Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador. Marques Mendes pode ficar a ver navios?

Eu vou tomar uma decisão no próximo ano e vou anunciar uma decisão no próximo ano. Essa decisão não está nada dependente da candidatura de A, de B ou de C. Está apenas dependente, como sempre disse publicamente, da avaliação de duas questões: saber se considero ter condições políticas e, por outro lado, saber se considero que verdadeiramente posso ter alguma utilidade de ser útil ao país, porque ao fim do dia é a única coisa que realmente interessa.

No programa de documentário que tem na SIC, no último domingo, Marques Mendes disse que a candidatura de Gouveia e Melo é quase certa, sobretudo depois da notícia avançada pelo Observador de que o almirante avisou que não quer ser reconduzido como chefe de Estado-Maior da Armada. Marques Mendes diz que não se deixa condicionar, mas no PSD há quem tema a entrada em jogo de Gouveia e Melo por achar que Marques Mendes não tem as armas necessárias para derrotar o almirante nas urnas. E é precisamente sobre isso que vou conversar com Miguel Santos Carrapatoso, editor-adjunto de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de sexta-feira, 29 de novembro. Bem-vindo, Miguel.

Olá, Ricardo.

Miguel, para começo de conversa, Gouveia e Melo é ou não é candidato a Belém?

Ainda não há um anúncio formal, mas todos os sinais apontam nesse sentido. Falta mesmo só o anúncio. Quem o conhece, as pessoas que orbitam em torno do almirante Gouveia e Melo, vão dizendo que a decisão está mais do que tomada. Houve um órgão de comunicação social, no caso a SIC, que disse mesmo que o anúncio será feito em março. Não tenho essa informação, não sei se é verdade ou não, mas o que já ninguém exclui é que vai mesmo existir uma candidatura de Gouveia e Melo.

E já disse que não quer ser reconduzido, não é?

É verdade, essa foi uma notícia avançada pelo Observador. Gouveia e Melo tinha a oportunidade, se assim o quisesse, de ser reconduzido como chefe de Estado-Maior da Armada. Era uma decisão que estava perfeitamente ao seu alcance. A partir do Palácio de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa ia dando sinais de que achava que essa era, de facto, a solução mais lógica. Havia também vontade por parte do governo para reconduzir Gouveia e Melo, mas, e essa foi a notícia avançada pelo Observador no último fim de semana, Gouveia e Melo não quer ser reconduzido como chefe de Estado-Maior da Armada, o que reforça a tese de que quer mesmo ser candidato à Presidência da República.

E posso fazer-te exatamente a mesma pergunta em relação a Marques Mendes, que ouvimos no arranque deste episódio a remeter uma decisão para o próximo ano. Portanto, nessa altura, Marques Mendes é apenas um eventual candidato a Belém, é isso?

Um proto candidato. Aqui com uma ligeira diferença, é que ao contrário de Gouveia e Melo, até porque o almirante está limitado pelas funções e pelo cargo que ocupa, Marques Mendes não, é um comentador político. Marques Mendes já assumiu, de facto, que está a ponderar, está a fazer essa ponderação e, portanto, está num estágio, se quisermos, diferente, e já o está há muitos anos. No verão, verbalizou e formalizou essa vontade de ponderar, se quisermos. Agora, quando foi desafiado a comentar esta hipótese de enfrentar o almirante Gouveia e Melo, disse que tomará uma decisão e anunciará no início de 2025.

E agora, antes de zarparmos na busca de resposta à grande pergunta que fazemos neste episódio, e antes que eu comece a exagerar nas metáforas náuticas, vou tentar parar por aqui. O que é que conhecemos do pensamento de Gouveia e Melo? O que é que poderá fazer do almirante um bom candidato à Presidência da República?

Conhecemos muito pouco sobre o pensamento político de e sobre o país. Agora, há algumas entrevistas que Gouveia e Melo foi dando, em que se afirma como um homem do centro democrático, tem algumas intervenções em defesa do papel dos partidos políticos, o que o afasta, se quisermos, de uma visão mais populista da política. Tem também procurado colocar-se junto ou ao lado dos moderados e, portanto, sabemos mais do que não quer ser ou do que não quer parecer, como um candidato pode ser rapidamente o campeão do Chega. Gouveia e Melo teve sempre esse cuidado de se afastar, sem se afastar literalmente, mas de se demarcar de algumas posições que André Ventura foi tomando e de se colocar no centro democrático, o que é uma enorme vantagem para qualquer candidato, teoricamente, porque consegue colher a simpatia dos eleitores mais do centro-esquerda, mais do Partido Socialista e mais do centro-direita, sendo que aqui, até o percurso pela origem do Gouveia e Melo, o facto de ser um militar, por estar também associado àquela missão bem-sucedida da vacinação contra a Covid-19, isso traduz-se numa certa aura de lei e ordem. E sabemos que esses valores são muito importantes para aquele eleitorado da direita clássica. Portanto, por muito que Gouveia e Melo queira manter um pé no centro-esquerda e um pé no centro-direita, acho que no final do dia é justo dizer que é percepcionado como um candidato natural da direita mais clássica, mais conservadora.

Já Marques Mendes é um político com anos e anos de presença pública, quer enquanto político, quer enquanto comentador.

É verdade, Luís. Marques Mendes foi quase tudo o que se pode ser na política, desde deputado, líder partidário, ministro, e agora é O comentador político com maior audiência do país está há anos a entrar.

Substituiu Marcelo.

É verdade, quem é muito próximo. Foi escolhido por Marcelo Rebelo de Sousa como conselheiro de Estado. Podemos dizer que é um discípulo, são próximos os dois, isso não é segredo para ninguém. E Luís Marques Mendes substituiu Marcelo Rebelo de Sousa nessa figura muito própria do comentador que nos entra pela casa adentro ao domingo à noite, com uma audiência incomparavelmente superior aos seus concorrentes e isso também lhe dá uma popularidade e um peso muito próprios.

E já agora, o que dizem as sondagens de tudo isto?

Sem entrar em grande detalhe, porque há muitas sondagens para todos os gostos, que estão a ser feitas há muito tempo, mesmo e quando estamos ainda a muita distância das eleições presidenciais, todas convergem num ponto e esse ponto é que Gouveia e Melo é francamente favorito a ganhar as próximas eleições presidenciais, se de facto avançar com uma candidatura. Depois vai oscilando entre figuras que podem estar mais ou menos perto de Gouveia e Melo, mas o denominador comum é que o almirante aparece sempre muito bem posicionado em todas as sondagens.

Já voltamos à conversa com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso. Será que o PSD tem medo de Gouveia e Melo? Estamos de regresso à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de Política do Observador. Miguel, durante anos pensou-se: coitado do sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, ou como será que o sucessor ou a sucessora vai conseguir superar a popularidade de Marcelo? Era uma ideia partilhada por muitas pessoas. Mas será que o Presidente da República foi tão popular que agora o eleitorado poderá querer exatamente o contrário, outro perfil, porque já não aguenta este perfil das selfies?

Vai-se fazendo essa leitura e pode ter alguma adesão à realidade. Por dois motivos. De facto, se olharmos para os índices de popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa, são muito diferentes do que eram no início. O atual Presidente da República está claramente em trajetória descendente. Isso pode ser um sinal de cansaço em relação à figura de Marcelo Rebelo de Sousa e de alguma penalização por decisões que tomou, por intervenções que teve, por casos em que se viu envolvido, e estou a pensar no caso das gêmeas, mas também pode ser um reflexo de uma tendência que é natural no eleitorado, que é encontrar nos sucessores do Presidente da República perfis diferentes. E tem sido assim há três eleições, pelo menos. Jorge Sampaio foi sucedido por Aníbal Cavaco Silva, alguém com perfil muito diferente do socialista. Marcelo Rebelo de Sousa sucedeu Aníbal Cavaco Silva, também com perfil muito diferente. Portanto, há uma tendência para-

Uma alternância

...alternância de perfil. E ser muito parecido a Marcelo Rebelo de Sousa é, ou pode ser, nas próximas presidenciais, um handicap.

E isso pode ser um problema para Marques Mendes? Poderá estar tão colado a Marcelo que lhe vai dificultar esta tarefa de desdobrar o cabo, este cabo das tormentas?

É uma leitura que se pode fazer e que está a ser feita no PSD. De facto, Luís Marques Mendes tem esta particularidade de ter um perfil, ou melhor, um percurso muito idêntico ao de Marcelo Rebelo de Sousa, um líder partidário que não foi particularmente bem-sucedido e que depois se reinventa como comentador político na televisão. Alguém que, não sendo exatamente um apreciador de selfies como é Marcelo Rebelo de Sousa, é reconhecido por cultivar mais esse lado de afetos do que propriamente o lado mais institucional. Até nisso é parecido com Marcelo Rebelo de Sousa. E depois, um terceiro aspecto, que é transversal ou seria transversal a quase todos os candidatos que não Gouveia e Melo, é alguém que é do sistema, que é alguém que veio dos partidos, e é alguém que é um político. E sabemos que em Portugal, mas não só, há um clima ou instalou-se um clima de alguma insatisfação com o sistema, com os políticos e com os partidos. E Marques Mendes é fruto desse sistema. Ele, como muitos outros candidatos que se perspetivam na área do Partido Socialista, por exemplo, têm essa desvantagem em relação a Gouveia e Melo, que vem de fora do sistema.

E o PSD acha que Marques Mendes pode, ou uma parte do PSD, não podemos dar números a esta ideia, mas há uma parte do PSD que receia que Marques Mendes não chegue lá.

Há, e é possível assumir isso sem grande hesitação. E na sequência da ideia anterior, há duas frases que me ficam de gente do PSD, gente diferente, mas que converge neste ponto, que é Os eleitores vão preferir alguém que seja um anti Marcelo, coisa que Marques Mendes manifestamente não é. E depois alguém um bocadinho mais crítico em relação à figura de Marques Mendes, que diz: é um copycat de Marcelo Rebelo de Sousa. E essa ideia está a ganhar alguma tração no partido, ou seja, a convicção de que Marques Mendes não tem argumentos próprios para enfrentar Gouveia e Melo, que é um candidato assumidamente forte e ao mesmo tempo é vítima de um contexto que não lhe é favorável, o contexto de suceder ou de se candidatar a suceder a Marcelo Rebelo de Sousa e ao mesmo tempo o contexto mais global de vivermos num clima de alguma antipatia por quem é do sistema. E Marques Mendes é do sistema.

E Miguel, se Mendes não avançar, o PSD, que praticamente oficial, já prometeu apoio a Marques Mendes, pelo menos Montenegro, porque tem uma relação muito próxima, poderá apoiar outro candidato ou até apoiar Gouveia e Melo, que por sinal foi beber um copo com Nuno Melo do CDS.

Por partes e para sublinhar uma questão que nós não afloramos ao longo da nossa conversa, que é: é verdade que a esta distância, olhando para as sondagens, Luís Marques Mendes, na comparação direta com o almirante Gouveia e Melo, fica a perder, mas falta ainda muito tempo.

Ainda autárquicas antes.

Ainda autárquicas. Gouveia e Melo tem de dizer exatamente ao que vem, vai ser muito mais escrutinado do que foi até agora e a balança pode ficar mais equilibrada. Portanto, isto não é uma luta perdida à partida, embora os indícios apontem para um claro favoritismo de Gouveia e Melo. Luís Marques Mendes não tem uma decisão tomada, tanto quanto ele faz saber, mas se decidir avançar, de facto, os sinais que temos da direção do PSD e das pessoas que são próximas de Luís Montenegro é que Luís Montenegro não deixará cair o apoio a Luís Marques Mendes. Portanto, terá sempre o conforto do PSD. Em segundo lugar, sobre a ideia de caso Luís Marques Mendes falte à chamada, o PSD olhar com outra atenção para Gouveia e Melo. Não me parece uma hipótese provável. Acho que o PSD não vai em momento algum apoiar Gouveia e Melo. Agora, há um lado de pragmatismo. Gouveia e Melo, se se tornar presidente da República, Luís Montenegro terá de trabalhar diretamente com ele. E portanto, há aqui uma cautela na forma como se vai reagindo à protocandidatura de Gouveia e Melo, porque é importante não hostilizar alguém que tem manifestas condições de vir a ser presidente da República. Sobre o CDS, é uma incógnita. De facto, Nuno Melo criou este facto político. Nós estamos a falar do almirante e desta possível candidatura a Belém, muito por causa do Nuno Melo, que organizou um encontro noturno num conhecido bar de Lisboa. O CDS não quer apoiar Luís Marques Mendes. Isso é um dado adquirido, não acha que seja um candidato brilhante. Pode parecer uma excentricidade, mas é possível que o CDS venha a apoiar outro candidato que não o candidato oficial do PSD. E há muita gente no CDS, estou-me a lembrar, por exemplo, de Cecília Meireles, insuspeita de ser uma pessoa exatamente deslumbrada pelas fardas brancas do almirante, que veio abertamente dizer que não vê problema algum em que o CDS possa ponderar apoiar Gouveia e Melo, ao passo que, por exemplo, Diogo Feio veio dizer exatamente o contrário, que não quereria nada que o CDS apoiasse o almirante. Portanto, há uma divisão no CDS, há seguramente uma divisão entre PSD e CDS, e vamos ter de acompanhar atentamente como é que se define o centro-direita, a direita moderada, em relação às próximas presidenciais.

E no PSD há outros nomes, há a hipótese de outros nomes. Estou a lembrar-me de José Pedro Aguiar Branco.

Que não exclui essa hipótese, que aliás a alimenta. Esta semana apareceu para enterrar a hipótese de ser candidato à Câmara do Porto. Nota curiosa: Luís Marques Mendes no comentário dominical que mantém na SIC, lançou Aguiar Branco para essa corrida autárquica. Por algum motivo, seguramente uma coincidência, Aguiar Branco veio responder dizendo que não está disponível para entrar nessa corrida autárquica, não excluindo a hipótese de entrar numa corrida presidencial. Portanto, tudo isso terá sido coincidência, seguramente.

É até a coincidência do autarca do Porto ter lançado a candidatura presidencial de Aguiar Branco.

Tudo coincidências, seguramente. Há outras figuras. José Manuel Durão Barroso é sistematicamente apontado como alguém que teria perfil para avançar nessa corrida, embora os sinais que dá é que não está disponível. Rui Rio, um clássico. Pedro Santana Lopes, que esta semana também no canal NOW disse que gostava de ver sondagens para perceber se tem ou não hipóteses de ser candidato. Não resistiu em dizer que Luís Marques Mendes não tem qualquer hipótese na competição direta com Gouveia e Melo. E há o inevitável Pedro Passos Coelho.

Chegamos a essa última pergunta: e Passos Coelho?

A hipótese Pedro Passos Coelho tem-

Continua a ser o grande sonho? Continua a ser terra à vista? Desculpa, não resisti à metáfora.

É quase já de domínio mitológico Pedro Passos Coelho A hipótese Pedro Passos Coelho para Belém tem três problemas. Primeiro problema: Passos Coelho não quer.

Esse é um problema forte.

É um problema forte. Segundo problema: Luís Montenegro não deseja, porque seria muito difícil manter uma relação institucional com Pedro Passos Coelho. Já não falo no plano pessoal, mas alguém que foi primeiro-ministro, que tem uma ideia muito clara e muito viva ainda do que deve ser um governo e o que deve ser uma reforma do país, dificilmente conseguiria trabalhar com um primeiro-ministro em funções. É um cenário difícil de imaginar. E há um terceiro problema, que também não é de menos importância, que é a questão André Ventura. André Ventura quer muito colar-se não só ao almirante Gouveia e Melo, e aí seria um problema sobretudo de Gouveia e Melo, mas quer muito colar-se a Pedro Passos Coelho. E isso lançaria ou relançaria todo o debate em torno das linhas vermelhas, que é um debate que Luís Montenegro julga já ter resolvido e em parte já o resolveu na prática, mas que é sempre um dilema muito difícil resolver para a direita. Portanto, aparecer Pedro Passos Coelho como o campeão das várias direitas, como alguém que serve de agregador de partidos e personagens muito diferentes, isso relançaria um debate que Luís Montenegro não quer e seria um combustível para o Partido Socialista explorar até à exaustão. Tem esses três problemas, sendo que, como tu bem assinalaste, o maior problema é mesmo a indisponibilidade de Pedro Passos Coelho para avançar para esta corrida presidencial, embora essa indisponibilidade manifestada das mais diversas maneiras e formas não parece convencer ou pelo menos não acalmar o desejo de muitos no PSD que continuam a suspirar. Isso não é uma conspiração. O suspiro existe mesmo. Há muita gente ainda a suspirar por Pedro Passos Coelho. É pouco provável que venha a concretizar-se essa hipótese, para dizer o mínimo.

Obrigado, Miguel.

Obrigado, Ricardo.

Miguel Santos Carrapatooso é editor adjunto de política do Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.