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A reviravolta histórica de Lula da Silva nas eleições que Flávio Bolsonaro pretende anular nos tribunais

Lula reduz abstenção, mobilizando nas redes sociais e nas ruas indecisos para obter reviravolta. Flávio não aceita resultado e culpa juiz por decisão de adiar por duas horas o encerramento de urnas.

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Perdeu a primeira volta. Tinha a história eleitoral do Brasil contra ele. Tinha dois milhões de votos para conquistar. Apesar de partir em desvantagem, Lula da Silva acabou por vencer à segunda e sagrar-se vencedor nestas eleições presidenciais, preparando-se para assumir o quarto mandato em 2027. O candidato Flávio Bolsonaro não conseguiu manter a vantagem. Aliás, em 2022, o pai até conseguiu ser mais competitivo na segunda volta do que ele.

Diante da derrota eleitoral, Flávio Bolsonaro declarou que não “vai aceitar os resultados eleitorais”. O candidato que perdeu a segunda volta justificou a decisão com o adiamento de duas horas para encerrar as urnas (das 17h para as 19h) permitido pelo juiz do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin. “É impossível reconhecer os resultados destas eleições no contexto em que as coisas aconteceram”, afirmou. Num curto discurso, não deu mais detalhes sobre como vai avançar neste caminho.

Já Lula da Silva, em São Paulo, exaltou o resultado. “Nunca ganhei na primeira volta, mas nunca perdi no segundo turno”, celebrou, no discurso da vitória. Tendo chegado à presidência em 2003, demonstra, vinte e três anos depois, uma força invulgar nas urnas. Aos 80 anos, nestas eleições, em particular, estava em risco o seu legado — podia acabar a carreira política numa humilhante derrota. No entanto, o Presidente brasileiro mostrou que ainda consegue mobilizar as ruas, captar o centro e manter a base eleitoral fiel. A primeira volta foi um deslize do fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), que conseguiu sair por cima.

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▲ Apoiantes de Lula da Silva celebram vitória eleitoral

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O contexto era bastante desfavorável para o petista: os principais candidatos da primeira volta (como o escritor Augusto Cury ou Ronaldo Caiado) tinham declarado apoio a Flávio Bolsonaro. Mesmo assim, Lula da Silva correu atrás do prejuízo e chegou a um eleitorado-chave: os indecisos, os votos nulos, brancos e os abstencionistas na primeira volta. A abstenção na segunda volta diminuiu quase dois pontos percentuais (de 21 para 19) — e isso terá sido fundamental para selar a sua vitória.

Lula da Silva venceu com 51,79% dos votos, angariando mais de 64 milhões de votos — mais onze milhões do que na primeira volta. Já Flávio Bolsonaro ficou-se pelos 48,23% com 59,8 milhões (mais três do que na primeira volta). Foram cinco milhões de votos de diferença que separaram os dois candidatos. Ora, o pai, em 2022, conseguiu uma diferença mais ténue: dois milhões de votos. Algo não funcionou bem na campanha bolsonarista, especialmente o pouco alcance nos indecisos.

Para Flávio Bolsonaro, é um duro golpe. Não vai ser o próximo Presidente do Brasil, mas há algo mais importante do que isso: o pai vai continuar a cumprir a pena de 27 anos e três meses de prisão. A grande promessa do candidato do Partido Liberal (PL) nesta campanha consistia em libertar o pai, concedendo-lhe uma amnistia. Isso certamente não acontecerá com Lula da Silva. E esta derrota eleitoral do filho pode simbolizar o fim da dinastia de Bolsonaro — com outros líderes à direita a querer assumir o espaço ideológico.

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▲ Flávio Bolsonaro promete recorrer à Justiça

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Abstencionistas e o “Exército do Lula”. O que causou a reviravolta de Lula da Silva

A campanha de Lula da Silva tinha bem definido onde queria chegar: aos abstencionistas que não foram votar na primeira volta, em particular numa região, o Nordeste. Naquele bastião eleitoral, os aliados do Presidente sabiam que tinham de cativar aqueles que, no passado, já tinham votado nele, mas não tinham ido às urnas na primeira. Ora, houve um esforço de mobilizar esse eleitorado e teve resultados concretos: em todos os estados da região, o petista subiu no número de votos.

Nestas eleições, não só no Nordeste, mais três milhões de eleitores foram votar este domingo face à primeira volta. Os esforços de convocar eleitores às urnas resultaram. Para que isso acontecesse, contou com mobilizações de rua massivas nas principais cidades. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram palco de eventos que contaram com milhares de pessoas. Isso deu uma força que não tinha sido vista na primeira volta.

“Como sabem, visitei neste segundo turno todos os estados brasileiros. Mas foi sobretudo na Avenida Paulista [em São Paulo], é algo que ainda não acredito… A quantidade de gente, o entusiasmo, a emoção”, destacou Lula da Silva, recordando que ficou “boquiaberto”. O resultado foi, prosseguiu, um “menor número de abstenção e menor número de votos nulos”.

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▲ Celebração na Avenida Paulista

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Minas Gerais foi um dos estados em que a campanha de Lula da Silva mais se esforçou. Considerada um barómetro das eleições — o candidato que vence lá ganha as eleições —, o Presidente brasileiro tentou chegar a vários eleitores indecisos. A estratégia surtiu efeito: Minas Gerais tinha sido vencido por Flávio Bolsonaro na primeira volta, mas Lula da Silva reverteu esse resultado.

Nas redes sociais, o canal “Exército de Lula”, com quase dez milhões de inscritos, amplificava essa mobilização. No WhatsApp, bastante popular no Brasil, os apoiantes do petista organizaram-se para uma campanha digital que foi bastante bem-sucedida e que chegou a indecisos ou abstencionistas. Quem fazia parte do grupo era incentivado a ir votar, assim como se denunciavam as falhas de Flávio Bolsonaro e se tentou aumentar a rejeição do rival em potenciais eleitores.

No discurso da vitória, o chefe de Estado sublinhou mesmo o “papel exponencial” do “general” André Janones, o deputado que liderou a estratégia nas redes sociais da campanha. “Aumentou o moral das nossas tropas”, disse o Presidente brasileiro, que indicou que vai apostar na “comunicação digital” no novo mandato. Deixou ainda claro que não vai permitir “interferência de fora para dentro” — principalmente de empresas como a Meta, dona do Facebook e do WhatsApp — e prometeu regular as grandes tecnológicas.

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▲ Lula da Silva agradeceu a André Janones — o líder do "Exército do Lula"

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Antes da vitória, também é certo que o Presidente eleito anunciou uma série de medidas económicas para cativar os eleitores. Por exemplo, perdoou dívidas a microempreendedores, concedeu subsídios, antecipou os pagamentos do Bolsa Família e conseguiu uma importante vitória no Congresso: o fim da escala 6×1, isto é, todos os trabalhadores terão direito a dois dias de folga. Apesar de a taxa de reprovação do Governo se manter relativamente alta, Lula da Silva deu uma prova de vida de como ia manter a matriz trabalhista e de esquerda, que muitos eleitores apreciam.

Além disso, Lula da Silva voltou a um tópico que lhe permitiu sair vitorioso em 2022: associou a imagem de Flávio Bolsonaro a um retrocesso para a democracia. Por exemplo, a designação de “miliciano” foi uma constante na campanha. O Presidente eleito tentou ainda colar os falhanços do mandato do pai — como a gestão da pandemia — à pele do filho. O adversário tentava distanciar-se pontualmente (chegou a admitir que Jair Bolsonaro “não fez tudo” no tratamento da doença), mas assumia-se como herdeiro do bolsonarismo e fazia da libertação do pai da prisão uma das suas bandeiras.

O Presidente brasileiro conseguiu, desta forma, chegar aos eleitores de centro que não gostam de nenhum dos dois. Os dois lados têm ferrenhos apoiantes, se bem que haja uma franja da população que não vê qualidades positivas nos dois. Ora, Lula da Silva conseguiu dar argumentos de que votar em si era mais seguro e menos arriscado do que em Flávio Bolsonaro, que acenava com uma alternância no poder, ainda que na linha do pai.

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▲ Presidente brasileiro conseguiu chegar aos eleitores de centro

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Neste sentido, no discurso da vitória, Lula da Silva atirou contra o adversário. “É uma derrota contra o negacionismo e contra a mentira. Cada vez que ia debater com ele, ficava constrangido. Nunca pensei deparar-me com um representante do milicianismo”, disse. “Nunca pensei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez”, lamentou, lembrando novamente que a “democracia foi salva”.

Para além disso, a vitória de Lula da Silva quebrou os avanços de partidos de direita na América do Sul. Apoiados por Donald Trump, países como a Bolívia, o Chile e o Peru elegeram Presidentes de direita. A tendência do subcontinente é de viragem à direita — e os tempos mostram como forças políticas de direita radical estão cada vez mais fortes. Contudo, o Presidente eleito reverteu essa tendência e o Brasil continuará à esquerda.

O Congresso como adversário e o aviso a Trump: “O Brasil não será quintal para ninguém”

Nem tudo serão rosas, ainda assim. Apesar da magnitude da reviravolta em termos políticos, Lula da Silva vai ter várias dores de cabeça em 2027 para avançar com a sua agenda governativa. O Congresso vai estar controlado sobretudo pelos partidos de direita, com o Partido Liberal a ser a bancada parlamentar com mais representantes. A Câmara dos Deputados e o Senado vão tornar-se bastante mais hostis à presidência e prevê-se que tentem obstruir muitas das iniciativas do Governo. As negociações com o chamado ‘centrão’ (os partidos de centro, à direita do PT) poderão ser mais complicadas.

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▲ Celebração da vitória de Lula da Silva no Rio de Janeiro

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Nas negociações com Lula da Silva, os partidos de centro vão encarar a presidência como mais enfraquecida e, por isso, talvez fiquem menos dispostos a fazer concessões, e podem passar a exigir mais para chegarem a acordos. De qualquer forma, uma coisa é certa: com o Partido Liberal dificilmente haverá qualquer tipo de negociação.

No entanto, Lula da Silva parece não estar preocupado com isso, para já. “Eu não escolho o Congresso”, frisou, acrescentando: “Foi o povo, vou trabalhar com eles e vou aprovar as coisas”, prometeu, mesmo com um Congresso mais “conservador”. “Vamos mudar o jeito de governar este país. Quero dizer que vamos fazer o povo participar mais nas nossas decisões”, prometeu. Porém, será bastante difícil: o PL tem um terço na Câmara dos Deputados. E nestas eleições o partido elegeu vários governadores.

Em simultâneo, o Presidente brasileiro herda alguns escândalos, como o caso Master e os relacionados com o primogénito. Este último assunto foi trazido por Flávio Bolsonaro na reta final da campanha: alegadamente, o filho Lulinha terá favorecido negócios com privados junto de ministros do Governo do pai, algo que negou categoricamente. Ainda assim, a oposição certamente não deixará cair esses casos no futuro e vai continuar a usá-los para enfraquecer a presidência.

"Vamos mudar o jeito de governar este país. Quero dizer que vamos fazer o povo participar mais nas nossas decisões."
Lula da Silva, Presidente brasileiro

Em termos internacionais, a cooperação também não será fácil com os países em redor, com Presidentes mais à direita. “O Brasil não será quintal de ninguém”, afirmou também Lula da Silva, num recado para o homólogo norte-americano. Citou mesmo o seu “cantor favorito”, Chico Buarque: “Não vou falar fino com os Estados Unidos e forte com a Bolívia”. Para uma Casa Branca que quer assumir o domínio do Hemisfério Ocidental, o Brasil — enquanto maior país na América Latina —, será uma pedra no sapato para a administração Trump. As divergências poderão intensificar-se entre Brasília e Washington.

Flávio Bolsonaro não aceita derrota eleitoral: “Sacanagem”

Em Brasília, Flávio Bolsonaro teve uma curta declaração na noite deste domingo. O candidato esperava uma vitória — afinal, tinha vencido a primeira volta. A expectativa era de que seria coroado na presidência e que a campanha para a segunda volta seria um passeio no parque. Mas isso não aconteceu. E o filho de Jair Bolsonaro não fez qualquer crítica interna; em vez disso, criticou duramente o Supremo Tribunal Federal (STF) por ter adiado por duas horas o encerramento das urnas e garantiu que não aceita o resultado eleitoral.

“Nós vamos usar o nosso jurídico. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo e pelos amigos do Lula do Supremo Tribunal Federal. É inexplicável isso ter acontecido”, declarou Flávio Bolsonaro. Em causa, está a decisão do juiz e que foi eleito por Lula da Silva para a instituição tendo também sido advogado do Presidente brasileiro no passado: Cristiano Zanin.

"Nós vamos usar o nosso jurídico. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo e pelos amigos do Lula do Supremo Tribunal Federal. É inexplicável isso ter acontecido."
Flávio Bolsonaro, candidato às eleições presidenciais

O candidato do PL referiu que “nunca vai saber se num estado onde as urnas não foram reabertas, quantos votos eu poderia ter”. “É inexplicável o que aconteceu, inclusive nas palavras de algum ministro [juiz] aí que a própria imprensa publicou, as eleições deveriam ter sido anuladas nas condições que as coisas aconteceram”, defendeu, acrescentando que os membros do seu partido também foram expulsos das mesas de voto: “Sacanagem”. Há quatro anos, também Jair Bolsonaro não reconheceu na íntegra a vitória de Lula da Silva — e isso deu origem à invasão da Praça dos Três Poderes, em janeiro de 2023 e à condenação judicial do ex-Presidente por tentativa de golpe de Estado.

A iniciativa inicial de adiar as eleições partiu efetivamente da candidatura de Lula da Silva, que argumentou que, em alguns estados como São Paulo, não tinha havido suficientes transportes públicos para os eleitores irem votar. Seguidamente, a campanha de Flávio Bolsonaro também não esteve contra — e lembrou que, fruto das intensas chuvas que caíram em algumas regiões, isso podia causar atrasos a possíveis eleitores. Essa sinalização do candidato do PL foi fundamental para Cristiano Zanin avançar com a decisão — o juiz, no comunicado que emitiu, reconheceu que avançou com o atraso precisamente porque as duas candidaturas estavam de acordo.

No entanto, mesmo antes de serem conhecidos os resultados, várias vozes da órbita de Flávio Bolsonaro já questionavam a decisão judicial. O deputado Nikolas Ferreira — bastante próximo do candidato — veio declarar que este adiamento ia beneficiar Lula da Silva. Comparando com o mundo do futebol, referiu que o chefe de Estado estava a usar o “prolongamento” dado pelo STF para ganhar votos. Outro deputado, Lucas Pavanato, avisou: “Entendam: nessa eleição não aceitamos ‘perder’”.

Que rumo vai tomar Flávio Bolsonaro após esta derrota ainda não é claro. O Tribunal Superior Eleitoral já legitimou esta eleição. A decisão de adiar o fecho dos locais de voto partiu para o Supremo Tribunal com o aval do PL. Tendo em conta que as instâncias judiciais brasileiras parecem ter validado a vitória de Lula da Silva, restam poucas opções para o candidato do PL. Sobram sempre as ruas e a mobilização popular: apesar de ter perdido as eleições, o candidato ainda mantém leais apoiantes.

Servindo como uma espécie de correia de transmissão informal de Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira já deixou claro que para ele — que tem milhões de seguidores nas redes sociais — Lula da Silva não é o seu “Presidente”. “Mudar a regra do jogo no meio dele não é democrático. Que tudo seja esclarecido”, pediu. Vozes idênticas do movimento bolsonarista estão a replicar esta posição, ainda que também haja quem esteja dentro do bolsonarismo — como o pastor Silas Malafaia —, que reconhece a vitória do Presidente eleito.

É o fim da linha para o clã Bolsonaro?

A derrota do filho de Jair Bolsonaro simboliza um duro revés para o movimento. Depois da derrota em 2022 e mesmo com bons resultados a níveis regionais, o Partido Liberal falhou a presidência. Nem mesmo com um candidato como Flávio Bolsonaro, que projetava alguma moderação, chegou novamente ao Palácio do Planalto. A primeira volta correu de feição — mas, na segunda, a candidatura não conseguiu responder contra a vaga de mobilização da campanha de Lula da Silva.

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▲ Flávio Bolsonaro não conseguiu manter vantagem da primeira volta

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A candidatura do PL até aumentou o número de votos, tendo recebido mais três milhões. Mas isso parece ter ficado aquém das expectativas: o candidato tinha a terceira via praticamente toda com ele — que condensava mais de oito milhões e meio de votos. Flávio Bolsonaro herdou pouco mais de um terço dessa votação e não conseguiu assegurar a maioria da transferência de voto. O voto de centro parece ter sido conquistado por Lula da Silva.

Apesar de manter a base eleitoral com ele, Flávio Bolsonaro parece também não ter mobilizado tão eficazmente os indecisos ou aqueles que não tinham votado nele na primeira volta. As associações à governação do pai, de que nunca se descolou verdadeiramente, assim como alguns escândalos em volta da sua imagem — como a suposta defesa das milícias e os elogios que já teceu à ditadura militar —, terão assustado os mais moderados. A questão da “salvação da democracia” e a memória da gestão da pandemia de Jair Bolsonaro transformaram-se em obstáculos que o candidato não conseguiu superar.

Depois da vitória surpreendente na primeira volta (contra o que preconizavam as sondagens), já havia também a sensação de quase vitória entre a campanha bolsonarista. Isso talvez tenha feito Flávio Bolsonaro baixar a guarda e não apostar em ações de rua e na presença digital, como fez Lula da Silva. Os próprios eleitores bolsonaristas — ou simpatizantes — podem ter sentido que a vitória estava garantida e, por causa disso, podem não ter ido votar este domingo.

epa12349698 Brazil's former president Jair Bolsonaro waves from inside his residence in Brasilia, Brazil, 03 September 2025. Bolsonaro's defense team denied before the Supreme Court that the former Brazilian president participated in a coup plot and reduced the prosecution's accusation to 'suppositions' in a session that has left the trial ready for sentencing.  EPA/SEBASTIAO MOREIRA

▲ Possibilidade de amnistia a Jair Bolsonaro desaparece com a derrota do filho

SEBASTIAO MOREIRA/EPA

A derrota do filho é uma péssima notícia para o pai. Jair Bolsonaro não terá certamente uma amnistia — Lula da Silva garantiu na noite deste domingo que o “criminoso continuará preso”. A grande esperança da defesa do antigo chefe de Estado — condenado por tentativa de golpe de Estado — consistia num indulto presidencial. Sem Flávio na presidência, isso não se concretizará. E isso coloca em risco, na mesma linha, o futuro da dinastia Bolsonaro: deve ser o movimento transferido para alguém fora da família?

Antes de ser eleito candidato do PL, Flávio Bolsonaro manteve, nos bastidores, uma luta contra a madrasta, Michelle Bolsonaro, que também queria chegar à presidência. Mas havia outros aparentes herdeiros do movimento que ficou sem líder com a prisão de Jair Bolsonaro na corrida. Um dos nomes de que mais se falava era do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Uma figura mais consensual, mas que acabou por não ser escolhida.

Mesmo que conteste a vitória de Lula da Silva e que avance com processos judiciais, a direita brasileira terá de entrar em processo de reflexão: vai continuar a apostar em nomes da família Bolsonaro no futuro para a presidência? A estratégia resultou uma vez, mas falhou duas. Outros nomes pretendem obter reconhecimento e julgam que o clã — seja o pai, a mulher do pai ou o filho — já teve oportunidades de sobra. E, mesmo com o domínio regional e parlamentar, não consegue alcançar a tão desejada vitória.

▲ Tarcísio de Freitas pode ser rival ao clã Bolsonaro à direita

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Apesar de a presidência ser de Lula da Silva, o Partido Liberal vai continuar a ser a força mais presente no Congresso e vai não apenas obstaculizar as iniciativas de Lula da Silva, como se vai continuar a afirmar como principal força da oposição ao Governo brasileiro. Desse prisma, a direita brasileira ainda vai ter algum espaço de manobra para se solidificar e pensar como vai decidir a sucessão em 2030 — com Jair Bolsonaro certamente fora da equação.

Lula da Silva acredita ter sido “o escolhido de Deus” para guiar o Brasil, agradecendo aos eleitores pela “honra, nacionalismo e defesa da democracia” que significou o voto na sua candidatura. À beira de fazer 81 anos, na terça-feira, o Presidente brasileiro assumiu o compromisso de fazer “o melhor que um Presidente já fez na História”. Porém, continua a liderar um país polarizado, com vários inimigos em cargos de destaque e com Flávio Bolsonaro a tentar minar o seu novo mandato no Palácio do Planalto.

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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