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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Lula da Silva conseguiu uma reviravolta. E agora, como vai governar? Depois da primeira volta, Lula da Silva avisou.
Eu sou muito bom no mata-mata.
Na segunda volta, confirmou. Lula da Silva fez história e tornou-se o primeiro candidato à presidência do Brasil a conseguir uma virada.
É importante saber que é a primeira vez que virou no céu que virou, porque eu nunca ganhei eleição no primeiro turno, mas nunca perdi nenhuma no segundo turno.
Pela quarta vez, Lula Silva é eleito presidente do Brasil, mas a eleição está envolta em polêmica. Já para lá da hora prevista para o encerramento das urnas, o Supremo Tribunal Federal ordenou que fosse possível votar por mais duas horas em todo o país. A medida foi tomada depois de uma ação apresentada pela campanha de Lula, que alegou problemas no transporte público que estavam a dificultar a deslocação de eleitores para as mesas de voto. A campanha de Flávio Bolsonaro também tinha pedido o prolongamento da eleição, mas devido ao mau tempo em alguns municípios. Perante a derrota, no momento de falar ao país, Bolsonaro recusou-se a aceitar o resultado.
O que aconteceu hoje não foi algo normal, foi algo inclusive inaceitável. Isso nunca tinha acontecido na história do Brasil. Houve uma quebra total de isonomia entre os brasileiros de diversas cidades, de diferentes estados. E o que eu tenho que falar aqui agora é que é impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Vamos pedir a anulação dessas eleições. A gente não está aqui pra brincadeira.
Este prolongamento da votação vai certamente marcar as próximas semanas da política brasileira. Por agora, ficam os resultados. Com quase 52% dos votos, Lula da Silva segura a presidência do Brasil, mas tem pela frente uma governação complicada. O Congresso fica dominado por forças de direita. O Partido Liberal, do Bolsonaro, e outras forças políticas da direita têm a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado. Eu vou conversar com José Carlos Duarte, jornalista do Observador, que está no Rio de Janeiro, no Brasil, a acompanhar estas eleições. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de segunda-feira, 26 de outubro. Bem-vindo, Zé Carlos.
Olá, boa noite.
Zé, eu sei que as noites eleitorais são sempre de muito trabalho. É assim com todos os jornalistas, é assim quando acompanhamos à distância, como é o meu caso, mas é particularmente exigente quando estamos em reportagem no local, que é o teu caso. Mas, José, tu tens de reconhecer que estás num local privilegiado. Tu estás a falar de Copacabana.
Sim, falo mesmo a partir de Copacabana. Estou a cinco minutos a pé da praia, portanto estou muito próximo deste local icónico do Rio de Janeiro.
Maravilha!
Eu já lá fui acompanhar um bocadinho a noite eleitoral e ainda estava muita gente na rua. Portanto, aquele local também tem sempre pessoas, aquilo nunca está vazio.
Muito bem. Vencando aqui alguma inveja da minha parte, vamos avançar. Lula da Silva vence na segunda volta. Isto nunca aconteceu, é um resultado histórico, ou seja, o que nunca aconteceu foi alguém que fica em segundo na primeira volta, depois conseguir vencer. Foi a primeira vez que aconteceu, primeira virada da democracia brasileira. As sondagens apontavam para um empate técnico. Tu que estiveste nos últimos dias por diferentes pontos do Brasil, foste tendo a percepção de que esta viragem, esta reviravolta poderia acontecer?
Eu acho que sim, principalmente nos últimos dias, porque aquilo que eu notava, mas lá está, também podia estar numa bolha em certas regiões em que o PT é mais forte, é que as pessoas de esquerda estavam muito mobilizadas. Ou seja, as pessoas de esquerda tinham sempre roupas vermelhas, que é cor associada ao PT, tinham os autocolantes do 13, o número do Lula da Silva. Portanto, havia aqui quase uma percepção de que as ruas estavam sendo dominadas pelo PT e pela candidatura do Lula da Silva. No sábado, houve uma grande manifestação a favor do Lula da Silva aqui na praia de Copacabana e era realmente muita gente. Notava-se ali muita energia, notava-se ali que a campanha estava a fazer de tudo para mobilizar as ruas, para ter as ruas com elas e para dar um sinal de demonstração de força, de que vale a pena lutar, de que esta eleição ainda não está perdida, apesar de na primeira volta o Lula da Silva ter perdido. Eu acho que houve aqui realmente uma forte mobilização que eu fui notando, principalmente aqui no Rio de Janeiro, não tanto em São Paulo, mas aqui no Rio de Janeiro realmente notava-se muito esse esforço. Esse esforço de convencer os indecisos, esse esforço de levar a mensagem a mais pessoas, esse esforço de entregar, por exemplo, folhetos. Havia muita gente a dar folhetos na rua, esse esforço de haver sempre uma referência a uma bandeira de Lula. Por exemplo, ainda este domingo vi pessoas com bandeiras nos carros e não via tanto do outro lado, não via tanto do Flávio Bolsonaro. Havia realmente menos presença nas ruas e isso era realmente um contraste muito forte entre uma presença quase contínua de elementos associados a Lula e quase nula de Flávio.
Sim, e como é que foi a reação no Rio de Janeiro perante os resultados?
O que vi foi muito barulho, foi muito barulhento. O primeiro grande momento de explosão foi quando o Lula da Silva tem a segunda reviravolta, aquela reviravolta perto dos 40% dos votos contabilizados, em que fica mais ou menos garantido que ele podia vencer as eleições. É uma grande festa, fogo de artifício, buzinas de carros, pessoas aos gritos. E depois quando a vitória foi concretizada, quando houve a contagem dos votos e se percebeu que ele ia ganhar, eu estava na rua e realmente foi uma grande explosão. Pessoas iam aos varanda aos gritos, envergavam as bandeiras da candidatura do Lula, buzinas. Ou seja, ainda foi uma explosão maior do que aquela da primeira viragem. Portanto, houve realmente aqui uma grande energia e eu acho que realmente o facto de haver ali um período em que o Lula da Silva parecia que ia perder também deu mais força a essa manifestação.
Sim. Lula consegue um resultado histórico, nós já falamos disto, mas Há alguns obstáculos complicados pela frente. Vamos tentar ir por ordem, porque há um primeiro obstáculo que surge já desta noite eleitoral, deste dia de eleições. Flávio Bolsonaro, no discurso que fez depois de divulgados os resultados, não reconheceu esses resultados e anunciou que vai mesmo contestar a eleição por causa do prolongamento da hora de votação. Como é que esse prolongamento foi vivido no Brasil e o que é que podemos, de facto, esperar deste caso perante as reações que já foram surgindo?
Esse prolongamento foi visto com muita estranheza, porque eu acho que houve aqui uma sensação de caos. Porquê? A candidatura de Lula da Silva pede este adiamento cerca de uma hora antes das urnas encerrarem. Há uma hora, uma hora e 15 minutos antes de as urnas fecharem, este pedido. A candidatura de Flávio Bolsonaro vem subscrever este pedido, portanto também queria que as urnas fossem encerradas mais tarde e depois não há resposta. Não houve resposta do Tribunal Superior Eleitoral, não houve resposta do Supremo Tribunal Federal, portanto houve uma ausência de resposta. Bate 17h e ainda ninguém diz nada. E só diz às 17h04, quando quatro minutos depois dizem que afinal a decisão tinha sido validada e que as urnas só seriam encerradas às 19h. Houve aqui algo muito estranho ou foi realmente estranho este adiamento. De um lado e de outro, apesar de terem apoiado, houve uma sensação bastante incrédula, porque alguns locais já tinham sido encerrados e não foram reabertos e outros ficaram abertos. Foi uma sensação de algum caos. E relativamente ao obstáculo, realmente eu acho que Flávio Bolsonaro vai tentar por todos os meios anular a vitória, mas será bastante difícil. Porquê? Porque o Tribunal Superior Eleitoral já declarou que a vitória está validada, portanto é impossível voltar atrás com a palavra e o Supremo Tribunal Federal também deu o aval para que houvesse o adiamento duas horas. Ele, em termos judiciais, não terá uma vida muito fácil, mas agora, obviamente, o obstáculo poderá ser nas ruas, poderá ser através de mobilização popular, manifestações.
Era isso que eu queria falar contigo, porque de facto esta reação de Bolsonaro, da forma como foi, curta e clara, em que diz que não reconhece este resultado, perante um Brasil polarizado, que está polarizado há anos, e estamos a falar há anos desta situação que se vive no Brasil. E perante o que já aconteceu na última eleição, teme-se novamente essa agitação social e até problemas de segurança, como vimos depois de serem divulgados os resultados da eleição anterior?
Eu acho que existe um risco aqui de os apoiantes de Flávio Bolsonaro realmente cerrarem fileiras e tentarem algum tipo de iniciativa. Eu acho que não vai ser na dimensão de uma invasão da Praça dos Três Poderes, porque isso também já aconteceu. As autoridades estão prontas para isso, acho que não vão ser apanhadas desprevenidas, mas não se sabe até que ponto é que podem mobilizar as ruas, as redes sociais. Flávio Bolsonaro, apesar de ter perdido as eleições, ainda tem uma grande fatia do eleitorado com ele. Ele pode efetivamente mobilizar também as ruas e haver aqui alguns episódios de segurança. Eu acho que ainda é muito cedo para dizer, porque o próprio Flávio Bolsonaro foi muito curto, não revelou como é que ia fazer isso, mas eu acho que o facto de não aceitar os resultados não são boas notícias para o Lula Silva, acho que não, porque vai conturbar provavelmente os próximos meses e quem sabe o início do seu mandato. Flávio Bolsonaro tem metade do país com ele e é uma metade de um país que está convicta com ele. Lá está, é um país, como já foi dito, muito polarizado e que também pode não aceitar o resultado eleitoral. Aliás, Nikolas Ferreira, que é um dos principais rostos do bolsonarismo, já veio dizer que Lula não é o seu presidente e este deputado, que tem apenas 30 anos, mas que é uma das figuras mais influentes no bolsonarismo, tem impacto no que diz. A sua palavra chega a muita gente e eu acho que ainda é muito cedo para dizer, mas que pode gerar uma situação conturbada no Brasil, acho que sim.
Mesmo que se resolva esta questão, há aqui outro grande obstáculo para Lula. O Congresso Nacional, ou seja, a Câmara dos Deputados e o Senado, controlado pela direita. Perante este cenário, como é que Lula da Silva pode, de facto, governar?
Vai ser muito difícil. As negociações eu acho que vão ser muito difíceis e para ter uma ideia do quão obstáculo vai ser, um terço da Câmara dos Deputados é controlada pelo Partido Liberal, que é o partido de Flávio Bolsonaro e que não colabora de todo com o PT. Eu acho que vai ser muito complicado para Lula da Silva fazer acordos neste Congresso. Ele tem sempre o centrão, ou seja, aqueles partidos de centro que são moldáveis, que tanto se coligam à direita como à esquerda e que estão sempre numa dança com os dois lados. Mas o que é facto é que os partidos de centro também sabem que a esquerda está mais vulnerável. Também sabem que podem exigir mais e será muito difícil para Lula da Silva convencê-los a embarcarem numa agenda de esquerda, numa agenda de social-democrata. Acho que ele vai ter que governar muito paulatinamente, vai ter que ter muitos cuidados e vai desgastar-se. Eu acho que a imagem do governo vai ficar muito desgastada, porque vai estar sempre num processo de negociação constante. O PL vai obstaculizar tudo o que puder obstaculizar. Eu acho que é muito difícil que isso não aconteça. A matriz do partido é rejeitar tudo o que seja do PT. O centrão está numa situação mais complexa, porque por um lado sabe que pode ceder menos, porque tem mais poder de negociação, mas por outro também não quer dar a hegemonia ao PL. Lula da Silva vai ter que dar com uma e tirar com a outra e vai ser uma dança entre os partidos de esquerda e de centro para tentar chegar em um acordo, mas que vai ser mais difícil do que foi em qualquer altura dos mandatos de Lula. Acho que sim, que vai ser realmente um grande desafio para o presidente, porque o poder legislativo vai estar bastante controlado pela direita.
Vida difícil para Lula Silva, mas vitorioso na segunda volta e reeleito presidente do Brasil. Mais uma vez consegue ficar à frente dos destinos do Brasil. José, a tomada de posse é em janeiro, certo? Logo na primeira semana.
Exato, em vez de ser no primeiro dia do ano, que era a tradição, este ano mudaram a data e será 5 de janeiro, portanto será na primeira semana. Continua a ser no verão, é verão no Brasil, e será nesse dia que Lula da Silva vai assumir o próximo mandato enquanto presidente da República Brasileira e vai com 81 anos, portanto já uma idade bastante avançada e espera governar até 2030.
Estaremos muito atentos ao Brasil nas próximas semanas, certamente. Obrigado, José Carlos.
Obrigado.
O José Carlos Duarte é jornalista do Observador, enviado especial ao Brasil para fazer a cobertura destas eleições. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Gardete, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro, até amanhã.