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Esta é a história do dia da Rádio Observador: nada como um rei para acalmar um presidente.
"The bond of kinship and identity between America and the United Kingdom is priceless and eternal."
Esta é uma daquelas frases que envelhecem mal. Foi dita por Donald Trump há apenas sete meses. Juras de amor eterno declaradas no sumptuoso banquete oficial oferecido pelo rei Carlos III ao único presidente dos Estados Unidos que teve direito a duas visitas de Estado à Grã-Bretanha. Em apenas sete meses, o amor eterno deu lugar a uma zanga feia e à vista de todos, quando Trump começa a guerra com o Irão e Londres manda dizer, pela voz do primeiro-ministro, que não se vai meter nisso. This is not our war, and we are not going to be dragged into it.
You know, unfortunately, Keir is not Winston Churchill.
É neste contexto que o rei Carlos III e a rainha Camila chegam a Washington para uma visita de Estado de quatro dias. O calendário parece estranho, mas eu vou conversar com o professor universitário Marcos Farias Ferreira, especialista em política internacional, para perceber por que é exatamente nesta altura que acaba por fazer sentido a Grã-Bretanha mandar um rei para apaziguar um presidente diferente dos outros. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 28 de abril. Senhor professor, bem-vindo.
Muito obrigado.
Vamos começar por esta questão do calendário, porque para quem está a seguir política internacional talvez faça alguma confusão, e imagino que para os britânicos ainda faça mais quando as relações entre o Reino Unido e os Estados Unidos não estão propriamente na sua melhor fase, quando temos uma guerra no Irão a decorrer, quando ainda por cima, ainda agora houve um tiroteio que ameaçou, de certa forma, o próprio presidente dos Estados Unidos. Pode haver muita gente confusa, mas a verdade é que este calendário não é propriamente inocente e nem é desfavorável ao Reino Unido, pois não?
Em primeiro lugar, é preciso sublinhar que as visitas de Estado como esta são preparadas com muito tempo de antecedência.
Claro.
É o tipo de visita mais importante que um chefe de Estado pode realizar a um país, portanto, no sentido de fortalecer as relações bilaterais. E este tipo de viagem é preparada com muito tempo de antecedência, como não poderia deixar de ser, não só pelas naturais questões de segurança, que é preciso salvaguardar no país que recebe o seu anfitrião, mas também porque as relações bilaterais são programadas com alguma antecedência. O que acontece é que esta visita oficial do rei Carlos III acaba por cair no meio de uma conjuntura especialmente desafiante, eu diria assim. Se é mais favorável ou desfavorável, eu julgo que isso depois cabe aos dirigentes políticos retirar partido ou remendar problemas que entretanto foram aparecendo. Mas é verdade que o contexto desta visita já era, antes das últimas semanas, o problema que se tem aprofundado da necessidade de remendar a relação especial entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Eu diria que este é talvez um elemento central da política externa do Reino Unido, é a sua relação especial com os Estados Unidos. E este é um momento especialmente importante, não só para o governo, mas para o chefe de Estado, para o monarca, sublinhar isso e reforçar isso através da sua relação pessoal especial com Trump. Essa relação especial dos Estados Unidos com o Reino Unido acontece também no ano da celebração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos. Nada disto é inocente, obviamente, porque são momentos fundamentais e aproveitados para reforçar a relação bilateral, sobretudo do Reino Unido com os Estados Unidos, porque depois do Brexit, a política externa do Reino Unido tem tido necessidade de lançar uma série de pontes bilaterais com outros Estados para substituir aquilo que era a sua inserção internacional na União Europeia e, portanto, para encontrar alternativas não só comerciais, mas também diplomáticas a essa relação que antes era privilegiada.
Então o que diria-
O problema do Global Britain tem nos Estados Unidos um ponto fundamental.
Então o que diria que é o país que mais beneficiaria de um reatar, de um normalizar das relações? É os Estados Unidos relativamente ao Reino Unido ou o contrário?
Ambos têm a ganhar, certamente, porque a relação privilegiada é biunívoca. Não tem sido só positiva para o Reino Unido, tem sido positiva para os Estados Unidos. E, portanto, quando nósColocamos a discussão neste ponto, já estamos a assumir que tem havido problemas nessa relação. Nas últimas semanas isso tem sido óbvio, a hesitação do primeiro-ministro britânico em aceitar aquilo que tem sido a norma nas relações entre os Estados Unidos e o Reino Unido, que é o Reino Unido seguir o conjunto de decisões internacionais que são decididas na Casa Branca. E aqui a questão da guerra do Iraque é inevitável. E a comparação entre a guerra do Iraque e a guerra do Irão. Em 2003, Tony Blair seguiu cegamente a decisão de George W. Bush. É claro que podemos discutir se havia uma fundamentação diferente por parte de Tony Blair. Passados estes anos não vale a pena entrar muito nisso, até porque houve vários julgamentos políticos judiciais no Reino Unido que desfizeram essa legitimação por parte de Tony Blair. Mas é verdade que esta relação privilegiada tem obrigado o Reino Unido a seguir guerras ilegais. Esta guerra do Irão é uma guerra absolutamente ilegal e a hesitação do primeiro-ministro Keir Starmer revela essas dificuldades em gerir aquilo que cada vez mais, e sobretudo na presidência de Trump, é a exposição nacional e internacional do governo britânico a decisões tomadas fora, mas que não têm fundamentação legal. É claro que Keir Starmer tem procurado, isso faz parte da hesitação, aceder a determinadas outras reivindicações de Trump, por exemplo, em relação às Ilhas Chagos, à base de Diego Garcia, mas é verdade que ele colocou algumas limitações à utilização de bases britânicas para a ofensiva no Irão.
E Trump não gostou.
Trump não gostou porque Trump vê as alianças não em termos de relação entre parceiros em plano de igualdade. Trump vê relações bilaterais, alianças, como instrumentos de projeção do interesse dos Estados Unidos, da força dos Estados Unidos no mundo.
Daqui a pouco voltamos à conversa com o professor Marcos Farias Ferreira para perceber, por exemplo, por que a monarquia pode ter aqui um papel importante. E agora vamos conversar sobre como é que um rei pode ter aqui um papel nisso tudo. Ou seja, temos um presidente dos Estados Unidos que está de candeias às avessas com o primeiro-ministro, mas o Reino Unido depois tem esta capacidade rara nos outros países, que é poder ter uma monarquia que ao mesmo tempo faz um jogo completamente diferente. E portanto, mandar o rei Carlos III para apaziguar Donald Trump pode ser uma técnica que funciona.
Eu talvez relativizasse um pouco essa questão. É claro que é importante, eu já vou dizer o que acho sobre isso, mas a política externa é do governo britânico. Carlos III não vai fazer uma diplomacia paralela. Carlos III vai pôr em prática a política externa decidida pelo governo de Starmer. O que acontece neste caso específico, ou a variável que é interessante analisar, é o fascínio de Trump pela monarquia britânica. Não é especialmente a figura de Carlos III, pode haver também alguma empatia de Trump por Carlos III, mas é a natureza da monarquia britânica. Pelo menos é aquilo que Trump tem dito. Trump tem se mostrado fascinado pela monarquia britânica, pela instituição. Isso também é óbvio na visita de Estado que Trump realizou, a última visita de Estado. E portanto, para Trump é uma questão de prestígio a relação direta com os monarcas britânicos. E é aqui que a figura de Carlos III pode ser importante no remendar destas dificuldades. E portanto, em todo o processo de decisão de Trump, que nós sabemos que é errático e que não se rege por padrões a que estamos habituados, esta relação pessoal pode fazer relativizar as dificuldades na relação com o primeiro-ministro. Aliás, vários governos têm agido neste suposto de que é possível ter diferentes tipos de intervenção junto de Trump. E portanto, poderem ter uma decisão mais aberta, por exemplo, a nível europeu, o caso de Itália ser mais vocais ultimamente na rejeição de algumas propostas de Trump, mas depois nos bastidores serem capazes de darem a volta ou de recomporem essas relações que foram danificadas anteriormente. E aqui é que, de facto, esta visita de Estado pode, mais do que a visita em si, mas o contacto direto com o rei, pode ser uma ocasião para retirar a Trump ou para conseguir de Trump, melhor dizendo, uma boa vontade, sobretudo que se reflita ou que se materialize depois em diferentes tipos de acordos comerciais, preferências em relação a tarifas, amenizar o espírito de Trump fazendo-lhe recordar precisamente a tal relação privilegiada e como os Estados Unidos têm ou queOs Estados Unidos têm a ganhar, e Trump pessoalmente, porque tem interesses pessoais no Reino Unido, dessa relação facilitada com o Reino Unido. E portanto, mostrar que é uma relação que é útil para ambos. Que é aquilo que muitas vezes publicamente Trump tem mostrado que não compreende, porque se queixa muito de que os seus parceiros aliados abusam dessa relação que conseguiram com os Estados Unidos.
E em termos de assuntos proibidos, há algum que esteja mais ou menos fora da mesa das conversas, nem que seja as conversas públicas? Imagino que dossiês como o dossiê Epstein, que queima os dois lados, seria uma dessas linhas vermelhas.
Sim, eu julgo que isso será, pelo menos publicamente, uma linha vermelha, se bem que há notícias de que a Rainha Camilla pode receber, tem sido muito pressionada para receber vítimas da trama de Epstein, provavelmente não o fará até com a desculpa de não interferir em processos judiciais, mas também pode receber vítimas de outros maus tratos contra mulheres. Pode haver algum indicador, porque isso é pedido por parte de alguns congressistas, mas certamente que a referência direta às vítimas da trama de Epstein estará ausente publicamente.
E sendo uma visita onde Trump está incluído, é sempre imprevisível o resultado do que pode sair daqui, mas já ficamos aqui com umas pistas valiosas sobre o que esperar desta visita. Senhor professor, muito obrigado.
Obrigado eu, adeus.
Eu conversei com o professor do ISCSP da Universidade de Lisboa, Marcos Farias Ferreira, sobre esta visita de Estado do Rei Carlos III aos Estados Unidos. Uma visita com uma ironia histórica evidente. Oficialmente serve para celebrar os 250 anos da independência dos Estados Unidos. Ora, 250 anos depois da América ter expulsado violentamente a coroa britânica, Londres manda um rei atravessar o oceano para amaciar um presidente. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.