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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Os Estados Unidos estão preocupados com o TikTok e as outras redes?
"Mr. Chew, you are here because the American people need the truth about the threat TikTok poses to our national and personal security."
Cathy McMorris Rodgers está a explicar as preocupações norte-americanas em relação ao TikTok. A republicana é presidente da Comissão de Energia e Comércio do Congresso dos Estados Unidos. À frente da congressista, está sentado Shou Zi Chew. O CEO do TikTok esteve a ser ouvido durante mais de cinco horas e a tentar convencer o Congresso norte-americano de que a rede social não representa um perigo. O TikTok está no centro das preocupações norte-americanas e europeias, não só por questões de privacidade dos dados, mas também devido à influência que esta rede pode ter junto dos mais jovens. Esta não é a única aplicação chinesa a fazer sucesso em todo o mundo, nem a única aplicação que consegue espreitar as nossas vidas. Não devemos estar também preocupados com as outras redes? Vou conversar com a jornalista do Observador, Inês Capucho, especialista em tecnologia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Inês.
Obrigada, Ricardo.
Quantos países e organizações já proibiram a utilização do TikTok em computadores ou telemóveis daqueles oficiais, aqueles que pertencem às empresas, às organizações?
É difícil saber ao certo. A lista continua a aumentar dia a dia. Há um país que, por acaso, já proibiu mesmo totalmente o TikTok, e não só nos dispositivos oficiais, que é a Índia, em 2020, apesar de não ser muito falado, por acaso. Nos telemóveis e computadores oficiais, temos, prepara-te: Austrália, Canadá, Dinamarca, Reino Unido, Países Baixos, França, Estados Unidos, Nova Zelândia. E em termos de organizações, a NATO, Comissão Europeia e o Parlamento Europeu.
E Portugal?
Portugal ainda não tomou nenhuma posição, disse apenas para termos alguns cuidados com as redes sociais e os dados que lhes damos, mas não tomou nenhuma posição oficial quanto ao TikTok.
Mas na Índia é proibido o TikTok, é isso?
Sim, totalmente proibido. Se estivéssemos na Índia, não poderíamos estar a utilizar o TikTok.
Oh, no! I'm devastated.
Inês, qual é o grande receio em relação ao TikTok?
Para os Estados Unidos, o grande receio é que o TikTok, que é de uma empresa chinesa chamada ByteDance, seja utilizado como uma ferramenta de espionagem ao serviço de Pequim, quase que ajude a propagar conteúdos pró-China no Ocidente. Por acaso, os Estados Unidos são o país mais vocal sobre as suas preocupações, enquanto os restantes, ou até mesmo a NATO e a Comissão Europeia, falam só sobre preocupações, ameaças à segurança, à cibersegurança, privacidade, mas não dão grandes justificações. Depois, há ainda outra componente, que é a proteção dos menores de 13 anos, que alegadamente não podem estar na aplicação, mas existe algum receio quanto a essa regulação e que menores de 13 anos possam ser expostos a conteúdos que não são próprios e que exploram vulnerabilidades, como é o caso de distúrbios alimentares. Não é o grande foco dos Estados Unidos, mas cá em Portugal é o foco de dois processos que foram interpostos contra o TikTok.
É?
Sim, a organização sem fins lucrativos ius omnibus interpôs na semana passada dois processos contra o TikTok por preocupações com a privacidade dos menores.
Falaste aí de uma empresa, a ByteDance. Que empresa é esta?
A ByteDance é a dona do TikTok. É uma empresa chinesa que detém plataformas tecnológicas. Há quem a chame da startup mais valiosa do mundo. O TikTok é o maior sucesso, mas não é a única aplicação que a ByteDance tem. Existe ainda a Lemon8, que é uma rede social, e o CapCut, que é uma plataforma de edição de vídeos.
E essas aplicações já estão disponíveis nos Estados Unidos e na Europa, ou não?
O TikTok, sim, acho que está disponível.
E, por exemplo, o CapCut?
O CapCut também. Aliás, cá em Portugal, se formos à Play Store da Google, conseguimos rapidamente fazer download. O Lemon8 é mais complicado. Basicamente está disponível nos Estados Unidos, mas na Europa ainda não. Temos que recorrer a uma VPN se quisermos mesmo fazer o download.
Inês, essas aplicações de que estás a falar fazem o quê? Por exemplo, Lemon8, e é lemon, de limão, em inglês, eight, oito. E vamos chegar àquela parte em que sim, Inês, explicas aqui ao velhadas o que é a Lemon8, que rede social, o que é isso.
Esta rede social está a ser descrita como uma mistura do Instagram e do Pinterest, ou seja, o foco são as imagens.
O Pinterest é aquela rede social onde vemos os cortinados, não é?
Sim, e as unhas, e os sapatos. O foco são mesmo as imagens. Aliás, tem dois feeds distintos, um para aquele das pessoas que tu segues, ver os conteúdos de pessoas que segues, e o outro para ver os conteúdos que te são recomendados. Normalmente, é sempre fotografias e depois têm legendas. Só que as legendas não são como no Instagram, em que escrevemos uma frase e já está. São legendas mesmo muito grandes, que têm que ter, no mínimo, 100 palavras e podem ter, no máximo, 300 palavras.
E aparecem na imagem, na fotografia, é isso?
Não, é como no Instagram, aparecem embaixo, só que temos que perder algum tempo a ler o que está a ser escrito. Aliás, alguns criadores de conteúdo já disseram que não sabem se vale a pena fazer publicações nesta rede social, mesmo por isso, porque têm que dedicar muito tempo às legendas. E depois também pro consumidor, não sei se faz muito sentido. Eu não quero estar a ver uma fotografia de uns tênis e uma descrição gigante sobre aqueles tênis.
Exato, nós queremos ver os bonecos, não é?
Exato. Neste momento a Lemon8, por acaso descarreguei-a e posso dizer que há poucos criadores de conteúdos lá e as publicações não só não têm muitos gostos como também não têm muitos comentários. Ainda está em fase inicial.
É uma espécie de tentativa de substituto do Instagram?
Há quem diga que é quase que um plano de reserva, caso o TikTok seja bloqueado nos Estados Unidos, para que esses utilizadores migrem para a Lemon8. Se será mesmo assim ou não, não é possível saber, até porque na Lemon8 nem sequer há vídeos, que são o foco do TikTok. O TikTok são vídeos e na Lemon8 não há. A CapCut já é diferente, é uma plataforma para editar vídeos. Podemos colocar sons, filtros, efeitos visuais, podemos mudar a nossa cor de cabelo, podemos pôr lasers nos olhos.
Eu já experimentei.
Já? E utilizaste o template do Pedro Pascal, ou não?
Não, só aquele de mudar a cor do cabelo.
Acho bem.
E o rosa não me fica bem.
Mas sim, o CapCut permite também criar templates. O Pedro Pascal a comer um sanduíche de manteiga de amendoim e geleia é um dos mais populares. Já foi utilizado no TikTok mais de 2 milhões de vezes.
Esse é o ator do "Last of Us", não é?
Exatamente. E aparece no TikTok a comer o seu sanduíche, sempre com fundos diferentes. Ora está na biblioteca, ora está no escritório.
E não diz nada?
Não, está só a comer o sanduíche.
E as pessoas ficam a ver.
Ficam a ver, exatamente.
Isso realmente é muito estranho.
Às vezes tem lá frases como, por exemplo: "São 9h30 da manhã e já estou a comer o lanche".
"São 9h30 da manhã e já estou a comer o lanche". Ok.
Podíamos adotar.
Sim, vale mesmo a pena pegar no telemóvel só para ver isso, não é? Já voltamos à conversa com a Inês Capucho, jornalista especialista em tecnologia do Observador. Vamos tentar perceber a estratégia desta empresa, ByteDance, para tentar contornar as regras norte-americanas. Esta terça-feira sai o último episódio do "Sargento na Cela 7", uma série em podcast que nos conta uma história de amor, uma história de guerra e a história de uma operação secreta, a Mar Verde. No derradeiro episódio, vamos ficar a perceber como António Lobato conseguiu regressar à liberdade depois de sete anos e meio em cativeiro como prisioneiro de guerra. O "Sargento na Cela 7" pode ser ouvido no site do Observador e nas habituais plataformas de podcast. Tem narração do ator PP Rapazot e a música original é do Noiserv. Se ainda não ouviu, agora vai conseguir ouvir todos os episódios seguidos. "Binge listening", como se diz em inglês. Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Inês Capucho. Inês, há várias aplicações chinesas e sites chineses que têm grande sucesso e que estão disponíveis no mundo inteiro. Estou a lembrar-me, por exemplo, da Shein.
Sim, a Shein tem muito sucesso no mundo inteiro e até nos Estados Unidos. No mês de março, era uma das plataformas com mais downloads no país. Nota-se perfeitamente que tem sucesso. Só que como é uma aplicação quase de comércio online e não uma rede social, não tem um algoritmo que é capaz de influenciar aquilo que nós pensamos de acordo com as notícias ou os vídeos que nos são mostrados.
Mas é capaz de me mostrar uma chave de fendas que eu precisava mesmo de comprar e não me lembrava, ou não?
Isso é verdade, sim, mas não influencia a forma como pensas num determinado tema, que é a principal preocupação relativamente ao TikTok, é que possa influenciar a forma como vemos a China.
Sobretudo os mais novos, os miúdos, não é?
Claro, sobretudo os mais novos. As aplicações da ByteDance, a Lemon8 e a CapCut que já falámos, essas sim, é provável que não escapem ao radar dos norte-americanos, até porque recolhem muitos dados, principalmente o CapCut. Pode ao início parecer só uma ferramenta de edição de vídeo, mas quando vamos à política de privacidade, percebemos que até o nível de bateria dos nossos dispositivos ele está a recolher.
As letrinhas pequenas do aceitar tudo.
Exato.
Isto porque fazes upload do vídeo que acabaste de gravar com todas as informações, hora, data, local onde fizeste esse vídeo, se és homem, se és mulher, que idade é que tens, todas essas informações, no fundo, fazes upload dessas informações todas quando vais trabalhar o vídeo, é isso?
Sim, e depois o vídeo que é gerado pela edição que fizemos, temos que o exportar para pôr no TikTok, para pôr no WhatsApp, para partilhar com amigos. Esse vídeo eles também recolhem os dados. Está escrito na política de privacidade do CapCut.
"I left you alone for five minutes and you spent $873?" "You left me alone in a Costco."
Estas aplicações têm fins diferentes e recolhem também dados diferentes. Isso também leva a que as autoridades norte-americanas e europeias tenham preocupações diferentes com estas aplicações e com estes sites?
Exato. As autoridades norte-americanas são as que têm expressado mais preocupação. Aliás, o CEO do TikTok, em março, esteve cinco horas a responder às dúvidas dos congressistas.
"Our app is a place where people can be creative and curious, and where close to 5 million American businesses, mostly small businesses, go to find new customers and to fuel their growth."
Ainda assim, a Shein e outra que é rival da Shein, que se chama Temu, que também é uma empresa chinesa, nota-se que têm algumas preocupações relativamente ao escrutínio que o TikTok tem sido alvo. Por exemplo, a Shein mudou a sua empresa mãe De uma firma registada em Hong Kong para uma entidade instalada em Cingapura. Não explicou porque é que o fez, mas pode ter sido para evitar aqui problemas. Por acaso, a própria ByteDance, na App Store e na Google Play Store, não é identificada como sendo a dona do CapCut. Ou seja, nessas aplicações, aparece que o CapCut é detido por uma empresa chamada Eliophilia, que tem sede em Cingapura. Contudo, quando vamos ver o endereço da sede dessa empresa, é exatamente o mesmo da sede do TikTok. Ou seja, é da ByteDance também, embora esteja meio que a ser escondido, quase que a ByteDance a afastar-se do CapCut.
E a sede da ByteDance está na China?
Sim, a sede da ByteDance está na China, mas o TikTok, e foi uma das coisas que o CEO utilizou para se defender no Congresso, tem sede em Los Angeles e em Cingapura.
E também não tem quaisquer data centers na China, ou seja, os dados dos utilizadores não são armazenados na China. É por isso que muitas vezes se diz que a empresa que detém o TikTok é chinesa, mas o TikTok não é chinês. E isso pode ser relevante na estratégia dessas empresas para tentar contornar os receios?
Sim, porque ao dizerem que não têm dados na China e que os dados dos utilizadores norte-americanos são guardados nos Estados Unidos e não são partilhados com ninguém fora dos Estados Unidos, a preocupação norte-americana fica resolvida.
Até porque há regras diferentes nos Estados Unidos do que na China, presumo.
Sim, principalmente no que toca à privacidade de menores. Os Estados Unidos obrigam a que o TikTok tenha uma versão da aplicação para menores de 13 anos, que não existe nem na China, nem, por exemplo, em Cingapura, onde vive o CEO, e que foi questionado: o seu filho tem TikTok? E ele teve que responder: "Não, porque o meu filho tem oito anos e então não tem a versão para menores de 13, não pode utilizar".
E quem é essa figura, esse CEO do TikTok, Shou Zi Chew? Não sei se a pronúncia é a mais correta.
Também não sei, por isso é que até agora não arrisquei dizer o nome, mas é o homem que defende o TikTok nos Estados Unidos. Acho que esta é a descrição mais fácil. É o CEO do TikTok. Passou cinco horas no Congresso, explicou que o seu filho não tem TikTok, que a China nunca pediu quaisquer dados ao TikTok e que mesmo que se tivesse pedido, não seriam dados. E era uma pessoa bastante discreta, até em termos de redes sociais ou entrevistas, até esse momento. No dia em que foi ao Congresso, 23 de março, tinha cerca de 30 mil seguidores no TikTok. Se hoje virmos, já tem mais de 3,5 milhões. Portanto, está completamente viral. Até existiam comentários a dizer, e vou falar novamente de Pedro Pascal: "Vamos dar ao CEO do TikTok um tratamento Pedro Pascal".
Mas Inês Capucho, nós estamos aqui a falar de dados, de segurança de dados, de manipulação de informação, desse risco, porque esse risco existe, e ao manipular a informação, manipulamos a audiência, neste caso, os mais jovens. O TikTok é assim tão diferente do Instagram ou do Facebook no que toca à segurança e à segurança dos dados?
A grande questão é que o TikTok é de uma empresa chinesa e o Facebook e o Instagram não são. Por isso é que o escrutínio é muito maior. Mas claro que o Facebook e o Instagram também recolhem dados do utilizador. É por isso que os algoritmos das nossas redes sociais nos mostram coisas que nós queremos ver.
E já todos passámos por aquela experiência, que é dizer, e nós por acaso temos os telemóveis aqui ao nosso lado, dizer "persianas" e agora, se calhar, nos feeds das redes sociais, vão aparecer n anúncios sobre persianas.
Exatamente, ou dizer que precisamos de um vestido para um evento e do nada é vestidos por todo lado.
E perante todos estes receios, Inês Capucho, quase que se impõe a pergunta: devemos ou não devemos ter redes sociais?
Devemos ter cuidado ao utilizar as redes sociais. Sabemos que as redes sociais vão ter informações nossas, muitas vezes que nós damos, porque criamos uma conta com o nosso e-mail e uma password.
E aceitamos sempre tudo para despachar, não é?
Exatamente, e aceitamos sempre tudo. Portanto, aí já estamos a dar-lhes dados, até mesmo para depois conseguirem fazer um algoritmo próprio para nós e para nos recomendarem determinadas publicações. Agora, temos que ter algum cuidado no que vemos e se calhar se virmos um vídeo que está a propagar o ódio ou os distúrbios alimentares de que falámos há bocadinho, denunciar esse vídeo para que outras pessoas, nomeadamente menores, não o vejam, porque obviamente o TikTok e as outras redes sociais têm moderação de conteúdos, mas às vezes essa moderação também falha e é preciso estarmos todos atentos a isso.
Obrigado, Inês.
Obrigada.
Inês Capucho é jornalista do Observador e é especialista em tecnologia. E já que falamos de aplicações, quem nos ouve na aplicação do Spotify, e atenção que só funciona na aplicação do Spotify, pode responder a uma pergunta sobre este episódio. É quase um caso de sim ou não. Depois de responder, terá acesso à estatística dos resultados. E se gostou deste episódio, por que não partilhá-lo? E pode ainda classificar a História do Dia na plataforma que usa habitualmente para ouvir podcasts, como por exemplo o Spotify ou a Apple Podcast. Para nós, isto é mesmo muito importante. Esta foi a História do Dia, que contou com a colaboração da jornalista Maria Miguel Duarte. Os sons que ouvimos da audição no Congresso são da televisão norte-americana C-SPAN e os outros foram retirados do TikTok. A sonoplastia é do Bernardo Almeida e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.