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Esta é a história do dia da Rádio Observador: mitos e verdades sobre vírus em cruzeiros. Para muita gente, este som é o início de umas férias de sonho. Um cruzeiro a partir mar afora, um hotel flutuante a navegar em direção a destinos exóticos. Um sonho que, de um momento para outro, pode tornar-se um pesadelo quando há uma emergência de saúde a bordo. E nas últimas semanas é disso que se fala. Primeiro, foi o alerta por causa do hantavírus, depois os surtos de norovírus, passageiros com vômitos, diarreia, cabines isoladas e agora mais de 1700 pessoas confinadas num navio em Bordéus. Hoje vou falar com Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, para percebermos o que torna os cruzeiros aparentemente tão vulneráveis a surtos, como se lida com uma crise destas a bordo. E também para distinguirmos o que é ficção e realidade na forma como as autoridades de saúde estão a lidar com estes casos. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 14 de maio. Doutor, muito bem-vindo.
Olá, viva!
Vamos olhar aqui para esta sucessão de notícias e já lá iremos para a questão da forma como nós próprios jornalistas andamos aqui sempre atrás da nova história, de uma velha história. Mas nós temos agora o caso de um navio de cruzeiro onde há um surto de gastroenterite. Houve há uns dias um navio onde havia o norovírus e temos o já tão famoso e célebre hantavírus, de que muita gente não tinha ouvido falar, até haver um surto dentro de um navio de cruzeiro. A primeira pergunta que eu lhe vou fazer, ainda antes de entrarmos dentro das especificidades de cada um destes vírus, é perguntar-lhe se isto é tudo uma coincidência, é fruto deste ciclo noticioso ou os cruzeiros são mesmo particularmente vulneráveis a este tipo de infeções?
Os cruzeiros têm certas características que facilitam este tipo de circunstâncias. E não é o primeiro rodeio com norovírus a bordo de um cruzeiro. O norovírus é basicamente um vírus responsável por gastroenterites, é extremamente comum. Representa a maior parte das transmissões associadas à via oral, via alimentar, nos Estados Unidos, e é muito comum, seja onde for. Mas, na prática, o que acontece é: quando nós falamos em cruzeiros, falamos de uma quantidade de pessoas num determinado espaço pequeno, e com a partilha de espaços em comuns, também em números muito expressivos e, nomeadamente, até mesmo termos alimentares, como muitas vezes a partilha de espaços de refeição em comum. O que acontece com isto? É óbvio que a partir do momento em que nós temos a entrada de um agente infeccioso com essas características, nomeadamente o norovírus, temos tendência a ter surtos, dependendo também da capacidade de controle de infecção dentro do navio e das medidas tomadas após se conhecer que isso está a acontecer. Porque efetivamente, se a exposição não for controlada, depois podemos ter dezenas, centenas de casos de norovírus, que é uma gastroenterite que pode ser séria, nomeadamente para indivíduos mais velhos e leva muitas crianças e pessoas mais idosas às urgências. Mas sobretudo mais difícil, digamos, para indivíduos com 65 ou mais anos, também porque acabam por impor um estresse orgânico expressivo, como desidratação. E, portanto, é algo que é sério o suficiente para ter algumas medidas de contenção, mas não é da seriedade de outros vírus. É uma gastroenterite vírica com uma grande facilidade de dispersão.
É um vírus que as pessoas têm contato com ele regularmente, porque dentro de um cruzeiro ou fora de um cruzeiro, quem tem filhos pequenos muitas vezes lida com isso com muita frequência. É desse vírus que estamos a falar.
Sim, este em particular tem uma grande infeciosidade. É mesmo fácil as pessoas infectarem-se com isto, nomeadamente naquele contexto.
E já agora, apesar de ser um contexto onde este tipo de contaminação é mais favorável, precisamente porque estão ali num espaço fechado, muitas pessoas a partilhar espaços de refeição ou partilhar uma série de momentos da vida onde isto acontece com mais frequência, os navios de cruzeiro, até, imagino eu, por exigência das autoridades de saúde pública dos vários países onde o navio circula, têm regras de funcionamento que implicam também cuidados de saúde, equipes médicas a bordo, etc.
Sim, essas salvaguardas existem. Agora, o que está em cima da mesa é que, efetivamente, quando existem situações deste gênero, que vão existindo pontualmente, de fato são laboriosas em termos de controle. Obviamente que isto é uma chatice monumental para quem está a bordo, acima disso tudo, para quem gastou o dinheiro para querer ter umas férias tranquilas e de repente vê-se abraços no meio de uma gestão de um surto de gastroenterite, que é particularmente chata. E que pode ter algumas consequências, nomeadamente para indivíduos mais velhos, e é preciso ter a intenção, não desvalorizar um possível impacto desta infecção.
E até porque nos cruzeiros é uma população que frequenta bastante. Os cruzeiros são exatamente uma população de 65 anos, às vezes mais.
Aqui esta circunstância é assim: há que ter também confiança nas empresas que estão a organizar isto. É preciso também frequentar a consulta de medicina viajante, manter algum aconselhamento relativamente a estas viagens, estas e outras, para reduzir os riscos, que faz parte, ainda que com o coronavírus são medidas gerais de higiene que podem ajudar também a prevenir. Mas, efetivamente, a viagem tem sempre algum risco associado. Mas risco existe em todo lado, é preciso saber geri-lo. E aqui, relativamente a este tipo de circunstâncias, existem milhares de cruzeiros todos os anos, alguns deles vão ocorrer este tipo de situações, falo nomeadamente a questão do norovírus e outras pequenas coisas. Surtos de grande escala não é assim tão comum que possam acontecer, ocorrem pontualmente. Alguns surtos, sim, tudo bem, mas temos que olhar para isto como tudo aquilo que tem uma carga probabilística e não é por isso que as pessoas vão deixar de fazer cruzeiros. Ainda que as notícias dos últimos tempos possam empurrar as pessoas para terem outro tipo de opções, continuam a decorrer milhares de cruzeiros e não é por esta razão específica que eu julgo que as pessoas devem deixar de fazer.
É isso. Doutor, falou das notícias e de facto nos últimos dias nós falámos muito do Hantavírus e todos os receios que entretanto surgiram à volta dessa doença de que muita gente nunca tinha ouvido falar, desse vírus que muita gente nunca tinha ouvido falar. Nós vamos, na segunda parte, olhar de perto para aquilo que foi feito, para aquilo que está a ser feito e em que ponto estamos naquilo que diz respeito ao Hantavírus. Até já. Estamos de regresso à conversa sobre este ciclo de notícias que têm surgido com frequência sobre vírus a bordo de cruzeiros. Digamos que esta leva, se assim podemos dizer, começou com a questão do surto do Hantavírus, que era um vírus relativamente desconhecido para a maior parte das pessoas e que deixou algum alarme precisamente porque houve mortos a bordo do cruzeiro onde houve esse surto. Neste momento, o que é que nós podemos dizer relativamente à forma como foi gerido todo o desembarque dos passageiros, o transporte dos passageiros para os seus países? Devemos estar tranquilos? As coisas foram feitas como deviam ter sido feitas? Qual é o seu olhar sobre isto?
O balanço é francamente positivo, porque na prática vamos ter em conta que antes de nós termos este evento, o desembarque, os voos de repatriamento, o que aconteceu foi que houve ainda algum bruá local a propósito da recetividade das populações em receberem o navio. O que me parece é o seguinte, uma forma bastante sintética na lição global disto tudo: a comunicação foi bastante boa, porque na prática foi a tendência de fazer uma dissociação com a memória recente relativamente ao Covid-19, na lógica de dizer que não se trata da mesma coisa, não se trata da mesma capacidade de infecção, embora este vírus tenha que ser monitorizado e acompanhado, sobretudo no seu local de origem, que é tipicamente na América do Sul e sobretudo na Argentina, onde tem sido a maior parte destas infecções, nomeadamente esta infecção pela espécie Andes. Não só, mas principalmente. Dito isto, para a gestão de um surto de um cruzeiro com uma potencial transmissão pessoa a pessoa que possa ter ocorrido excepcionalmente num local fechado, com as características que nós conhecemos e à imagem do que já aconteceu com esta espécie de vírus em 2018 na Argentina, tinham que ser tomadas medidas de proteção dos profissionais e medidas de quarentena a ir por cima. O princípio de precaução tinha que vingar. E de facto, há aqui uma dicotomia também difícil de cumprir para um profissional de saúde pública, e falo, por exemplo, na minha pessoa, ao consultar, que não devia, caixas de comentários, ver que ora estamos a ser exagerados, ora não estamos a fazer o suficiente. Tem que haver aqui uma certa racionalidade baseada na melhoria.
Ou estão a lançar o pânico ou estão a esconder a verdade. Basicamente, é as duas teorias da conspiração que acontecem.
Enfim, não vale a pena estar aqui a qualificar. As coisas foram ditas com a maior tranquilidade possível e vale a pena aqui destacar, por exemplo, a comunicação da Direção-Geral de Saúde, um comunicado impecável e sobretudo com uma salvaguarda a dizer que se estava numa situação dinâmica, ou seja, não havia a informação toda disponível. Quando as autoridades não têm toda a informação, têm que abrir algum espaço para a incerteza no sentido de a gerirem. E foi exatamente o que foi feito. Ou seja, estava-se a acompanhar a situação com todos os pormenores. Felizmente, até agora, em termos de casos, são todos casos que se infetaram ora no evento inicial, que não sabemos, que potencialmente terá sido algures na Argentina, ora dentro do cruzeiro. Não houve transmissão perpetuada, nomeadamente, que tenha ocorrido fora do cruzeiro. Todos os casos estão ligados, neste momento, ao cruzeiro. O que nos deixa relativamente tranquilos, por ora, porque agora temos que acompanhar isto e o que eu tentei passar, eu e outros, é que nas próximas semanas, até o final do mês de maio, início de junho, o que vai acontecer é que potencialmente iriam aparecer mais casos como já apareceramPorque o vírus tem um período de incubação longo, mas são casos que estão ligados ao cruzeiro diretamente e que estão dentro da rede de observação.
Ou seja, para sedimentarmos isto, continua a haver notícias a dizer: este passageiro e aquele passageiro, e em Paris e em Itália aparece mais uma pessoa com sintomas. São pessoas que estiveram ligadas diretamente ao cruzeiro e este vírus de que estamos a falar não é um vírus como o vírus da gripe, que passado poucos dias a pessoa apresenta sintomas. Às vezes é um mês e meio até a pessoa ter contacto com o vírus e apresentar sintomas.
Isso é bom e é mau. É bom porque nos dá tempo para identificar os contactos e haver implementação de medidas de quarentena. É mau porque demora a termos as coisas concluídas, ou seja, a perceber se não vai haver mais casos. E, portanto, o que acontece? Habitualmente no surto, nós temos que dar, tradicionalmente até por definição, dois períodos de incubação para considerar que as coisas ficaram fechadas. Neste caso, não vai ser assim tão importante, porque efetivamente a expectativa é que não exista perpetuação de transmissão. O que nós queremos é encerrar os períodos de quarentena das pessoas que tiveram contacto com um caso que não estava sujeito a medidas de isolamento.
E a partir daí, quando acabar esse período de quarentena, pode dizer-se que o surto está limitado.
Sim, é essa a expectativa.
E portanto diz que isso final de maio, princípio de junho, haverá mais certezas nessa matéria.
Eu julgo que, não havendo surpresas ou coisas que não tenham sido relatadas, na primeira semana de junho nós poderemos concluir isto. Agora, eu quero ser claro relativamente a isto. É natural que o ciclo noticioso, e nomeadamente naquilo que é chamada a luta pelas audiências, que se incorra na publicação de mais um caso. Podem ser até 30 ou 40. Se esses casos forem todos imputáveis à presença dentro do cruzeiro, o controlo continua válido. Ou seja, não estamos a falar de uma coisa explosiva. Obviamente que muitos mais casos também farão pensar da capacidade de infeciosidade do vírus. Dito isto, gostava de transmitir uma mensagem de tranquilidade relativamente a esta situação em concreto. O resto é um trabalho que tem que ser feito continuamente.
Muito bem, e acho que fica essa mensagem clara, doutor. Muito obrigado. Eu conversei com o presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, Bernardo Gomes, que nos trouxe uma mensagem tranquilizadora sobre estes surtos a bordo de cruzeiros e sobretudo sobre o medo que se instalou na sequência do surto de hantavírus. Se quiser saber mais, há um artigo no Observador que explica como funcionam as clínicas a bordo, como é feito o isolamento em cabine e quais são as medidas que reduzem o contágio. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benovides. Até amanhã.