Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. Lula da Silva deve temer o regresso de Bolsonaro ao Brasil?
Bolsonaro, é o seguinte, o que todo mundo está querendo saber é se você vai voltar mesmo. Parece que quinta-feira, não é isso?
Foi uma entrevista surpresa, na segunda-feira, ao programa Pânico, da Jovem Pan. Jair Bolsonaro confirma que regressa ao Brasil a 30 de março, esta quinta-feira, exatamente três meses depois de abandonar o país.
Com previsão de pousar 7:15 da manhã em Brasília.
É um regresso anunciado e depois adiado por causa da polêmica das joias sauditas. E agora acontece depois daquela que pode ter sido a pior semana do mandato de Lula da Silva. Que oposição esteve Bolsonaro a preparar nestes três meses nos Estados Unidos? E que planos tem para assumir a liderança da direita brasileira, que outros tentam já ocupar? Hoje vou conversar com João Gabriel de Lima, jornalista, escritor e colunista do jornal Estadão. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia. Bem-vindo, João.
Muito obrigado. Sempre um prazer estar aqui.
Por que Jair Bolsonaro regressa agora ao Brasil?
Quando o Bolsonaro perdeu as eleições, depois que ele aceitou a derrota, que foi um processo psicológico complicado para ele, como a gente viu, ele já havia declarado que ele gostaria de se tornar o líder da oposição ao governo Lula. E ele volta para assumir esse posto. Ele vai tentar assumir esse posto, ele vai enfrentar toda uma disputa interna. E ele demorou para voltar, principalmente porque ele está consciente que vai enfrentar uma maratona de processos jurídicos, processos administrativos e investigações. Tem um levantamento do jornal O Globo, que mostra que há 160 processos contra o Bolsonaro. É o recorde de presidentes do Brasil, desde a redemocratização. Cento e sessenta é mais que o dobro que Fernando Henrique ou Lula, mesmo levando em consideração que esses dois presidentes tiveram dois mandatos. Em um único mandato, o Bolsonaro foi mais processado. Os advogados dele, ele consultou muitos advogados, disseram que a chance dele ser preso, dele ser detido e ir para a cadeia, são remotas nesses processos, mas que existe uma chance considerável de ele se tornar inelegível por um período. E ele vem para enfrentar esses processos e vem para tentar assumir a liderança da oposição.
Me acusam, me crucificam por um presente que eu não recebi, nem a primeira-dama. Até o valor daquilo foi uma surpresa para mim. Dezesseis milhões, que estão dizendo no Brasil, eu não sei.
Este regresso já estava previsto, mas foi um pouco adiado por causa de umas joias. Afinal, que joias são estas?
Foi em outubro de 2021, um ministro do governo Bolsonaro, chamado Bento Albuquerque, fez uma visita de Estado à Arábia Saudita. Na volta, ao chegar no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, que é o principal hub de aeroportos do Brasil, eram duas caixas de joias, uma dessas caixas foi apreendida no aeroporto. Por quê? Bom, pelo regulamento da alfândega brasileira, você precisa declarar bens superiores a um determinado valor e esses eram muito superiores, era uma caixa de joias no valor de €3 milhões. Se não declarar, tem que pagar uma multa muito alta, que seria de €1,5 milhão, no caso. Essas joias foram apreendidas, o ministro Bento Albuquerque tentou liberar, disse na ocasião, e tem um áudio gravado, tem um áudio que foi exibido em vários portais, em que ele disse que as joias eram presente do governo da Arábia Saudita para a primeira-dama Michelle Bolsonaro.
A joia não era do presidente Bolsonaro. Deveria ser para a primeira-dama.
Em geral, são joias femininas, são joias muito bonitas, tem um colar de diamantes, é a joia mais valiosa do pacote. Agora, o que tornou isso um grande caso, ele foi revelado, foi um furo de reportagem do Estado de São Paulo. O que tornou isso um caso momentoso, foi o fato de que o ex-presidente Bolsonaro, por oito vezes, tentou recuperar essas joias.
Essa tal caixa, que tinha, por exemplo, esse colar, ele queria mesmo recuperar, mas sem pagar a multa.
Queria recuperar sem pagar a multa. E ao que tudo indica, para incorporar aos seus bens pessoais, porque a outra caixa, que tinha um valor muito menor, €90 mil, e que tinha um relógio e mais algumas joias masculinas, realmente chegou às mãos do ex-presidente Bolsonaro e ele ficou com elas, ele não declarou, ele só devolveu agora, quando ele foi obrigado a isso pelo Tribunal de Contas da União.
E, entretanto, apareceu uma terceira caixa.
Sim, essa terceira caixa apareceu nessa terça-feira. Essa terceira caixa foi um presente oficial que ele recebeu do governo da Arábia Saudita numa visita que ele fez em 2019. Também tem um relógio lindo, recomendo ver as fotos, é um Rolex todo cravejado de diamantes.
E esse é que é o problema? Nós estamos a falar aqui de joias de mais de €3 milhões em joias sauditas. Bolsonaro pode ficar com esses presentes?
Não, ele não pode. Pela lei brasileira, um presidente da República que recebe presentes, na verdade, isso é uma regra que foi feita em 2016. Por quê? Todos os presidentes brasileiros recebiam presentes e alguns ficavam com esses presentes. Há casos assim com Lula, com Dilma, com vários outros presidentes. Então, em 2016, o Tribunal de Contas brasileiro fez uma regra: não pode ficar com presentes acima de um determinado valor. Qual determinado valor? Não é estipulado, mas é colocado no regulamento o seguinte: tem que ser presente só de valor pessoal e valor baixo. E o próprio presidente do Tribunal de Contas da União, Bruno Dantas, numa entrevista por esses dias, deu um exemplo. Ele falou Camisas de futebol ou bebidas locais. Por exemplo, se Bolsonaro viesse a Portugal e ganhasse uma camisa do Benfica e uma garrafa de Amarguinha, ele poderia levar pra casa dele e ficar com esses presentes. Agora, joias não, porque é um presente de valor alto, ainda mais 3 milhões de euros em joias.
Esta polêmica fez com que pusesse um pouquinho o regresso em espera, mas depois uma sondagem mostrou-lhe que não tinha tido assim tanto impacto junto dos seus apoiantes e, portanto, pode voltar.
Sim, o Bolsonaro ficou com medo de ter um derretimento muito grande de popularidade entre os seus apoiantes. Por quê? Porque, como eu falei, há muitos processos contra o ex-presidente Bolsonaro, mas às vezes são coisas meio difíceis do eleitor médio entender. Então, por exemplo, desvio de dinheiro na compra de vacinas, é um dos processos contra o ex-presidente Bolsonaro, é de prevaricação, ou seja, ele soube desse desvio, houve roubo de dinheiro na compra de vacinas da Covid, ele sabia e não denunciou. É uma coisa um pouco mais complicada. Agora, joia, todo mundo sabe o que é. Todo mundo tem joias em casa ou gostaria de ter joias em casa, na verdade, a maior parte dos brasileiros não tem joias nesse valor em casa. É uma coisa muito fácil de entender. As sondagens deram que o ex-presidente Bolsonaro perdeu, sim, muitos apoiantes entre aqueles que votaram nele, porque não queriam Lula da Silva. Mas entre os apoiantes-
A base de apoio
...a base de apoio dele, a queda de popularidade foi muito pequena, foi menos de 5%.
Já voltamos à conversa com o jornalista João Gabriel de Lima. Vamos tentar perceber que estratégia interna Bolsonaro vai seguir no Brasil e que impacto terá no atual momento político de Lula da Silva. Deixe-me aproveitar este intervalo para lhe fazer uma sugestão. É o Sargento na Cela 7, um podcast do Observador sobre a história incrível de António Lobato, um militar enviado para a guerra da Guiné nos anos 60, que foi capturado por guerrilheiros do PAIGC e tornou-se o prisioneiro português que mais tempo esteve em cativeiro. O terceiro episódio desta história já está disponível. E se gosta de uma boa história com ação, suspense e também amor, confia em mim, não pode perder. O Sargento na Cela 7 está disponível no site do Observador e nas plataformas de podcast. Estamos de regresso a esta conversa com o jornalista e escritor João Gabriel de Lima. João, passaram três meses de ausência de Bolsonaro no Brasil. O que o ex-presidente andou a fazer durante este tempo todo fora do país?
Entre outras coisas, ele participou da Conferência de Ação Política Conservadora nos Estados Unidos, junto com o filho dele, Eduardo Bolsonaro. Eduardo, que tem muitos contatos internacionais, recomendou ao pai que aproveitasse o período fora do Brasil pra fazer contatos com líderes da direita europeia, mais especificamente do que se chama ultradireita, a direita radical. Nomeadamente, ele achava que o Bolsonaro deveria falar com o André Ventura em Portugal, com o Santiago Abascal na Espanha e com Giorgia Meloni na Itália. Esses contatos foram feitos. E na conversa com o André Ventura, André Ventura disse a Bolsonaro: "Não apenas eu gostaria de conversar com você, como eu gostaria de convidá-lo para uma grande conferência da direita que farei em maio, em Lisboa".
Gostaríamos muito de ter em Portugal, quer o antigo presidente norte-americano, como o antigo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.
Disse estar fazendo com esses convites e que Bolsonaro é um convidado muito especial, porque, segundo André Ventura, cito quase literalmente o que ele disse, há muitos eleitores de Bolsonaro em Portugal que saíram do Brasil por causa do socialismo. Então André Ventura acha que Bolsonaro é um convidado importante. É possível que Bolsonaro venha a essa conferência que esteja em maio aqui em Portugal.
E o que Bolsonaro ganha com essa aproximação, esses partidos da direita radical europeia?
De acordo com Eduardo Bolsonaro, a grande utilidade disso é a troca de experiências de como travar o combate político. Afiliação a esse campo da ultradireita, por parte de Jair Bolsonaro, delimita também um pouco o espaço dele dentro da política brasileira. Aqui na Europa a gente tem visto uma luta muito grande entre a ultradireita e a direita moderada ou a centro-direita. Isso acontece em Portugal, na Espanha, de forma muito forte agora. Vai ter eleições na Espanha esse ano, o Abascal tem concentrado praticamente todos os seus ataques contra o Partido Popular, na Espanha. E no Brasil você tem um pouco também essa divisão. Você tem uma direita tradicional, uma centro-direita, que é um espaço que era ocupado pelo PSDB, e agora esses líderes, com a ausência de Jair Bolsonaro, estão aproveitando pra ganhar espaço na política brasileira.
Por ausência de liderança de direita no Brasil, eu me vejo na obrigação de coordenar essas novas lideranças que têm surgido pra que o Brasil-
E esse é um problema pra Jair Bolsonaro, porque ele está a fazer essa estratégia na Europa e exteriormente, mas interiormente, dentro do Brasil, quero dizer, ele quer ser líder de toda a direita, incluindo a moderada. Isso vai ser fácil?
Ele vai enfrentar muita concorrência e muita competição. Tem um concorrente muito interessante e muito forte agora pra Jair Bolsonaro, que é o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. São Paulo, durante 28 anos, foi governado pelo PSDB, pela direita moderada. É um estado acostumado a votar na centro-direita, inclusive em eleições presidenciais. Tarcísio se elegeu em São Paulo, porque seu oponente no segundo turno era o candidato do PT, que é hoje ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Ganhou um pouco no voto útil, mas Tarcísio percebeu que o eleitor paulista prefere uma direita moderada à própria direita radical de Jair Bolsonaro E ele vai moderando o seu discurso, ele se aproximou e chegou a posar para fotos com o presidente Lula, em ações conjuntas relativas a obras públicas em São Paulo. Ele tem mostrado uma postura bastante mais centrista.
Que agrada mais à direita clássica?
Que agrada mais à direita clássica, que agrada mais ao eleitor paulista. Nunca é demais lembrar que São Paulo tem 20% dos eleitores do Brasil. Essa direita moderada quer espaço, quer recuperar o seu espaço e Jair Bolsonaro terá que enfrentá-los para conseguir a hegemonia no campo das direitas.
Se conseguir essa hegemonia, que tipo de oposição é que ele se prepara para fazer a Lula da Silva?
Os correligionários de Jair Bolsonaro, os estrategistas de Jair Bolsonaro, e que querem justamente pegar essa direita mais moderada, sugeriram a Jair Bolsonaro que faça uma oposição muito na área econômica, porque o Brasil está com uma inflação crescente. Uma das fraquezas do atual presidente Lula, é que ele não conseguiu até agora apresentar um plano consistente de contas públicas. Com isso, os juros não baixam, com isso a inflação continua alta, com isso os preços continuam subindo e os brasileiros vão ao supermercado não conseguem comprar as coisas. Então os correligionários de Jair Bolsonaro gostariam que a oposição se concentrasse nessa questão econômica, que seria uma oposição bastante eficiente. Mas conhecendo Jair Bolsonaro, é muito legítimo supor que vai ser uma oposição muito violenta, vai ser uma oposição muito baseada em ofensas, em xingamentos, em acusações de corrupção e até em fake news. Uma das fake news muito usadas por Jair Bolsonaro na sua campanha eleitoral, foi uma tentativa de aproximar o PT de grupos do crime organizado, como o PCC, que é o principal grupo de crime organizado do Brasil, uma espécie de uma máfia brasileira. Então esse tipo de golpe abaixo da cintura, como se diz na linguagem do boxe, é muito caro ao estilo de Jair Bolsonaro. É muito possível que a oposição seja por aí.
A verdade é que Bolsonaro regressa numa fase de alguma fragilidade para Lula da Silva, mesmo em termos de popularidade, depois de uma semana que particularmente não lhe correu nada bem.
A semana passada foi considerada por todos os analistas políticos, ou a maioria deles, como a pior semana para o atual presidente Lula. Por quê? O primeiro motivo, eu já disse, o fato dele ter adiado a apresentação do seu plano fiscal, que estava previsto para agora, e ele não adiou, simplesmente porque ele não conseguiu consenso dentro do próprio partido, o que é grave, isso gera incertezas. Segundo, e tem a ver com essa questão do crime organizado, por uma declaração extremamente infeliz do presidente Lula, que repercutiu mal, inclusive entre seus correligionários, que foi o seguinte: a Polícia Federal, que é um órgão do governo federal e comandada pelo ministro da Justiça de Lula, desbaratou um plano de sequestro de autoridades por parte do PCC, dessa facção criminosa. Um dos que seriam sequestrados seria a nêmesis do atual presidente Lula, que é o juiz Sérgio Moro. Foi tudo muito bonito e muito elogável. Só que o presidente Lula, em vez de elogiar a operação feita pela própria polícia do governo dele, criticou a operação e disse que aquilo podia ser uma conspiração do próprio Sérgio Moro contra o governo.
Eu acho que é mais uma armação do Moro, mas eu quero ser cauteloso. Eu vou descobrir o que aconteceu. É visível que é uma armação do Moro.
Essa declaração repercutiu muito mal. Foi o presidente falando mal de um órgão do seu próprio governo e mostrando um pouco que ainda não superou a mágoa pessoal que ele sente em relação ao juiz Sérgio Moro, que afinal é um senador da República hoje. Então esse foi o segundo motivo da má semana do Lula. A última foi motivo de saúde, ele pegou uma pneumonia e não pôde viajar à China, que era uma viagem de Estado muito importante. A China há 20 anos, ou seja, desde que Lula chegou, superou os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil. É quem mais compra produtos brasileiros. Como a gente sabe, o Brasil é um grande produtor agrícola, de pecuária e também de commodities como petróleo, ferro, e a China compra muito tudo isso. O Brasil precisa muito da China e de uma boa relação com a China. E infelizmente para Lula, porque seria uma grande notícia do ponto de vista internacional, de política externa, ele também não pôde ir à China. Está em Brasília se recuperando. Ao que parece, não é uma pneumonia tão grave, então logo ele estará de volta.
Então estando Lula da Silva nesse momento de fragilidade e com aquilo que se pode antecipar da oposição que Bolsonaro vai fazer, há, afinal, razão para o presidente do Brasil temer este regresso?
Do ponto de vista de popularidade, quer dizer, com todas essas críticas que o presidente Lula sofreu essa semana, que foram muito fortes, a popularidade dele ainda está estável, ainda é alta. A avaliação de ótimo e bom do governo dele é 41%. Dado que o Brasil é um país meio rachado ao meio.
Não está mal.
Não está mal. Estando mais ou menos perto dos 50%, é uma popularidade boa. Mas eu vejo, aí uma opinião pessoal, que tudo depende muito do próprio Lula. Se um presidente faz um bom governo, ele não tem por quê temer uma oposição forte. Agora, se o governo não está funcionando do jeito que se gostaria que estivesse, é um problema. Então vai depender muito como o Lula vai levar daqui para frente. O Lula teve algumas vitórias, especialmente em relação à política externa. Então o Lula teve ganhos na diplomacia, o que é importante, mas a área econômica continua patinando. E isso é uma questão que eu acho que vai determinar daqui para frente o sucesso ou fracasso de Lula. Se as pessoas conseguem comprar comida no supermercado, se os preços não sobem, elas sentem que estão num bom governo. Se elas não conseguem, isso é um problema.
Obrigada, João.
Eu que agradeço. Sempre uma honra participar.
João Gabriel de Lima é jornalista, escritor e colunista do jornal Estadão. Esta foi a história do dia. Os sons de Jair Bolsonaro, Lula da Silva e André Ventura foram registrados pela Jovem Pan, RTP e canal UOL. A sonoplastia é de Beatriz Martelo Garcia. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.