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Ao vivo, na Rádio Observador.

Veste o balterno, anda adjunto, ranger de Lamego. Põe a jaqueta, põe o camuflado, chega de sossego. Faz um serviço, afixa o aviso, pede ao marechal que traga a boina e que disponha do major e general. Traz a ceifeira na dianteira, ó meu capitão. Vai Força Aérea e vai Marinha, no chão o pelotão. Marcha ritmada, a tropa armada. A guerra vem. Marcha ritmada, a tropa armada. A guerra vem. Vai pra trincheira, olha a poeira, põe o maçarico. Na linha da frente, ele que enfrente, daqui eu a desvigo. Voam os drones, voam os caças, voam as balas, tragam as taças, somem mais estrelas, cinta as fivelas, juntem medalhas, não desfaças. Venham tenentes, venham cadetes e mais uns quantos tropas. Tragam os cabos e os soldados, calcem essas botas. Sigam sargentos, caminhem comandos pra paz universal. E o escriturário lê o glossário em posição fetal. Marcha ritmada, a tropa armada. A guerra vem. Marcha ritmada, a tropa armada. A guerra vem.

"Precisamos de ti" é uma das novas canções de Tipo, ele que é Salvador Menezes e que está de regresso ao ao vivo na Rádio Observador. Vamos aqui falar um bocadinho sobre "Mira", um novo disco que chega 13 de novembro. Salvador, muito obrigado por teres vindo-

Obrigado

...de novo aqui à Rádio Observador, com as canções já de um novo disco que está aí a chegar. De resto, quatro são os singles que já lançaste, dois a dois, não foi? Até agora.

Sempre de mãos dadas.

Sim, eu queria ir um bocadinho atrás. Ao início do ano, lançaste um EP chamado "Licença", mais cru, mais doméstico, pelo que percebi.

Completamente.

Agora, com estes singles de avanço de "Mira", nota-se de facto uma abertura sonora maior. Estas novas canções têm mais instrumentais, têm mais camadas. De alguma forma, sentiste que saíste de uma bolha solitária de composição para deixar a tua música respirar com uma energia que parece até mais de banda novamente?

Sim. Na verdade, foi intencional, porque o EP "Licença" foi escrito depois do "Mira". Ou seja, eu compus o "Mira" todo em 2025. Mas já tinha uma ideia e já tinha muitas bases trabalhadas e sabia como é que iria ser, como é que iria soar. Portanto, lancei o "Licença" já com essa ideia de: vou fazer aqui um bocado uma antítese daquilo que irá ser o meu disco no fim do ano. Portanto, vou trabalhá-lo de maneira-

Esse processo é engraçado, pra trás e pra frente.

Portanto, o "Licença", apesar de ter saído já há mais tempo, é mais recente. As músicas são mais recentes.

Olhamos um bocadinho algumas das novas canções, "Mesmo sem querer", "Ninguém o vai parar". Surgem aqui algumas personagens que lutam com a ideia de controle, uma certa urgência de estar em movimento. Escreves através de histórias ficcionadas, mas é uma forma de te protegeres ou um melhor veículo para esse teu exercício, que é muito da tua música, de observar ansiedades do cotidiano, sem que sejam estritamente confessionais, não é?

Pois, a verdade é que-

São um subterfúgio

...a "Ninguém o vai parar", quando eu escrevi, escrevi a pensar numa pessoa específica, mas que eu conheço mal. Mas como eu queria que a pessoa fosse um bocado irritante, pus muitos defeitos na pessoa que são os meus defeitos. Portanto, a minha mulher quando ouviu a música, disse: "Isto és tu, não é? Estás a falar sobre ti". Não, não sou eu, isto é uma pessoa irritante, isto não sou eu. Mas de facto, há muitas coisas que sou eu, mas que não é suposto. Portanto, há muitas verdades ali que eu imagino, mas que são através da minha experiência, como acho que a maior parte das pessoas que escrevem.

Sim. Queria olhar contigo aqui para dois convidados, o Martim Sousa Tavares e o Tomás Marques, de dois universos diferentes, um mais do jazz, o outro mais da música clássica. Como é que foi ver estas canções também receberem uma perspectiva diferente? Tiveste aqui de dar alguma liberdade a estes arranjadores ou também norteaste o trabalho que trouxeram aqui ao disco?

Pra mim, essa é uma das partes mais gratificantes em compor um disco, em que eu fiz com uma guitarra e com a voz. Depois passo-lhes essas bases e eles a partir daí fazem aquilo que quiserem Sendo que tinham as mesmas regras, ou seja, eles tinham de compor sempre com um sexteto, um ensemble que era um sexteto, um quarteto de cordas e um duo de sopros. Não precisavam trabalhar com todos os ingredientes ao mesmo tempo, podiam só usar um ou dois, ou três, o que quisessem, o que achassem que a música precisasse. Mas portanto, eles tinham essa premissa de: têm estas seis pessoas, estes seis instrumentos, façam os arranjos de acordo com aquilo que sentirem que faz sentido.

Optaste pela liberdade, então.

Sim, e dou-lhes liberdade total. Depois, obviamente, depois da ideia base, às vezes digo: "Tentem ir um bocado mais para aqui ou para ali", mas é sempre um trabalho em conjunto em que eles fazem grande parte da coisa e eu só de vez em quando oriento para um lado. "Experimenta só fazer aqui mais assado." Não é grande espingarda.

Na base rítmica de Tipo, continua aqui o Pedro Branco no baixo, o Tomás Sousa na bateria. De resto, também pessoas com quem convives nos You Can't Win, Charlie Brown, que é a outra banda a que pertences. Ter este núcleo duro dá-te uma certa segurança? São os compadres, os compinchas já de Tipo mais assumidos na banda do projeto.

Sim, são muito importantes, até porque tudo passa por eles, todas as opiniões. Quero sempre ouvir o que os meus amigos e as pessoas que eu confio muito têm a dizer sobre aquilo. Portanto, passa sempre tudo pela opinião deles e mesmo os arranjos de bateria e de baixo e toda aquela base rítmica que é feita, também dou-lhes liberdade total para fazerem aquilo que sentirem. E como eles também já me conhecem tão bem, até que posso dar uma referência, mas aquilo que eles vão fazer é sempre muito melhor do que aquilo que eu estou à espera. Portanto, adoro trabalhar com eles e quero continuar a fazê-lo. E faço-o com a minha banda e faço-o com o meu projeto a solo.

Daqui a pouco vamos ouvir a "Mão Cheia". É uma canção que depois no disco tem também a colaboração da Rita Cortesão, é um nome que tem crescido muito no último ano. Ela já passou aqui pelo Ao Vivo, também já a vi em concerto, recordo-me também da Vitória, que esteve no Festival Termómetro, creio. Como é que foi trabalhar com ela e por que é que a convidaste? O que é que pretendias em trazer a Rita?

Sou um grande fã dela. E este disco tem quatro convidados muito especiais, a Rita é um deles. E eu convidei-a porque sou mesmo fã da música dela, adoro a música dela. E aquela música, senti que precisava de uma voz feminina e a voz dela encaixava na perfeição, portanto convidei-a e ela felizmente aceitou. Mas a principal razão é porque gosto muito da música que ela faz. Sou mesmo um fã confesso e já lhe disse várias vezes, se calhar até às vezes é um bocado desconfortável para ela, dizer-lhe aquilo tantas vezes.

Concordas com a ideia de que as tuas canções habitam mais o território das dúvidas do que das certezas?

Sim.

Num tempo em que parece que toda a gente tem muitas certezas e muitas opiniões sobre tudo.

Sim. Pois, eu não tenho nenhumas.

É giro, porque isso nota-se na tua música, tu exploras muito isso.

Sim, cada vez tenho menos certezas, na verdade.

Hoje vieste aqui ao Ao Vivo neste formato reduzido, claro, só voz e guitarra. Como é que é esta experiência também de despir estes arranjos de ensemble, que se notam bem mais agora nestas canções que começas a revelar do "Mira"?

É voltar à demo inicial, é voltar à composição inicial.

Elas nasceram assim.

Elas nasceram assim. O disco, o "Mira" foi todo composto, tirei férias para o compor e dá mais ou menos uma média de um dia e meio por música, em que eu fiz mesmo questão de trabalhar a 100% na música, porque não é a minha profissão a tempo inteiro. E então tirei férias para o fazer e a base era essa. Eu tinha que ter a voz e a guitarra enquanto base a sustentar a música. Trabalhava já a letra, há letras que ficaram quase finais com aquilo, depois outras vai-se sempre ajustando, mas elas nasceram todas de uma base solitária, apesar de depois terem passado por várias pessoas.

Muito bem. "Mira", novo disco de Tipo, sai a 13 de novembro, é o projeto mais pessoal do Salvador Menezes, que tem mais 27 e 42 mil bandas. Não tantas, mas são muitos os projetos e com as pessoas com quem vais colaborando, mas é bom ver-te de regresso ao teu Tipo. Aí está um novo disco a 13 de novembro, chama-se "Mira", está em destaque no Ao Vivo desta semana aqui na Rádio Observador e agora vamos ouvir a "Mão Cheia". Muito obrigado por teres vindo.

Obrigado.

E muitos parabéns por estas novas canções. Acho que elas cresceram bastante de terem mais camadas. Estou a gostar muito e estou muito curioso para ouvir o resto do disco. Obrigado, Salvador. Um abraço.

Obrigado. Ela conseguiu. Amarrou-se ao chão. As plantas que eu trouxe. Ela deu-lhes água. Eu dei-lhes afeto. As plantas já cresceram. Num quadro completo. Eu já percebi. O que não cumpri. Ela dá-me paz. Onde há duas, há três. Diz que é para o desempate. Fazer contas ao mês. É só somar um prato. Saba devia de ver o que lhe resta e pertence. Será assim até morrer. Não se perde e jamais se convence. Somos a mão cheia. Luzes de candeia. Laços de cordão. E como um nó cego, nós não os largamos. Como a ponta de um prego, assim nos afixamos. Calmos e discretos. Ficamos completos. Criamos raiz. E como é suposto, ela foi celebrada. Em setembro ou agosto, mais uma planta é regada. Saba devia de ver o que lhe resta e pertence. Será assim até morrer. Não se perde e jamais se convence. Vive com o pressuposto de quem foi sempre controlada, mas em setembro ou mesmo agosto, mais uma planta é regada.

Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.