camarins, palco, som, e foi isso que aconteceu. Foi contratada uma empresa de publicidade, custou tudo €48 mil mais IVA, mas o concerto gerou bastante controvérsia em Alcobaça, com o PS local, que é a oposição, até chegar a pedir satisfações sobre a pertinência daquele gasto e a Câmara, que é PSD, justificou que precisava do concerto de Miguel Araújo porque estava a promover o concelho junto dos milhares de peregrinos que iam passar por Alcobaça naqueles dias.

E já pegaste na máquina de calcular para somar todas estas parcelas, Miguel Araújo, 106 cabos para as fragonas em Almada, almofadas, N. S. dos Salvadores, assessores?

Já pegámos na calculadora e a soma é elevada e ainda não está finalizada. Basicamente, temos até agora 264 contratos, a esmagadora maioria são ajustes diretos, são 226. O valor total está próximo dos €42 milhões, são quase 23 milhões por ajustes diretos, mas como eu dizia, ainda não estarão publicados todos os contratos e não estão, certamente. Nós falámos ao início daquele valor que estaria previsto e o valor ainda não bate certo com as contas previstas da Câmara Municipal de Lisboa, com a Câmara de Loures e com o governo, que totalizava cerca de 80 milhões e nós vamos nos 42.

E somando aquilo que foram os gastos do Estado e da Igreja, quando é que poderemos ter uma ideia de quanto custou a Jornada Mundial da Juventude?

Eu diria que no final do ano, até porque é para essa data que está marcada a divulgação das contas da Igreja, quanto é que a Igreja gastou no total com a JMJ, e aí já teremos certamente uma ideia de todos os contratos que ainda faltam.

Obrigado, Ana.

Obrigada, Ricardo.

Ana Sales é editora adjunta de Economia do Observador e neste trabalho participaram ainda o editor de sociedade, Carlos Diogo Santos, e a jornalista Inês Capucho. Esta foi a História do Dia e nesta altura fazemos aquele apelo: seguir a História do Dia na aplicação que habitualmente utiliza para ouvir podcasts. Para nós, é mesmo importante que clique onde diz "seguir". Os sons que ouvimos neste episódio foram registados pela Rádio Observador, pela SIC e também pela RTP. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.