Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. E se todas as sextas-feiras fossem dia de folga?
Hoje para nós é um dia histórico. A verdade é que foi uma jornada superemocionante e obviamente estamos muito contentes com o resultado.
Coral Alcaraz é catalã e é diretora de Recursos Humanos da Desigual, a marca de roupa criada em Barcelona. Aqui, em declarações à TV3 da Catalunha, dá conta dos resultados de um referendo feito na empresa. A 7 de outubro do ano passado, 86% dos trabalhadores da Desigual votaram a favor da semana de quatro dias, três dias no escritório, um em casa. A carga horária passou de 39 horas e meia para 34 por semana, um corte salarial de 13%. No entanto, a empresa assume metade deste corte e, na prática, os trabalhadores perdem 6,5% do ordenado, mas ficam a descansar às sextas, sábados e domingos.
Está formulado no programa do governo a necessidade de abrir um debate e uma reflexão sobre uma questão que hoje é muito premente.
Por cá, no início do ano, este foi tema de campanha e de debate, como neste frente a frente na TVI entre António Costa, do PS, e João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal.
Não estamos a falar em 30 horas. Nós podemos trabalhar quatro dias por semana, mais horas em cada dia. Hoje o teletrabalho criou uma nova forma de flexibilidade da organização do trabalho, que é muito importante. E as empresas mais dinâmicas, mais modernas, o que é que estão a fazer? Estão precisamente a encontrar com os seus trabalhadores- Livremente, sem o Estado interferir. Mas ouça, vamos lá ver. Eu nessa parte, se quiser- É liberal ...sou muito liberal. O meu sonho era nós vivermos num país nórdico, onde o diálogo social funcionasse por si e onde o Estado não tivesse que intervir.
No programa eleitoral, o Partido Socialista prometia estudar a semana de quatro dias nos próximos quatro anos. Agora, na discussão na especialidade do Orçamento do Estado, o Livre conseguiu acelerar o processo e foi aprovada uma proposta para que o governo promova um estudo e crie um programa para testar a semana de quatro dias. Mas isto é mesmo possível? Quem perde e quem ganha? Portugal é um país com problemas de produtividade. Pode trabalhar menos um dia? Vou conversar com o professor de Economia da Universidade de Londres, Pedro Maia Gomes, autor do livro "Sexta-feira é o novo sábado". Bem-vindo, professor Pedro Maia Gomes.
Olá, muito obrigado pelo convite.
Onde é que está nesta altura?
Eu estou no aeroporto, estou em viagem, vou a Valência. Vai decorrer durante dois dias a Cimeira Internacional da Semana dos Quatro Dias. Vai ter políticos, sindicatos, empresários e também acadêmicos. E eu vou como acadêmico para falar dos benefícios económicos da semana de trabalho de quatro dias.
Uma conferência internacional quer dizer que isto é mesmo a sério. Não é algo que saia de um gabinete investigador de um professor de uma universidade.
Sim, não é apenas ideias de um acadêmico extravagante, é muito mais do que isso. Aliás, é mais do que uma conferência, é uma cimeira. Portanto, vai ser um momento importante, porque o movimento da semana de quatro dias já há dois, três anos que está a ganhar muita força e tem uma parte política, é sobretudo de empresários, e agora alguns sindicatos que também estão a começar a puxar por esse tema. E há muitos estudos, quer em sociologia, em gestão, agora o meu livro em economia, também questões do ambiente, há muitos estudos acadêmicos sobre o tema e é um movimento global e vai ser uma cimeira interessante porque vai consolidar a semana de quatro dias como uma prioridade para os anos que vêm.
O seu livro é "Sexta-feira é o novo sábado". Esta história do dia é publicada numa sexta-feira. Se déssemos aqui um salto no futuro, hoje seria dia de descanso. É isso, professor?
Exatamente, é esse o objetivo. Não vai ser daqui a um mês, ou daqui a três meses, ou um ano, é um processo que é muito longo, vai demorar, na melhor das hipóteses, generalizado à economia, seria uns quatro a seis anos, mais provavelmente mais 10. Mas exatamente por ser um processo longo é que devemos começá-lo cedo, porque se estamos sempre a adiar à espera que aconteça, assim nunca mais. Portanto, temos que começar esse processo e eu acho que a discussão que está prevista agora nos próximos meses e anos em Portugal é um bom ponto de partida.
Vamos lá então olhar para isto mais em pormenor. Há aqui uma questão que salta logo quando falamos da semana de quatro dias, que é a questão da produtividade. Ora, Portugal é tido como um dos países em que se trabalham muitas horas, mas a produtividade não é muita. Como é que resolvemos este problema?
É importante distinguir a produtividade. Normalmente, os rankings de Portugal está muito baixo, é a produtividade por hora que é fraca. E há uma relação entre trabalhar demasiado e a fraca produtividade por hora, porque quando nós trabalhamos muitas horas, estamos muito mais cansados, cometemos muito mais erros No processo de produção, pode ser peças defeituosas em fábricas, pode ser acidentes de trabalho. Faltamos muito mais ao trabalho. O absentismo aumenta muito com muitas horas de trabalho e também a rotação de trabalhadores. E são todas estas áreas que as empresas que adotam a semana de quatro dias como prática de gestão, melhora muito. Melhora a rotação de trabalhadores, reduz a taxa de absentismo, reduz acidentes de trabalho, aumenta a efetividade dos trabalhadores nos outros dias. Se reparar, Portugal é dos países na União Europeia que se trabalha mais horas por semana e é também o país que tem mais altas incidências de burnout, tem mais altas incidências de acidentes de trabalho e onde todos os anos se fazem milhões de horas extraordinárias. Portanto, ao reduzir a semana de trabalho, vamos melhorar as empresas nestas dimensões todas e isso é aumentar a produtividade por hora.
O professor, no seu livro, sugere oito formas de ajustar esta nova realidade. Há duas que nos saltam logo à vista, que é aumentar o número de horas trabalhadas nos outros quatro dias ou cortar o vencimento ou adaptar estas duas. Portanto, há mais alterações que se podem fazer além destas, é isso?
Sim, há muitas. O corte de salário, por exemplo, corte de 20%, é uma prática que já existe, chama-se part-time. Em Portugal é relativamente baixa, mas noutros países europeus já é muito elevada. Não é nada de novo, mas não é desejável para a maioria das pessoas. Há algumas empresas que implementam a semana de quatro dias com o aumento das duas horas nos outros dias. É uma prática de gestão que se chama semana concentrada, também já está prevista no código laboral em Portugal e já existe há 50 anos. Mas isso também não é desejável para a implementação da semana de quatro dias. É desejável com alguma redução de horas, mas não tem que ser para 32. Pode ser, por exemplo, para 36, pode ser 34 mais duas horas para um banco de horas à disponibilidade da empresa, mas essas são normalmente as que saltam à vista, mas é essas que eu quero pôr menos ênfase, porque o que eu quero falar é das outras.
Então vamos às outras.
O aumento da produtividade e a redução de custos para a empresa é a chave que quebra essa relação entre trabalhar menos 20% e ter que cortar o salário 20%. Não é preciso, porque os aumentos de produtividade e a redução de custos vão compensar em larga medida essa mudança. Aliás, a maior parte das empresas que está agora a implementar a semana de quatro dias, e não é porque o Estado está a dizer, é porque melhora o negócio, veem que de facto a produtividade aumenta tanto que compensa. Mas se não for suficiente, se calhar para alguma indústria ou para alguma ocupação, pode-se aumentar meia hora ou uma hora nos outros dias, compensa 25 a 50% do ajustamento. Mas depois há uma outra forma de ajustamento que eu acho que é muito importante, é que as empresas que adotam a semana de quatro dias ficam numa posição tal como empregadoras, que ninguém quer sair, e sempre que há uma vaga, toda gente quer entrar. Tem centenas de trabalhadores muito qualificados. É essa, aliás, uma das razões pela qual as empresas estão a implementar a semana de quatro dias. E o que isto permite é, no caso desses ganhos de produtividade não forem suficientes para compensar a mudança, a empresa pode sempre contar com moderação salarial nos anos a seguir, porque ninguém quer sair da empresa. Portanto, aqui eu acho que o corte salarial é de evitar e pode-se evitar. E uma dessas formas é a tal moderação salarial.
O que é isso da moderação salarial?
Imagine uma empresa que quer passar de cinco para quatro dias. Pode dizer o seguinte: nos próximos cinco anos, não há aumentos de salários acima da inflação, mas no primeiro ano vamos dar a primeira sexta-feira de folga, todos os meses. No segundo ano, a segunda sexta-feira, no terceiro ano, a terceira sexta-feira e por aí fora. Em cinco anos, faz a passagem sem corte salarial, mas com moderação salarial, porque é uma das características das economias ocidentais, é que crescem. Há um crescimento natural da produtividade. Historicamente é 2, 2,5% ao ano. Portanto, nós podemos utilizar esses ganhos de produtividade naturais nas economias em crescimento para fazer a transição. Portanto, a questão essencial, eu ponho em segundo plano a questão da implementação. Porque se nós quisermos, se houver vontade, nós conseguimos fazer em quatro, cinco anos essa passagem.
E a vontade tem de ser de quem? Das empresas ou dos governos?
Tem de ser empresas, sindicatos e governos. Tem que ser tripartido. E daí eu acho que esta proposta do governo não se comprometem muito. É muito amiga, não é concreta.
É vaga.
É vaga, mas eu acho que é assim que tem que ser nesta fase, porque ainda não há discussão. E agora é pôr a discussão às empresas e mostrar os casos de empresas que com sucesso estão a implementar e tentar mostrar esta visão de que vai melhorar o negócio. É mostrar aos sindicatos que isto é uma boa luta a ter e que, de facto, os sindicatos têm mostrado um relativo interesse deste tema. E depois é convencer os outros argumentos, porque a questão da produtividade é apenas um dos argumentos aí oito que eu falo no livro.
Queria saber se esta semana de quatro dias também poderá aumentar o nível de emprego, ou seja, vamos precisar de mais pessoas para alguns setores que funcionam sete dias por semana, 24 horas por dia?
Vai aumentar o emprego, mas não é por esse mecanismo. Aliás, esse é um mecanismo que os economistas não gostam muito. Eles dizem a falácia do bolo de trabalho. Assum que é porque se reparar, se a produtividade por trabalhador aumenta tanto. Aliás, as empresas que estão a implementar falam nessa tal regra dos 80, 100 Recebem 100% do salário, trabalham 80%, desde que consigam produzir os 100% do que estavam a produzir antes. Se for esse o caso, não é preciso contratar muito mais trabalhadores. Se o efeito de produtividade é tão grande. Portanto, esse efeito de aumento de emprego, por esse mecanismo, não é assim particularmente forte. Pode ocorrer pontualmente, mas não é por aí. Onde vai acontecer um aumento de emprego é nas indústrias de lazer. Vai haver um aumento de emprego, porque vai haver um aumento da procura nas indústrias de lazer, porque é no nosso tempo livre que consumimos mais.
Exatamente.
Sentimos necessidades, que vamos aos restaurantes, aos cinemas, aos teatros, que viajamos, que ficamos em hotéis e vai haver um aumento da procura pelas indústrias de lazer, portanto vai haver um aumento da procura de trabalhadores para os restaurantes, para os hotéis, para o turismo, etc.
E o professor entende que esse aumento de tempo livre também pode ser uma forma de fomentarmos o progresso. Fale-nos um pouco dessa ideia.
Da inovação. Há sempre a visão que quando estamos a trabalhar, estamos a contribuir para a economia, para a sociedade, mas quando estamos no tempo de lazer, é tempo de felicidade, mas há sempre aquela visão que não afeta a economia. Vamos ser felizes, o bem-estar, e muito da discussão fala-se do bem-estar dos trabalhadores. Mas a questão é, quando nós vamos ver o que as pessoas fazem no tempo de lazer, quase tudo contribui direta ou indiretamente para a economia. Eu falei na questão do consumo, mas há uma outra forma. Há muitas empresas que nascem com um trabalhador, com um trabalho como nós os dois, diurno, mas que depois vai para casa e no tempo de lazer constrói uma empresa, ou constrói uma inovação, ou escreve um livro, por exemplo. E isto não são exemplos menores. Por exemplo, a Ford, que eu falo muito no livro. Henry Ford trabalhou três anos na fábrica de eletricidade Thomas Edison e voltava seis dias por semana, na altura, e voltava à casa e trabalhava todas as tardes, todas as noites e todo o sábado à noite no seu primeiro carro com o motor de combustão interna. A Apple também nasceu assim. A Nike também nasceu assim, era um contabilista que começou a importar sapatilhas de corrida do Japão. Qual foi a contribuição para a economia da J.K. Rowling? Foi quando era secretária da Amnistia Internacional ou quando dava aulas de português no Porto, ou foi no Harry Potter, que escreveu no tempo de lazer?
Então só há vantagens, não há desvantagens?
Sim, é verdade. Eu provavelmente sou a pior pessoa para lhe dizer, porque se não estava completamente convencido antes de escrever o livro, depois de escrever o livro, eu estou completamente convencido. E aliás, o livro é para fazer esse papel de advogado de defesa da semana de quatro dias e hão de fazer outras pessoas as críticas. Eu posso dizer que a semana de quatro dias é uma melhor forma de organizar a economia no século XXI. Por quê? Porque a economia do século XXI é completamente diferente da economia do século XX. Agora, o fato de eu dizer isto não quer dizer que seja fácil.
Claro.
Eu nunca vou dizer que a implementação vai ser fácil, o que eu vou dizer é que vale a pena. Pode perguntar a outras pessoas, tenho a certeza que muitas vão fazer uma lista grande e eu depois posso rebater, mas até agora eu não ouvi nenhum argumento hoje que eu não tivesse lido, que tivessem feito contra a semana de cinco dias quando foi implementada.
E atualmente o professor trabalha quantos dias por semana?
Essa é a pergunta que eu recebo mais vezes. Eu escrevi o livro nos meus tempos de lazer, portanto foi durante as férias, foi ao fim de semana. Mas, por exemplo, o livro é trabalho ou não é trabalho? Porque não é o meu trabalho normal. Eu dou aulas, eu faço investigação em economia, que não é escrever livros, é escrever artigos acadêmicos com muita matemática e muita análise estatística. É trabalho ou não é trabalho? Porque se reparar a semana dos cinco dias e a distinção entre semana e fim de semana, é a forma de coordenar o trabalho de equipe durante a semana.
Claro.
É isso que nós fazemos durante a semana, é o trabalho de equipe. E ao fim de semana é coordenar o trabalho nas indústrias de lazer e o trabalho individual. E então, uma semana de quatro dias não implica, todas as pessoas que quiserem trabalhar mais, vão poder trabalhar mais, porque o fim de semana não impede, mas vão trabalhar naqueles projetos individuais e vão ter essa liberdade sem ter os e-mails dos colegas de trabalho a chatear. E nós vamos coordenar o trabalho em quatro dias e depois temos aquele tempo de três dias para sair, usar as indústrias de lazer ou para utilizar para esse trabalho individual, abrir uma empresa, escrever um livro, tirar um curso, tirar um MBA. E é um dos argumentos. Nós vamos ser mais livres para trabalhar mais numa semana de quatro dias, do que somos agora livres de trabalhar menos que cinco dias.
Muito obrigado, professor Pedro Maia Gomes.
Foi um prazer.
Pedro Maia Gomes é professor de Economia em Londres e como percebemos, estava a caminho de uma cimeira internacional sobre a semana dos quatro dias, que junta especialistas e decisores em Valência, em Espanha. Um encontro que decorre esta sexta-feira e sábado. Há nessa altura vários países a fazer experiências com a semana dos quatro dias. Por exemplo, Espanha, Bélgica, Japão, Alemanha, Nova Zelândia e Islândia, só para citar alguns casos. Por cá, ainda não se sabe bem como, nem quando, mas o teste deverá arrancar ainda este ano. Esta foi a história do dia, de sexta-feira. Ainda não é dia de folga, mas já posso desejar um bom fim de semana. Pode seguir a história do dia no site do Observador ou na aplicação que utiliza para ouvir podcasts, e assim não perde nenhum episódio. Basta clicar em seguir. A produção foi da Mariana Oca Ferreira, a sonoplastia da Beatriz Martelo Garcia. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda e bom fim de semana.