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Esta é a história do dia: como está a ser organizada a resistência dos ucranianos. Nas ruas de Lviv, um grupo prepara uma rede de camuflado para ajudar a proteger o material militar. De toda a Ucrânia chegam relatos de uma grande mobilização popular para participar no esforço de guerra. Neste grupo de voluntários que prepara a camuflagem, há duas mulheres que se deixam filmar enquanto cantam o hino ucraniano. Há centenas de vídeos a circular nas redes sociais que mostram a resistência ucraniana ao invasor. Pessoas que se colocam à frente de carros de combate, outras que preparam armas e barricadas. De que é feita a resistência ucraniana? Hoje vou conversar com a jornalista Cátia Bruno, enviada especial d'O Observador à Ucrânia, sobre a forma como a população está a reagir à invasão. Por que não podemos tirar fotos?
Estamos aqui à porta da administração da região de Lviv, onde as pessoas estão a alistar-se. Não podemos tirar fotos porque é uma estrutura militar, mas podemos descrever um pouco o que estamos a ver. Estão a ser enchidos sacos com areia pelos militares pra fazer barricadas. Há vários pneus também cheios de areia e blocos de cimento. Tudo está a ser preparado para proteger a cidade de Lviv em caso de ataque. Há muitos homens civis aqui à entrada a tentarem registar-se para serem enviados aos locais dos principais combates, neste momento, sobretudo Kiev.
Bem-vinda, Cátia Bruno.
Olá, Ricardo.
Acabamos de ouvir a tua voz à chegada a um centro de recrutamento aí em Lviv, onde estás. É o único da cidade ou há outros centros?
Há outros, mas este é um dos principais, até porque entre os centros que existem, alguns servem para recrutar civis e outros servem para recrutar pessoas com experiência militar, e esses para pessoas com experiência militar são menos. Este é, pelo que percebemos, o maior e o que está a receber mais pessoas.
E quem é que estava aí para se alistar?
Muitos homens de diferentes idades. Havia desde um miúdo de 18 anos até homens com 60, mas sobretudo eu diria que homens entre os 40 e os 60 anos eram vários. Alguns estavam completamente sem nada, outros estavam até equipados. Vimos uma pessoa que trazia munições já consigo e devia estar já a pensar entrar com elas, sendo que na verdade provavelmente não será esse o caso. O próprio exército está a regular toda a situação e a tentar garantir que só entram homens que tenham, de facto, experiência militar comprovada e que sigam obviamente as regras da hierarquia militar.
E falaste com algumas dessas pessoas?
Sim, falei com um rapaz de 18 anos que não se quis identificar, porque como muita gente aqui em Lviv cita o receio de que a sua imagem ou que seus dados possam ser usados para fins de propaganda ou manipulação da parte da Rússia, por isso as pessoas têm muita cautela em partilhar informações pessoais. Mas aceitou conversar conosco e contou-nos que foi ali oferecer-se para se alistar, que queria ir pra linha da frente em Kiev, que tem lá amigos, que tem lá a ex-namorada, mas que lhe disseram: "Tu farias mais mal do que bem, porque não estás treinado". E recomendaram-lhe que fosse pra um dos centros de milícias civis, que são as unidades de defesa do território. Mas ele dizia: "Acho que pela idade que tenho não me vão chamar, não me vão dar prioridade, por isso talvez vá sozinho. Pegue meu carro, vou e vejo se alguém me dá um aro."
e há também pessoas mais velhas.
Diga seu nome. Alexei. Apelido. Lukeanenko. Lukeanenko.
Sim, como eu dizia, muitos homens com mais de 40 anos. Nós falamos com o Alexei, que tinha feito a recruiter há 20 anos e por isso é considerado apto para lutar com o exército. E o Alexei dizia que veio da Polónia, ele trabalha na Polónia, a família vive em Lviv, e fez o caminho contrário àquele que os refugiados estão a fazer precisamente para se vir alistar, porque dizia que esperava que a sua experiência militar pudesse servir para alguma coisa. Até dizia com alguma graça: "Espero não estar enferrujado, espero ressuscitar aquilo que aprendi e que ainda seja válido",porque não concebia outra resposta que não fosse a de se juntar às forças armadas.
Todas nós queremos a paz!
E o Alexei Lukeanenko até te contou que ainda tentou convencer a mulher a partir e ele a ficar, mas sem grande sucesso. Um meio disso tudo, Cátia, como é que reagem as famílias?
De diferentes maneiras. Para já, é preciso termos em conta que muitas das pessoas que estão a oferecer-se para se alistar são aquelas que decidiram ficar e portanto, muitas vezes as suas próprias famílias apoiam essas decisões porque pensam da mesma forma que eles, com uma lógica de é preciso ficar, é preciso lutar, é preciso defender a Ucrânia. Muitas das famílias que partiram já são aquelas que não têm particular vontade de ir para a linha da frente e, portanto, também não iriam oferecer-se. Mas claramente as autoridades ucranianas querem chamar pessoas com experiência militar, têm muito receio de criar uma defesa caótica com pessoas que não tenham todo o treino militar pra reagir a um exército como o russo.
Ou seja, segundo aquilo que estás a explicar, há uma parcela desses voluntários que vai pras forças armadas mas outra fica na chamada Defesa Civil, há uma Defesa Civil armada.
Sim, eles dão-lhe o nome de Unidade de Defesa do Território e que são pequenas unidades de civis que estão a receber um treino rápido por parte das Forças Armadas. Nós, por exemplo, ontem íamos a andar de carro e passámos precisamente por um grupo que estava a receber formação, estavam a ser obrigados a ficar em sentido à neve, estava a nevar muito fortemente nessa altura. Sabemos que isto está a acontecer por todo o território ucraniano, em muitas cidades, mas à medida que a situação se vai tornando mais complicada em cada cidade, as unidades civis são chamadas a recolher e são dispensadas quando a situação se agrava demasiado. Até lá, estão prontas para serem utilizadas conforme as autoridades acharem que podem ser úteis. Isso significa também que muitos dos jovens que se têm oferecido têm sido dispensados para já, e é lhes dito: "Façam outras coisas, precisamos de apoio na distribuição de comida, na distribuição de medicamentos, não têm de vir necessariamente já pro Exército."
E até os presos são chamados, Cátia?
Sim, os presos que têm precisamente formação militar, alguns foram libertados nos últimos dias para serem recrutados. Não são obviamente todos os presos, não são aqueles que cometeram todo tipo de crimes, mas há uma seleção de alguns que tenham tido melhor comportamento e que haja arrependimento, sobretudo. As autoridades frisaram a questão do arrependimento. Quando têm experiência militar, o governo ucranianiano considera que podem ser úteis e, portanto, está a libertá-los para que possam entrar nas Forças Armadas.
Cátia Bruno, quando ouvimos os vossos relatos e os relatos que chegam da Ucrânia ficamos um pouco com a ideia de que a mobilização é avassaladora, é gigante, que todos querem participar na resistência. Isso é mesmo assim ou estamos aqui também com uma visão um pouco romantizada daquilo que é realidade?
Estamos com a realidade dos que ficaram, e esse é o ponto. É claro que há muitos ucranianos que não têm vontade de participar numa grande resistência, que não estão envolvidos numa grande mobilização, mas a maior parte desses ucranianos ou já saíram do país, ou estão a tentar sair, ou estão em casa e não estão envolvidos nestes esforços, não se ofereceram pras defesas civis, por exemplo. E portanto, aqueles que encontramos e com quem falamos são precisamente aqueles que estão mais mobilizados, e é isso que cria essa ideia. É claro que dentro dos que estão mobilizados, de facto, há um grande sentimento de patriotismo e isso é evidente. É claro que não representam a sociedade toda, mas tudo isto também é algo que as próprias autoridades ucranianas querem destacar, com esperança de que isso possa influenciar outros que ainda não sentem esse apelo e que não têm vontade de ficar e lutar.
E quem é Igor Chertov?
O Igor é diretor de produção numa fábrica de cervejas, a Pravda, um nome muito engraçado que significa verdade.
Que era o nome do jornal oficial do Partido Comunista Soviético.
Exatamente. A Pravda é uma empresa que tem uma fábrica de cervejas artesanais e tem também dois locais onde funcionam como bar. É uma cervejaria que produz uma série de cervejas artesanais e já há muito tempo que tem uma certa posição política. Uma das cervejas que produz chama-se Putin Huilo. Huilo é uma palavra feia que eu não vou traduzir, e que o seu logotipo também tem um desenho não muito favorável a Vladimir Putin. Portanto, estes donos de cervejeira e estes funcionários como o Igor, assim que a invasão começou, decidiram que queriam colaborar de alguma maneira nesta espécie de resistência. Aquela conclusão a que chegaram muito rapidamente foi que tendo em conta aquilo que sabem fazer, tinham garrafas, sabiam como pôr líquidos em garrafas e portanto, em vez de produzir cerveja, podiam produzir coquetéis Molotov. Foi precisamente isso que passaram a fazer ao começarem a engarrafar combustível usado e a colocar tiras de pano no gargalo para que depois possam ser incendiados e usados como arma por civis, por exemplo, das defesas do território.
E os empregados também participam
Sim, participam todos. Por exemplo, falámos com o Nazar, que é um dos funcionários da Pravda, que estava há dias basicamente só parava para dormir ou para se abrigar das sirenes a fazer uma coisa tão simples como receber as tiras de pano, receber as garrafas já com combustível usado e colocar o pano, dar um nó, passar ao seguinte. É uma linha de montagem improvisada totalmente manual e o Nassar era uma das pessoas que lá estava e que dizia que achava uma excelente ideia porque estava a fazer uma arma que ele próprio como civil poderia vir a usar se precisasse.
Mas há também quem participe dando apoio humanitário.
Yes we're waiting for reliable model because it's- But what is it? Is like protective suit? It's- For stopping blood. System for stopping blood.
Sim, essa tem sido uma das coisas que é mais visível em Lviv. Já há toda uma organização montada com centros de logística que fazem listas com aquilo que é mais necessário tanto para enviar para o exército como para acolher os refugiados que estão a chegar à cidade de Lviv. Portanto, há pessoas que passam o dia a ir do centro para farmácias, a ir do centro para lojas, a ir do centro para restaurantes para comprar o que é mais preciso naquele momento. E isso pode ser coisas tão simples como medicamentos básicos até coisas mais complicadas como um torniquete de plástico que possa ser replicado através de uma impressora 3D.
Os estudantes também calculo estejam a fazer uma parte desse trabalho.
Sim, até porque muitos deles nós falamos com alguns que diziam que gostavam de se alistar no Exército ou nas forças de Defesa Civil e que lhes tinha sido dito tendo em conta a idade deles: "procurem outra forma de apoio". E portanto eles estão muito investidos em fazer esse apoio ao nível do voluntariado e então estão completamente dedicados a esta ideia de acolher refugiados, de ver o que é preciso tentar perceber o que faz mais falta, de entregar o que for preciso a algum lado. Estão sempre com discurso muito politizado no sentido de nem nos passa pela cabeça sair do país e nem nos passa pela cabeça estar em casa sem fazer nada quando podemos estar a fazer isto.
As well as no one is able to understand the extreme upheaval that people feel and the extreme need to help and will motivation to help I don't know if you see there are millions of-
Essa vontade devir agir e de criar meios de defesa é também uma forma Cátia Bruno de reagir à incerteza da guerra, isso ajuda as pessoas a vencer o medo?
Parece-me que sim. Até aqui em Lviv ao longo destes dias nota-se uma diferença desde os primeiros dias em que chegamos, nós chegamos no primeiro dia à noite desde o início da invasão. Nota-se que a cidade ao contrário do que se calhar do que se poderia esperar até está a voltar mais à vida do que estava ao início. Quando chegámos havia muitas pessoas que tinham saído, muitas pessoas que estavam fechadas em casa e agora à medida que esta organização se vai criando, que há estas estruturas montadas más gente se envolve, há mais restaurantes e bares a porem coisas à porta a dizerem que servem gratuitamente refugiados por exemplo, colocarem bandeiras da Ucrânia na porta. Quase como uma reação coletiva que faz com que as pessoas se sintam mais unidas e menos sozinhas. Parece-me que é uma forma de lidar precisamente com esse medo de que falavas, até porque toda a gente não exclui a possibilidade de Lviv também vir a ser atacado e portanto há uma sensação de temos que começar a preparar já, temos que reagir já pra não sermos apanhados desprevenidos.
E essas pessoas Kátia não têm medo de morrer ou de ficar gravemente feridos ou ver aqueles de quem mais gostam também perecer?
Sem dúvida que têm mas aquilo que todos dizem é que neste momento não é nisso que querem focar fala-se muito em foco é uma palavra que é muito replicada. Há uma lógica de que a situação em que a Ucrânia está é tão decisiva, ou seja, há uma noção de que o país pode deixar de existir se não houver uma reação que faz com que as pessoas digam Isto é maior do que o meu medo e portanto eu vou reagir. Há também uma noção de que este é um desafio imediato mas que é um desafio que pode ainda durar muitos anos. As pessoas invocam muita questão da geografia, a Rússia continua aqui ao lado, os problemas do passado continuam por resolver Vladimir Putin também como líder não tem ar de quem vá sair amanhã do poder. Portanto há uma sensação de urgência de que isto tem que ser travado agora e que não pode continuar arrastar-se e portanto como dizia Alexei o homem com quem falávamos no Centro de Alistamento que foi inscrever para ser enviado para frente batalha Ele dizia que tempos duros pela frente e que portando ele considerava que era preciso pegar no medo que sentia ele dizia claramente Sim tenho medo Mas que era preciso transformá lo que era preciso lhe propósito dar mobilização em vez de ficar simplesmente em casa dominado pelo Pânico que não ia desaparecer Mais valia estar a fazer alguma coisa.
Obrigado Cátia!
Obrigada Ricardo!.
Os sons que ouvimos neste episódio foram recolhidos pela Cátia Bruno e pelo João Porfírio os enviados especiais do Observador à Ucrânia. Foram recolhidos em Lviv a grande cidade no oeste do país onde milhares tentam transporte para fronteira polaca que fica ali acerca noventa quilômetros. No episódio anterior A História Do Dia Ouvimos relato do João Porfírio sobre desespero que vive na estação comboios em Lviv Na rádio e site continuamos acompanhar minuto notícias que chegam da Guerra .A música genérico sonoplastia são João Ribeiro Eu sou Ricardo Conceição Até Amanhã!