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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O Irão e a Rússia estão a ameaçar a Europa. Será que a NATO está preparada? Há novos planos da NATO para defender a Europa de diferentes cenários de ataque. Perante a ameaça russa, que mantém vivo o conflito na Ucrânia, a NATO já desenhou um plano para responder a um eventual ataque russo contra os países bálticos. Foram apresentados detalhes desse plano na imprensa alemã. Está em cima da mesa a resposta a uma guerra terrestre e a possibilidade de criar uma barreira de drones. Ao mesmo tempo, a NATO tem planos para responder à ameaça iraniana. Ainda esta semana, o Irão ameaçou atacar bases dos Estados Unidos da América na Europa. A NATO garante que está pronta para defender todos os aliados. Vamos falar com o coronel José do Carmo. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de quinta-feira, 20 de agosto. Bem-vindo, coronel José do Carmo.

Olá, Miguel.

Estamos perante novas ameaças à Europa neste momento. Podemos falar aqui de duas grandes ameaças. A Rússia, que tem sido uma ameaça constante nos últimos anos, e agora o Irão, que já faz ameaças concretas também de ataques às bases norte-americanas em território europeu. A NATO diz que está preparada. Nós vamos falar aqui um pouco do que sabemos sobre esses planos, sobre essa preparação. Vamos começar, talvez, pela ameaça russa. O jornal alemão Bild revelou planos da NATO para responder a um ataque russo nos Bálticos. Há vários pontos neste plano. Vamos já detalhar esses pontos. Antes disso, queria perceber consigo se considera esta uma possibilidade real de ataque à Europa neste momento, um ataque russo aos Bálticos.

A intenção imediata, o que passará já a seguir, os Serviços de Informações Externo da Estónia avaliou que a Rússia não tenciona atacar militarmente nenhum membro da NATO no próximo ano, nem em 2026, nem em 2027. Isso resulta da dissuasão, e não do fato de estarem bem dispostos ou de estarem predispostos a isso. Agora, em termos de capacidades futuras, a Rússia está a reconstituir o seu distrito militar de Leningrado, aumentou para sete divisões e várias brigadas as suas forças na zona da Carélia, junto aos Estados Bálticos, e está claramente a aumentar o seu dispositivo na zona. De qualquer maneira, a Dinamarca, a inteligência, os intelligence dinamarqueses estimou que se neste momento a guerra com a Ucrânia congelasse e a Europa não se rearmasse, num ritmo melhor, a Rússia em seis meses teria capaz de fazer uma guerra local, ou seja, contra a Estónia, contra a Polónia, contra a Letónia, mas demoraria cerca de dois anos a estar em condições de fazer uma guerra em larga escala contra vários países do Báltico ao mesmo tempo. E apontaria para cinco anos para uma guerra em grande escala contra a Europa sem a participação americana. Estamos a falar em prazos que vão de seis meses, no caso da guerra parar, da guerra congelar na Ucrânia, que não é o caso. Enquanto a Rússia estiver empenhada na Ucrânia, dificilmente está em condições de esfurar uma guerra. Não estou a falar em provocações. No curto prazo, o mais provável é sabotagens, ciberataques, interferências, incursões aéreas, de drones, de mísseis, escoltas armadas, que é o que neste momento está a tentar fazer no Báltico. Basicamente, é isso que a Rússia está capaz de fazer neste momento com as condições atuais.

A NATO prepara-se, de facto, e há este plano de resposta a um possível ataque no Báltico. Vamos ao que se sabe deste plano da NATO, porque foi revelado que caso as forças russas lancem, de facto, ataques com mísseis e drones contra os Estados Bálticos, e em seguida realizassem uma invasão terrestre convencional, a NATO poderia responder com uma tentativa de destruir os sistemas de ataque russos. Como é que isto funcionaria? Daquilo que foi divulgado.

A NATO mudou sua doutrina em relação à ameaça russa. Passou de uma lógica que tinha até agora, que era de força simbólica, que é atrasar uma invasão até chegar em reforços e depois recuperar o território, passou dessa lógica para uma lógica de defesa avançada, ou seja, impedir desde o primeiro dia um fato consumado russo. E pode acontecer em algumas zonas ali da Estónia, Narva, no caso também daquele corredor, que é ali entre a Bielorrússia e Kaliningrado. A NATO, nesse momento, desenvolveu planos, obviamente, há planos, e estes planos implicam que há mais forças no terreno, desde o primeiro dia, já lá estão, de facto, muitas forças. Há unidades previamente atribuídas aos planos, unidades reais, concretas, atribuídas aos planos, novos comandos de corpo, uma defesa aérea reforçada, vigilância marítima. Neste momento, temos planos regionais que foram aprovados já em 2023, logo no início, dirigidos, que estão ali com forças nacionais destacadas já na zona. Em primeiro escalão, por exemplo, neste momento a NATO tem nove agrupamentos multinacionais no flanco leste. Quer dizer, a Letónia tem uma brigada multinacional liderada pelo Canadá, a Lituânia é uma brigada blindada alemã, a Estónia tem um grupamento liderado pelo Reino Unido, na Polónia está uma unidade liderada pelos Estados Unidos E tudo isto são unidades que estão já lá. E a finalidade é justamente esta: impedir um fato consumado, ou seja, impedir que a Rússia avance. Imaginemos a cidade de Narva, que é ali na Estônia, que está logo na fronteira, e depois o que obrigaria a retomar. A ideia é defesa avançada e não já dissuadir e depois esperar fortes. A ideia não é uma defesa em profundidade, ou seja, esperar que eles avancem e depois retomar. Não, é mesmo defender à frente. E esses planos estão feitos para isso e a evidência desses planos é que já há unidades colocadas multinacionais, além das unidades nacionais, obviamente, colocadas nessas zonas, nas zonas que se consideram mais críticas.

Os drones têm aqui um papel também importante. Há aqui a intenção de criar uma barreira defensiva de drones na fronteira com a Rússia e com a Bielorrússia.

Pois, os drones entram dentro dos planos, dentro das doutrinas que existem. Europa, há claramente uma intenção e já está a começar a estar em marcha a produção massificada de drones. Agora é incorporar isto nas doutrinas, porque uma coisa é ter as armas e depois ter a sua integração em doutrinas coerentes, que a Europa, neste momento, já aprendeu muito com a Ucrânia. Eu penso que há países que estão ali na linha da frente, que já aprenderam muito mais que nós, por exemplo, aqui em Portugal, e já têm claramente instrução e formação de unidades para atuarem com este novo condicionante dos drones, que são armas que vieram de fato inovar e mudar completamente o rosto da batalha. E sim, os drones hoje em dia são escapáveis. Uma unidade militar que não esteja capaz de usar drones para ver, para disparar, para vigiar, para reforçar, está em uma desvantagem terrível. Hoje em dia não basta ter carros de combate, nem viaturas de combate e infantaria, tem que se ter drones, porque os drones, de fato, nem artilharia, os drones hoje marcam, estabelecem uma zona de morte à frente das unidades que as unidades não conseguem mexer se não tiverem esta cobertura de drones.

E já não se faz uma guerra sem drones. De fato, neste plano de resposta da NATO, foi divulgado que também há um possível cenário de ataque a infraestruturas russas, ou seja, atacar infraestruturas em território russo. Isto, neste caso, não levaria uma escalada grave de um possível conflito?

Não, vamos ver, isto já, sim, neste momento, uma escalada se fosse a NATO ou os países da NATO os primeiros a fazer isso. A partir do momento em que a Rússia faz ações que não pode negar, não tem inegabilidade, ou seja, ações que são claramente dentro do território de países da NATO, a partir daí aplica-se o Artigo Quinto, e os planos aí implicam atacar também o terreno adversário. Olhe, por exemplo, o Mar Báltico seria imediatamente fechado à Rússia, os estreitos da Dinamarca seriam fechados. A Rússia não poderia usar o Báltico para navegar, porque seria fechado, é lago da NATO. O Mar Negro também seria fechado, porque a Turquia também é da NATO. Ou seja, se houver isto, já estamos numa guerra. Aí a guerra é guerra e quem não escala, perde.

De fato, pode parecer até um pouco estranho para quem nos ouve, estarmos a falar em detalhe de alguns destes planos, mas divulgar estes planos e torná-los em parte públicos, faz aqui parte da estratégia da NATO de dissuasão, certo?

Não, os planos, do outro lado também não são tontos, também sabem ver as coisas, sabem que há planos. Os planos são feitos com hipóteses. Um plano é um exercício prospectivo que se faz com: se acontecer esta, esta e esta hipótese, devemos fazer isto, isto, isto e isto, com aqueles meios, aqueles meios e aqueles meios. Isso são os planos. Depois, tem ordens. Esses planos passam a ordens quando as hipóteses se verificam. Mas as ordens não são conhecidas, as ordens estão lá escondidinhas nos envelopes, só são tomadas no momento em que o plano passa a efetividade. Ou seja, os russos sabem que há planos, nós também sabemos que eles têm planos, por exemplo, para tomar o corredor entre Kaliningrado e Bielorrússia, planos existem. E perante essa possibilidade lógica desses planos, fazem-se também contraplanos. Agora, o que realmente está nos planos, nós não sabemos, porque ninguém divulga essas ordens às unidades que constam dos planos. Só quando os planos passarem a ordem, de fato, passarem a uma execução.

Nós já voltamos a esta conversa com o coronel José do Carmo. Fazemos apenas uma curta pausa. Estamos de regresso a esta história do dia, falar de ameaças à Europa e dos planos da NATO. Coronel José do Carmo, podemos dizer que com estes planos e com aquilo que já conhecemos, Europa e a NATO, de certa forma, estão a aprender com erros do passado e que fez falta à Europa, por exemplo, a existência de planos mais concretos no momento da invasão russa à Ucrânia?

Sim, o grande erro do passado foi o que aconteceu após a Guerra Fria, quando se acreditou que o fim da história tinha chegado e que não havia mais guerras. Eu vou lhe dar um exemplo muito simples, mas que se repete em todo o teatro europeu. A Alemanha, na época ainda não unificada, a Alemanha Ocidental, tinha quase 4 mil carros de combate, que era a arma rainha das batalhas, em termos de manobra. Agora tem 300. Este é um exemplo, mas repete-se em todos os países. A Holanda tinha não sei quantos carros de combate, mas tinham umas centenas, deixou de ter. Tudo isto aconteceu pela Europa toda e não só nos carros de combate, mas no resto das armas. A Europa desarmou-se, acreditando que havendo uma superpotência com a qual estava aliada e continuava a manter uma capacidade militar forte, que isso bastava, e também acreditou que a Rússia estava definitivamente neutralizada, ou pelo menos haveria um prazo, a Rússia não se conseguiria levantar tão cedo depois da União Soviética claudicar. E não viu os sinais, não viu Vladimir Putin atacar na Geórgia, atacar na Chechênia, tomar a Crimeia. Não viu nada disso como ameaças que pudessem pôr em causa a sua tranquilidade e por isso não estava preparada. Esse é o grande erro. Acreditou que a paz perpétua estava aí. E neste momento está a acordar com Com a ameaça a bater-lhe à porta e obviamente está a fazer as coisas não com a rapidez com que se desejaria, porque neste momento tem muitas lacunas em termos, por exemplo, armamento ofensivo, tem muitos aviões, tem mais aviões que a Rússia, tem mais navios que a Rússia, mas falta-lhe integração, falta-lhe inteligência, capacidade de vigilância, falta-lhe armas ofensivas capazes de atingir a profundidade russa. Não tem, por exemplo, mísseis tipo Tomahawk. A Europa não tem, tem a França alguns, mas por quê? Porque os mísseis intermédios estavam proibidos e a Europa não tem nenhum, a Rússia tem milhares. Portanto, esse aspeto a Europa não tem. E portanto, há algumas lacunas que estão aí, agora com os drones também, temos, na verdade, uma Rússia com uma capacidade acrescida de fazer a guerra com este tipo de meios, uma guerra diferente. A Ucrânia também, mas a Europa não, a Europa não tem experiência de combate. Portanto, vai ter que aprender muito e é bom que aprenda com o que está a acontecer, aprender com os erros dos outros, no fundo, é isso que se pretende.

Estava a falar de ameaças a bater à porta e, de facto, há mais uma ameaça a bater à porta nesta semana do Irão. O Financial Times noticiou que o Irão pondera atacar alvos militares na Europa se Donald Trump intensificar a guerra no Médio Oriente. Isto seria uma escalada grave deste conflito.

Não, isto já aconteceu. Este cenário não é teórico. Em março deste ano, a NATO interceptou mísseis balísticos lançados contra a Turquia e também drones lançados contra Chipre, que são países da NATO. Portanto, isso já aconteceu. Agora, o que é que a aliança fez? O Irão faz isto para dissuadir. Com certeza que tem mísseis balísticos, não tem assim tantos como quer fazer crer, mas tem mísseis balísticos e de facto pode ser uma ameaça. O que fará a aliança e os países da NATO é elevar a postura antimíssil. Não se decidiram acionar o artigo quinto, nem a Turquia, nem Chipre acionaram o artigo quinto. O que fez? Foi reforçar meios navais, foi aumentar a defesa antimíssil, antidrone, enfim. No fundo, foi defesa em contenção e não entrada automática em modo de guerra. É evidente que se os ataques iranianos forem substantivos, portanto, forem coisas a sério e não apenas mera esticulação para dissuadir, aí entra-se num outro tipo, tem que haver uma resposta militar coletiva.

O que é que está a falar? Seria atacar diretamente a NATO, o Irão?

Vamos imaginar, por exemplo, que o Irão lança um míssil sobre uma base americana.

Na Chipre ou na Bulgária.

Por exemplo, e morrem não sei quantas pessoas. Aí é evidente que a Bulgária iria acionar o artigo quinto. E aí a NATO, obviamente que há consultas, mas aí seria óbvio que teria que haver uma ação coletiva contra o Irão. Isso não seria instantâneo, mas iria haver uma ação coletiva, é claro. Eu não creio que o Irão, a não ser que sejam suicidas, se arrisque a uma coisa dessas, isso é aumentar a ameaça que têm sobre o seu território, que já não é pequena. E portanto, não me parece que haja muita lógica, a não ser na lógica do homem louco, que bate em toda a gente à volta, mas no fim não tem grande escapatória.

Coronel, para terminar, a Europa tem reforçado, de facto, a capacidade defensiva, estávamos a falar disso ainda há minutos. É, de facto, uma corrida contra o prejuízo face aos conflitos que estão em curso e aos atrasos que a Europa teve, também já nos explicou isso. Mas está mesmo a Europa preparada para responder às ameaças externas mais iminentes perante todo o cenário que se vive neste momento?

Está mais preparada do que estava, convenhamos, e acho que todos estamos de acordo com isso, está mais preparada do que estava há quatro anos. Que, de facto, não está preparada pra nada. Está preparada pra missões de paz. Nós aqui, inclusive, no nosso exército, o nosso formado era missões de paz, fazíamos missões de paz, aprendíamos a fazer missões de paz com capacete azul. As missões de guerra eram consideradas já de um outro tempo, um tempo antigo, um tempo bárbaro. Agora sim, está mais preparada, está a meter mais forças, está a se rearmar aos bocadinhos, está a aumentar a sua capacidade de produção de sistemas. Sei lá, neste momento até Portugal já fabrica drones que são usados na Ucrânia. Está realmente a melhorar. Agora, como eu disse há bocado, há capacidades que ainda não tem. Não tem capacidades de defesa antimíssil autónomas, então você depende dos Estados Unidos pra isto. Não tem capacidade de vigilância e de integração, vigilância de campo de batalha em satélites, tem alguma, mas não tem muita. E depois tem uma coisa que lhe falta bastante é integração, ou seja, apesar de terem muitos meios, os países da Europa têm muitos meios em conjunto, têm uma marinha muito maior que a da Rússia, têm muitos mais aviões que a Rússia, mas falta-lhe integração. Portanto, a integração é sistemas que no fundo tragam informação do campo de batalha até onde se decidem as coisas, informação, e para depois decidir ataques. Tudo isto é feito hoje em dia em países como os Estados Unidos ou como Israel, é feito em segundos. Portanto, essa integração de dados e depois a decisão dos alvos e dos meios que existem é tudo feito em segundos. A Europa não tem esta capacidade neste momento, falta-lhe isso e depois falta-lhe meios de ataque em profundidade. Apesar de ter aviões, os aviões levam homens e se o outro lado tiver uma defesa aérea muito forte, vai haver baixas, vai haver mortes. Enquanto países como a Rússia e o Irão atiram mísseis, e esses mísseis constituem uma maneira de atacar que não arrisca ninguém do próprio país, no fundo, é lançar umas bombas pro adversário, tem efeitos psicológicos e efeitos reais, porque os mísseis hoje em dia são muito precisos. Nós não temos isso ainda. E por isso, sim, ainda não estamos capazes de responder, vamos dizer, por exemplo, que a Rússia lança um míssil balístico sobre Varsóvia, por exemplo. A Europa não tem um míssil balístico capaz de atingir Varsóvia, não há nada. Tem mísseis balísticos de curto alcance, capaz de atingir Moscovo, quero dizer. Não há resposta a este tipo de ameaças. E precisamos de uma resposta a este tipo, porque se não tivermos uma resposta ao nível em que o inimigo nos ataca, somos obrigados a aumentar o nível de resposta. Isso sim, é escalada. Aí estamos a dar ao adversário um pretexto para também escalar. Enquanto se a resposta for equivalente, ele talvez não passe pra outro nível, pra outro patamar. Ou seja, quando não há meios de defesa, quando não há armas, estamos a estimular a agressão adversária. Quando ele sabe que nós também temos essa capacidade, hesita antes em usar.

Sim, portanto, é uma corrida contra o prejuízo que continue e que permite continuar a resposta.

Sim, mas estamos melhor do que estávamos. Estamos otimistas.

Obrigado, coronel José do Carmo.

Obrigado, eu.

Esta foi a história do dia. A sonoplastia é de Tomás Ferreira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.