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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Este é o Mundial da Vergonha?

Não parece que tiveste de me informar a mim ou à federação. Mas o Cristiano não é livre.

Esta quinta-feira, Portugal joga frente à Nigéria. É um último encontro antes do Mundial do Qatar. Um desafio particular frente a uma seleção africana, uma vez que o primeiro jogo oficial, a 24 de novembro, será frente ao Gana. Ronaldo não joga esta quinta-feira, está doente.

Ele neste momento tem um síndrome de gastrite.

Com os campeonatos parados, Ronaldo parte para o quinto Mundial da carreira, assombrado por um conflito com o clube, o Manchester United.

Mas o que isso tem a ver com a Seleção Nacional? Continuo a perguntar. O que isso afeta a Seleção Nacional? A mim o que me interessa, fundamentalmente, é o que se fala cá dentro. E nós a única coisa que falamos é em preparação pro Qatar, não falamos no resto. A nós não nos afeta rigorosamente nada. Foi uma decisão dele.

Vai ser o Mundial de futebol mais caro de sempre, o primeiro jogado no Médio Oriente e o primeiro no inverno europeu. Há um coro de críticas sobre a escolha do Qatar, sobretudo em relação à forma como o regime lida com os direitos humanos e, em particular, como tratou os trabalhadores que construíram os estádios. Quando a bola começar a rolar, estas polémicas vão ficar fora de campo? E como estará o capitão da seleção, Cristiano Ronaldo? Vou conversar com Bruno Roseiro, editor de desporto e enviado especial do Observador ao Qatar. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia.

The winner to organize the 2022 FIFA World Cup is Qatar.

Bem-vindo, Bruno.

Olá, Ricardo.

Como é que a FIFA escolheu o Qatar?

Primeiro, o contexto. 2022 ia ser um Campeonato do Mundo que não ia tocar a Europa. Já se sabia até pelas propostas que existiam para 2018, que seria na Europa. Só que houve quase um bolo e uma junção, promoção dois em um, 2018 na Rússia, 2022 no Qatar. Com o Qatar estava em discussão o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália, que nunca foram propriamente candidaturas que tivessem força, e os Estados Unidos. Para compensar, e porque isso é muito hábito da FIFA, é quase como um árbitro que gosta de jogar na compensação, aquilo que se fez foi Rússia 2018, Qatar 2022 e Estados Unidos com México e Canadá 2026, e toda gente fica contente.

Mas esta escolha também levantou suspeitas.

Sim, a partir do momento em que se tem de mudar todo um calendário para encaixar um Campeonato do Mundo em dezembro, logo aí levanta várias dúvidas. Há muitas investigações. Para mim, o melhor exemplo que existe foi relatado pelo Sunday Times, que fez uma investigação, que chegou a alguns documentos e que mostrou como é que se pode corromper, não corrompendo, nem fazendo nada ilícito. Como é que isso se faz? Três semanas antes de haver uma decisão, a Al Jazeera assinou um contrato com a FIFA, onde pagava €350 milhões à cabeça.

350 milhões.

350 milhões à cabeça, quase como um sinal para garantir os direitos de transmissão televisiva do Campeonato do Mundo. Caso o Qatar recebesse esse mundial, seriam mais 350 milhões. Tu perguntas: há aqui alguma coisa ilícita? Não há. É normal pagar-se estes valores? Não é normal, muito menos esta questão quase de um sinal de pré-aviso de que o Campeonato do Mundo tem de ir especificamente pra aquele país.

Já que estamos a falar de milhões, quanto vai custar este mundial?

Aí uma calculadora já deixa os números muito pequenos. São 225 mil milhões de euros.

225 mil milhões?

Com estes zeros todos, nove zeros, 225 e mais nove zeros. É isto que vai custar. Sendo que, atenção, temos depois outros paradoxos, mas isto até é bom, é um ponto bom. Existem exemplos de tamanha sustentabilidade financeira de que o estádio 974, que é onde Portugal vai fazer a sua estreia, é um estádio feito com 974 contentores que vieram da China, que depois são encaixados, digamos assim, em aço para fazer a estrutura e quando acabar, pura e simplesmente agarra-se neles e vai pra um qualquer país que queira organizar uma grande competição. Portanto, há essa parte da sustentabilidade, que convenceu a FIFA. Há também estes valores, porque este estádio, só este estádio, foi à volta de €300 milhões.

E entre outros textos, dos muitos que tens já disponíveis no site do Observador, Bruno, tu também explicas como é montado e desmontado esse estádio 974, que é também o indicativo do Qatar. E do ponto de vista desportivo, também nunca houve uma prova destas, e há pouco falaste nisso, no meio dos campeonatos europeus, ou seja, no meio do inverno europeu, que obriga A parar os campeonatos mais competitivos do planeta.

Sim. No fundo, quem alimenta a indústria, que são os clubes que pagam aos jogadores, acabam por ser os maiores prejudicados, porque durante um mês de competição e preparação para o Campeonato do Mundo, não treinam os seus jogadores, sabendo sempre que são ativos, que no final poderão ou não ser vendidos e que no final podem ou não voltar lesionados. Há sempre essa probabilidade. Há aqui um ponto curioso: Portugal é a seleção das 32 que vai chegar com mais minutos jogados. Ou seja, se nós contabilizarmos todos os minutos de competição dos 26 convocados de cada uma das seleções, Portugal é aquela que tem mais minutos jogados. E isto em dezembro pode não ser mau. Ou seja, desde agosto até novembro, houve muitos jogadores que estiveram a jogar quase três em três dias, mas não vão chegar, como é normal nas grandes competições, fatigados de toda uma temporada inteira, 50, 60 jogos ao mais alto nível. Há aqui um outro ponto que torna este mundial completamente imprevisível e que tem a ver com os resquícios ainda da Covid-19. A pandemia obrigou a uma revolução nos calendários e se nós repararmos, e eu, por exemplo, coloco Brasil e Argentina como duas das seleções favoritas.

Claro.

Mas eu tenho consciência que Brasil e Argentina, à exceção da Argentina, que fez a finalíssima com a Itália, não jogam com equipes europeias há dois anos. Portanto, nós não sabemos o que é o Brasil e a Argentina com equipes europeias. Sabemos o que é o Brasil e a Argentina enquanto equipa e a jogar a América do Sul, a qualificação da América do Sul.

E como vai o Catar, um país muçulmano que não pauta pela liberdade individual, lidar com equipes, com adeptos de todo o mundo, enfim, com esta multiculturalidade que faz parte destes grandes eventos, destes mundiais, com gente de todo o mundo vestida de todas as formas. Como é que o Catar lida com isso?

Vai parecer irônica esta resposta, mas eu acho que vai correr lindamente. Sinceramente, vai correr lindamente. E por quê? Se tu convidares amigos lá pra casa e estiveres a casa toda desarrumada, só tens tempo pra fazer uma coisa. Então o que tu fazes? Vais arrumar a sala e a sala fica completamente impecável e os teus convidados não saem da sala. Portanto, o problema é se alguém for pro quarto e pra cozinha.

Nunca mais te convido lá pra casa.

E como provavelmente eu e outros tentarão ir ao quarto e à cozinha, irão experimentar realidades que quem vai ao Catar ver o Campeonato do Mundo não sabe, porque não vai sair da sala e a sala está completamente impecável. Mais um exemplo de como, sem fazer nada ilícito, sem corromper ninguém, sem pagar a ninguém, é possível criar coisas artificiais. Há mais de dois anos que a organização e o comitê organizador deste Campeonato do Mundo anda a promover junto de pessoas, influencers nas redes sociais, pessoas com capacidade de ter alguma predominância nas comunidades locais que também vivem no Catar. Andou sempre à procura desses adeptos e quando nós olhamos para, sobretudo, indianos, muitos indianos que estão com a camisola de Portugal, com a bandeira de Portugal a apoiar, eu sinceramente não sei se apoiam o Ronaldo ou Portugal, mas é algures entre os dois. Não se pode dizer que eles foram comprados, mas tudo isto foi trabalhado durante dois anos para chegar a altura e acontecer. Das imagens que eu já tenho visto, há adeptas inglesas vestidas de calções, porque está um calor que não se pode.

Exatamente.

E nós aqui andamos com frio e chuva. Estão sempre acima de 30 °C com uma umidade grande. Estão tal e qual como se andassem por Vilamoura. Em relação às praias, eu recordo, por exemplo, só há uma praia pública no Catar. Vão existir praias especificamente para detentores da Hayya Card, que é o visto provisório para poder entrar, onde se pode usar biquíni. Portanto, quem for ao Catar, quem for ver a competição, vai ter o melhor de todos os mundos.

Há balizas, mas vamos olhar para baixo do tapete, onde escondemos a desarrumação. Vamos olhar para a questão da construção dos estádios. O número de mortos em acidentes de trabalho é conhecido.

Não é conhecido. Há estimativas e há uma disparidade brutal em relação aos números. Ou seja, o comitê organizador apresenta dezenas de fatalidades e não só relacionadas com o estádio. Um exemplo prático, Lusail não é só um estádio de 80 mil pessoas que vai receber uma final, é uma nova cidade. E, portanto, o comitê organizador admite dezenas de mortes, mas nesse contexto, não só de estádio, mas de acessibilidades, etc. A Anistia Internacional e algumas investigações feitas, sobretudo por jornais britânicos, falam em pelo menos 10 mil mortes de migrantes que vão trabalhar pro Catar em condições miseráveis. A taxa de suicídio é grande, porque são pessoas que não têm o mínimo de condições e que se veem privadas de muita coisa, sem o mínimo de auxílio. Agora, onde é que está a verdade? É complicado, por quê? Porque muitas vezes tu não tens sequer registro das pessoas que entram, quem é que são, como é que entraram, e isso também dificulta muito o tracking de toda a situação. Curiosamente, os portugueses que vivem no Catar estão mais próximos da realidade que é apontada pelo comitê organizador, ou seja, que o número de fatalidades não tem nada a ver com aquilo que é reportado, do que propriamente a imprensa internacional, que tem feito vários trabalhos. Inclusivamente, existe agora um site onde tem o nome A nacionalidade e a data de nascimento de todos os trabalhadores que morreram durante a construção dos estádios e acessibilidades. Quem é que estará a dizer a verdade? Provavelmente nunca saberemos.

Já voltamos à conversa com o Bruno Roseiro. Vamos olhar também para o plano desportivo e, claro, para Ronaldo.

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Estamos de regresso à conversa com o editor de desporto e enviado especial d'O Observador ao Qatar, Bruno Roseiro. Bruno, no plano desportivo, o que é que podemos esperar da seleção portuguesa?

À partida, uma qualificação para os oitavos, olhando para o grupo, colocando sempre muita imprevisibilidade em qualquer resultado de uma seleção europeia. Acho que a França é o expoente máximo disso. Ninguém sabe que França que vai encontrar. Acho que Portugal, à semelhança de Espanha ou Alemanha, é também uma dúvida. Em condições normais, tem mais do que capacidade para lutar não só pelo apuramento, mas pelo primeiro lugar, muito provavelmente com o Uruguai, que será o adversário direto de má memória, porque foi o Uruguai que eliminou Portugal no último Campeonato do Mundo. E depois temos Gana, que vai ser o primeiro jogo de Portugal, importante. Não só as equipes africanas têm fraquejado nos Mundiais, como já se começa a perceber no Gana que existe alguma desorganização logística, que depois acaba sempre por ter impacto nos resultados. E o último jogo, Coreia do Sul, que tem um handicap: Paulo Bento. Paulo Bento conhece bem a seleção, conhece bem Ronaldo, já o treinou inclusivamente na seleção, e esse poderá ser um handicap. Ainda assim, em condições normais, Portugal passará aos oitavos e depois a partir daí, depende a posição em que passe. Se passar em segundo, corre o sério risco de cruzar com o Brasil e aí as coisas poderão ser mais complicadas.

E os favoritos são os mesmos de sempre?

Sim, eu diria que são os mesmos de sempre. Brasil e Argentina a juntarem-se aos europeus. Imprevisibilidade grande. E eu recordo que nos últimos três anos o campeão do mundo ficou na fase de grupos, não chegou sequer a passar aos oitavos. Poderá sempre haver uma surpresa, uma Dinamarca a poder chegar, não diria ser campeã, mas a poder chegar mais longe. Muita curiosidade também para perceber o que é o Qatar, porque a equipe do Qatar está há mais de 10 anos a ser preparada para um campeonato do mundo, porque sabiam que não tinham uma equipe que pudesse fazer uma competição digna para quem vai receber a organização, mas não sabemos ao certo até onde é que chegou essa evolução do futebol do Qatar.

E há aqui uma questão a pairar chamada Cristiano Ronaldo. Será o quinto Mundial de Cristiano Ronaldo. Penso que isto será algo de raro, não?

Sim, quem tem os recordes tem cinco Mundiais.

Todos esperávamos uma despedida de Ronaldo em alta, em grande, dos Mundiais de futebol, mas as polémicas recentes e agora esta entrevista.

They're trying to force you out? Yes, not only the coach, but the other two or three guys there around the club. At the senior executive level? Yes, that I felt betrayed.

O que é que podemos esperar de CR7 no Qatar?

Eu acho que desportivamente não chega no melhor momento. Em termos de contexto, eu diria que ele tem um contexto muito favorável para fazer um grande mundial. E por quê? Já percebeu que a seleção, por mais voltas que se dê, anda sempre tudo à volta dele. É o que ele quer, é o que ele gosta, é o que ele não tem no United. E daí também estar a ter a época que tem, porque pela primeira vez tem um treinador que por opção técnica, apenas e só o coloca no banco ou fora dos convocados. Vai jogar num país que é completamente rendido a Cristiano Ronaldo, ou seja, a imagem no Qatar e os adeptos não portugueses que torcem por Portugal e que nós temos visto nas reportagens são muito mais Ronaldo do que Portugal. Tenho essa curiosidade de a alguns adeptos poder perguntar: "Mas diga mais cinco nomes de jogadores da seleção" e provavelmente eles só saberão dizer Cristiano e Ronaldo. E eu diria que perante este contexto, Ronaldo tem as condições que ele tanto desejava para fazer o seu último mundial. E a questão aqui, que é o outro lado da moeda, é: a seleção não ganhou em nada em termos de timing com esta entrevista.

They doubt of my words that I struggle, especially Bella and Gio. We had one week in hospital because Bella have a big problem. And I didn't go to the preseason because of that, because I was allowed to left my family if something happened.

Cristiano Ronaldo pode ter ganho e podia ser o único timing que ele tinha para dar a entrevista. A seleção não ganhou em nada. E será no equilíbrio desta balança que poderá surgir ou não o sucesso também do Ronaldo no Qatar.

E como é que as seleções de futebol olham para todas aquelas questões de que falámos no arranque da conversa, de suspeitas? Há alguma tomada de posição por parte das seleções ou quando a bola começar a rolar, já nada mais interessa?

Eu acho que tendencialmente será assim. Algumas seleções tomaram a sua posição, mas não deixa de ser curioso que a FIFA, a mesma FIFA que atribuiu o mundial ao Qatar É a FIFA que diz à Dinamarca que não pode ter qualquer tipo de manifestação a favor da defesa dos direitos humanos no Qatar. É mais uma vez um paradoxo, provavelmente a Dinamarca é uma seleção mais humilde, com menos milhões, seja ele de habitantes, seja ele de dólares, e não deixa de ser curioso que os jogadores e as seleções querem tomar uma posição que em nada fere a parte desportiva, mas a FIFA não quer. O que será possível ou não fazer, ninguém sabe ao certo. Agora, teria a sua piada ver alguma equipa europeia ou australiana, que também já se manifestou a este propósito, entrar com o hino Ali Ba Tun, por exemplo. O que a FIFA iria fazer? Vai expulsar essa seleção? Vai dizer que estão mal? Vamos ver.

E falaste tanto da Dinamarca, porque a Dinamarca expressa esse protesto ou essa desconfiança na própria camisola.

Na própria camisola alternativa, que é negra, em homenagem a todos os migrantes que têm morrido na construção dos estádios e também na falta da defesa dos direitos desses mesmos trabalhadores.

E por parte da seleção portuguesa, houve alguma manifestação de mal-estar?

Não diria mal-estar, diria que Fernando Santos é exemplo paradigmático de como abordar a questão Qatar sem ferir susceptibilidades. Ele é alguém religioso, ele tem as suas convicções. Agora, a atribuição do Qatar já foi há mais de 10 anos e nesta altura toda a gente está focada naquilo que existe em termos de competição. E a última vez que ele foi ao Qatar, estava tudo preparado, o estádio estava todo pronto, a relva estava toda como queria, os estádios eram todos fantásticos e espetaculares. Muito provavelmente, só depois de 18 de dezembro, quando for a final, é que vamos voltar a falar daquilo que se passa no Qatar.

Mas há quem pegue nisso para dizer, Bruno, que este é o Mundial da Vergonha. É mesmo?

Eu chamar-lhe-ia Mundial sem Vergonha, porque paga-se o que for preciso para ter o Mundial.

Obrigado, Bruno.

Obrigado.

Bruno Roseiro é editor de desporto e enviado especial do Observador ao Qatar. Vamos poder ouvi-lo na Rádio Observador, no Diário do Mundial e lê-lo no site. Aproveito também para lembrar que temos muitos conteúdos na rádio e no site relativos a este mundial, desde as histórias desconhecidas de Ronaldo, passando por "E o Mister Sou Eu", até aos relatos dos jogos em direto. Esta foi a história do dia. Os sons de Fernando Santos foram retirados do YouTube da Federação Portuguesa de Futebol. Os sons de Ronaldo são da entrevista a Piers Morgan, dos excertos revelados pelo jornal The Sun. E ouvimos ainda sons disponíveis no canal do YouTube da FIFA. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música e o genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.