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“Se Trump mandasse nos Estados Unidos em 1939, acho que seria aliado de Hitler. E, ao lado do gueto de Varsóvia, Witkoff e Kushner teriam construído um complexo de hotéis de luxo.” As palavras, ditas por membro dos serviços secretos ucranianos a um jornalista da Economist, ilustram bem o nível de indignação de Kiev face às últimas declarações e ações do Presidente norte-americano.
Feelings in Kyiv running very high following latest. “If Trump had been running United States back in 1939, I think he would have been Hitler’s ally,” says an intelligence source. “And on the site of the Warsaw Ghetto, Witkoff and Kushner would have built a posh hotel complex.” https://t.co/3s5hCipiMu
— Oliver Carroll (@olliecarroll) October 14, 2026
Ao longo das últimas semanas, o nível de tensão entre Trump e o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, escalou. Tudo começou com o anúncio por parte do Presidente norte-americano de um acordo energético entre EUA e Rússia, seguido de uma garantia de cessar-fogo — que foi rapidamente quebrado por Moscovo. Depois, vieram as ameaças, com Trump a sugerir que a Ucrânia devia mudar de chefe de Estado.
Ucrânia. O “acordo do gasóleo”, a exigência de eleições e a rutura Trump-Zelensky
Esta semana, a situação deteriorou-se ainda mais. Primeiro, o sistema Starlink (detido por Elon Musk) registou falhas na frente de combate; depois, os ucranianos denunciaram falhas nas informações militares fornecidas regularmente pelos serviços secretos norte-americanos; por fim, Trump voltou a adiar a imposição de sanções à Rússia. E, pelo meio, os dois líderes trocaram palavras amargas.
Uma “deterioração” que a vice-diretora do Centro para a Eurásia do Atlantic Council, Shelby Magid, considera “profundamente preocupante”. “Trump parece estar a virar a atenção e a culpa para a Ucrânia, talvez para desviar a atenção dos problemas que enfrenta no Irão”, diz a especialista ao Observador. Já a reação de Zelensky, considera, “é completamente compreensível e reflete o ambiente que se vive na Ucrânia”. “Zelensky e a sua equipa sabem que têm de manter um equilíbrio entre defender a Ucrânia e preservar uma relação crítica com os EUA. Mas a sua vontade para falar de forma franca também ajuda a mostrar aos norte-americanos e à comunidade internacional no geral o que está em causa”, acrescenta Magid.
A grande dúvida, porém, é uma: a relação entre Trump e Zelensky quebrou definitivamente? Ou, tal como aconteceu depois do malfadado encontro na Sala Oval em 2025, ainda é possível voltar atrás?
A quebra no serviço do Starlink. “Isto para nós é como um ataque nuclear”
Os soldados ucranianos notaram as primeiras falhas na terça-feira à noite. Quando um drone ultrapassava a velocidade de 160 quilómetros por hora, o sistema Starlink desligava.
O pânico instalou-se entre as forças na frente de combate. Sem o sistema de comunicações de satélite da SpaceX, não é possível operar drones de reconhecimento nem intercetar projéteis russos. E o sistema continuou em baixo durante horas. “Isto para nós é como um ataque nuclear. Todas as operações estão suspensas. Isto vai custar muitas vidas”, confessou um responsável militar ucraniano ao Politico.
▲ O sistema Starlink é essencial para usar drones de reconhecimento na frente de guerra
Getty Images
Kiev apressou-se a apontar o dedo aos Estados Unidos: “Esta ação não pode ser uma coincidência, está ligada à atual situação política”, declarou um dos conselheiros de Zelensky, Serhiy Beskrestnov.
Horas mais tarde, Elon Musk, dono da SpaceX, sacudia responsabilidades: “Os sistemas Starshield são propriedade do Governo norte-americano e controlados por ele. Quaisquer limites à velocidade ou utilização são decididos pelo Exército norte-americano e, em última análise, pelo Presidente dos Estados Unidos.” Mas Donald Trump apressou-se a responder: “Verifiquei esta manhã, não fomos nós”, disse na quarta-feira. “Nem sei se foi alguém, porque não fui eu e não acho que tenha sido o Elon.” Na quinta-feira, o sistema voltou a estar operacional.
No dia seguinte, porém, o jornal britânico Telegraph divulgou que o próprio Elon Musk terá pedido ao Presidente norte-americano para que fossem introduzidos limites à velocidade do Starlink na Ucrânia, citando quatro fontes anónimas. “Ele escreveu um tweet a dizer que é inocente e que foi a administração que o fez. A realidade é que foram ambos”, disse uma das fontes.
Zelensky reconheceu entretanto que o sistema voltou a estar funcional, mas, segundo o Presidente ucraniano, continua a ter limitações. “O meu ministro da Defesa está em contacto [com os EUA] e dizem-me que há sinais da Casa Branca de que os sistemas voltarão a ter todas as capacidades. Voltaram a ter os limites de velocidade que tinham antes? Não. Mas está a voltar? Sim”, esclareceu o Presidente.
Se as falhas persistirem, porém, a capacidade de defesa da Ucrânia pode ficar comprometida, alertam vários especialistas. “O Starlink também é usado pelos intercetores que protegem as cidades ucranianas dos Shaheds russos modificados. Sem essa proteção, os drones russos vão atingir edifícios residenciais, hospitais e escolas, como alvos numa carreira de tiro”, avisou Oleksandra Matviichuk, advogada de direitos humanos ucraniana. “Deixem-me ser franca: o sangue das crianças ucranianas estará nas mãos do dono [da Starlink] e de toda a equipa desta empresa norte-americana.”
Ukrainian soldiers and people associated with the military are reporting restrictions on Starlink service. Likely on the direct orders of Elon Musk. Despite the fact that Ukraine pays him for these services.
How this will help Russia, which is currently losing occupied… pic.twitter.com/anJcAnmg3I
— Oleksandra Matviichuk (@avalaina) October 14, 2026
Esta quarta-feira, os efeitos das falhas do sistema já se fizeram sentir. A Rússia levou a cabo um ataque com 39 mísseis balísticos, um dos maiores desde o início da guerra em 2022, segundo o New York Times. Na capital ucraniana, 600 mil pessoas ficaram sem eletricidade — um método de guerra russo conhecido por sodcit, que prevê a destruição de infraestruturas críticas de um país, levando a população à exaustão. O risco de uma “crise humanitária maior está a crescer”, garante Shelby Magid ao Observador. “A Ucrânia já está a enfrentar quebras no fornecimento de energia e disrupções nos serviços essenciais, incluindo o abastecimento de água.”
▲ Um ataque de 39 mísseis balísticos deixou 600 mil pessoas em Kiev sem energia
NurPhoto via Getty Images
Falta das informações habituais dadas pelos EUA e escassez de mísseis para Patriots deixam Ucrânia encurralada
E o Starlink não é o único fator desestabilizador na frente de guerra. Segundo Kiev, os ucranianos não receberam as informações habituais sobre um vindouro ataque russo na noite de terça-feira.
Habitualmente, os serviços secretos dos EUA transmitem aos ucranianos a informação que conseguem recolher sobre os ataques russos planeados, mas, segundo o New York Times, desta vez isso não aconteceu. Washington nega ter cortado a passagem de informações à Ucrânia — tanto por fontes em privado, como pela viva voz do Presidente.
“Vamos morrer porque não recebemos os avisos dos ataques com mísseis balísticos”, avisou o analista militar ucraniano Oleh Katkov ao Times. “Isso significa que não conseguimos chegar aos abrigos a tempo. E não temos os meios para abater esses mísseis.”
A situação também é crítica ao nível do material necessário para essa interceção. Isto porque, de acordo com a CNN, a Ucrânia ficou sem mísseis para o sistema de defesa anti-aérea norte-americano Patriot, essencial para abater os mísseis e drones russos. “Quase todos os mísseis balísticos do último ataque não foram intercetados por falta de mísseis”, disse uma fonte à televisão norte-americana na quinta-feira.
▲ A escassez de mísseis para os sistemas Patriot é aguda. A 7 de outubro, já só restavam dez
dpa/picture alliance via Getty I
A analista Shelby Magid considera que o fornecimento dos Patriots é “a prioridade imediata”. “A Ucrânia está a desenvolver capacidades domésticas de defesa aérea e drones de interceção, que podem ajudar a conter alguns ataques russos. Mas não conseguem substituir os sistemas Patriot contra os mísseis balísticos”, avisa.
Um responsável ucraniano confessou ao Washington Post que, a 7 de outubro, já só havia 10 mísseis dos Patriots em território ucraniano.
Um Zelensky “mais difícil de lidar do que Putin” e um Trump que “atraiçou” a Ucrânia. As críticas mútuas entre os Presidentes norte-americano e ucraniano
Toda esta crise para a Ucrânia agrava-se com as declarações públicas de Donald Trump ao longo da última semana.
Há poucos dias, o Presidente norte-americano defendeu o seu acordo energético com a Rússia, destacando que o país concordou em enviar para os EUA “milhões e milhões de barris de petróleo e de combustível”. E, este sábado, decidiu bloquear as sanções à Rússia decretadas pelo Congresso que iam entrar em vigor dali a dois dias.
Ao mesmo tempo, não tem poupado nos ataques a Zelensky, dizendo que ele é “mais difícil de lidar do que Putin” e classificando os ataques ucranianos a refinarias russas como “uma desgraça”. “Não sou um grande fã de Zelensky”, confessou mesmo Trump numa entrevista à Newsmax.
▲ Donald Trump e Volodymyr Zelensky têm trocado palavras duras ao longo da última semana
JEFF MCWHORTER/EPA
“Os recentes desenvolvimentos do que parece ser uma melhoria das relações EUA-Rússia, incluindo o acordo do gasóleo e o alívio das sanções, têm como motor a política interna [norte-americana] em vésperas das eleições intercalares”, explica Shelby Magid. “Trump está numa situação vulnerável por causa dos preços altos dos combustíveis. O acordo com a Rússia dificilmente causará uma descida significativa dos preços para os consumidores norte-americanos, mas permite-lhe mostrar que está a fazer alguma coisa.”
Trump enfrenta, contudo, uma dificuldade: vários senadores do Partido Republicano juntaram-se aos democratas em oposição ao acordo do gasóleo. Razão pela qual Stephen Sestanovich, do Council of Foreign Relations, especula que o Presidente pode vir a recuar desta posição dura face à Ucrânia. “Ele vai ser castigado nas intercalares ou podem dizer-lhe que Putin é o líder mundial que os americanos mais desprezam ou lembrá-lo do que aconteceu aos números de Biden depois do colapso no Afeganistão. No final de contas, Trump pode decidir que já tem demasiados problemas com que lidar”, escreveu o analista.
Zelensky, contudo, não quer colocar todas as fichas nessas possibilidades e tem procurado apoios alternativos junto da União Europeia. Esta sexta-feira, o Presidente ucraniano esteve em Bruxelas, onde apareceu ladeado pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Zelensky agradeceu as promessas de apoio e aproveitou para deixar mais uma farpa a Trump, ao dizer que está grato por ser amparado por “líderes a sério”.
▲ Zelensky esteve em Bruxelas, onde Costa e Von der Leyen reafirmaram o seu apoio à Ucrânia
Getty Images
Dentro da UE, porém, há algumas reservas em apoiar totalmente Kiev. A Eslováquia e a Hungria continuam a importar petróleo russo e, ainda recentemente, o primeiro-ministro búlgaro elogiou o acordo energético EUA-Rússia. A especialista do Atlantic Council considera, porém, que as demonstrações públicas de apoio da Europa ao longo dos últimos dias são “particularmente importantes”. “Ainda há divisões dentro da UE e preocupações com eleições que estão no horizonte em vários países-chave”, reconhece. “Mas a resposta desta semana demonstra que há um consenso forte entre os parceiros europeus de que apoiar a Ucrânia é essencial para a segurança europeia.”
À margem de Bruxelas, Zelensky desdobrou-se numa série de entrevistas ao longo da última semana onde não poupou nas críticas a Donald Trump. Em entrevista a Piers Morgan, o chefe de Estado ucraniano disse sentir-se pessoalmente atraiçoado pelo homólogo norte-americano e, ao Financial Times, destacou que Trump “fala aberta e ruidosamente de como adora e respeita pessoas desse género”, referindo-se a Vladimir Putin. O jornalista que conduziu a entrevista, Alec Russell, confessou: “Não me lembro de ele alguma vez ter sido tão abertamente crítico de Trump.”
[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
Mas Zelensky tem de combinar uma atitude em que faz frente a Trump ao mesmo tempo que não desbarata o apoio norte-americano. “O desafio é defender os interesses ucranianos sem dar a Trump pretextos para escalar a tensão ou colocar as culpas em Kiev”, resume Shelby Magid. “A agressão continuada de Putin é o problema central, tal como a tendência de algumas alas na Casa Branca de retratar Zelensky como o grande impedimento à paz, em vez do líder russo que começou esta guerra.”
Apesar disso, a analista considera que há um ponto positivo na nova postura de Zelensky, já que pode contribuir para que os europeus assumam uma posição de maior relevo: “Os comentários e jogadas preocupantes de Trump, em conjunto com a retórica dura de Zelensky, podem ter o papel útil ao sublinhar o que está em causa e a motivar uma resposta forte por parte dos europeus.”
No meio de uma semana caótica, uma conferência de imprensa deixou a nu o ato de equilibrismo que Volodymyr Zelensky executa neste momento. Questionado sobre se considera que Trump está a usá-lo como bode expiatório para os seus problemas internos, como os preços do combustível e a guerra do Irão, o Presidente ucraniano fez uma pausa de 15 segundos. Por fim, falou com um sorriso nos lábios: “Esta é a minha resposta.”