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Esta é a história do dia da Rádio Observador: mortos e pilhagens, o que se passa em Luanda?
Pessoal, o Golfo II está a invadir. Olha aí, pessoal, meu Deus! Pessoal, loja do Golfo II. Estão a invadir a loja do Golfo II.
Este é um entre dezenas de vídeos partilhados nas redes sociais que documentam os tumultos na Grande Luanda por estes dias. Um protesto contra os preços dos combustíveis degenerou em pilhagens, barricadas, confrontos e há até registro de mortos na capital angolana. Podem estes tumultos ter consequências políticas? É sobre o que está a passar em Angola, em particular em Luanda, que vou conversar com a editora executiva do Observador, Dulce Neto, que acompanha a atualidade angolana. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de quarta-feira, 30 de julho. Bem-vinda, Dulce.
Olá, Ricardo.
Dulce, vamos ao início desta história, que é importante para perceber o resto. Isto é uma greve de taxistas, é isso?
Sim, a Associação Nacional dos Taxistas de Angola, que tem um nome interessante, ANATA, tinha anunciado há mais de 20 dias uma greve pacífica entre 28 e 30 de julho, com um lema muito interessante que era: "Fica em casa". Para quê? Para protestar contra a retirada dos subsídios aos combustíveis. Isto é importante perceber que isto não são taxistas como nós estamos habituados a conhecer em Portugal. Eles também são chamados os azuis e brancos.
Os candongueiros.
Os candongueiros ou ayayes, por isso são aquelas carrinhas que levam dezenas de pessoas, são considerados, na verdade, transportes coletivos, ou então os kapapata, que é uma espécie de tuc-tuc que levam meia dúzia de pessoas, etc. Ora bem, para a mobilidade da maioria dos 10 milhões de habitantes de Luanda, não há alternativa a estes táxis privados, por isso uma greve deste meio de transporte perturba mesmo a vida de muita gente. Por que eles protestam? Porque o Estado angolano deixou, em parte, de subsidiar o gasóleo, para já. Isto faz parte de uma política do governo de eliminar gradualmente os subsídios aos combustíveis para conter o déficit das contas públicas. E o preço subiu de 300 para 400 kwanzas, o preço do litro do gasóleo, ou seja, de 28 para 37 cêntimos de euro, mais ou menos, subiu cerca de 10 cêntimos. Isto a nós parece-nos pouco.
Exato, para nós parece que não é muito.
Pois é, mas para um país em crise econômica há vários anos, que tem registrado um aumento do custo de vida incrível, a inflação a subir, o preço da cesta básica a aumentar e os salários a não subirem, há muitos relatos de fome real. Isto foi a gota d'água. Para os taxistas, isto é incomportável. E só um pormenor, é que a Agência Nacional de Transportes Terrestres aumentou o preço dos táxis, são eles que determinam o preço dos táxis. Passou para o dobro. Por isso, isto acaba por ser mesmo um problema. Em Luanda, cidadãos com o salário mínimo não conseguem pagar os transportes.
Não conseguem ir trabalhar.
Alguns chegam a gastar até 44 mil kwanzas por mês em deslocações, isto é, mais de metade do salário mínimo oficial.
Mas, entretanto, esta greve não foi desconvocada?
Olha, está uma grande confusão. É sim e não, a minha resposta. Sim, a Associação Nacional de Taxistas de Angola, após negociações com o governo provincial de Luanda, que ontem estava preocupadíssimo, nesta segunda-feira, recuou e ainda nesta segunda-feira demarcou-se dos atos de violência e anunciou o cancelamento da greve. Mas a Associação de Taxistas de Luanda manteve a greve para os três dias previamente marcados, apesar de condenar o vandalismo do primeiro dia. Ou seja, nesta terça-feira, a greve mantém-se em Luanda.
E este primeiro dia coincidiu com pilhagens, com tumultos, um pouco na Grande Luanda, nos bairros periféricos de Luanda. O que aconteceu?
Não foi só nos bairros periféricos de Luanda, também houve dentro da cidade, inclusive, dizem que na Baixa. Primeiro foram as barricadas, os pneus queimados, os contentores do lixo, os troncos de árvores a arder, os táxis impedidos de circular. Há vídeos incríveis em que se veem pessoas a tirarem o condutor de um kapapata, o tal tuc-tuc que eu te falava há pouco, o homem caído no chão, o veículo a embater em outro em frente, as pessoas a serem chutadas ou a fugirem lá de dentro, há autocarros apedrejados com as pessoas cheias de medo ou acocoradas no chão. Há carros tipo Uber impedidos de circular por multidões ou obrigados a recuar, por exemplo, no bairro Nova Vida, onde houve muitos problemas. Vê-se mesmo um carro amarelo a recuar e depois a ganhar velocidade e a ir contra a multidão, mandando ao ar pelo menos duas pessoas. Houve uma pessoa ferida na boca, no bairro Golfo II. No bairro Calemba II também houve muita confusão, perto da Avenida 11 de Novembro também. Há relatos de tiros na Baixa de Luanda, por exemplo. Há um vídeo muito engraçado em que se vê as pessoas a pararem o caminhão e entrarem lá para dentro para poderem chegar ao seu destino, porque elas não tinham como ir trabalhar. Algumas caminharam longuíssimas distâncias.
Porque não me disse tudo Houve pessoas que foram trabalhar ou tentaram ir trabalhar.
Sim, vêem-se filas imensas.
E ficaram sem transporte.
Ficaram sem transporte. Para esta terça-feira já houve mais precaução. Ficaram em casa, muitas empresas fecharam.
Em teletrabalho.
E ficaram em teletrabalho. E depois o pior foram as pilhagens, e aí os vídeos também são impressionantes. Vêem-se pessoas a arrombar portas, a partir vidros e a saquear completamente supermercados, deixando as prateleiras vazias. A polícia, num primeiro balanço, que foi feito já esta terça-feira de manhã, fala em 45 estabelecimentos comerciais vandalizados, mas ninguém acredita muito nisto. E as lojas, os bancos, o centro comercial Belas, que fica, por exemplo, numa zona onde muita elite angolana vive, a Talatona, foram encerrados.
Já regressamos à conversa com Dulce Neto, editora executiva d'O Observador. E estes tumultos em Luanda podem ter consequências políticas? Estamos de regresso à conversa com a editora executiva d'O Observador, Dulce Neto, que acompanha a atualidade angolana. Dulce, e há também registo de centenas de detenções e pelo menos quatro mortos, pelo menos à hora a que estamos a gravar esta conversa, é o número mais atual.
Sim, o balanço provisório da polícia apontava para 500 detidos, mas este balanço vai seguramente aumentar, porque nessa mesma conferência, a polícia dizia que iam continuar as detenções, até porque as pilhagens não pararam no segundo dia de greve, esta terça-feira. A confusão nesta terça-feira, existem locais que não foram atingidos ontem, por exemplo, há registos no Kikolo, no bairro Sapu, na Comarca, que é a estrada que leva ao Cacuaco. Os jornalistas da Agência Lusa viram uma multidão reunir-se para atacar um supermercado da cadeia Angomart, que já esta segunda-feira tinha tido algumas das suas lojas pilhadas. Vídeos partilhados nas redes sociais mostram tentativas de invasão ao megacentro comercial Cidade da China e continuam barricadas improvisadas com pneus a arder nas principais vias de acesso de Luanda. E estão a chegar também relatos de problemas no Huambo.
E os angolanos, e os 10 milhões, como disseste há pouco, Dulce, que vivem na zona da Grande Luanda, enfrentam, percebemos e sabemos isso, condições de vida muito precárias. Tu estiveste em Luanda já várias vezes. Estes tumultos, Dulce, daquilo que conseguimos perceber, são uma espécie de libertar de uma pressão, de uma panela, que pode um dia vir a rebentar?
Há muito tempo que muitas vozes alertam para este barril prestes a explodir em Angola. Já o faziam em 2022, estamos em 2025. Mas as condições têm, de facto, piorado. Há relatos, como dizia há pouco, de fome real, de pessoas a alimentarem-se nos caixotes do lixo. Pior, é que eles já existiam em 2022, estes relatos, quando João Lourenço foi reeleito. E pior ainda, é o contraste em que muitos dos que vivem nas ruas sentem em relação a alguns que vivem no palácio. Aliás, Rafael Marques referia isso na segunda-feira, no dia da greve, num texto muito interessante que dizia: "O povo marcha e o presidente voa".
Ele é jornalista e ativista.
Sim, recusou ser condecorado pela presidência angolana com a medalha dos 50 anos de independência. Ele escrevia que João Lourenço continua a fazer viagens dispendiosas. Ele dizia que apesar da crise interna, o presidente mantinha uma agenda externa imparável de voltas ao mundo, utilizando aviões VIP, que ele falava mesmo do custo. Ele dizia: "Cujo custo por hora pode ultrapassar os $74 mil, e sempre acompanhado de um séquito de mais de 100 pessoas".
E curiosamente, João Lourenço regressou a Luanda, de uma visita de três dias a Portugal, no dia em que eclodiram estes protestos.
Exatamente, na segunda-feira. Mas então ele dizia que esta dissonância entre os gastos de luxo do presidente e do seu governo e a emergência interna e os problemas internos agravam a frustração popular. Por outro lado, muitos receiam o efeito mimético do que se passou em Moçambique no final do ano passado e que a qualquer momento pode regressar. Mas diga-se em abono da verdade que, tanto quanto se sabe até agora, a polícia angolana teve uma atitude muito diferente da polícia moçambicana, uma ação muito mais controlada, muito mais contida, muito menos violenta do que a moçambicana.
Mas esta greve, ou melhor, estes tumultos, Dulce, são fruto de algum tipo de organização ou é uma situação um pouco mais improvisada, resultado dos tempos, é uma coincidência no tempo?
São as duas coisas. Começam por ser organizados e depois descontrolam-se, como se viu esta semana. Eu creio que é um pouco imprevisível saber o que acontece, porque no sábado, por exemplo, houve um protesto contra a subida do custo de vida, do gasóleo e dos transportes, mas também pela libertação do ativista Osvaldo Carrolo, e foi organizado pela sociedade civil e não se verificou nada disto.
E a grande pergunta, Dulce, que vamos sempre fazendo nestas situações é se isto pode ter alguma consequência política ou não em Angola.
A ver vamos. Ainda estamos longe das próximas eleições gerais, previstas para 2027. Não se sabe quando haverá eleições autárquicas. Tem havido pressão para ocorrerem em 2025, as primeiras em Angola.
Que nunca houve.
Mas parece-me completamente irreal. Ainda há pouco, antes de viajar para Portugal, na semana passada, João Lourenço dizia que o processo estava empancado na Assembleia Nacional e não me pareceu que houvesse ali muita vontade de o MPLA, de que ele é líder e que é o partido no poder e que está em maioria na Assembleia Nacional, estivesse a mover-se rapidamente para desbloquear esta questão. Consequências políticas. O principal líder da oposição, Adalberto Costa Júnior, foi muito equilibrado na segunda-feira ao reagir aos protestos e às pilhagens, que ele condenou. O Bloco Democrático, que se colocou ao lado dos taxistas também. Mas curiosamente, esta terça-feira, um candidato que se autopropôs às eleições presidenciais, Higino Carneiro, que é um dos homens fortes do anterior presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, já não me pareceu tão prudente. Ele deu muita força aos jovens que se manifestam nas ruas. É verdade que referiu que devem ocorrer com respeito ao próximo, às normas de convivência, mas não condenou as pilhagens, os saques, o vandalismo, de uma maneira muito clara. E curiosamente, se me permites, Isabel dos Santos, que de vez em quando aparece com alguma pretensão, ou alguns dizem que ela tem essa pretensão à Presidência da República, não perdeu tempo também na segunda-feira ao publicar um vídeo do caos. E que vídeo era esse?
Exato.
Era um grupo de jovens a incendiar um cartaz de João Lourenço.
Obrigado, Dulce.
Obrigada eu.
Dulce Neto é editora-executiva do Observador e acompanha a atualidade angolana. Ficam ainda alguns destaques para esta quarta-feira. Em Kiev, na Ucrânia, há manifestação pela reposição da independência das agências anticorrupção. Volodymyr Zelensky retirou autonomia em nome da defesa contra a influência russa a estas agências, o que levou milhares de ucranianos à rua em protesto contra o presidente. Quando venceu as eleições, Zelensky prometia atacar a corrupção na Ucrânia. Por cá, às 20h30, reúne-se o Conselho Nacional do CDS, em Lisboa, para discutir e aprovar acordos de coligação para as autárquicas. E no Mercado do Bolhão, no Porto, há uma maratona de piano, Piano Sem Parar. Isto para dar as boas-vindas ao Piano Fest, que começa no dia 1 e se prolonga até dia 12 de agosto no Porto. E nesta quarta-feira assinala-se o Dia Internacional da Amizade ou o Dia Internacional do Amigo. Não confundir com o Dia dos Amigos nos Açores. Este é um dia internacional e é sempre bom celebrar os amigos. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.