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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Espanha fez tudo o que devia para evitar o apagão?

"Ya, y hemos visto que 19 segundos antes también hubo una pérdida de generación, por lo tanto, otra perturbación que se suma a las dos anteriores. Tenemos que ver si hay relación entre ellas, si no hay relación entre ellas".

Sara Jensen é a ministra espanhola da Transição Energética e esta segunda-feira, em entrevista à TVE, revelava que existiu uma terceira falha na rede 19 segundos antes do apagão, uma falha que se junta a outras duas já confirmadas. Os resultados das investigações em curso são ainda preliminares, mas perante as falhas, a atuação não poderia ter sido outra? E até que ponto este apagão poderá vir a ter impacto na fatura da eletricidade? São perguntas para Ana Suspiro, grande repórter do Observador, jornalista que há muito acompanha a área da energia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 06 de maio. Bem-vinda, Ana.

Olá, Ricardo.

Ouvimos no arranque deste episódio a ministra espanhola da Transição Energética falar na descoberta de uma terceira falha praticamente antes do apagão do dia 28. Que falha é esta?

Não temos muitos pormenores. É uma falha de produção, ou seja, faltou produção na rede elétrica 19 segundos antes do grande apagão de produção, que mais tarde se vê, aliás, quase automaticamente, chegou à rede elétrica toda.

Só 19 segundos.

Exato. Não sabemos até que ponto isto é relevante ou não. As coisas em Espanha estão um bocadinho diferentes em Portugal, tem havido muito mais informação, mas também, se calhar, muito mais desinformação.

Ok.

O problema também aconteceu do lado deles, é natural. A pressão para dizer coisas é muito grande. E basicamente, não sabemos se isto é relevante ou não.

Essa é a pergunta, no fundo, em que medida é que esta terceira falha adensa ou não este mistério?

O que é revelador é que existia um padrão de oscilações da frequência da rede, que já até sabemos que nos dias anteriores houve falhas. Houve uma que afetou os comboios em Madrid e outra que afetou uma refinaria da Repsol, mas o sistema conseguiu sempre neutralizar essas oscilações e elas são relativamente normais. Aquilo que parece ter sido absolutamente determinante para o que aconteceu foi, não esta falha dos 19 segundos anterior, mas o grande apagão de produção que houve, sabemos que no sul da Península Ibérica, em que várias centrais solares se desligaram, precisamente, de forma automática, reagindo às tais oscilações da rede. E o buraco na produção foi de tal forma gigante que aquilo, em questão de segundos, apagou-nos a nós e apagou a Espanha. Apagou a França porque a interligação é fraquinha.

Disparou o fusível.

Exatamente. A explicação que me foi dada foi: é como nós em casa, temos o quadro elétrico e temos vários eletrodomésticos e vamos ligando, ligando, até que há um-

Não ligues a máquina da roupa e a torrada ao mesmo tempo.

Até que há um que liga, que faz rebentar aquilo tudo. E foi isso que aconteceu.

Nesta altura, com os dados que temos, ainda não é possível dar uma resposta sobre o que se passou. Mas as autoridades espanholas dizem que estão muito atentas, que estão a tratar. Como é que podemos prevenir uma nova ocorrência se não sabemos bem o que causou a doença?

Em boa verdade, não podemos, mas há três ou quatro coisas que sabemos. Também podemos olhar isto do lado espanhol, vamos olhar pro lado espanhol, porque o lado português levanta outras questões. Do lado espanhol, sabemos que há uma ligação, não necessariamente causa e efeito, mas há uma ligação em relação ao tipo de energia que estás a pôr na rede. E o facto de teres muitas renováveis e pouca energia mais convencional, ditas as térmicas e o nuclear, que é uma discussão muito forte em Espanha, porque eles querem desligar as centrais, tem impacto no tal equilíbrio da frequência. Ou seja, as tais oscilações que terão feito as centrais desligarem-se. Quando tens muitas renováveis, elas acontecem porque as renováveis não permitem que haja muita inércia no sistema. Isto é uma questão técnica. De facto, sabemos que as renováveis tiveram ou podem ter tido aqui um papel. E também sabemos que houve, a informação espanhola tem posto muita coisa cá fora, que houve alertas, por parte da rede elétrica, documentos, no sentido de explicar ou de alertar: ok, nós estamos a alterar de forma radical o mix de produção que pomos na nossa rede. Até posso acrescentar que nós, neste momento, não temos 50 centrais, temos milhares de centrais, todas a produzir e alguns outros também a consumir. Portanto, isto é muito mais complexo. Vamos ter que investir aqui numa série de dispositivos para baterias e outro tipo de coisas para tentar equilibrar estes níveis de frequência. Há duas outras coisas que nós de facto sabemos, mas aquilo que não sabemos é o que causou este apagão em particular, porque este tipo de oscilações na rede existem, são normais, são geríveis e têm sido geríveis. A questão aqui é É a rapidez, é a dimensão e a rapidez, é a combinação das duas coisas.

As tais três falhas que já estão identificadas, que antecederam.

Não, a última falha, a falha dos cinco segundos, os tais 16 GW, que é mais ou menos, era quase tanto quanto Portugal estava a consumir. Aliás, é mais do que o que Portugal estava a consumir naquela altura. E quando isso desaparece, não há volta a dar.

Eu sei que já falámos nisto várias vezes, mas só para esclarecer este ponto, que às vezes até pode fazer um pouco de confusão: a energia que está a ser produzida é a energia que está a ser consumida, porque não dá para armazenar.

A rede elétrica não tem despensa. Não tens uns sistemas de baterias lá agarrados, não. A rede elétrica tem que receber exatamente, a cada momento, a energia que está a ser consumida. E quando há um desequilíbrio, a rede cai. E o que aconteceu foi um desequilíbrio do lado da oferta. O consumo manteve-se, a oferta afundou.

Já voltamos à conversa com Ana Suspiro, grande repórter do Observador, jornalista que há muito acompanha o setor da energia, e o que está Portugal a fazer e será que este apagão vai refletir-se na conta da eletricidade? Estamos de regresso à conversa com Ana Suspiro, jornalista, especialista na área da energia. Ana, com essas falhas identificadas, com esses relatórios, com estes resultados preliminares, podemos fazer a pergunta que no fundo lançamos neste episódio: Espanha poderia ter evitado este apagão?

Poderia, ou seja, depois das centrais desligarem, não. Há aquilo automático.

Atuar antes, não.

Isso é tal que não sabemos. O que é que provocou o tal distúrbio da rede e se há alguma coisa que poderia ter sido feita. Há uma coisa que é segura: ninguém previu que isto podia acontecer. Isso penso que é mais ou menos evidente. Portanto, o sistema não estava preparado para isto, não antecipou que isto pudesse acontecer. Não há relatos nos relatórios de segurança de cenários drásticos deste e por isso é que é tão difícil perceber a causa.

E nessa altura nenhuma causa é excluída por parte do governo espanhol, não é?

Não, até a questão dos ataques informáticos. Eles, na teoria, dizem que está tudo em aberto, porque eles de facto não sabem o que é que causou isto.

E por cá também há investigações a decorrer, há alguma conclusão já sobre?

Nós temos uma investigação, é obrigatória, mas a nossa investigação tem uma natureza um bocadinho diferente da espanhola, porque nós fomos apanhados. É o contágio. O que nós estamos aqui a tentar perceber é se, por um lado, dependemos muito de Espanha por causa da interligação, compramos energia barata à Espanha, podemos confiar no sistema espanhol e no gestor do sistema espanhol. A segunda questão que podemos perceber é: mas não poderíamos ter contido isto na fronteira ou ter evitado que esta situação tivesse afetado a nossa rede? A resposta a isso eu digo-te já que não.

Não dava.

Porque foi no tempo que demora a carregar um botão. Ou era tudo automático, e há coisas que são automáticas a um certo nível, mas depois quando chegas à parte mais central da coisa, no centro de despacho da REN, como deves calcular, estão lá pessoas e são elas que têm que tomar as decisões e não houve tempo para nada.

Porque apagou.

Exatamente. Eles devem ter estado a olhar para o quadro de despacho e devem ter visto aquilo tudo a ficar desligado, tudo a apagar-se.

E em termos práticos, hoje, no dia em que publicamos este episódio, 6 de maio de 2025, continuamos desligados de Espanha e vamos manter esta situação até quando?

Nós tecnicamente estamos ligados a Espanha.

Desligados no sentido de não estar a receber.

Não estamos é a fazer trocas de energia com Espanha, ou seja, não estamos a importar nem a exportar.

Isso vai manter-se até quando?

A REN indicou que pelo menos até dia 6, até hoje, que vai manter esta situação, por uma questão, presumo eu, de segurança e até também de perceber o que é que aconteceu. Não sei se amanhã teremos essa resposta. Eu acho que aqui também há alguma cautela, talvez para dar alguma segurança, alguma tranquilidade às pessoas e aos agentes. Não sei se isto vai ser prolongado para lá de hoje.

Isto leva-nos à pergunta, porque se nós estávamos a comprar a Espanha, era porque Espanha dava energia mais barata, ou seja, estamos a pagar mais pela energia que estamos a consumir agora.

Estamos a pagar mais. Aliás, se há alguma coisa que estes últimos dias provaram é que Portugal, de facto, não depende da energia espanhola, porque tem capacidade de produzir energia para abastecer a sua procura, mas do lado de lá é mais barato, até porque é um mercado muito maior. Que tem outras opções que nós não temos, por exemplo, tem o nuclear.

Portanto, é possível que isto se reflita na fatura.

Na fatura. Vai depender muito do tempo, ou seja, uma semana não é relevante. Vai depender do tempo, da diferença de preços, porque esta diferença de preços também resulta do facto de Espanha não estar a vender energia para Portugal, porque se estivesse o preço deles era mais alto, subia o preço. Portanto, a diferença não é assim tão grande, parece muito grande, é grande. Há outras coisas que nós não vemos aqui, porque Espanha estará a usar muitos serviços de sistema que também são caros e que também vão à fatura final. Mas sim, vai depender do tempo que isto durar.

E há pouco falavas da diferença entre Portugal e Espanha, da forma como tudo isto está a ser tratado, e realmente aqui Há dois países e duas formas de se estar a lidar com isto.

Claramente. Em Espanha, a questão está centrada no sistema elétrico, mas também na política energética do governo de Sánchez, nas nomeações que fez. A rede elétrica espanhola, o Estado é o maior acionista, por cá a discussão foi outra, mas acho que já acabou. Também há uma decisão de fecho das centrais nucleares, que são centrais que fornecem inércia ao sistema. Portanto, quando elas fecham, o sistema fica mais vulnerável a este tipo de problema. Também está a acontecer essa discussão. Por cá o tema é mais o que aconteceu aos sistemas ditos críticos por causa da falha da eletricidade e nós se calhar não estávamos à espera de ficar sem telecomunicações, por exemplo, eu não estava tão depressa. O SIRESP, a questão do socorro, das maternidades e também da comunicação do Governo, porque afinal de contas estamos em campanha eleitoral.

Obrigado, Ana.

Obrigada eu, Ricardo.

Ana Suspiro é grande repórter do Observador, é jornalista especialista no setor energético e tem acompanhado todo este caso do apagão. Ficam ainda três notas que devem merecer atenção nesta terça-feira. À noite, às 21h, a RTP transmite o derradeiro debate destas legislativas, o debate dos partidos sem representação parlamentar. E lá fora, o novo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, vai estar em Washington para uma primeira reunião com o presidente Donald Trump. A conversa será sobre tarifas. Carney acusa a administração Trump de querer destruir o Canadá e diz que a relação entre os dois vizinhos já não é o que era. Uma última nota, uma sugestão de leitura: quem são os 133 cardeais que nesta quarta-feira se vão reunir no conclave que vai escolher o novo papa? O Observador explica quem são, um a um, e identifica os que podem ser vistos como eventuais candidatos a papa. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.