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Esta é a história do dia da Rádio Observador: da defesa do legado ao apoio a Montenegro, o que move Cavaco Silva?

O doutor Luís Montenegro tem mais experiência política do que eu tinha quando subi a primeiro-ministro em 1985 e está tão ou mais bem preparado do que eu estava.

Tem sido uma constante no último ano e mesmo antes de surgirem eleições antecipadas. Sempre que reaparece em público, Cavaco Silva defende a liderança de Luís Montenegro no PSD. Agora, o antigo presidente da República volta a reaparecer, mas para assinar um artigo dividido em duas partes, publicado em exclusivo no Observador. Com o título "Memórias de um Governo Cansado e Arrogante", o artigo está carregado de ironia desde a primeira linha. O antigo presidente da República não só não o esconde, como faz questão de o referir por várias vezes. O alvo são os afamados analistas e cronistas políticos da nossa praça, que afirmaram que nos últimos anos de Cavaco Silva como primeiro-ministro, o governo estava cansado e arrogante. A menos de dois meses das eleições, Cavaco lança ainda uma provocação final ao governo socialista e vem mais uma vez reforçar que continua a ser uma voz ativa no panorama político. Mas que relação tem, afinal, Cavaco Silva com Luís Montenegro? Como se desenvolveu no último ano e que influência exerce o líder histórico do partido sobre o homem que quer ser o próximo primeiro-ministro? São questões para a conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor-adjunto de política do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 17 de janeiro. Olá, Miguel, bem-vindo.

Olá, João.

Cavaco Silva assina esta terça-feira um artigo no Observador carregado de ironia desde a primeira linha. Dirige-se aos afamados analistas e cronistas políticos da nossa praça que classificaram os últimos anos do seu governo como cansado e arrogante e vem defender um legado dos últimos dois anos do governo Cavaco Silva, que terminou em 1995. Que artigo é este?

No fundo, Cavaco Silva, e não é a primeira vez que o faz, está a tentar um ajuste de contas com a história e com a imagem que foi ficando do último período do cavaquismo. Ou seja, Cavaco Silva aproveita este artigo de opinião para assinalar a obra que deixou, ou que começou a fazer e depois deixou na sua reta final enquanto primeiro-ministro, e para responder àquela imagem que ficou desse período. E não é uma imagem só dos tais analistas e cronistas políticos da nossa praça. Há muita gente que fez parte desse período e que ainda hoje o recorda assim, como um tempo de profundo desgaste, o estertor do cavaquismo, se quisermos. E, portanto, Cavaco Silva procura tentar contrariar essa imagem e essa narrativa para, de alguma forma, se demarcar das comparações que são feitas entre o seu governo e o governo de António Costa. Muito se foi repetindo antes deste governo cair, muito se foi repetindo que esta maioria absoluta de António Costa, com muitos casos, casinhos, polémicas mais pequenas e outras mais graves, fazia lembrar o fim do cavaquismo. Cavaco Silva não morre de amores por António Costa, acho que estou a ser simpático em dizer isto, e portanto procura com este artigo, mais uma vez, dizer que o período em que ele foi primeiro-ministro, mesmo na sua reta final, não tem nada que ver com este período de governação de António Costa.

E no final, de resto, mesmo no final deste artigo, deixa uma provocação ao atual, ainda, governo socialista.

Não é a primeira vez que o faz. Aliás, recordo-me de outras três ocasiões, uma em que desafiou António Costa num artigo de opinião publicado aqui no Observador, em que desafiou António Costa a fazer mais e melhor do que ele. Num momento mais recente, em que publicou um livro que se chamava "O Primeiro-Ministro e a Arte de Bem Governar", no fundo, uma lição de boa governança para António Costa, na altura ainda não demissionário. E agora com este artigo de opinião, em que numa última pergunta, mesmo a encerrar a primeira parte, vão ser publicadas duas partes.

Exato, na próxima semana sai a segunda parte.

E termina perguntando a António Costa qual é a grande obra que deixa. No fundo, Cavaco Silva foi o responsável pela instalação da fábrica da Autoeuropa em Portugal, que representa uma fatia muito importante do nosso Produto Interno Bruto, é uma grande obra que gerou muitos empregos e Cavaco Silva termina perguntando a António Costa que legado é que deixa ao país. É, mais uma vez, uma provocação.

É certo que a espaço, mas é um facto que Cavaco Silva tem aparecido várias vezes nos tempos recentes com intervenções no espaço público. Por que achas que isso acontece?

Não querendo fazer grandes juízos de intenções, é para mim evidente que havia por parte de Cavaco Silva, havia e há, algum ressentimento em relação à forma como deixou a Presidência da República. Se nos recordarmos, foi Cavaco Silva quem teve de dar posse à geringonça, o que na altura foi muito difícil de engolir, para dizer o mínimo. E depois, porque António Costa, até esta demissão Arriscar-se-ia ou arriscava-se, melhor dizendo, a ultrapassar Cavaco Silva em termos de longevidade enquanto primeiro-ministro, já depois de ter conseguido uma maioria absoluta contra todas as expectativas. E portanto, para lá deste ressentimento que possa existir em Cavaco Silva, há também uma tentativa de não deixar, de alguma forma, que a história e os políticos de hoje esqueçam aquilo que ele considera ter feito de bom pelo país. Na minha ótica, na minha análise, será isso, no fundo, que move Cavaco Silva, além de, acento eu, uma preocupação genuína pelo estado em que o país se encontra e que, no entender de Cavaco Silva, não é de todo positivo.

Às vezes os primeiros-ministros, em resultado de uma reflexão sobre a situação do país ou de um rebate de consciência, decidem apresentar a sua demissão e têm lugar eleições antecipadas.

O antigo primeiro-ministro e presidente da República disse isto em maio de 2023, meses antes de o governo ter realmente caído. Cavaco Silva veio provar mais uma vez que, de facto, e apesar de estar há muitos anos, obviamente já afastado da política ativa, é uma voz que sempre que reaparece ainda é para ser tida muito em conta na política nacional.

Cavaco Silva, e é preciso não esquecer isto, foi o homem que mais maiorias absolutas conseguiu em Portugal. Portanto, foi bastante popular junto dos portugueses. É verdade que, sobretudo nos anos em que foi presidente da República, essa relação com os portugueses se deteriorou. E acho que o próprio talvez reconheça isso. Ainda assim, é evidente que sobretudo pelos anos em que foi primeiro-ministro, deixou uma marca muito forte na sociedade portuguesa. E há hoje muita gente, sobretudo as pessoas mais velhas, que ainda olham para Cavaco Silva como um símbolo de autoridade e de credibilidade. E é por isso que mexe tanto sempre que aparece, e mexe sobretudo junto de quem tem responsabilidades no Partido Socialista, e nós conseguimos ver isso muitas vezes nas reações epidérmicas que muitos dirigentes do Partido Socialista tinham às intervenções de Cavaco Silva, nomeadamente António Costa. Não diria que é uma voz da consciência, talvez seja exagerado, a meu ver, dizer que este Cavaco Silva represente isso, mas é ainda uma figura muito respeitada e muito credível junto de um setor muito concreto da sociedade civil.

Sempre que tem aparecido, também o antigo presidente da República tem defendido o atual líder do PSD. Que relação tem Cavaco Silva com Luís Montenegro?

É uma relação relativamente recente. Aliás, ter-se-á intensificado no início de 2023 e prolongou-se até aqui. Os dois falam muito, conversam muito. Não tinham uma relação pessoal, mas esses laços estreitaram-se. E Cavaco Silva olha para Luís Montenegro como alguém que de facto consegue observar o país pelas lentes do próprio, ou seja, que o ouve e que procura os conselhos de Cavaco Silva. Isso é muito importante para ele. A título, numa nota muito curta, Rui Rio e Cavaco Silva também tinham inicialmente uma relação parecida, mas conta-se nos bastidores do PSD que Cavaco Silva deixou, de alguma forma, cair Rui Rio por se ter sentido esquecido e por não se ter sentido acarinhado pelo então líder do PSD. Luís Montenegro tem feito o caminho inverso. Apesar de inicialmente não ter uma relação forte pessoal com Cavaco Silva, Luís Montenegro olha para o antigo presidente da República como um fator de inspiração. Ouve, procura saber a opinião dele e envolvê-lo também nas decisões, embora não haja confusões, quem as toma é o líder do PSD, mas há essa relação de alguma proximidade política que depois se tornou pessoal.

Já voltamos à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Na segunda parte vamos falar sobre que influência tem o histórico líder do PSD sobre o Luís Montenegro e a atual liderança do partido. Estamos de regresso à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Miguel, falávamos há pouco dessa relação que se tem intensificado entre Cavaco Silva e Luís Montenegro no último ano. E que influência tem então o histórico líder do PSD sobre o atual líder?

É preciso notar que Luís Montenegro é essencialmente conhecido por ter sido líder parlamentar durante o período da Troika e por ser uma espécie de ponta-lança do passismo naquela altura, mas Luís Montenegro não nasce no passismo. Aliás, começa a fazer o seu caminho de aproximação à política precisamente com Cavaco Silva. Creio que na segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, é aí que Luís Montenegro desperta para a política e cedo percebeu que para conseguir disputar as eleições legislativas com alguma seriedade, Luís Montenegro teria de cortar com a imagem de que é um passista, que é um passismo sem passos. E portanto, até do ponto de vista do que é o PSD, do que representa o PSD e do divórcio que existe entre o PSD e a sociedade civil e os eleitores, Luís Montenegro percebeu Que o maior activo que continua a existir no partido é Cavaco Silva. São aqueles anos em que Cavaco Silva, de facto, transformou o país.

De que o presidente Cavaco Silva é responsável pelo maior e mais profundo legado de desenvolvimento que Portugal conheceu no pós 25 de Abril. Quero dizer-lhe, presidente Cavaco Silva, de toda a minha gratidão, mas sobretudo do grande orgulho que nós temos no PSD pelo trabalho que desenvolveu à frente do Governo de Portugal.

E, portanto, Luís Montenegro fez uma aproximação e deixou, de alguma forma, cair aquela imagem de liberal, quase neoliberal, que poderia estar associada ao tempo em que foi líder parlamentar da troika, para se aproximar de algo mais atribuído a Cavaco Silva, uma imagem mais atribuída a Cavaco Silva de ser um conservador reformista. E, portanto, foi muito por aí que esta relação se reforçou, porque Luís Montenegro conseguiu convencer Cavaco Silva de que é alguém que tem um forte pendor social também, ou seja, que leva a sério e que está realmente preocupado com aspectos do Estado social que estão em declínio. E por isso Luís Montenegro também foi beber a Cavaco Silva muito dessa preocupação e uma forma de estar na política, e isto é gente que trabalha directamente com Luís Montenegro da direção do PSD que o confirma, uma forma de encarar a política de forma mais séria e menos enquanto guerrilha ou enquanto jogo pelo poder. Luís Montenegro terá olhado para Cavaco Silva e terá percebido que é por ali que conseguirá reafirmar a sua credibilidade e autoridade junto dos eleitores.

E que pode ter a ganhar com isso, com essa aproximação e com este apoio decorado de Cavaco Silva, o que é que pode ter então a ganhar objectivamente?

Precisamente. E aqui focando num aspecto que eu acho que é o mais importante e que tem também marcado a afirmação de Luís Montenegro enquanto líder do PSD, que é a questão do eleitorado mais envelhecido, os pensionistas. Há vários indicadores que apontam para um divórcio evidente entre os eleitores mais velhos e o Partido Social-Democrata, em virtude de muito que aconteceu durante o período da intervenção da troika em Portugal. É muito difícil para o PSD vencer eleições sem se reconciliar com esse tipo de eleitores. Cavaco Silva representa para essa fatia aquele país com que eles cresceram. Estamos a falar de gente que nasceu nos anos 50, que nasceu nos anos 60 e 70 e que hoje são pensionistas ou que serão muito em breve pensionistas. E, portanto, Luís Montenegro sabe que essa aproximação a Cavaco Silva e ter Cavaco Silva, por exemplo, a aparecer num congresso de celebração de Luís Montenegro, é uma forma de chegar também a esse tipo de eleitores, ou seja, confere-lhe aquilo de que falávamos há pouco: autoridade, credibilidade, confiança. E num aspecto mais tático, é evidente, e disse-o há pouco Luís Montenegro, também procura colher muitos dos contributos do pensamento de Aníbal Cavaco Silva, mas de um ponto de vista mais tático, isso também é muito vantajoso para Luís Montenegro e para o PSD aparecer de novo como o partido de Cavaco e menos como o partido de Passos.

Miguel, falemos agora também de outro líder que marcou o PSD, embora em anos mais recentes. A relação entre o Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho, de alguma forma mudou no último ano?

Sim, e isso também casa com aquilo de que estávamos a falar há instantes, que é esta, para lá de muita coisa que aconteceu e que não importa talvez aprofundar, mas para lá de tudo isso, esta aproximação de Luís Montenegro ao PSD de Cavaco e o afastamento em relação ao PSD de Passos, que foi evidente, e é evidente em várias declarações públicas de Luís Montenegro, de alguma forma também contribuiu para o afastamento do antigo primeiro-ministro, que sentiu que há um corte exagerado, um desrespeito também pelo legado dele à frente do país num período particularmente difícil e do qual Luís Montenegro fez parte. Luís Montenegro foi líder parlamentar desse período e esta aproximação a Cavaco Silva, ao mesmo tempo que tenta esquecer o que foi o passismo, servindo naturalmente um propósito de conquistar eleitores e não afastar outros, também contribuiu para o afastamento entre duas figuras, Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho.

Esse afastamento, de certa forma, também é notório nas próprias declarações públicas de Passos Coelho e na evolução dessas declarações no último ano ou nos últimos dois anos, não é?

Sim, basta ouvirmos o que disse Pedro Passos Coelho quando apareceu de surpresa na primeira Festa do Pontal Luís Montenegro em 2022, no verão de 2022, em que mostrou total confiança em que o seu antigo líder parlamentar chegasse, de facto, a primeiro-ministro, desdobrou-se em elogios em relação a Luís Montenegro.

Que lhe desejo a maior sorte do mundo, porque também é preciso ter um bocadinho de sorte nestas coisas, evidentemente, mas sei que ele fará também pela sorte, porque é uma pessoa muito bem preparada, muito competente e que eu sei que vai estar à altura das exigências que o PSD vai enfrentar.

E depois a versão Passos 2023, quando em 19 de dezembro, à porta do Tribunal da Relação de Lisboa, questionado sobre a capacidade de Luís Montenegro de ganhar as eleições, usou uma formulação muito mais recuada e disse esperar que o PSD pudesse ser o partido liderante na nova fase política que se iniciava no país.

O que eu posso formular é um desejo muito sincero de que o PSD possa estar preparado para os tempos que aí vêm.

Portanto, estas três personagens, Cavaco Silva, que vai procurando o seu reencontro com a história, Luís Montenegro, que vai procurando estar à altura do legado de Cavaco Silva para também chegar a primeiro-ministro, e Pedro Passos Coelho, que também sente a necessidade de defender aquilo que fez pelo país, acabam por estar de alguma forma relacionadas com este período em que vivemos. E, portanto, os três estão numa dança muito particular em que procuram, cada um ao seu jeito e com as suas armas, conseguir cumprir os seus propósitos.

Obrigado, Miguel.

Obrigado, João.

Miguel Santos Carrapatoso é editor adjunto de política do Observador. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos também sons recolhidos pela SIC. A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.