O presidente do IHRU lançou uma polémica ao afirmar que não sabia se os jovens actuais estavam dispostos a fazer os sacrifícios que os seus pais e avós tinham feito para adquirir casa. A polémica estalou, o senhor foi obrigado a desculpar-se, mas não sem antes granjear bastante sucesso nas redes sociais.

Dos millennials (aos quais pertenço) para cima, o sentimento quase unânime é de que a actual geração está menos disposta a sacrificar-se do que a anterior. Que considera ter direito a certos luxos que nós, e os que nos antecederam, não tivemos.

Eu concordo em absoluto. Também acho que os jovens actuais estão menos preparados para os sacrifícios. E ainda bem. Porque é assim que é suposto ser. Eu também não estou disposto a quase não ver os meus filhos, como acontecia à geração do meu pai, assim como ele não estava disposto a começar a trabalhar em criança, como acontecia a tantos na geração dos seus pais.

Os pais, em geral, educam os filhos na esperança de que o sacrifício que fizeram lhes permita ter uma vida mais fácil. E, nas últimas décadas, tem sido assim. Felizmente, evoluímos bastante economicamente desde as sopas de cavalo cansado até às tostas de abacate. E, claro, podemos gozar imenso com hábitos que consideramos tontos e supérfluos. Mas penso que só dificilmente podemos deixar de reconhecer que passar de dar vinho às crianças para não terem frio para lhes dar Chocapic é uma evolução.

É fácil fazer uma caricatura das gerações mais jovens, partindo das crónicas dos jovens burgueses que escrevem no Expresso e comentam na SIC, ou dos activistas que se consideram originais, todos com os mesmos slogans e as mesmas rastas, a dizer disparates no Rossio. Mas esses jovens são uma minoria. Barulhenta, sem dúvida, mas pouco representativa da sua geração.

Para lá das caricaturas, há uma realidade dramática: a de ser a primeira geração em décadas que vive pior do que as anteriores. Que tem menos perspectivas do que as anteriores. É verdade que são mimados, que têm acesso a bens de consumo com que as gerações dos pais não sonhavam, mas os bens estruturantes de capital, como a habitação ou as poupanças, estão cada vez menos ao seu alcance.

Na geração dos meus pais, era relativamente possível a um casal de classe média comprar uma casa. Hoje, dois ordenados médios dificilmente permitem viver na periferia de Lisboa, quanto mais no centro. Para um jovem que inicia a sua carreira profissional, ainda sem relacionamento estável, a escolha é entre viver ou ter casa própria.

Há uma promessa de que o futuro seria sempre melhor que foi quebrada. Para os jovens, e mesmo para os que já não são tão jovens, parece que o futuro é sempre a descer.

O problema não é que os jovens não estejam dispostos a fazer os mesmos sacrifícios que os pais e os avós. O problema é que, mesmo que os fizessem, não iriam conseguir ter o mesmo que eles. O discurso sobre o mimo dos jovens mascara o problema real: o custo de vida é hoje muito superior ao que era nas últimas décadas.

As casas para arrendar são poucas e as rendas caras. Os juros estão altos e os preços de venda continuam a subir. Por isso, é preciso trabalhar muito mais horas para pagar uma renda e muitos mais anos para pagar uma casa do que há 30 anos. Se, para quem já tem uma carreira, é difícil ter uma casa, quanto mais para quem está a começar a vida.

E ter uma casa sem estar constantemente com medo de não ter dinheiro para a pagar é um factor essencial para o plano de vida de uma pessoa. Não é possível pensar em casar e ter filhos se nem uma casa se consegue pagar.

Hoje, os jovens vivem com cada vez menos esperança. E os menos jovens vivem com menos esperança para os seus filhos. A confiança de que poderei deixar algo para facilitar a vida dos meus filhos, uma esperança que moveu as gerações anteriores, é hoje diminuta.

Por isso, é possível ficar pelo discurso da superioridade moral, explicar que os jovens estão menos resistentes, que não têm estofo, que exigem tudo de mão beijada. E é sobretudo fácil para as gerações que usufruem de pensões que os jovens nunca terão, que compraram casa a preços que os jovens nunca verão, protegidas por contratos de trabalho com que a maior parte dos jovens só sonha. E até é verdade que muitos jovens, sobretudo os que fazem comentários na comunicação social, contribuem para esse sentimento de superioridade moral. Mas há um problema real para resolver. Um problema que rouba a esperança aos jovens, que aumenta a revolta e que, em última instância, parte a sociedade. E esse problema é o facto de o amanhã não parecer ser melhor do que ontem. Talvez por isso os jovens estejam menos dispostos a sacrificar-se.