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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Quais os reais riscos de uma Bielorrússia com armas nucleares? A 13 de junho, a Bielorrússia começou a receber armas nucleares russas. O presidente do país, Alexander Lukashenko, dizia ao canal público russo que pegaria no telefone e ligaria a Putin a qualquer momento e que o presidente russo também o poderia fazer, e assegurava: "Não vai haver problema nenhum a coordenar qualquer ataque". O processo de envio de armas nucleares para a Bielorrússia deve ficar concluído no início de julho. Quais são os reais riscos desta movimentação? Vou conversar com Bruno Cardoso Reis, historiador e especialista em segurança internacional, que é membro residente dos podcasts "Café Europa" e "Gabinete de Guerra", da Rádio Observador. Eu sou a Catarina Santos e esta é a história do dia. Bem-vindo, Bruno Cardoso Reis.
Obrigado.
Ouvimos aqui Alexander Lukashenko dizer que primeiro perguntou a Putin se haveria a hipótese de acolher armas nucleares, depois insistiu de forma amigável e depois exigiu. O presidente bielorrusso tem-se esforçado por assegurar que a decisão partiu de si, que não se trata de uma imposição russa. É uma forma de puxar os galões ou uma encenação estratégica?
Eu acho que tem um grande lado de encenação, como realmente dizes. Ou seja, é evidente para toda a gente que a Bielorrússia, neste momento, não é um Estado plenamente soberano, é um Estado satélite da Rússia. Formalmente, continua a ser um Estado independente, mas, na realidade, o regime do Lukashenko, pelo menos desde 2020, está completamente dependente do apoio russo, desde logo para garantir a sua segurança face à própria população. Depois, com a questão da guerra da Ucrânia, que aliás, do meu ponto de vista, em parte, uma das razões que levou a que acontecesse nesta altura foi precisamente a Bielorrússia passar a estar completamente na esfera do Kremlin e, portanto, poder ser usada também como uma plataforma para a invasão da Ucrânia. Convém recordar que a Bielorrússia formalmente não está envolvida na guerra, não há tropas bielorrussas a combater, mas na verdade é um co-beligerante. A guerra começou com toda uma coluna de tropas russas a avançar em direção a Kiev a partir precisamente da Bielorrússia, tirando partido do facto de Kiev estar relativamente próximo da fronteira bielorrussa. E, portanto, isso ainda reforçou mais, no fundo, esta colagem, esta dependência de Lukashenko, ainda o isolou mais do Ocidente, que já o tinha sancionado muito por causa da repressão política interna a partir de 2020. Enfim, já antes disso, mas sobretudo a partir daí. E, portanto, acho que tudo isto realmente corresponde muito a esta ideia de as armas nucleares mostram que nós estamos longe de ser vulneráveis, passamos a ter disponível a arma mais poderosa que há. E também não quer dizer que estejamos completamente nas mãos da Rússia, que também é a interpretação mais corrente, mas, na verdade, até fomos nós que exigimos este tipo de armamento. Mas é evidente que Lukashenko não tem nenhuma capacidade para exigir nada a Putin. Retoricamente, pode dizer o que quiser, mas Putin só coloca armas na Bielorrússia porque entende que isso lhe é conveniente também do ponto de vista estratégico, do ponto de vista da sua ação externa, também daqui da guerra de comunicação no contexto da guerra da Ucrânia.
Uhum! E já lá vamos a todos esses pontos em mais pormenor. Falando agora aqui propriamente destas armas, ainda não foi divulgado o número de ogivas nucleares que Minsk poderá ter, nem onde estarão estacionadas, mas sabe-se que os equipamentos terão um alcance de 500 km, ou seja, são armas nucleares táticas. O que isto quer dizer?
É uma questão muito interessante. O que é que são realmente armas nucleares táticas, por oposição às armas nucleares ditas estratégicas. E há, aliás, analistas respeitáveis que resistam muito a essa ideia. No fundo, qualquer arma pode ter uma utilização tática, ou seja, no campo de batalha, para atingir objetivos militares e, à partida, também qualquer arma, qualquer ação militar até pode ter um impacto estratégico. No fundo, por que surge essa distinção? Quando é que ela começa a ser utilizada? Começa a partir dos anos 50, com o fim do monopólio nuclear dos Estados Unidos. A partir de 1949, a União Soviética, se quisermos, a Rússia comunista, começa também a ter armamento nuclear. Os arsenais começam a expandir-se de forma muito acelerada, chegam a atingir mais de 70 mil ogivas nos anos 70 até os anos 80. E, portanto, a partir dos anos 50, há a procura de maior flexibilidade na utilização desses arsenais. E, portanto, é aqui uma definição um pouco subjetiva, mas que tem alguma base, que corresponde a esta ideia de serem armas nucleares que, pelo seu alcance, precisamente, ou seja, pelo tipo de veículos que são usados para transportar as ogivas, mísseis de curto alcance ou também aviões de combate, bombardeiros, se quisermos, têm menor alcance do que os mísseis intercontinentais, que têm alcances muitas vezes de mais de 10 mil km e que, portanto, permitem, a partir dos Estados Unidos, atingir qualquer ponto da Rússia e vice-versa. Também há uma diferença em termos do tipo de ogiva. Hoje em dia, também com avanços tecnológicos, é possível basicamente as ogivas até serem modeláveis. Portanto, é possível aumentar o volume ou reduzir o volume, se quisermos, de destruição destas ogivas nucleares E, portanto, também por convenção define-se que ogivas nucleares táticas têm, à partida, menos do que 50 quilotoneladas, entre uma e 50 quilotoneladas, e muitas vezes são realmente variáveis. Para termos aqui uma referência, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki tinham volta de 15 quilotoneladas. Portanto, podem até ser armas com bastante menos potência destrutiva do que as armas de Hiroshima e Nagasaki. E a ideia de tudo isso é que são mais utilizáveis no campo de batalha. Apesar de tudo, por que há muitas críticas a esta ideia? É porque o efeito destrutivo e também a própria questão da radiação, no fundo, criam grandes problemas e criam problemas que são difíceis de controlar. Por exemplo, a questão da radiação, o seu impacto depende muito da direção do vento, para onde é que o vento transporta estes materiais radioativos. E isso significa que podem inclusive atingir as próprias tropas do atacante, de quem utilizou esse armamento nuclear tático. E há quem questione que faça sentido, sequer, esta ideia de uma utilização tática de armamento nuclear, mas à partida é armamento menos poderoso, com menos alcance do que o armamento nuclear estratégico. E a ideia também, de alguma forma, ao falar-se deste armamento, é que se está a sinalizar que não se está a pensar sequer na utilização de mísseis intercontinentais, ou seja, se quisermos numa guerra nuclear total, lançar todo o tipo de armamento nuclear contra os Estados Unidos, por exemplo, arriscar um holocausto nuclear, o que se está a falar, apesar de tudo, sendo grave e sendo sério, é de uma utilização muito mais limitada do armamento nuclear.
E olhando agora para a questão do quem é que pode carregar no botão, Lukashenko assegurou que não hesitará em usar estas armas se sentir que o território bielorrusso é ameaçado por um exército estrangeiro, mas, na verdade, não pode fazer nada sem o aval russo, certo?
Exatamente. Aliás, isso também tem implicações, até em termos de uma outra questão, que é a questão da proliferação nuclear. À partida, a Rússia comprometeu-se, sendo signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear, em não ceder armamento nuclear a outros Estados. Neste caso, aliás, ainda há os famosos Memorandos de Budapeste, nós falamos do memorando, mas na verdade são três que foram assinados com a Ucrânia em 1994, mas também com a Bielorrússia e com o Cazaquistão, para que eles deixassem de ser Estados nucleares. Portanto, há desde logo essa crítica, que isto viola esse memorando. Apesar de tudo, a resposta da Rússia é dizer: "Bem, não viola bem, porque nós não estamos a entregar as armas à Bielorrússia, vamos manter o controle sobre esse armamento".
Aliás, na assinatura do acordo que formalizava esta transferência de armas nucleares, o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, deixou bem claro isso, que a Rússia não iria transferir as armas nucleares para a República da Bielorrússia, que iria controlá-las e que a decisão de as usar permaneceria sempre do lado russo.
Exatamente. No fundo, o que isto quer dizer? Quer dizer que as vai transportar para lá, que as vai colocar lá, mas que o controle, quem realmente manda, quem manipula esse armamento, nomeadamente as ogivas, que à partida manda a boa prática, que não estejam sequer colocadas nem nos bombardeiros, nem nos mísseis Iskander, que podem ser utilizados como veículo para as utilizar. Portanto, têm de ser armazenados à parte, também com condições especiais de segurança, quer em termos técnicos, quer também em termos militares. Mas isto significa que são tropas russas a controlar tudo isso e que é a cadeia de comando russa, em última análise, o presidente russo continua a controlar este armamento. Elas estão fisicamente noutro território, mas em termos militares e em termos estratégicos, continuam a ser armas russas sob controle russo. E tudo isso desmente exatamente aquilo que diz Lukashenko, ou seja, de facto, em última análise, nada disto depende dele. Dependerá sempre de ele fazer pedidos à Rússia e da Rússia aceder ou não a esses pedidos de utilização. E isto, no fundo, faz parte da tal dimensão mais política e de propaganda também de utilização deste armamento para tentar transformar a grande fraqueza da Bielorrússia e do seu regime, também a sua fragilidade até em termos de legitimidade interna, tentar transformá-las aqui numa prova de força, através deste subterfúgio do armamento nuclear russo, que a partir de agora estará no território da Bielorrússia.
Já voltamos à conversa com Bruno Cardoso Reis, historiador e especialista em segurança internacional. Vamos tentar perceber quais são os maiores riscos desta movimentação para todas as partes envolvidas. Estamos de regresso à conversa com Bruno Cardoso Reis. Bruno, este envio de armas para a Bielorrússia é também uma espécie de garantia de longevidade para o regime de Lukashenko?
Eu acho que essa é uma pergunta muito pertinente. Pode-se perguntar qual é a grande mais-valia para o Lukashenko. Já falámos um pouco desta dimensão propagandística, temos a arma mais poderosa do mundo, ninguém nos pode derrotar. Mas além disso, há aqui uma espécie de colagem adicional entre a Rússia e o regime bielorrusso. Houve, por exemplo, um general reformado polaco, vale o que vale, mas foi um antigo chefe das Forças Armadas polacas a defender que a Polónia devia armar a oposição bielorrussa e apoiar a sua infiltração na Bielorrússia. A Polónia e a Bielorrússia têm uma longa fronteira. Sabemos que há muitos voluntários bielorussos a combater ao lado dos ucranianos contra a Rússia na Ucrânia e portanto, havia este receio, esta expectativa, esta possibilidade que isso a certo momento pudesse voltar-se contra o próprio regime. Aquilo que o regime está a dizer é: "Atenção, se vier algum tipo de ameaça armada maior contra o regime, isso vai estar a ameaçar não apenas a sobrevivência do regime, mas a segurança deste armamento nuclear". A presença de tropas russas passa a ser não apenas uma opção, mas uma necessidade, porque têm de ser elas a garantir a segurança e até o funcionamento, a operacionalidade deste tipo de equipamento nuclear. A ideia de que haveria aqui um pretexto adicional, muito poderoso, aparentemente pelo menos, de intervenção da Rússia. A Rússia podia sempre dizer: "Nós temos de intervir militarmente, inclusive na Bielorrússia, porque as nossas armas nucleares estão a ser ameaçadas por estes protestos, eventualmente armados". Portanto, sim, eu acho que um dos grandes objetivos, talvez o mesmo objetivo principal do regime, é precisamente dizer que a aliança entre o Kremlin e o regime Lukashenko é agora uma aliança nuclear, e que isso significa que as tropas russas permanecerão sem sinedia, sem nenhum limite, no território da Bielorrússia, e que qualquer ameaça à viabilidade do regime bielorrusso passará a ser também uma ameaça à segurança nuclear russa, e portanto vai dar aqui uma justificação, quase que obrigar a Rússia a intervir.
E para a Rússia, este poderá vir a ser um caminho para um dia absorver a Bielorrússia?
Eu penso que a Rússia só não absorve a Bielorrússia neste momento, não há uma fusão formal, provavelmente porque isso não lhe interessa e também não acrescenta muito. Ou seja, na prática, o Kremlin já controla a Bielorrússia. Isso significa até que tem mais um país, e é dos poucos que vota sempre consigo, por exemplo, nas Nações Unidas. Obviamente, se o país fosse anexado, deixava de fazer sentido ter uma representação diplomática externa e também uma representação nas Nações Unidas. Do meu ponto de vista, é do interesse da Rússia, neste momento, não levar a cabo essa anexação. Isso também levantaria problemas, desconfianças, por exemplo, noutras repúblicas ex-soviéticas na Ásia Central, o Cazaquistão já várias vezes demonstrou o seu desconforto com esta postura mais agressiva da Rússia, embora continue a querer ter boas relações com Moscovo, até por razões também económicas, de equilíbrio entre diferentes potências, entre a China, que está também cada vez mais presente na Ásia Central, mas não lhe interessa ficar completamente nas mãos da China ou do Ocidente. Mas o Cazaquistão veria certamente com muito maus olhos, como aliás já foi crítico desta deslocação de armamento nuclear para a Bielorrússia, veria com muito maus olhos uma anexação formal. Essa opção eventualmente está em cima da mesa e eu vejo com dificuldade como é que o regime do Lukashenko poderia resistir se realmente a certo momento a Rússia decidisse que era por aí que queria avançar. Acho que é apenas porque convém mais a Moscovo e ao Kremlin, neste momento, manter esta ficção de uma Bielorrússia independente, que isso continua a acontecer, mais do que propriamente por haver aqui alguma barreira a essa possibilidade de anexação. Desse ponto de vista, acho que o armamento nuclear não altera muito esse dado base, que é a completa dependência do regime do Lukashenko em relação a Moscovo.
Afastando agora um pouco a lupa de análise, podemos ler aqui uma vontade russa de efetivamente escalar o conflito, ou será antes uma forma de lembrar que pode fazê-lo, se quiser? Ou seja, lembrar que o possível recurso a armas nucleares continua em cima da mesa.
Sim, e é uma forma nova de fazer isso, porque um dos problemas que a Rússia tem é que recorreu com tanta frequência, de forma tão recorrente, à questão da chantagem nuclear, que entretanto ela perdeu grande parte da sua eficácia. No início da guerra, nos meses iniciais, quando surgiram declarações nesse sentido, isso ainda provocou algum alarme nos países ocidentais e inclusive alguma preocupação da parte dos líderes ocidentais. Acho que hoje em dia isso está muito normalizado e portanto aquilo que o Ocidente insiste é que não vemos nenhuma alteração na postura das forças nucleares do arsenal nuclear russo, que levasse a pensar que estaria iminente algum tipo de utilização de armamento nuclear e não nos devemos autolimitar, autocondicionar, deixar chantagear. Isto é um dado novo, que apesar de tudo tem a vantagem, pelo menos no campo mediático, tem esse efeito, que é de alguma novidade e obriga a esclarecimentos adicionais, a uma discussão adicional, e permite também disfarçar um pouco alguns falhanços importantes da estratégia russa nesta guerra e realmente recordar, como dizes, que a Rússia continua a ser uma grande potência nuclear. Na verdade, é a maior potência nuclear em termos de, pelo menos, número de ogivas e tem até reforçado o seu investimento nesse arsenal. Agora, é possível a utilização? Claro que é, e é por isso também que estas declarações, mesmo que nos mereçam pouco crédito, não podem ser completamente desvalorizadas e têm sempre algum elemento de gravidade. Realmente, é péssimo sequer se falar da possibilidade de utilização de armamento nuclear tático, como têm feito vários altos responsáveis russos. Agora, de facto, eu creio que aí a abordagem dos responsáveis da NATO é correta, ou seja, apesar de tudo, não há indicações objetivas de que houvesse aqui um uso iminente. A Rússia sabe que isso teria enormes custos Inclusive na sua relação com países como a China ou como a Índia, que têm deixado muito claro que consideram completamente inaceitável a possibilidade da utilização de armamento nuclear num conflito deste tipo. Isso também nos permitiu, com a evolução do conflito, pensar que, eventualmente, apesar da repetição destas declarações ou até por causa disso, e também por causa desta pressão pública muito clara do lado da China e da Índia, que o risco eventualmente foi se reduzindo um pouco. Mas obviamente temos sempre que continuar a estar atentos e sobretudo a estes dados mais objetivos, que é: haveria interesse da parte da Rússia, se realmente estivesse a pensar seriamente utilizar uma arma nuclear tática, por exemplo, em deixar isso visível, em deixar claro que estava a preparar-se para fazer isso de uma forma que podia ser captada, por exemplo, nos satélites espiões americanos, porque seria uma forma de pressão adicional e até tentar obter cedências sem ter de utilizar, de facto, esse armamento. E até agora, nunca houve sinais de que isso estaria a acontecer.
Mas poderá de alguma forma ser eficaz a conseguir intimidar as sociedades ocidentais e fazê-las diminuir o apoio à Ucrânia ou começar a fazer pressão para que a Ucrânia entre em negociações com a Rússia?
Até agora, isso não aconteceu. Acho que esse é realmente um dos falhanços da estratégia russa. O primeiro grande falhanço, em termos estratégicos, foi subestimar completamente a capacidade e a vontade de resistência da Ucrânia. Depois, foi subestimar completamente o apoio do lado dos países ocidentais, no fundo, achar que o Ocidente se ia dividir, que se ia desentender, que alguns países ocidentais importantes como a Alemanha iam continuar a preferir manter negócios com a Rússia, em vez de apoiar a Ucrânia. Isso falhou. Acho que foi no contexto desses falhanços que a partir, sobretudo, de setembro, outubro do ano passado, a Rússia começou a insistir mais nesta retórica nuclear, mas isso claramente também não resultou. Ou seja, não houve nenhuma redução do apoio militar ocidental. O grande constrangimento a isso tem sido muito a questão da disponibilidade de equipamento, armamento, também do seu custo. Onde a dimensão nuclear tem real efeito e tem desde o início da guerra, é no Ocidente não se querer envolver diretamente no conflito, querer evitar aqui um choque, uma guerra direta com a Rússia. É por isso que não há tropas ocidentais na Ucrânia e foi claro desde o início, aliás, antes da invasão até, que seria dado todo o tipo de apoio à Ucrânia, mas que não se punha essa questão precisamente para evitar o risco de escalada para uma Terceira Guerra Mundial. Portanto, eu acho que esta retórica não funciona a esse nível, ou seja, cortar, reduzir o apoio ocidental à Ucrânia. A questão pode voltar a colocar-se com o prolongar do conflito, eventualmente com algum cansaço das opiniões públicas, com a ideia de que esse apoio não está a ser muito eficaz, porque a Ucrânia não está a conseguir recuperar território como gostaria, como seria a expectativa um pouco criada por esta ofensiva atual, mas não creio que por causa do armamento nuclear isso tenha acontecido ou venha a acontecer.
Sintetizando, o que é que isto muda, de facto, na arquitetura de segurança do continente europeu?
Eu acho que há aqui um dado novo e importante, e que não é só europeu, é mesmo global, que é: estamos realmente a assistir a uma nova corrida ao armamento nuclear, que não é tanto nos números, embora mesmo nos números há mudanças importantes, sobretudo no caso da China. A China, durante muito tempo, enfim, desde os anos 200, era uma potência nuclear, mas com um arsenal relativamente reduzido. Tem estado a aumentá-lo muito significativamente. Estima-se que talvez já vá nas 400 ou 500 ogivas, portanto passou a ser a terceira potência nuclear, o que nem sempre foi o caso. Há muito investimento em novos veículos, em mísseis hipersônicos com capacidade nuclear, que são muito mais difíceis de detetar, de interceptar. Portanto, há realmente aí uma corrida ao armamento nuclear e esta retórica, enfim, todos estes desenvolvimentos fazem parte disso e são realmente uma péssima notícia em termos de segurança global. A possibilidade de uma guerra nuclear, esperemos que continue a ser remota, mas é o maior risco para a sobrevivência da própria humanidade, até da vida na Terra. Em termos mais especificamente da segurança do continente europeu, além desse aspecto, eu acho que isto corresponde muito, no fundo, à dinâmica de uma Segunda Guerra Fria, em que a Rússia já não é o grande protagonista a par dos Estados Unidos, é muito mais a China, mas a Rússia tem aqui um protagonismo importante, associado e colado à China, como parte de um bloco de potências autocráticas. E na Europa, isso significa que o desanuviar das tensões e também uma geopolítica, uma geoestratégia muito mais descomprimida, esse tempo passou. E basicamente, o que estamos a assistir é uma espécie de uma nova Cortina de Ferro, muito mais para leste, e em que até mais do que na Primeira Guerra Fria, não há grande espaço para Estados neutros. E, portanto, o que vemos é, por exemplo, a Finlândia e a Suécia quererem fazer parte da NATO, e no caso da Finlândia, essa decisão até já se concretizou. E também no caso da Bielorrússia, que no fundo funcionava aqui um pouco como um Estado-tampão, a alinhar cada vez mais com a Rússia e neste momento a estar completamente alinhado com a Rússia. Portanto, no fundo, o que vemos é o consolidar de dois blocos geoestratégicos rivais, sobretudo no Leste Europeu.
Obrigada, Bruno Cardoso Reis.
Obrigado. Até breve.
Bruno Cardoso Reis é historiador e especialista em segurança internacional e é presença habitual no Café Europa e no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. No site do Observador, pode ler um especial do jornalista José Carlos Duarte, que desenvolve este assunto ao detalhe. Esta foi a história do dia. Se gostou deste episódio, clique em "Seguir" na plataforma que habitualmente usa para ouvir podcasts. Os sons que aqui ouvimos são da Reuters e do canal estatal russo. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico é do João Ribeiro, no apoio à produção esteve o Manuel Rocha Leite. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã.