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Esta é a história do dia da Rádio Observador. As férias de verão no Algarve ainda são o que eram?

O que estamos a verificar, informação já de hoje, é que os hotéis estão a receber muitas reservas, vamos ao balcão e os check-ins estão a aumentar o número de pessoas. Portanto, temos hoje condições para dizer, estamos em cima da Páscoa, que esta vai ser uma muito boa Páscoa para o Algarve.

Estas declarações de Hélder Martins, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, foram feitas à Rádio Observador pouco antes da Páscoa. Havia, na altura, alguma preocupação com os efeitos da subida do preço dos combustíveis no turismo, por causa da guerra entre os Estados Unidos e o Irão e o encerramento do estreito de Ormuz. Já em pleno verão, nota-se uma quebra ligeira de turistas portugueses, que, no entanto, continuam a ser maioritários. Mas os hoteleiros não estão preocupados e até veem nisso algumas vantagens. Vou conversar com Ana Sanlés, a editora adjunta de Economia do Observador, sobre o que está a mudar no verão algarvio em termos de turismo. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de quinta-feira, 13 de agosto. Bem-vinda, Ana.

Olá, Luís.

Ana, estamos já aqui bem perto do meio de agosto, a tradicional mudança de quinzena que falamos sempre. Um mês em que é habitual muitos portugueses se deslocarem para o Algarve, para as férias. Ainda não conseguimos fazer exatamente um balanço deste período de férias, mas é possível perceber que este está a ser um verão um bocadinho diferente no Algarve em relação a outros anos?

Sim, parece que sim. Como dizias, esta é a altura da mudança da quinzena, portanto, é possível que este fim de semana o trânsito na A2 se intensifique um bocadinho. Mas é possível perceber que este está a ser um verão, de facto, um bocadinho diferente. Em conversa com as associações de turismo do Algarve e com os profissionais do turismo do Algarve, o que é que se está a passar? Há menos portugueses. Não é que não queiram ir, não é que estejam de costas voltadas para o Algarve, mas nota-se realmente uma quebra das reservas dos portugueses, tanto na hotelaria tradicional como no alojamento local. E depois há outras tendências que não são só deste ano, que a hotelaria já tem vindo a verificar, que é, ainda relativamente aos portugueses, estão a ficar menos tempo do que ficavam, por exemplo, falavas da quinzena. Se calhar já não há assim tantos portugueses a ficar durante uma quinzena no Algarve. Já ficam uma semana, alguns ficam até menos dias, dividem, vão uns dias em julho, uns dias em agosto.

Já não é aquela coisa tradicional do ir de 1 a 15 e depois de 15 a 30.

Exatamente. E nisso a hotelaria sentiu muito e este ano está muito vincada essa tendência. E depois há uma que parece ter vindo talvez para ficar, que é cada vez mais difícil prever se o verão vai correr muito bem no Algarve, porque estão a aumentar muito as reservas de última hora. Ou seja, se tu perguntas aos hoteleiros, em maio ou em junho: "Então, como é que estão as expectativas para este ano?" Eles, se calhar, atiram as mãos à cabeça e dizem: "Isto não está fácil". Mas depois chegam ao final de agosto ou a setembro e dizem: "Olha, afinal até correu bastante bem". Por quê? Porque nos dizem que há pessoas a reservar quase de véspera, na semana anterior, mesmo àquela tal última hora.

O que não era tão habitual há uns tempos. Preparava-se muito antecipadamente, não é?

Exatamente. E torna mais difícil fazer previsões e ter expectativas, mas fazendo as contas, no fim, acaba por não ser uma desgraça, um drama. O turismo no Algarve está a correr bem, está a mudar.

E precisamente falavas disso, as associações do setor, não só no Algarve, mas também a nível nacional, até nem se queixam muito dessa mudança de perspectiva, de não saber muito bem como é que vai ser e depois perceberem que, se calhar, no final, as coisas até correram melhor do que estava previsto. Por que não há propriamente queixas e não há nenhum sinal de dramatismo relativamente a esta mudança de hábitos, se quisermos?

Sim, são várias razões. A nível nacional, e se olharmos para os números, ressalvo que, como dizias, ainda não dá para fazer um grande balanço, porque os números oficiais mais recentes que temos são de junho, são do INE. A nível nacional mostram uma subida ligeira. No Algarve, houve uma quebra tanto nas dormidas como nos hóspedes. Mas depois vais falar com os profissionais do setor e toda gente diz que não há nenhuma razão para drama, porque vais ao Algarve e as praias estão cheias, os restaurantes estão cheios, os bares estão cheios. Não há talvez uma enchente tão grande como costumava haver, mas os hotéis nem se queixam, porque até dizem que conseguem prestar um melhor serviço aos turistas que vão.

Que lá estão.

Pronto, e não têm as pessoas a queixar-se que não têm espaço para pôr a toalha, como muitas vezes acontecia. E depois, o que também está a acontecer? E tu vês isso pelos números oficiais. Há menos hóspedes, certo, e há menos dormidas, mas os hotéis estão com melhor rendimento. Ou seja, estão a vender os quartos por um preço mais elevado e por isso é que também não veem um grande problema. E o Algarve quis adaptar-se, quis abrir-se mais a isso, não ter tantos turistas, mas ter melhores turistas, como nos dizem as associações.

E até um grande contraponto com Espanha, por exemplo, não é?

Exato, e quando se fala em melhores turistas, é turistas que gastem mais e que vão para os sítios mais caros. É um contraponto com Espanha e eu acho que não é assim tão raro. Por exemplo, não sei se aconteceu isso contigo. Eu vi muita gente nas minhas redes sociais a dizer: "O Algarve está caríssimo. Se eu for para o lado, para Espanha, pago muito menos pelo mesmo número de dias, por um hotel mais ou menos semelhante." Porque o sul de Espanha tem um tipo de oferta que nós temos, mas temos muito menos, que é o tudo incluído. A pulseirinha.

Exato.

E o Algarve tem alguma oferta dessa, mas não tem uma oferta assim tão massificada do tudo incluído como Espanha tem, e realmente a preços muito mais baixos. Só que o Algarve não quer isso. O Algarve quer especializar-se, quer receber os turistas que gastem mais e que vão mais para os hotéis mais caros. E se tu fores a ver, essas unidades hoteleiras de cinco estrelas, mais exclusivas, de luxo, não se queixam e estão cheias de turistas que, por exemplo, há uns anos não recebiam, nomeadamente norte-americanos. Isso foi um dado que nos foi dado, em que nos disseram que alguns destes hotéis de gama mais alta, de luxo, o principal cliente é o norte-americano, que realmente é um tipo de turista que gasta bastante dinheiro e é nisso que o Algarve tem apostado e quer continuar a apostar.

O certo, Ana, é que há alguns fatores que têm contribuído para essa espécie de mudança de comportamentos nos turistas, tanto nos portugueses como também nos estrangeiros, não é?

Sim, e é interessante porque este ano tivemos um fator adicional nestas contas e nestas previsões que fazemos, que é a guerra a Oriente. E no início, quando se fizeram as primeiras previsões, os hoteleiros ainda pensaram, não que a guerra seja uma vantagem para alguém, mas que poderia haver uma viragem de alguns turistas, um desvio de alguns turistas que fossem para aquele lado do mundo, zonas mais como, por exemplo, o Egito, a Tunísia, à procura dos resorts e que possivelmente se pudessem virar para o Algarve como alternativa, se quisessem um tal destino de praia. Se isso fosse uma vantagem, nunca seria uma vantagem a muito longo prazo, porque o que a hotelaria dizia na altura era: mesmo que isto aconteça, a guerra a longo prazo ou a médio prazo nunca vai ser boa para nós, porque as pessoas vão ficar com menos dinheiro e com menos vontade de viajar. E depois foi o que vimos que acabou por acontecer. Há uns meses, tínhamos a questão do combustível para a aviação, que levou muita gente, mesmo que não tenham cancelado, a se calhar, não comprar.

Ou a pensar duas vezes.

A pensar duas vezes antes de reservar. Isto em relação aos turistas estrangeiros. Os turistas portugueses, poder de compra e os combustíveis.

Para o Algarve é preciso ir de carro, à partida.

Pois, à partida. E o aumento do preço dos combustíveis foi um fator que pesou muito este ano na decisão das férias das pessoas, e é um dos fatores que está a ter um grande impacto este ano. E depois também, como falávamos há pouco das reservas de última hora, tem-se notado muita gente à espera que os hotéis façam uns saldos, umas ofertas para que possam aproveitar.

Uns preços mais em conta.

Uns preços mais baixos, porque não tendo as tais reservas concluídas até à data, possam adaptar-se. E tem acontecido muito isso.

Ana, e os portugueses ainda olham para o Algarve como o principal destino de férias ou vão procurando já algumas alternativas mesmo dentro do nosso país?

As duas coisas são verdade. O principal mercado emissor de turistas para o Algarve continua a ser Portugal. E se fores ao Algarve, a maior parte dos turistas são portugueses. Mas já se nota muito, e isso nota-se tanto na hotelaria tradicional como no alojamento local, que as pessoas estão a procurar opções cá dentro. A costa alentejana tem subido muito e mesmo outras localidades no interior do país, um turismo mais rural, tem havido um grande aumento da procura. Mas o Algarve continua a ser o destino preferencial. O Algarve até vê isto, não como uma vantagem, mas algo que o Algarve tem procurado muito é combater a sazonalidade.

Sim. É sempre aquele problema que se fala de forma recorrente em relação ao Algarve.

Exato. Que há ali aqueles dois, três meses de muita procura, em que se trabalha bem, que o negócio é rentável, mas depois durante o resto do ano. E o Algarve tem tentado combater isto com eventos culturais, eventos desportivos, com o golfe, por exemplo, e tem conseguido diminuir alguma sazonalidade. Não total.

Não totalmente, claro.

E isso também se nota nesta busca dos portugueses por destinos alternativos no verão, porque também no resto do ano o Algarve acaba por ser mais barato. Se fores em maio ou em outubro, vais pagar menos e se calhar em agosto vais para a costa alentejana, que também tens praias muito bonitas e se calhar o alojamento mais barato do que no Algarve.

E ainda por cima parece que este ano a água no Algarve está um bocadinho mais fresquinha do que é habitual, também é um fator que não ajuda.

Eu por acaso já lá estive e estava média.

Média. Mas é também um fator este ano que se calhar leva as pessoas a pensar duas vezes. Ana, obrigado.

Muito obrigada, Luís.

Ana Sanles, a editora adjunta de Economia do Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Rafael Pego. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. A História do Dia regressa amanhã.