Dezenas de manifestantes protestaram em frente à sede da Meta em São Paulo para exigir que a multinacional tecnológica pare de interferir nas presidenciais brasileiras e de favorecer Flávio Bolsonaro na campanha eleitoral.
“Meta, não se meta” era a palavra de ordem entoada pelos manifestantes na segunda-feira, à frente do edifício que alberga o escritório da empresa dona do Whatsapp, Instagram e Facebook, no famoso centro financeiro da capital paulista, Faria Lima, onde bandeiras e cartazes criativos erguidos no meio da concentração davam o tom ao protesto.
Enquanto seguravam faixas e cartazes com fotografias do dono da Meta, Mark Zuckerberg, e do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os participantes entoaram: “soberania digital, fora Meta do processo eleitoral”, numa referência à alegada eliminação de conteúdos ou a redução do seu alcance no conteúdo a favor do atual Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
“O que a gente está exigindo da Meta é que, além de muito mais transparência, explicações mais detalhadas para além das explicações genéricas de problemas técnicos que a empresa tem oferecido, que haja ações de reparação para o que aconteceu durante esse período eleitoral”, disse à Lusa Daniela da Silva, diretora-executiva da CTRL+Z e uma das organizadoras da manifestação.
A responsável da organização brasileira que articula pessoas e instituições para defender os direitos digitais e responsabilizar as grandes empresas de tecnologia denunciou ainda a interferência da multinacional norte-americana como “uma realidade nessas eleições”.
Daniela da Silva frisou também que as denúncias vão além da perceção pública de problemas nas plataformas e apontou mais de 1.100 casos documentados de remoção de conteúdos, restrições de contas e redução do alcance.
Uma empresa do tamanho da Meta tem que ter a responsabilidade mínima de garantir equidade e isonomia nas eleições brasileiras e eles não estão fazendo isso, de forma que a gente pode considerar esse contexto de interferência uma realidade, sim”, afirmou à Lusa.
Uma das várias pessoas que usaram do megafone foi o deputado federal Paulo Teixeira, que foi taxativo: “a Meta está manipulando as eleições no Brasil e está a serviço de Trump”.
As organizações disseram que entregariam uma notificação extrajudicial ao diretor-geral da Meta no Brasil, Conrado Leister, para que a empresa publique no Instagram um aviso sobre as falhas que terão afetado a distribuição de conteúdos durante a campanha e se desculpe.
Exigiram ainda a reposição de contas e publicações removidas por manifestação política legítima e a criação de um canal de recurso com revisão humana.
A campanha do Presidente Lula da Silva voltou a recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral, acusando a Meta de manter práticas que alegadamente beneficiam o candidato rival Flávio Bolsonaro.
Entre os exemplos apresentados estão imagens geradas pela inteligência artificial da empresa que incluiriam o número eleitoral de Flávio Bolsonaro, o 22, sem que os utilizadores o tivessem solicitado, e traduções automáticas que alegadamente converteriam críticas ao senador em mensagens de apoio.
A coligação afirma ainda que a mesma ferramenta recusou criar uma imagem com o número de Lula, o 13, invocando restrições à produção de propaganda eleitoral, e pediu sanções contra a empresa por alegado incumprimento das determinações da justiça eleitoral.
O Tribunal Superior Eleitoral deu à Meta 24 horas para comprovar que assegura tratamento igualitário às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro nas suas plataformas, depois da empresa não ter respondido a uma primeira solicitação do tribunal.
Na primeira volta, realizada em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula da Silva, uma vantagem de 2.224.965 votos, sendo que, desde a introdução do sistema de duas voltas nas presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu vencer a eleição.