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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Tic Tac para o fim do TikTok nos Estados Unidos.
Trump or Biden?
Are you kidding? Biden. No domingo da Super Bowl, a final do Campeonato da Liga de Futebol Americano, a 24 de fevereiro, Joe Biden inaugurava uma conta no TikTok. Respondeu a umas perguntas sobre o jogo e sobre quem escolheria entre Biden e Trump, e escolheu-se a si mesmo, como seria de esperar. A administração Biden proibiu os funcionários do Estado de instalar e usar TikTok em equipamentos federais. E nesta altura, os Estados Unidos deram mais um passo importante, que poderá levar ao bloqueio daquela rede social chinesa em território norte-americano. Que polêmica medida é esta e que perigos esconde o TikTok? São perguntas para a conversa com Inês Capucho, jornalista do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de segunda-feira, 18 de março. Bem-vinda, Inês.
Olá, Ricardo.
O TikTok é essencialmente uma rede social de vídeos. É isso?
Sim, é uma rede social onde são publicados vídeos majoritariamente curtos. Menos de um minuto, na maioria das vezes, e que tem um algoritmo que está desenhado para nos mostrar aquilo que mais gostamos. Que também nos leva ao vício. Quando damos por nós, achamos que estamos há cinco minutos na aplicação e já estamos há algumas horas. Por isso é uma das redes sociais mais populares entre os jovens e é propriedade de uma empresa chinesa chamada ByteDance.
Mas além disso, também há dança, há conselhos sobre maquiagem, sobre roupa.
Eu tenho cinco minutos pra sair de casa e apareceu um TikTok de uma espanhola a mostrar como transformar um look básico em cinco minutos, que é o tempo que eu tenho. Vesti um top branco, uma saia normal e vou vos mostrar o que ela me ensina.
E também se discute política e outros temas, não é?
Sim, eu diria que se discute um bocadinho de tudo. Truques de limpeza, de maquiagem. Agora há uma trend muito popular que começa com: "É claro que". Por exemplo, imagina que eu digo: "Eu sou jornalista, é claro que tenho dois telemóveis".
Eu tirei a carta aos 16 anos. É claro que perguntam-me sempre como é que eu tenho a carta aos 16 anos.
Depois tu dizes: "Eu sou jornalista, é claro que..." e completas a frase com o que te vier à mente.
Gosto muito de podcasts.
Exato, pode ser. Mas sim, também é muito utilizada pelos partidos políticos, que cada vez mais recorrem a esta rede social para chegar aos eleitores mais jovens, para captar os eleitores mais jovens e para fazer com que vão votar e, de preferência, que votem neles e na ideologia.
Neles próprios, não é?
Exatamente. Em Portugal, eu reparei que todos os partidos com assento parlamentar têm TikTok. O Chega é o mais seguido, tem mais de 33 mil seguidores.
O tempo está a contar. E agora que tivemos esta votação massiva, é tempo de começar a cumprir aquilo que prometemos. E prometemos controle e fiscalização das negociatas à volta do Estado.
E o PAN é o menos seguido, com 984 seguidores.
E sabemos quantos utilizadores do TikTok há em Portugal?
Sim, o TikTok revelou os números em outubro de 2023. Nessa altura, tínhamos mais de três milhões de utilizadores ativos por mês.
Três milhões em Portugal?
Exatamente.
Então e nos Estados Unidos?
Nos Estados Unidos, o número é um bocadinho maior. São cerca de 170 milhões de utilizadores ativos.
170 milhões. E quando Joe Biden, como ouvimos no arranque do episódio de hoje, decidiu abrir uma conta no TikTok, houve assim um bruá gigante nos Estados Unidos, particularmente em Washington. Por quê?
Precisamos recuar até 2020. Foi quando começou o braço de ferro entre o TikTok e os Estados Unidos. Os norte-americanos estavam preocupados que a aplicação, como disse, é propriedade de uma empresa chinesa, seja utilizada como uma ferramenta de espionagem ao serviço do governo chinês. Portanto, quando a campanha eleitoral de Biden chega ao TikTok em fevereiro, preocupa os democratas e os republicanos, que temem que passe uma mensagem confusa. Então os Estados Unidos querem banir o TikTok, mas num ano de eleições presidenciais, Joe Biden começa a utilizá-lo para se aproximar dos jovens. Acaba por ser uma mensagem um bocadinho contraditória.
Mas Joe Biden já produziu muito conteúdo? É ele que gere a rede?
Não, não é ele que gere a sua rede.
Imaginava.
É a sua campanha eleitoral, a equipe que está responsável pela campanha eleitoral. Mas sim, os conteúdos são regulares. Começou com um vídeo no domingo do Super Bowl em que era perguntas rápidas.
Isto foi ali a 24 de fevereiro, certo?
Sim, nessa altura, em que perguntava, por exemplo, entre os irmãos Jason e Travis Kelce, quem é que ele preferia. E ele responde que prefere a mãe, porque faz excelentes bolachas de chocolate.
E a Inês Capucho explica muito bem quem é o Travis Kelce numa história do dia em que falamos sobre Taylor Swift. Portanto, ida ouvir.
Exatamente. Mas, por exemplo, quando o Biden falou à nação sobre o Estado da nação, foram colocados excertos também no TikTok.
Clipes.
Sim, clipes foram colocados no TikTok, depois tinham montagens. Por exemplo, havia um, lembro-me, em que Joe Biden dizia que os Estados Unidos estavam muito fortes e depois colocavam vídeos do presidente supersorridente a colocar os óculos de sol.
The state of our union is strong and getting stronger.
Umas montagens mais divertidas, digamos.
E são muito consumidos. Estamos a falar de milhares, de milhões de visualizações
O primeiro vídeo, estamos a falar de milhões, é o mais visto de todos. Depois começam a ser milhares, já não chegam a essa popularidade e em termos de números de seguidores são mais de 200 mil, portanto, nem sequer chega aos milhões.
Já voltamos à conversa com a Inês Capucho, jornalista de tecnologia do Observador. Que medida está o Congresso norte-americano a preparar e que poderá levar ao boicote do TikTok nos Estados Unidos? Estamos de regresso à conversa com a jornalista Inês Capucho, jornalista do Observador, que habitualmente cobre a área da tecnologia. Inês, o que o Congresso dos Estados Unidos decidiu na semana passada?
Ao longo da última semana foi aprovado um projeto de lei, primeiro por um comitê e depois pela Câmara dos Representantes, que prevê que sejam dados seis meses à ByteDance, a empresa que manda no TikTok, que é dona do TikTok, para vender o TikTok, de preferência a uma empresa norte-americana. Ou seja, trata-se de cortar totalmente os laços com a China, que é uma das principais preocupações dos Estados Unidos. Se o projeto de lei for promulgado e uma venda não se concretizar, então o TikTok será bloqueado nos Estados Unidos.
Espera, portanto, no fundo, vender o braço norte-americano do TikTok a uma empresa dos Estados Unidos, libertando esse braço da empresa-mãe. É essa a ideia.
Exatamente. O que prevê o projeto de lei é que deixe de existir uma influência chinesa no TikTok. Se isso não acontecer, o TikTok terá de deixar de operar nos Estados Unidos e as lojas de aplicações, como a Play Store da Google ou a App Store da Apple, deixam de disponibilizar o download dessa aplicação. Se não o fizerem, vão pagar multas de 5 mil dólares por utilizador. Como o TikTok, já falámos, tem 170 milhões de utilizadores nos Estados Unidos, dá um total de uma multa de 850 mil milhões de dólares.
850 mil milhões de dólares. Ou seja, há aqui um prazo a cumprir, não é? Portanto, ou há o negócio ou a rede é pura e simplesmente bloqueada nos Estados Unidos, é isso.
Se o documento for aprovado, sim.
Está nesta altura ainda na Câmara Baixa do Congresso, está no Congresso, está na Câmara dos Representantes e irá ainda ao Senado.
Tem de ir ainda ao Senado. Aí existem alguns receios de que possa não ser aprovada por questões de liberdade de expressão, já vamos falar um bocadinho sobre isso a seguir. E depois, Joe Biden tem de promulgar.
E o que disse Biden?
Joe Biden já disse que se chegar à sua mesa, vai assiná-la.
Vai promulgar.
Vai promulgar, sim.
Apesar de ter conta no TikTok.
Isso, tem.
Tu já falaste um bocadinho isto, mas eu queria perceber-me isto melhor. Quais são os grandes receios dos norte-americanos em relação a esta rede social?
Os norte-americanos temem que o TikTok seja utilizado como uma ferramenta de espionagem ao serviço da China e que a China tenha dados dos utilizadores norte-americanos e que também utilize a rede social para influenciar a forma como os norte-americanos veem o governo chinês, veem Pequim. Mas isto tem sido uma coisa que o TikTok tem vindo a negar. Tem dito que não partilha dados com a China e que mesmo que o governo chinês pedisse, não iria fazê-lo. Só que a esta preocupação antiga juntou-se uma nova: o receio de que a China possa tentar influenciar as eleições de novembro, as eleições presidenciais norte-americanas, através do TikTok, por exemplo, através de campanhas de desinformação na aplicação.
Espera aí, Inês. Ainda sobre os dados, antes de irmos à possibilidade de manipulação da opinião pública, os dados é uma questão fundamental aqui, porque nós não sabemos bem. O algoritmo, já todos percebemos, é muito poderoso. Portanto, se ficas um ou dois segundos a olhar para um determinado filme ou para um determinado vídeo, será esse o assunto da tua timeline, não sei se lhe podemos chamar assim. Esses dados nós não sabemos bem onde é que ficam, como é que ficam. Esse é um dos pontos do problema.
É um dos principais pontos do problema.
Eles sabem tudo sobre a nossa vida, basicamente.
Sim, digamos.
Ou uma parte importante.
O TikTok armazena os dados dos Estados Unidos nos Estados Unidos, mas ainda assim, os Estados Unidos não estão totalmente convencidos de que nada chega à China. O TikTok diz que não, não partilha nada com a China, mas os Estados Unidos não estão convencidos. O CEO do TikTok no ano passado esteve cinco horas no Congresso norte-americano a dizer: "Nós não damos dados à China" e mesmo assim os congressistas não ficaram convencidos.
Vamos então falar da questão da manipulação e das eleições, porque realmente este ano há eleições presidenciais nos Estados Unidos e um dos candidatos é Donald Trump. E quando falamos de manipulação da mensagem, podemos pensar em Donald Trump.
O Donald Trump não está presente no TikTok, mas foi ele que começou este braço de ferro entre ByteDance, TikTok e também os Estados Unidos. Só que agora mudou de opinião. Na semana passada, disse que considera que o TikTok é, sim, uma ameaça à segurança norte-americana, mas que não é uma proibição que vai resolver a situação, porque tira concorrência ao Facebook. E Donald Trump considera que o Facebook é o inimigo do povo. Portanto, quando era presidente, queria banir o TikTok. Neste momento, mudou de ideias e não quer, porque acha que a rede social, como é muito popular, faz concorrência a outras, que ele se calhar não gosta tanto.
E ele próprio tem uma rede social, não é?
A Truth Social. E por acaso a campanha de Joe Biden também para justificar estar no TikTok, disse: "Nós queremos estar próximos dos eleitores, nem que seja em redes sociais como a Truth Social do Trump."
Mas como é que essa possibilidade de proibição é aceite nos Estados Unidos? Afinal de contas, os Estados Unidos dizem ser a terra da liberdade. Como é que se coadunam as duas coisas?
Eu acho que não se coadunam. Essa é que é a realidade. Ainda antes do projeto ser votado no Congresso, o TikTok enviou uma notificação aos utilizadores dos Estados Unidos a apelar para que dissessem o que o TikTok significava para eles e para que pedissem aos congressistas para votarem não a uma proibição. Não surtiu efeito, porque acabou por ser aprovado o projeto de lei pela Câmara dos Representantes, mas ainda assim as linhas telefônicas do Congresso receberam centenas de chamadas.
As pessoas ligaram para lá.
Exatamente, a defender o TikTok.
Para o seu congressista, porque as coisas nos Estados Unidos funcionam um pouquinho assim.
Exatamente. Chegaram a ser mais de 20 chamadas por minuto. Mas, por outro lado, existem sim essas preocupações com a liberdade de expressão. Várias organizações sem fins lucrativos, como a Electronic Frontier Foundation, que falou com o Observador, assinaram uma carta que diz que o projeto de lei viola a liberdade de expressão dos norte-americanos, que dependem do TikTok para se informarem, para comunicarem, mas também para se entreterem. Portanto, essas preocupações com a liberdade de expressão não são novas. O estado do Montana tentou proibir o TikTok e a Justiça já considerou que é inconstitucional essa proibição devido a preocupações com a liberdade de expressão e violações da Primeira Emenda. Portanto, precisamos de esperar para perceber o que vai acontecer com este projeto de lei.
E é por isso que dizes que ainda é preciso que passe no Senado. No Senado é que pode esbarrar precisamente por causa dessa questão?
Exatamente, sim. Existem algumas dúvidas de que passe no Senado precisamente por causa de preocupações com a liberdade de expressão, ainda que os congressistas tenham dito que falaram com conselheiros da Casa Branca e de Washington para ter a certeza que desta vez este projeto consegue resistir a um desafio legal. Mas mesmo assim não sabemos.
Porque na Câmara dos Representantes conseguiu o apoio dos dois partidos, republicanos e democratas.
Sim, até foi algo que surpreendeu o próprio TikTok. Ou seja, não ficaram surpreendidos por saber que havia um novo projeto de lei, já tinham conhecimento que estava a ser desenvolvida uma nova legislação, mas ficaram muito surpreendidos com o amplo apoio bipartidário.
Resumindo, Inês Capucho, nessa altura podemos dizer que o TikTok poderá ter seis meses de vida nos Estados Unidos.
Poderá é a palavra-chave, sim. Portanto, precisamos de esperar pelo Senado. Já sabemos que se passar no Senado, Biden promulga, portanto, aí está resolvido. Mas também não podemos descartar que a ByteDance vá lutar contra o projeto de lei, no caso, já a lei, na Justiça, para garantir que sobrevive e que mantém o TikTok sob a sua posse. Portanto, pode demorar mais tempo do que esses seis meses que estão inicialmente previstos.
Obrigado, Inês.
Obrigada.
Inês Capucho é jornalista de tecnologia do Observador. Aproveito para lembrar que o Observador também tem conta no TikTok. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram retirados da rede social TikTok. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.